quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Enrustidos e assumidos

A palavra gera diferenciação que pode gerar a discriminação, fazendo a manutenção de preconceitos e levando à exclusão

Há muitas edições não acompanho os conflitos existenciais superficiais - mais conhecidos como baixarias - do Big Brother Brasil. Com a 10ª edição não é diferente. Abri uma exceção, para essas letras crônicas e resolvi vasculhar o globo.com e outros veículos.

Na repercussão dos conflitos existenciais superficiais pela mídia - seja a de entretenimento seja a de jornalismo de variedades - alguns participantes são carimbados como gays assumidos. O beijo de Dicesar e Sérgio deve ter rendido vários terços e sessões de descarrego entre católicos e evangélicos fervorosos, mas o rótulo é o ponto central.

Vários veículos de comunicação quando citaram o "beijo gay" do BBB já começaram rotulando. Alguém pode dizer que beijo hetero é entre duas pessoas de sexos diferentes; e beijo gay é entre duas pessoas do mesmo sexo. Então por que a mídia não classificou como beijo hetero o beijo de Eliéser e Cláudia, e de Michel e Tessália? Desta forma, o "beijo gay" ganha ares de nova modalidade sexual, ou seja, para muitos uma aberração.

Oras... alguém pode dizer que a especificação é para reforçar a informação. Jornalisticamente isso não tem valor algum neste contexto. Afinal quando dois homens ou duas mulheres se beijam está explícito que se trata de uma situação gay. Diriam os politicamente corretos, uma situação homoafetiva. Então a quem serve a especificação no trato da informação? Por exemplo, na biografia, a BBB Angélica é classificada como "homossexual assumida". Sérgio é definido como "gay assumido, baladeiro, alternativo".

Sobre Dicesar, o maquiador que dá vida à drag Dimmy Kieer, a Globo escreveu. "Apesar do perfil pouco ortodoxo, Dicesar é bastante ligado à família e tem a mãe como melhor amiga." Ué, biba não pode ser caseira e gostar dos pais, dos irmãos, ir à igreja, passear no parque, gastar em supermercado, ou seja, fazer coisas normais da vida?

Tudo bem... os machos da casa também são ressaltados, mas sem rótulos de heteros assumidos. E precisa? A Globo escreveu que, "quando criança, Michel colecionava revistas eróticas. 'Sempre gostei de mulher', explica." Afinal "a casa mais vigiada do Brasil" é centrada em complexas relações entre bundas, xoxotas, peitos e rolas. Desculpem-me pelo vocabulário, os mais ortodoxos.

Tenho uma teoria (quanta pretensão a minha!) sobre a especificação informativa, consciente ou inconscientemente feita por redatores. Ela gera a diferenciação que pode gerar a discriminação. Esse rótulo faz a manutenção do preconceito que, por sua vez, leva à exclusão. Afinal, ser diferente gera incômodos. Lembro que minha avó sempre dizia "__As palavras têm poder". E, neste caso, poder de diferenciar, de discriminar, de criar estereótipos, de enviar para guetos, de excluir.

O jornalismo de modo geral é campeão em fazer isso. Muitos profissionais, quando informam que uma mãe jogou o recém-nascido fora, transformam-na na malvada. Não interessa se está doente de depressão pós-parto ou outra patologia qualquer. O filho que colocou o pai no asilo é um ingrato, mesmo que este tenha infernizado a família inteira durante a vida. A adolescente que fez aborto é uma inconsequente porque não se preveniu. A informação - nem defendo que seja imparcial porque imparcialidade não existe - precisa de contexto para ser socialmente responsável.

Esse mesmo questionamento se aplica a outras situações como a adoção. A expressão filho adotivo é um rótulo e gera uma diferenciação com os filhos não adotivos. Ou alguém já leu, por exemplo, que a Sacha é "filha biológica" da Xuxa? Ou que Antônio Pitanga é "pai biológico" da Camila Pitanga?

Oras... o termo adotivo - fora do contexto da adoção - é rotularmente preconceituoso. Pior é quando o "filho adotivo" mata os pais. Aí a adoção vira caso de polícia. Agora quando o filho mata o "próprio pai", o termo biológico não aparece e o "próprio" ganha ares de legitimidade como se o pai não-biológico não exercesse legitimamente sua paternidade. Esse é um cenário muito sutil e, ao mesmo tempo, perverso.

As intenções escondidas das palavras ainda podem ser verificadas com o termo negro/negra. Muitos a usam de forma pejorativa, não se dão conta e, portanto, não se importam. Afinal é uma questão cultural mesmo. O político de situação alega que a oposição quer denegri-lo. Uma das definições de Michaelis para denegrir é " 1.Tornar(-se) negro ou escuro." Não seria melhor dizer e escrever que a oposição quer prejudicá-lo?

A ofensa a toda uma raça ainda está presente em termos da nossa língua e usados cotidianamente sem preocupação, como magia-negra - magia-branca é coisa do bem?; lista-negra - lista-branca é listagem de casamento?; passado-negro - é uma história cheia de problemas e conflitos? E passado-branco o que seria?

A língua é viva, dinâmica e as palavras assumem significados diferentes conforme sua época. Tudo bem, ninguém fala nem escreve hoje como se falava no Brasil em 1900, por exemplo. Essas questões passam despercebidas entre estudiosos, imagine então em classes populares. Nem dá para cobrar do cidadão que reflita sobre o uso da palavra. O mesmo não se pode dizer dos profissionais da comunicação que têm muita responsabilidade (e influência) sobre o que produz.

7 comentários:

artigosemvalor disse...

é um assunto para muito tempo de discussão, mas é inegável o papel do comunicador em banir certos tipos de palavras e expressões. agora o jargão popular na boca do povo é difícil tirar. já vi muito 'negro' falando que a coisa 'tá preta'.

Reinaldo C. Zanardi disse...

Concordo com vc Guilherme. Eu também já vi. Assim como muita biba adora escrachar a outra de viado, mas quando sai do "gueto" a purpurina ferve...

Isso é mesmo cultural e está enraizado. Eu mesmo me pego falando essas expressões, mas se estamos atentos podemos pelo menos diminuir a frequência e, quem sabe, mudar o jeito de falar. Tarefa que não é fácil.

Prof.cida disse...

OI, Rei,gostei da sua crônica, muito perspicaz como sempre...Venha conhecer o meu blog tbm- http//dialogoeducacao.blogspot.com

Prof. Cida (do Caic)

Bjão!!!

Lorena disse...

Rei, gostei tanto que até coloquei no meu blog.

Beijos

Ana Carla Barbosa disse...

''Fessor''...Algumas leituras: ''O voto da probreza, a pobreza do voto'' (não lembro a autora)...E quanto à língua, fala e demais conexões: Marcos Bagno. O cara é dos nossos, rs. Aquele abraço!

Historicizando disse...

Parabéns pelo Blog, muito bonito e inteligente.
Visitarei com mais frequencia.
Abraços.

CONHECIMENTOS SOCIAIS disse...

De esporte tem aquelas manchetes que distorcem o que foi o jogo e acabam não dando merito ao ganhador, exemplos: Corinthians perde por 1x0 pro paulista e não Paulista ganha por 1x0 contra o Corinthians; Corinthians joga mal e perde pro paulista e não Paulista se supera e ganha do Corinthians; Paulista aproveita falaha do Corinthians e vence o que poderia ser outra manchete: Paulista joga bem e faz o resultado positivo.