sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sem volta


Geraldo é um homem muito mal-humorado. Ele reclama de tudo. Se a comida está quente demais. Se está fria demais. Do silêncio. Do barulho. Dos dois filhos. Da mulher. Da sogra. Do pai. Da mãe. Do cachorro.

Celeste tenta fazer de tudo para agradar o marido, criado no sistema antigo. A relação familiar é construída sob pouco afeto, muitas regras e disciplina excessiva.

No trabalho, Geraldo é outra pessoa. Se mostra compreensível, generoso, prestativo. Sempre tem uma solução para os problemas do trabalho. É o que os atuais chefes de RH chamam de funcionário proativo.

Em confraternizações de finais de ano, os filhos cansam de ouvir dos colegas de trabalho do pai o quanto ele é bacana. Acham até que o pai tem dupla personalidade. Conformada, a mãe tem certeza que o verdadeiro Geraldo é que o se apresenta em casa. Todos os dias.

Geraldo não consegue elogiar a esposa e os filhos. Aliás, a repreensão é mais forte. A dedicada Celeste não recebe nem um obrigado por manter a casa em ordem, as refeições em dia, a roupa lavada e passada.


Os filhos? Estudantes não fazem mais que a obrigação de estudar. Afinal é ele quem paga a conta no final do mês. E quer resultados. Sem acompanhar o desempenho escolar, ele cobra os boletins e ai! dos moleques se tiverem uma nota vermelha.


Como faz tempo que a família não viaja, os quatro combinaram um final de semana numa pousada. Os filhos ansiosos contam as horas da semana para o sábado chegar. Celeste arruma tudo e a família pega a estrada.
O fim de semana transcorre tranquilamente. Geraldo parece menos
mal-humorado e os filhos se divertem com as opções da pousada. Em muito tempo, Celeste não precisa se preocupar com o cardápio e menos ainda com a louça depois do almoço.

Na volta do passeio, o clima no carro parece mais leve. Geraldo está mais relaxado, exibe no canto da boca um sorriso de satisfação. Esconde-o. Admite para si mesmo que o final de semana foi prazeroso, mas não consegue dividir o sentimento com Celeste e os filhos.

Numa curva, um caminhão invade a pista do carro de Geraldo. Vem de frente. Geraldo não vê mais nada. Acorda dois dias depois num hospital. Sozinho. Ele demora para entender o que está acontecendo. Relembra-se da satisfação da viagem. Da curva. Do caminhão. Da escuridão. Chama o pessoal da enfermagem. Aflito, pergunta por Celeste e pelos filhos.

O silêncio aumenta o vazio do quarto. As paredes do hospital parecem ainda mais brancas, mais frias, mais úmidas. Com o coração apertado, Geraldo só consegue se lembrar de uma frase de Celeste dita numa discussão tempos atrás e que, para variar, ele não dera importância alguma.


__Nunca pergunte se você faz falta. Ausente-se e veja o que acontece.

Um comentário:

guilhermepalma disse...

é a realidade. dura e fria. e só vem a tona de uma maneira trágica. o pior é ver o quanto em alguns momentos nos parecemos com seu Geraldo
muito bom Reinaldo