segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sobre gravidez, mulher e homem

Leio reportagem na Folha de S. Paulo, de hoje, em que um bebê, nascido na véspera do Natal, sobreviveu a uma queda de dois metros, depois de ter sido atirado dentro de um saco plástico pela mãe, que acabava de dar a luz. Na reportagem, um tom sutilmente condenatório, a começar pela manchete "Recém-nascido é abandonado pela mãe e sobrevive a queda de 2 metros em Belém".

Os motivos da mãe, uma jovem de 20 anos. Segundo a Folha,"foi o medo de ser descoberta por sua família, que é do Maranhão e não queria que ela engravidasse, e pelos patrões em Belém, que a contrataram para ser babá e de quem escondia a gravidez." As informações para a Folha são da Polícia Civil de Belém.

Realmente, a atitude da mãe não é bonita, mas a imprensa quando aborda mães que abondam seus filhos publicam os fatos de maneira sensacionalista e não contextualizam o sofrimento que a mulher passa. Apenas e somente o sofrimento do bebê. Que é real e não deve ser subestimado.

Mas mães que abandonam seus filhos podem sofrer de distúrbios e doenças, por exemplo? Nessas matérias, essa reflexão não é feita. Prevalece o senso comum. Ao final da leitura, a sensação (não! certeza) que fica é que a mulher é um monstro, não tem alma e que não merece ter filhos.

Essa sensação é reforçada pelos comentários dos leitores na reportagem: "Uma vaca jamais faria isso com seu filhote"; "Peste (a progenitora, porque isso não é mãe nunca)"; "lixo humano (a mãe, lógico)." Naturalmente que nem todos os comentários são desse nível. Há leitores que refletem sobre o que lêem.

E por falar em refletir sobre o que ler, façam isso também sobre o que escrevo. Faz sentido ou não? E aqui vão alguns pontos que lanço ao debate. Aviso os navegantes: são pontos generalizados e existem exceções belíssimas. Aqui são provocações para a discussão.

. Por que reportagem desse tipo nunca cita o pai do bebê? Por que a imprensa não busca responsabilizá-lo também? Por que toda responsabilidade pela gravidez é da mulher? Mães que abandonam seus filhos recém-nascidos não engravidaram sozinhas. 

. Gravidez indesejada é consequência e não causa. Consequência da falta de informação, da falta de planejamento familiar, da busca pelo prazer a qualquer custo (de ambos, não só dela hein!) e, principalmente, da falta de educação sexual. De ambos, não só dela hein!

. Questão de gênero 1. A gravidez é responsabilidade exclusiva da mulher. O homem é coadjuvante (talvez por isso, muitos dêem no pé quando a namorada engravida). E muitas famílias viram as costas para a mulher (filha, irmã, sobrinha...), restando-lhe sortes variadas.

. Questão de gênero 2. A sociedade não aceita a mulher que rejeita ou não quer ter filhos. É normal confundir gravidez com maternidade. Conheço excelentes mães que não engravidaram e muitas que engravidaram e que não são boas mães. Por que a mulher tem que parir? É um processo natural? É um processo construído socialmente?

. No caso específico da reportagem em questão 1. Como é a relação dessa garota com a família (e como os pais a tratam?) para ela encontrar coragem para jogar seu bebê pelo muro e não ter coragem para enfrentá-los? 

. No caso específico da reportagem em questão 2. Ela diz que tinha medo dos patrões que a contrataram. Medo de perder o emprego por estar grávida? Quantas mulheres grávidas são demitidas por causa da gravidez tendo seus direitos trabalhistas desrespeitados? Isso não é desumano também?

Se analisarmos a notícia fora do tom condenatório da reportagem da Folha, veremos que a mãe que jogou o filho pelo muro de dois metros não é a única ré da história.

2 comentários:

Guilherme Palma disse...

E por aí vai. Bons questionamentos Reinaldo.
Mas é o que eu digo a imprensa é um reflexo da sociedade e vice versa.

Reinaldo C. Zanardi disse...

É verdade Guilherme, as instituições brasileiras são a cara do brasileiro. E não é diferente com a imprensa.