sábado, 1 de maio de 2010

Punhetações intelectuais


Sempre ouvi coisas diferentes sobre o trabalho. Ele dignifica. Ele oprime. Ele engrandece. Ele reprime. Tudo bem, concordo que é muito melhor ser empregado que desempregado, mas do ponto de vista ideológico, valem algumas reflexões, muitos devaneios e punhetações intelectuais. Afinal, o conceito de trabalho depende de quem fala. A palavra é carregada de sentido e, por isso, quem abre a boca - oral e escritamente - cria o significado que quer.

Um conceito muito interessante sobre o trabalho - que os senhores de engenho travestidos de modernos empresários e sociólogos da direita naturalmente vão repelir - vem da Europa. Ah! esse velho continente que sofre de incontinência urinária...

"A origem etimológica da palavra "trabalho" vem do radical romano labor, que é equivalente à palavra ponos, ou seja, pena." Não é à tona que muitos criminosos são condenados a trabalho forçado e que um trabalhador em rotina estafante, com baixa remuneração, pode ser considerado um condenado...

"(...) a palavra "operário" em sua origem está ligada ao sentido de restrição. Seu princípio revela estar em sintonia com a palavra "escravidão", pois em francês ouvier, opera, opus, operarum. Sendo que a palavra operarum era uma designação para se referir aos escravos." As citações são de Moacir Jose Delfino, "História do trabalho", para o Observatório Social.

Trabalho sempre esteve ligado às relações de classe e correlação de forças entre os envolvidos. Não é à toa que sindicato aliado a patrões é considerado pelego. .. "Pele de carneiro com a lã, usada sobre a montaria, para amaciar o assento". Bendito seja Michaelis e seus dicionários on line. Ou seja, sindicato pelego é uma espécie de travesseiro macio para aveludar a bunda dos patrões.

Quem emprega tenta manter cativos os seus empregados, ops.... colaboradores, no mais politicamente correto. Colaborador uma ova! Uma pinóa! Mostro o dedo do meio da mão direita. É empregado mesmo. Afinal, de acordo com Michaelis colaborador é "aquele que colabora ou ajuda outro em suas funções". Convenhamos... se é alguém que ajuda, ajuda quando quer e pode e não é o caso dos empregados na rotina de trabalho diário. O dito colaborador obedece ordens e não decide o que fazer e quando fazer, então não pode ser considerado um colaborador.

E para encerrar esse debate, Michaelis enterra as pretensões dos politicamente corretos, definindo ainda colaborador como a "pessoa que, sem pertencer ao quadro de funcionários de uma empresa [ou seja, empregados do empregador - grifo do Rei], trabalha para ela habitualmente ou alguma vez." Isso sim é que é colaborador. As assembléias legislativas estão cheias. Os fantasmas aparecem de vez em quando.

Essas punhetações me fazem lembrar de uma letra do Zeca, o Baleiro, que traduz exatamente o elo de amor e ódio - talvez para a maioria mais de ódio - que as relações sociais do trabalho evoca.

"Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
(...)
Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
(...)"


E quem gosta?

E o dia 1º de maio, como o Dia do Trabalho, marca uma data de muitas conquistas dos trabalhadores ao longo da história em todo o mundo. Nesta data, em 1886, uma manifestação em Chicago (EUA) milhares de trabalhadores protestaram contra as condições impostas pelos empregadores: 13 horas diárias de trabalho, um exemplo de trabalho escravo. Que se faça justiça à origem do termo. Muitos confrontos foram registrados e - é claro - muitos trabalhadores foram mortos. Alguém mata seu próprio colaborador?

O primeiro país a definir o 1º de Maio como Dia do Trabalho instituindo-o como feriado nacional foi a França - ah! esses franceses - em 23 de abril de 1919. Outros países seguiram o exemplo. Rússia, 1920; Brasil, 1924. Portugal, 1974. E o melhor de toda essa punhetação é que hoje - o Dia do Trabalho - é comemorado sem trabalho. Viva o ócio, de preferência o criativo, como propõe o sociólogo italiano Domenico De Masi.

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