domingo, 16 de maio de 2010

Sobre universidades e Bolsa Família


Leio na Folha de Londrina de hoje (16/05), entrevista em que um professor universitário discute os efeitos dos programas de transferência de renda. Ele afirma - pelo menos no que foi editado pela repórter e editor do jornal - que o "Bolsa Família cria cultura do não trabalho". Não cito o nome do professor nem da universidade porque interessam apenas as ideias e conceitos apresentados. Não o conheço e nada aqui será discutido do ponto de vista pessoal. Essa observação é pertinente por causa da repercussão que costumam tomar as opiniões difundidas via web. Deixo o link da matéria, mas é preciso ser cadastrado para acessar o conteúdo.

E um viés, mas não discutido no texto, é exatamente o valor da mão de obra no mercado formal. Valor muito baixo, associado às condições degradantes do trabalho. O trabalhador vale pouca coisa. Se os benefícios federais pagam mais que o mercado formal, alguma coisa está errada com os salários e o próprio trabalho formal. Mas - como diria a Creide - uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Então tá!

"Na minha opinião. Um modelo que funcionaria é a pessoa receber R$ 600 do Bolsa Família, prestando serviço para a Prefeitura quatro dias por semana. Dá essa concessão por um ano e deixa fora por seis meses. É uma forma de não criar dependência e de estimular a pessoa a procurar emprego. Assim o filho vê o pai  e mãe indo trabalhar e não parados em casa. (...) as prefeituras têm que roçar datas, limpar bueiros. Normalmente esses serviços são terceirizados e têm custo."


Engraçado, muitos filhos ricos de pais ricos não trabalham, vêem o pai se lascando de trabalhar e nem por isso querem trabalhar. E se puderem viver uma vida de playboy com o pai pagando a conta, melhor ainda. Tudo bem, isso é simplista, eu sei, é só para ilustrar que no senso comum, pobre que não trabalha é vagabundo e rico que não trabalha é... sortudo. Então tá!

De qualquer forma, a situação acima defendida pelo criaria uma nova categoria no funcionalismo público. Tanto que o professor afirma que seria necessário modificar a Constituição. O conceito embutido na proposta, confesso, é interessante, mas tem inicialmente um viés de punição para os mais pobres. Você vai receber isso, mas tem que fazer isso.

Pena que essa condição não é defendida em larga escala para os segmentos que vivem de usufruir dos cofres públicos. Quando é a elite, tudo bem. Querem dois exemplos? O primeiro são os estudantes de universidades públicas que estudam "de graça", entre aspas porque pagam imposto e devem ter acesso, mas esse acesso na realidade brasileira é facilitado para quem paga escola particular no ensino fundamental e médio e cursam uma universidade pública. E ao pobre que estudou o ensino fundamental e médio na escola pública, resta-llhe o ensino privado. Por isso, viva o Prouni e as cotas públicas.

Então por que não propor aos estudantes de universidades públicas que ajudem as prefeituras a desentupir bueiros, roçar datas, pintar meio-fio, atender em postos de saúde, escolas públicas e outros serviços essenciais para a manutenção das cidades? Essa não seria uma forma de retribuir o que recebem? Confesso que tenho mais perguntas que respostas.

O segundo exemplo vem de outra categoria do mesmo meio, a universidade. Muitos professores universitários pregam o fim das modalidades de transferência de renda, mas idolatram uma bolsa pesquisa, mantida com dinheiro público, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, agência do Ministério da Ciência e Tecnologia. Podem argumentar que os beneficiários do Bolsa Família são um peso, que não contribuem em nada para o desenvolvimento social e que as universidades devolvem o investimento em conhecimento. Isso não é totalmente mentira, mas também não é totalmente verdade.

Bolsa Família para comer não pode, mas pode bolsa para pesquisar temas que nunca servirão para nada? Isso me lembra de uma coisa que um amigo meu, o Salvador Francisco, fala quando cita o Requião e as universidades. __O Requião disse que não patrocina pesquisa universitária para investigar a importância do galho seco na vida atlética dos macacos. Se é verdade ou não - não sei - mas ilustra perfeitamente o cenário em questão.

Esse questionamento é ilustrativo e não representa a totalidade das pesquisas realizadas nas universidades, que são necessárias e trazem muito desenvolvimento. Apenas estereotipei a situação para mostrar que há muitos trabalhos científicos que prestam para nada, apenas para insuflar o ego de seus autores. Assim como muitos beneficiários do Bolsa Família usam o programa para o sustento eterno.

A título de ilustração, a tabela do CNPq mostra que os valores de bolsa pesquisa podem chegar a R$ 5.200,00 mensais individuais, no Brasil; e muitos milhares de reais no exterior. Para ver a relação dos valores clique aqui. E a imprensa conservadora brasileira não faz campanha sistemática contra isso, como faz com o Bolsa Família. Repito, a pesquisa científica é necessária para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do país, mas muitos podem se perguntar por que não colocar autores de muitas pesquisas para limpar bueiro e roçar datas junto com beneficiários do Bolsa Família?

5 comentários:

Guilherme Palma disse...

é discussão para mais de metro, mas uma coisa concordo com você reinaldo. nada deve vir de graça, tudo deve ser com o devido direito de conquista para ser mais valorizado.

Ana Carla Barbosa disse...

Muito interessantes as suas analogias, professor. Sem a procupação de ser formal: críticas como a do economista só podem ser oriundas de pessoas INCAPACITADAS de ler a realidade.

Ana Carla Barbosa disse...

...Ops! Quis dizer "incapazes".

Bruxices tolas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruxices tolas disse...

Ler a realidade nem sempre é uma tarefa simples. Estabelecer relações, nem sempre algo muito claro. Você colocou muito bem ests ângulo da questão... Gosaria de ver uma tentativa de defesa de outro ponto de vista!