sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Discussão de butiquim

A Creide me contou outro dia que estava num butiquim quando pessoas ao lado da mesa dela começaram uma discussão interessante. Uns falavam. Outros falavam por cima. Outros ouviam. Outros não acreditavam no que ouviam. E a conversa não teve conclusão alguma.

Filosofia de butiquim à parte, o fato é que depois de umas, duas, três, quatro e mais, mais e mais doses parece que o raciocício flui melhor. A língua não encontra barreira e se tiver platéia melhor ainda. O ponto central do debate etílico era o tal do livre arbítrio. Uns defendem. Outros atacam. Outros nem sabem do que se trata.

Para entender mais sobre o assunto e tomar uma posição, a Creide disse que foi buscar informações. Na internet, ela encontrou um trabalho de 1999, de autoria de Carlos Alberto de França Rebouças Junior, para o curso de Filosofia do Instituto Teológico-Pastoral do Ceará, em Fortaleza. O trabalho "A questão do mal, segundo Santo Agostinho, no livro i da obra de Libero Arbitrio" traz reflexões pertinentes.

Segundo Rebouças Junior, na obra, "Agostinho trata da existência do mal, abordando sua essência e origem. O Bispo de Hipona trata, também, de provar a existência de Deus, bem como de expor a relação existente entre a vontade do homem com o mal e do pecado e da presciência de Deus." Claro, o texto é grande, altamente reflexivo e difícil de ser resumido em poucas palavras. Por isso, quem tiver interesse de ler o artigo inteiro pode clicar aqui.

Em um trecho, o autor afirma que "é importante deixarmos claro que há uma distinção, ainda que sutil, entre liberdade e vontade, ou livre arbítrio, pois para Agostinho, vontade e livre arbítrio são a mesma coisa e fazem parte da essência do homem. Comparando a liberdade com o livre arbítrio, a diferença é que o livre arbítrio seria a capacidade de escolha que está presente no homem e a liberdade como a eficácia que essa escolha alcança ao aderir à verdade. Assim, a liberdade seria a capacidade que o homem tem de escolher o bem e evitar o mal. Consequentemente, a liberdade do homem se realiza plenamente quando este adere, por livre vontade, ao bem, afastando-se do mal(...)"

Depois da leitura, a Creide - que nem pensa em questionar Santo Agostinho, aliás não tem formação filosófica para tanto - se diz incomodada com alguns conceitos presentes no tema. Por liberdade, Michaelis define como o "estado de pessoa livre e isenta de restrição externa ou coação física ou moral".

No entanto, como defende Santo Agostinho, liberdade é "a capacidade que o homem tem de escolher o bem e evitar o mal". Mas associar a liberdade à capacidade humana de escolher algo (o bem) e necessariamente excluir algo (o mal) não esconde um tipo de coerção moral? Claro ninguém quer ser mal por natureza, mas ele permeia os mundos e submundos internos, aflorando quando menos se espera.

O livre arbítrio como "a capacidade de escolha que está presente no homem" é um importante direcionador para as decisões humanas. Por isso, há tomadas de decisões erradas e as conseqüências, muitas vezes, desastrosas.

E é neste ponto que a Creide fica intrigada. Se livre, como conceitua Michaelis, é aquele "que goza de liberdade pessoal, que não é sujeito a escravidão ou servidão" e arbítrio "a resolução que depende só da vontade" por que sofrer as consequências das decisões tomadas? Exatamente porque as consequências podem afetar (prejudicando ou não) os que estão ao redor daquele que toma a decisão.

Assim, a Creide - abusada e ousadamente - propõe um novo termo em vez de livre arbítrio. Para ela, o mais adequado seria arbítrio condicional, já que - conforme Michaelis - condicional "envolve condição, ou exprime circunstância de condição". Creide lembra que para cada ação há uma reação e as circunstâncias envolvidas mostram que o livre arbítrio não é tão livre quanto o nome diz.

Um comentário:

Diogo Mendes disse...

Caramba,Reinaldo.Já debati com os amigos “ livre arbítrio ” no butiquim,mesmo antes de ler a sua nova postagem. [ risos ]
Já imitando / limitando a música “ Mesa de bar / E lugar para tudo que e papo da vida rolar / Do futebol até a danada da tal da inflação [ ... ] ”.
Você é uma aula de crônica,obrigado pelo texto.