terça-feira, 20 de julho de 2010

Sobre estupros e tesão

"Ela quis, não foi forçada, não teve coação. Ela consentiu."

A afirmação é do delegado de Ibiporã Marcos Belinati e foi feita à equipe do Bonde. Ele se referiu à adolescente de 13 anos cujo pai, o empresário Sérgio Murilo Corimbava, acusou um cantor sertanejo da cidade de ter estuprado a menina. A queixa de estupro foi retirada pelo empresário.

O nome do cantor sertanejo? Não foi divulgado pelo Bonde, o mesmo veículo que divulgou, e muito, o caso padre Silvio Andrei. Aí alguns podem alegar que o veículo divulga o nome quando a polícia fornece. Se a polícia divulga, a imprensa publica. Se a polícia não divulga, a imprensa não publica. Se a polícia comete um crime, a imprensa é no mínimo conivente.

Crime sim, porque se o cidadão é inocente até se prove o contrário e tem direito à privacidade, inclusive de sua imagem, por que a polícia escancara determinados personagens e protege outros? Não me venham dizer que pobre e rico tem o mesmo tratamento nas delegacias do país, a começar pelo dotor que defende os acusados. Aliás, pobre nem tem advogado.

A declaração do delegado, façamos justiça pelo menos no que foi editado e publicado pelo Bonde, é estarrecedora. Um delegado é funcionário público e recebe salário e outras regalias - ops! benefícios como diria o sindicato da categoria - que trabalhador mortal celetista não recebe. O cidadão não paga um delegado para falar besteira ao acender dos holofotes da mídia. Aliás, muitos só funcionam quando o caso ganha repercussão. Enfim...

O fato é que o delegado em questão, pago pelo dinheiro público, tratou de atenuar o suposto crime cometido cantor sertanejo. Sexo com adolescente menor de 14 anos, com ou sem tesão, com ou sem vontade, é crime. Já pensou se os delegados fossem avaliar o consentimento e o grau de vinculação das vítimas com seus algozes? Os crimes deixariam de ser crimes. Exemplos?

Propina recebida pelo policial rodoviário paga pelo motorista infrator seria cortesia.

Aborto feito pelo médico pago pela mocinha grávida seria método anticoncepcional.

Caixinha recebida por fiscais (de diversos serviços) para não multar cidadão irregular seria complemento salarial.

Pornografia infantil produzida pelos pais da vítima seria geração de renda.

Por isso, senhor delegado, cumpra os ritos processuais, atenha-se aos fatos e investigue-os à luz da legislação vigente, ou seja, faça o trabalho para o qual foi contratado.

4 comentários:

This Gomez disse...

É simplesmente absurdo. E é apenas a pona do iceberg, meu amigo...

Guilherme Palma disse...

parabéns Reinaldo
falou tudo

Bruxices tolas disse...

Absurdo total e completo é a conivência do empresário com a coisa toda retirando a queixa!!!!! ABSURDO! ABSURDO! ABSURDO! Tão criminoso e cúmplice quanto o resto da corja!

Reinaldo C. Zanardi disse...

Sara, realmente é estranho o pai acusar e depois tirar a acusação, mas não vou julgá-lo nem condená-lo porque está na esfera do privado. O pior é o delegado, na esfera pública, usar seu cargo para não fazer seu trabalho.