domingo, 28 de novembro de 2010

Controlar não é censurar – IV

E por abordar os conselhos, vale lembrar a experiência do jornalista Washington Novaes, no Diário da Manhã, de Goiânia (GO). Experiência registrada no livro "A quem pertence a informação?", editado pela Vozes. Em 1982, o jornalista foi convidado para dirigir o diário goiano e instituiu inicialmente um Conselho Editorial. Participavam todos os editores e as reuniões eram diárias. Os editores podiam levar para a discussão um repórter ou redator. Nas reuniões "um editor fazia a crítica do jornal inteiro (...) Todas as divergências eram resolvidas por votação e todos os votos tinham o mesmo peso. Inclusive o dos donos do jornal."

O jornal começou a ser levado aos bairros da capital goiana para discutir os problemas diante de autoridades que tinham autonomia para dar soluções para questões como saneamento, educação segurança. O jornal promovia debates públicos que eram publicados e grande parte dos problemas era resolvida.

A iniciativa deu tão certo que foi criado o Conselho de Leitores, formado por 50 pessoas representantes, de partidos políticos, sindicatos de trabalhadores e patronais, igrejas, universidades, entre outras. As entidades "se reuniam quinzenalmente, no princípio, e semanalmente, depois, com o mesmo propósito: discutir o jornal, criticar, sugerir. Os debates eram publicados".

Conforme o jornalista, no livro, o jornal sofreu muitas pressões, mas "tinha por norma contar ao leitor sempre que isso acontecia (até para que não se repetisse)." A experiência durou 19 meses e os resultados ficam por conta do próprio jornalista relatar.

"(...) a circulação do jornal multiplicou-se por cinco e ele passou a vende mais, de terça a sábado, que seu concorrente principal (pertencente a um grupo que é afiliado da rede Globo e podia anuncia maciçamente seu jornal na TV, sem custo). Aos domingos, perdia por pouco para esse concorrente, por causa do caderno de TV de O Globo que este reproduzia (dados do IV). Na publicidade, o Diário da Manhã, que perdia de 20 para 1 do concorrente, ao final dos 19 meses já vencia de 5 a 3."

Os resultados falam por si, mas é necessário lembrar que a experiência de Novaes em participação popular num veículo de comunicação tem ainda mais peso se levado em consideração que foi desenvolvida durante o regime militar, mesmo que no final da ditadura, quando o Brasil vivia intensamente o processo de redemocratização.

O aumento da tiragem - as lideranças sociais e comunitárias passaram a se ver no jornal - e da publicidade mostram que um processo de transparência do jornalismo na publicação de notícias só faz bem, naturalmente, para quem não tem nada a esconder. Faz bem para o jornal, para o leitor, para a notícia, para a democracia.

Um conselho de leitores, de ouvintes e de telespectadores só faria bem para os veículos de comunicação que poderiam recuperar a credibilidade - tão propalada em seus anúncios publicitários. E tal experiência teria êxito nos dias de hoje? A resposta é sim, com base em outro meio, a internet, que mostra existir - de maneira informal - um conselho de internautas a partir da publicação de comentários em jornais on line e blogs; e grupos de discussão. No entanto, para que dê certo nos outros meios (impresso, rádio e TV), antes de tudo, os jornalistas têm de descer do pedestal de dono da informação e os proprietários de veículos de donos do poder.

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