quarta-feira, 7 de julho de 2010

São ordens da empresária

Ela é uma mulher determinada. Teve uma infância pobre, uma adolescência necessitada e jurou que não passaria por privações. Com dificuldades, terminou a faculdade de Administração, casou-se, teve três filhos. Cansada de trabalhar como administradora numa grande empresa de móveis, resolveu montar a sua própria fábrica. Com o que juntou com o marido, abriu sua marca de móveis e não quer parar de crescer.

Assim, como o empreendimento dela, cresceu também a violência. Instalada numa região considerada perigosa, a fábrica foi assaltada algumas vezes. Levaram equipamentos. Furtaram o carro do estacionamento. Roubaram computadores. Na quarta vez, sob a mira de revólver, ela e dois funcionários ficaram presos no banheiro, por três horas e meia.

Cansada dos assaltos, das reclamações à polícia, dos abaixo-assinados, dos impostos que paga que não são revertidos em benfeitorias, ela contratou seguranças. Os primeiros meses foram tranqüilos. Nada aconteceu ao empreendimento nem aos 38 funcionários que garantem a linha de produção, os serviços burocrático-administrativos, a entrega dos produtos.

O marido? Não se mete com ela na administração do negócio da família. Ele até tenta ensaiar algumas contribuições, mas ela não deixa. Ele também cumpre as ordens dela, cuida da parte logística da empresa e se sai muito bem, mas a administração total do empreendimento é dela mesmo. E de mais ninguém.

Medo de assalto? Ela confessa que não tem mais, tanto que comprou recentemente uma arma, que está devidamente registrada. Ela está disposta a garantir a segurança do seu patrimônio já que os governos resolvem absolutamente nada. Imagina se a polícia não dá conta de proteger a vida humana, ainda vai pensar em garantir o patrimônio do cidadão!

Passada a novidade dos seguranças da fábrica, a rotina voltou ao normal. Três homens conseguiram entrar no local, render os seguranças de plantão na madrugada e levar muita coisa. Equipamentos. Carro. Computadores. Desta vez foi demais. Ela está revoltada com a ousadia dos assaltantes. Quer justiça. Não vai descansar.

Com voz mais grave que a rotina, ela mandou os seguranças da empresa meter bala em quem tentar entrar na empresa. Aderiu à prática do atira primeiro, pergunta depois. Não quer saber. É para os funcionários não terem dó nem piedade e passar fogo em quem atravessar a propriedade. É atirar para matar. Ela está cansada desses ladrões vagabundos que não trabalham e roubam quem vive dignamente.

Toda noite, ela passa na empresa para verificar as condições do empreendimento e dar instruções aos seguranças. Nessa semana ela está mais ansiosa que o normal. É que ela fará uma entrega especial. Seu primeiro lote de móveis para fora do país. Ela não se cabe com a primeira exportação. Quer acompanhar tudo pessoalmente.

A entrada dela é privativa. Quando chega com o carro, abre um portão eletrônico e pára numa garagem exclusiva na área interna que tem outro portão eletrônico. Da garagem ela tem acesso ao escritório por uma estreita escada para o segundo piso, de onde - através de um grande painel de vidro - ela vê a fábrica inteira.

A entrega do lote de móveis será amanhã. Hoje no final da tarde, ela vai ao maior shopping da cidade comprar uma roupa nova, da sua marca preferida. Quer que a ocasião seja especial e que a peça dê sorte na hora de despachar a encomenda. Ela compra a roupa nova e encontra uma amiga que convida para um café. Conversando animadamente, ela se esquece do tempo e passa algumas horas rindo com a companhia.

Quando se dá conta, ela avisa a amiga que precisa ir para casa. Elas se despedem e cada uma pega seu caminho. Na volta, ela se lembra que deixou os papéis da exportação em cima da mesa no seu escritório e, por isso, volta para a fábrica para pegar a documentação. Como é só uma passadinha, ela prefere não abrir os dois portões eletrônicos e subir ao escritório do acesso privativo da garagem.

Ela para o carro no estacionamento de visitantes e vai pela portinhola ao lado do portão da fábrica. Como a fechadura está emperrada, ela força a porta que acaba fazendo muito barulho. Ela tenta uma. Tenta duas. Tenta três vezes. A porta cede. Quando coloca o pé dentro da fábrica, ela ouve alguns disparos, não pronuncia uma palavra e cai praticamente aos pés do segurança. Ele acaba de cumprir as suas ordens.

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