domingo, 23 de maio de 2010

Receita de polêmica

Ingredientes
Um padre
Dois policiais
Duas equipes de TV
Comprimidos antidepressivos e vinho
Abordagem policial
Sensacionalismo

Modo de preparo

Misture o padre, os comprimidos antidepressivos e o vinho. O sacerdote acabará vomitado e sem calças na avenida de uma cidade pequena. Junte os policiais com a conhecida abordagem policial, mais as equipes de TV, com sensacionalismo. Leve ao noticiário algumas vezes por dia. A polêmica está pronta.


Sobre padres, policiais e jornalistas

O episódio da prisão do padre Silvio Andrei em Ibiporã, recentemente, acusado de dirigir embriagado, seminu e de ter feito propostas obscenas a um adolescente mostra o quão espetacularizada está a sociedade atual. Não interessam os fatos, interessam os que eles representam. Não interessa a verdade, interessa a versão sobre a verdade. Não interessa a apuração, interessa a condenação.

Não atiraram somente a primeira pedra.

Atiraram também a segunda, a terceira, a quarta.
Há quem esteja atirando pedras até agora, sentado sobre o próprio rabo.

Que padre não é santo e também é pecador não é novidade alguma. Que a polícia abusa em suas abordagens e humilha não é novidade alguma. Que a imprensa reproduz as declarações que ouve, sem checar, também não é novidade alguma. Então por que esse episódio causou comoção, revolta e protesto de todos os lados? Por vários motivos.

Padre Silvio Andrei é uma autoridade e uma celebridade nacional da Igreja Católica.

Porque a Igreja Católica está no centro de muitas acusações de pedofilia em todo o mundo.

Porque a polícia geralmente protege a imagem de ricos e de autoridades não expondo-a como expõe pobres da periferia quando os apresenta à imprensa.

Porque a imprensa aposta cada vez mais no "showrnalismo", termo de Arbex Junior, que no jornalismo sério e responsável.

E como ficam os fiéis?

Devem desconfiar da igreja.
Devem desconfiar da polícia.
Devem desconfiar da imprensa.

Devem rezar pela igreja.
Devem rezar pela polícia.
Devem rezar pela imprensa.

Amém!

domingo, 16 de maio de 2010

Sobre universidades e Bolsa Família


Leio na Folha de Londrina de hoje (16/05), entrevista em que um professor universitário discute os efeitos dos programas de transferência de renda. Ele afirma - pelo menos no que foi editado pela repórter e editor do jornal - que o "Bolsa Família cria cultura do não trabalho". Não cito o nome do professor nem da universidade porque interessam apenas as ideias e conceitos apresentados. Não o conheço e nada aqui será discutido do ponto de vista pessoal. Essa observação é pertinente por causa da repercussão que costumam tomar as opiniões difundidas via web. Deixo o link da matéria, mas é preciso ser cadastrado para acessar o conteúdo.

E um viés, mas não discutido no texto, é exatamente o valor da mão de obra no mercado formal. Valor muito baixo, associado às condições degradantes do trabalho. O trabalhador vale pouca coisa. Se os benefícios federais pagam mais que o mercado formal, alguma coisa está errada com os salários e o próprio trabalho formal. Mas - como diria a Creide - uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Então tá!

"Na minha opinião. Um modelo que funcionaria é a pessoa receber R$ 600 do Bolsa Família, prestando serviço para a Prefeitura quatro dias por semana. Dá essa concessão por um ano e deixa fora por seis meses. É uma forma de não criar dependência e de estimular a pessoa a procurar emprego. Assim o filho vê o pai  e mãe indo trabalhar e não parados em casa. (...) as prefeituras têm que roçar datas, limpar bueiros. Normalmente esses serviços são terceirizados e têm custo."


Engraçado, muitos filhos ricos de pais ricos não trabalham, vêem o pai se lascando de trabalhar e nem por isso querem trabalhar. E se puderem viver uma vida de playboy com o pai pagando a conta, melhor ainda. Tudo bem, isso é simplista, eu sei, é só para ilustrar que no senso comum, pobre que não trabalha é vagabundo e rico que não trabalha é... sortudo. Então tá!

De qualquer forma, a situação acima defendida pelo criaria uma nova categoria no funcionalismo público. Tanto que o professor afirma que seria necessário modificar a Constituição. O conceito embutido na proposta, confesso, é interessante, mas tem inicialmente um viés de punição para os mais pobres. Você vai receber isso, mas tem que fazer isso.

Pena que essa condição não é defendida em larga escala para os segmentos que vivem de usufruir dos cofres públicos. Quando é a elite, tudo bem. Querem dois exemplos? O primeiro são os estudantes de universidades públicas que estudam "de graça", entre aspas porque pagam imposto e devem ter acesso, mas esse acesso na realidade brasileira é facilitado para quem paga escola particular no ensino fundamental e médio e cursam uma universidade pública. E ao pobre que estudou o ensino fundamental e médio na escola pública, resta-llhe o ensino privado. Por isso, viva o Prouni e as cotas públicas.

Então por que não propor aos estudantes de universidades públicas que ajudem as prefeituras a desentupir bueiros, roçar datas, pintar meio-fio, atender em postos de saúde, escolas públicas e outros serviços essenciais para a manutenção das cidades? Essa não seria uma forma de retribuir o que recebem? Confesso que tenho mais perguntas que respostas.

O segundo exemplo vem de outra categoria do mesmo meio, a universidade. Muitos professores universitários pregam o fim das modalidades de transferência de renda, mas idolatram uma bolsa pesquisa, mantida com dinheiro público, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, agência do Ministério da Ciência e Tecnologia. Podem argumentar que os beneficiários do Bolsa Família são um peso, que não contribuem em nada para o desenvolvimento social e que as universidades devolvem o investimento em conhecimento. Isso não é totalmente mentira, mas também não é totalmente verdade.

Bolsa Família para comer não pode, mas pode bolsa para pesquisar temas que nunca servirão para nada? Isso me lembra de uma coisa que um amigo meu, o Salvador Francisco, fala quando cita o Requião e as universidades. __O Requião disse que não patrocina pesquisa universitária para investigar a importância do galho seco na vida atlética dos macacos. Se é verdade ou não - não sei - mas ilustra perfeitamente o cenário em questão.

Esse questionamento é ilustrativo e não representa a totalidade das pesquisas realizadas nas universidades, que são necessárias e trazem muito desenvolvimento. Apenas estereotipei a situação para mostrar que há muitos trabalhos científicos que prestam para nada, apenas para insuflar o ego de seus autores. Assim como muitos beneficiários do Bolsa Família usam o programa para o sustento eterno.

A título de ilustração, a tabela do CNPq mostra que os valores de bolsa pesquisa podem chegar a R$ 5.200,00 mensais individuais, no Brasil; e muitos milhares de reais no exterior. Para ver a relação dos valores clique aqui. E a imprensa conservadora brasileira não faz campanha sistemática contra isso, como faz com o Bolsa Família. Repito, a pesquisa científica é necessária para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do país, mas muitos podem se perguntar por que não colocar autores de muitas pesquisas para limpar bueiro e roçar datas junto com beneficiários do Bolsa Família?

sábado, 15 de maio de 2010

Uns mais, outros menos capitais

Cresci ouvindo que existem pecados e que todos são capitais.

Na prática, uns são mais capitais que o outro.

Ninguém gosta de admitir que tem inveja. É feio!

Muitos se orgulham e enchem o peito para dizer que tem orgulho. Ter orgulho de ter orgulho também é pecado.

Em época de putaria, luxúria é um artigo indispensável. Nos dias atuais, esse pecado tomou proporções cibernéticas. A programação da TV e a internet estimulam a ereção.

Na moda, as cirurgias de redução de estômago são um soco na boca do estômago, na boca e no estômago. Coitada! A gula nunca mais será a mesma.

Ser irado é só válido para lutar pelos próprios direitos, lutar contra as injustiças, mas sentir ódio só porque nasce no coração sem a própria vontade também é feio.

Muitos monges são carecas porque abrem mão da beleza e dão uma tapa na cara da vaidade. Essa senhora inzibida que dita normas e padrões estéticos. Ai! daqueles que não se encaixarem no modelito.

A avareza é um sinal de apego ao dinheiro, mas juro que não consigo deixar de ser avarento quando o assunto é imposto, principalmente, o da renda. Abril. Declaração. Calafrios. A Receita combate sem dó nem piedade nós pobres avarentos.

E como terminar esse texto?

Lição de moral?

Reticências?

Frases de efeito?

Que nada... estou com uma preguiça que vou parar por aqui mesmo.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Inquietudes (24) do Rei

O problema da sociedade não é o estabelecimento de regras porque elas são necessárias. As regras ajudam a estabelecer normas e padrões de funcionamento. O problema não é a burrice das regras; é a burrice de quem pensa as regras. E é possível perceber isso quando as exceções mostram a fragilidade das regras criadas. 

sábado, 1 de maio de 2010

Punhetações intelectuais


Sempre ouvi coisas diferentes sobre o trabalho. Ele dignifica. Ele oprime. Ele engrandece. Ele reprime. Tudo bem, concordo que é muito melhor ser empregado que desempregado, mas do ponto de vista ideológico, valem algumas reflexões, muitos devaneios e punhetações intelectuais. Afinal, o conceito de trabalho depende de quem fala. A palavra é carregada de sentido e, por isso, quem abre a boca - oral e escritamente - cria o significado que quer.

Um conceito muito interessante sobre o trabalho - que os senhores de engenho travestidos de modernos empresários e sociólogos da direita naturalmente vão repelir - vem da Europa. Ah! esse velho continente que sofre de incontinência urinária...

"A origem etimológica da palavra "trabalho" vem do radical romano labor, que é equivalente à palavra ponos, ou seja, pena." Não é à tona que muitos criminosos são condenados a trabalho forçado e que um trabalhador em rotina estafante, com baixa remuneração, pode ser considerado um condenado...

"(...) a palavra "operário" em sua origem está ligada ao sentido de restrição. Seu princípio revela estar em sintonia com a palavra "escravidão", pois em francês ouvier, opera, opus, operarum. Sendo que a palavra operarum era uma designação para se referir aos escravos." As citações são de Moacir Jose Delfino, "História do trabalho", para o Observatório Social.

Trabalho sempre esteve ligado às relações de classe e correlação de forças entre os envolvidos. Não é à toa que sindicato aliado a patrões é considerado pelego. .. "Pele de carneiro com a lã, usada sobre a montaria, para amaciar o assento". Bendito seja Michaelis e seus dicionários on line. Ou seja, sindicato pelego é uma espécie de travesseiro macio para aveludar a bunda dos patrões.

Quem emprega tenta manter cativos os seus empregados, ops.... colaboradores, no mais politicamente correto. Colaborador uma ova! Uma pinóa! Mostro o dedo do meio da mão direita. É empregado mesmo. Afinal, de acordo com Michaelis colaborador é "aquele que colabora ou ajuda outro em suas funções". Convenhamos... se é alguém que ajuda, ajuda quando quer e pode e não é o caso dos empregados na rotina de trabalho diário. O dito colaborador obedece ordens e não decide o que fazer e quando fazer, então não pode ser considerado um colaborador.

E para encerrar esse debate, Michaelis enterra as pretensões dos politicamente corretos, definindo ainda colaborador como a "pessoa que, sem pertencer ao quadro de funcionários de uma empresa [ou seja, empregados do empregador - grifo do Rei], trabalha para ela habitualmente ou alguma vez." Isso sim é que é colaborador. As assembléias legislativas estão cheias. Os fantasmas aparecem de vez em quando.

Essas punhetações me fazem lembrar de uma letra do Zeca, o Baleiro, que traduz exatamente o elo de amor e ódio - talvez para a maioria mais de ódio - que as relações sociais do trabalho evoca.

"Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
(...)
Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
(...)"


E quem gosta?

E o dia 1º de maio, como o Dia do Trabalho, marca uma data de muitas conquistas dos trabalhadores ao longo da história em todo o mundo. Nesta data, em 1886, uma manifestação em Chicago (EUA) milhares de trabalhadores protestaram contra as condições impostas pelos empregadores: 13 horas diárias de trabalho, um exemplo de trabalho escravo. Que se faça justiça à origem do termo. Muitos confrontos foram registrados e - é claro - muitos trabalhadores foram mortos. Alguém mata seu próprio colaborador?

O primeiro país a definir o 1º de Maio como Dia do Trabalho instituindo-o como feriado nacional foi a França - ah! esses franceses - em 23 de abril de 1919. Outros países seguiram o exemplo. Rússia, 1920; Brasil, 1924. Portugal, 1974. E o melhor de toda essa punhetação é que hoje - o Dia do Trabalho - é comemorado sem trabalho. Viva o ócio, de preferência o criativo, como propõe o sociólogo italiano Domenico De Masi.