quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Inquietudes (102) do Rei

Um pastor se ofendeu com o Jô Soares e seus convidados que comentaram sobre o cigarro de maconha feito com páginas da Bíblia. Ele quer um pedido de desculpas do apresentador. Convenhamos, tem cada versão traduzida do livro que é tão manipulada, mas tão manipulada, que se você ler vai ficar mais chapado que fumar maconha o dia todo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Senhas para três filas

Pedir a segunda via da carteira nacional de habilitação.

7h50: A fila para entrar no serviço público é grande.
8h: A porta se abre. No balcão de informações, um funcionário trabalha (e três olham) distribuindo o cidadão-usuário pelas várias filas do serviço. Senha 12.

Senha 1
Senha preferencial de idoso.
Senha 2
Senha 3
Senha 4
Senha preferencial de idoso.
Senha preferencial de idoso.
Senha 5.
Senha 6.
Senha 7.
Senha preferencial de idoso.
Senha 8.
Senha 9.
Senha 10.
Senha 11.
Senha preferencial de idoso.
Senha 12.

__Finalmente!

8h25: Início do processo para solicitar a segunda via.
8h30: Pagar o boleto e depois fazer uma nova fotografia. Enfrentar mais duas filas.

E o banco abre somente às 9h.

__Como pode um serviço que precisa arrecadar taxas não fazer a arrecadação e implantar uma agência que não funciona no horário integral?


9h: O banco começa a receber os boletos. Ele é o primeiro da fila.

Atendimento preferencial de idoso.
Atendimento preferencial de idoso.

A fila não anda porque são poucos funcionários, que nem se preocupam em agilizar o atendimento. O usuário que espere. Sentado! E a fila anda mais lenta ainda. Atendimento preferencial de idoso, de idosa, de mãe com bebê, de mãe com carrinho, de pessoa com deficiência...

__Puta que pariu!

9h05: Pagamento da taxa de solicitação da segunda via.
9h06: Senha para a fotografia. Senha 42.

Senha 27.
Senha 28.
Senha preferencial de idoso.
Senha preferencial de gestante.
Senha preferencial de mãe com bebê no carrinho. Dormindo.
Senha preferencial de idosa.
Senha preferencial de mãe com bebê no colo para o pai ser atendido.
Senha....
Senha 42.

10h03: Fotografia nova para o documento roubado.
10h10: Fim do processo!

__Você vai receber a carteira no máximo em sete dias.

E no espaço público, um cartaz ameaça usuários que podem perder a paciência!

"Artigo 331 - Código Penal Brasileiro. Desacatar funcionário público no exercício da função. Pena de reclusão de seis meses a dois anos ou multa."

__E qual a pena para funcionário público moroso, serviço excessivamente burocrático e processo de trabalho pouco eficiente?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Palavras inteiras

O cliente chega ao banco e pergunta à gerente de conta.

__Fui assaltado ontem à noite e levaram todos os meus documentos. Já cancelei o cartão e sustei os cheques. Se eu precisar sacar dinheiro o que eu devo fazer?
__Você já fez o boletim de ocorrência?
__Sim, eu tenho ele aqui.
__Então, é só ir no caixa com um documento de identidade. 

Qual a parte do "fui assaltado ontem à noite e levaram todos os meus documentos" que ela não entendeu? Tem certa gente que não entende nem palavras inteiras. Depois você pergunta a parte que ela não entendeu, é taxado de grosseiro.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O primeiro assalto

O semestre está acabando. As pautas estão sendo revisadas. Devidamente assinadas. A recuperação em andamento. As provas finais sendo elaboradas. Relatórios de extensão.

__Como assim? Você não cansa que nem um pedreiro! Você fica na sombra e o pedreiro rala no sol.

A visão é de um garoto de 15 anos, numa palestra da qual ele participou - no final do semestre - para falar sobre a profissão de jornalista e o jornalismo opinativo.

__É verdade! Eu trabalho num lugar com ar condicionado. Não tem sol, mas me canso tanto ou quanto o pedreiro que você mencionou.
__Cansa como?
__O meu cansaço é mental. O do pedreiro é físico. Nenhum é melhor que o outro.
Alguns adolescentes tiram com a cara do desaforado! Onde já se viu dizer que professor não cansa!

__Essa fala do - qual é seu nome? - é um processo construído socialmente... Ele repete o que ouviu: que o trabalhador é trabalhador quando pega no pesado. E ele vai formando a própria opinião com suas experiências. Mas junto com as experiências tem a informação. E, neste sentido, os veículos de comunicação também formam a opinião, ou seja, a nossa opinião depende da quantidade e da qualidade das informações que temos.

E a palestra continua. Uma provocação daqui. Outra dali. E termina tudo bem. Ele volta à faculdade, cumpre o restante do expediente da manhã.

À noite recomeça o trabalho. As pautas estão sendo revisadas. Devidamente assinadas. A recuperação em andamento. As provas finais sendo elaboradas. Relatórios de extensão.

Final de expediente. Desliga o computador. Apaga as luzes. Fecha a porta. Caminha em direção à saída.

__Que bom! Consegui encaminhar muita coisa. Amanhã vai ser mais fácil.

Passa pela catraca, atravessa a rua. Anda uns 20 metros. Abre o portão da casa onde estaciona porque na rua não tem vagas. Caminha em direção ao carro. Destranca. Abre a porta e senta.

Nisso, vê dois adolescentes vindo em sua direção. Apontam alguma coisa para ele. Não percebe do que se trata.

Um dos adolescentes abre a porta, aponta novamente a arma e diz para deixar o celular e os documentos. Ele vai pegar a carteira na mochila.

__Não faça movimentos bruscos.

O aviso em tom sereno é do elemento da esquerda. Nem deu tempo de ver a cara do elemento da direita que, nesta hora, já estava sentado no banco do carona.

Cacete! Bandido agora vem com legenda. Melhor assim. O ladrão avisa como a vítima deve se comportar. Isso é importante, principalmente, para a vítima do primeiro assalto.

__Posso ficar com os meus documentos? Tenho muita coisa aqui.
__Deixa, deixa tudo! E não faça movimento brusco.


Que coisa meiga! Ladrão com manual de instrução facilita muito a vida da vítima. Mesmo!

__Meus pen-drives. Tenho muita aula. Deixa eu ficar com eles.

Não dá para acreditar. Professor pensa nas aulas até em assalto. Puta que pariu!

__Não! Você vai recuperar tudo. Queremos o carro pra fazer um roubo.

E lá se foram. Os elementos. O carro. A mochila. O celular. Os documentos. Bem que ele podia ter deixado os documentos. Bandido mau!

sábado, 26 de novembro de 2011

Que televisão queremos?

Acusar o politicamente correto de censurar o trabalho dos artistas é, no mínimo, uma tentativa de esconder o debate sobre a qualidade da televisão brasileira

"A nova censura" Com esse título, o jornal Folha de Londrina (PR) publicou, no domingo - dia 20, uma reportagem na Folha 2, que registra a reclamação de autores de novela sobre o que chamam de "a patrulha do politicamente correto na televisão brasileira". O texto é assinado por Geraldo Bessa, da TV Press. O conteúdo está disponível na internet, apenas para assinantes.

A reportagem começa o texto afirmando que "está cada vez mais difícil abordar temas contundentes, de forma realista, na televisão brasileira." O que seriam temas contundentes e forma realista? Ficção é ficção. O resto é interpretação. No entanto, o autor do texto explica que depois do fim da ditadura, novelas como ''Roque Santeiro'' e ''Vale Tudo'', pegaram carona no movimento em prol da liberdade de expressão e conseguiram tratar de assuntos como sexualidade, drogas e política."

Esses temas fazem parte da realidade do brasileiro. Nunca se discutiu tanto, por exemplo, sexualidade incluindo o respeito à diversidade e às diferenças sexuais. Quando as novelas abordam esse tema ajudam ou atrapalham o debate? Certamente ajudam pela importância que têm no contexto atual, mas a "forma realista", defendida pelo repórter, geralmente, passa longe da realidade.

O centro das produções, via de regra, são personagens caricatos e estereotipados que em nada contribuem para o aumento da consciência de grupo, por exemplo. Pode-se exigir responsabilidade social das novelas? Por natureza, essas produções são entretenimento e não têm objetivo de conscientizar, educar ou informar os telespectadores, mas nada impede que elas contribuam para o debate de temas importantes. O problema não está em abordar sexualidade, drogas e política. O problema está em como abordar esses temas.

O texto da reportagem ainda destaca que "atualmente, os agentes da censura são representados pelas regras da classificação indicativa da tevê, definidas pelo Ministério da Justiça, e entidades sociais que ficam de olho em todos os passos dos autores." Não foram ouvidos pela reportagem nenhum representante do Ministério da Justiça e de entidades que "patrulham" autores de novelas. Por que? Porque não interessa o debate.

Quando o repórter associa classificação indicativa à censura, em vez de esclarecer acaba criando ainda mais confusão. A Constituição Federal, nos capítulos da comunicação, estabelece princípios que devem nortear a qualidade da programação da televisão. Se não há bom senso e autorregulamentação das redes em discutir temas conforme a adequação dos horários, então que venham as regras do Ministério da Justiça para impor limites que na prática deveriam estar sacramentados pelos próprios veículos.

Afirmar que a classificação indicativa é censura faz parte de uma estratégia que tem por objetivo tolher o debate sobre os próprios limites da liberdade de expressão. Ninguém em nome deste direito - básico constitucional - pode caluniar e injuriar, por exemplo. Isso não é liberdade de expressão. É no mínimo um delito que deve ser punido.

Aguinaldo Silva, que participou de "Roque Santeiro" e "Vale Tudo" - este sim ouvido pela reportagem da TV Press e com destaque - afirma que "está tudo muito chato e politicamente correto. Sou um grande defensor da livre criação e do respeito ao próximo. Mas, se escrevo uma vilã disfarçada de qualquer profissão, corro o risco de ser processado pelos sindicatos que defendem essa classe."

O autor participou de "Roque Santeiro", de 1985, e "Vale Tudo", de 1989. As novelas foram elaboradas numa época que tinha seu contexto e hoje a realidade é outra. Parece que os autores - novos e da velha guarda - não perceberam isso. O mundo mudou e os padrões, atualmente, não são iguais aos de 20, 30 anos atrás, assim como serão diferentes daqui a 20, 30 anos.

Quando Aguinaldo Silva fala em livre criação está falando do que? A livre criação permite tudo? A livre criação não precisa respeitar a legislação? A livre criação pode passar por cima da crença dos outros? A livre criação pode desrespeitar as particularidades e as diferenças dos segmentos de uma sociedade? A livre criação pode rotular e estigmatizar?

Em nome da liberdade de expressão e da livre criação, por exemplo, muitos veículos de comunicação de massa do ocidente pintam todos os muçulmanos como fanáticos e terroristas. O que evidentemente não é verdade. Portanto, a livre criação também está a serviço da ideologia que cria sentidos que não correspondem necessariamente à realidade, excluindo e gerando problemas para os afetados.

Acusar o politicamente correto de censurar o trabalho dos artistas é, no mínimo, uma tentativa de esconder o debate sobre a qualidade da televisão brasileira. Afinal que televisão queremos? Acusar os outros de serem ideológicos é jogar propositalmente a própria ideologia para debaixo do tapete, desqualificando os interlocutores. E essa atitude ideológica é típica dos intolerantes, que se escondem sob o manto da liberdade de expressão.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

No bosque havia uma rua

No bosque havia uma rua.
Escapamento.
Poluição.
Estrangulamento.
Pulmão.

No bosque havia uma rua.
Foi fechada.
Lazer.
Caminhada.

No bosque havia uma rua
E muitas pombas.
Titicas feito bombas.
Reclamação.
Ôh coisa incômoda!

No bosque há uma rua.
Foi reaberta.
Árvores decepadas.
Fim da caminhada.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Inquietudes (99) do Rei

Reportagem na edição de hoje (dia 23) do Jornal de Londrina discute o número de cesarianas realizadas em Londrina: 62% dos partos na cidade são cirúrgicos, ou seja, cesarianas. Os partos normais ficam em 38%. Os dados são referentes a 2010. Essa realidade lembra a fala de uma amiga, enfermeira.

__Parto normal é aquele que você marca hora para tirar o bebê.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Manifestações e declarações

"A gente vê com estranheza, desconfiando que é uma ação eleitoreira de quem está fazendo a reclamação sem escutar oficialmente o que a prefeitura tem a dizer sobre projeto." A declaração é do secretário de Governo de Londrina, Marco Cito, à rádio Paiquerê AM e também reproduzida pelo Bonde.

Para mim, é secundária a discussão se o local vai ser terminal de ônibus ou não. Depois de reaberta a rua, o tom será dos escapamentos. Um retrocesso para quem conquistou, anos atrás, uma área verde e de lazer, bem no centro de Londrina.

Aqui o que me interessa é a declaração do agente público, o secretário de governo, e não da pessoa Marco Cito. Faço essa distinção porque as opiniões costumam ganhar conotação de tudo, menos de opinião. Aqui, é só mais uma opinião de quem pensa e reflete sobre o que lê.

O secretário de governo classifica de eleitoreira a manifestação, e - portanto rotula de manipulados por agentes políticos com fins eleitorais - os manifestantes que são contra o corte de árvores no bosque e a reabertura da rua Piauí para o trânsito de veículos.

O debate público sobre ações públicas é bem-vindo, saudável e necessário, até porque o Executivo, assim como os outros poderes, deve satisfação pública e ao público.

A declaração, infelizmente, não é novidade no cenário político e acomete muitos representantes indiretos do povo. Indiretos porque não foram eleitos e sim indicados pelo vencedor nas urnas, neste caso o prefeito. Mesmo este, deve dar satisfação ao público.

Independente de colorações partidárias e de elasticidades ideológicas da esquerda e da direita, essa postura de se sentir acima da voz da população é um problema crônico dos políticos brasileiros. Quando a réplica sai e entra a desqualificação, todos perdem. Principalmente, o debate.

O agente público, sob a argumentação da ação eleitoreira desqualifica os manifestantes.

O agente público, sob a argumentação da ação eleitoreira desqualifica o debate.

O agente público, sob a argumentação da ação eleitoreira "sem escutar oficialmente o que a prefeitura tem a dizer" supõe que sua voz é mais legítima que a dos manifestantes.

A manifestação pública integra o rol das garantias de liberdade de expressão e nenhum manifestante, numa sociedade democrática, precisa de alvará do poder público para isso, nem para escrever um artigo como este.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Amigos de facebook

__Pai, quantos amigos você tem no face?

Enquanto o pai se prepara para responder, o menino vai rapidamente na página do pai.

__1.173? Pai você é famoso. Você tem muitos amigos. Eu só tenho 71.
__É tenho muitos amigos mesmo, mas no face.
__Como assim?
__Quantos amigos desses você vê frequentando a casa do papai, por exemplo?
__Poucos.
__Então, o fato de eu ter mais de um mil nomes na minha listagem, não quer dizer que sejam amigos. Tem gente que me adiciona que eu nem sei quem é. E amizade tem muitos níveis. O que é ser amigo para você, meu filho?
__Bom... ser amigo, é você ajudar quando o amigo precisa, marcar de brincar na casa dele e ele vim aqui em casa, dormir na casa dele depois do cinema, ficar triste quando alguma coisa ruim acontece com ele, ficar contente quando uma coisa boa acontece, querer saber como ele está...
__Então filho, ser amigo é algo muito diferente do que que está nesse mundo virtual?
__Então por que o face chama de amigos quem não é?
__Por que precisa parecer um relacionamento próximo, que as pessoas se gostam e se dão super bem. Na realidade o nome já diz, rede social. E por isso é superficial.
__Ahn, vou pensar nisso. Obrigado pai.

domingo, 13 de novembro de 2011

Sociedade permissiva e superficial

Crianças e adolescentes, de 10 a 14 anos, trabalhando em empresas da construção civil, pavimentação e fábricas de fertilizantes. E o pior com autorização judicial. A autorização neste caso ocorre porque a legislação brasileira proíbe o trabalho até 14 anos; entre 14 e 16, somente na condição de aprendiz e acima de 16, está liberado. O assunto é tema de reportagem hoje (dia 13) do jornal Folha de Londrina.

Segundo a reportagem, o Paraná saiu da 7ª posição em 2005 - com 54 autorizações judiciais - para o 3º lugar, em 2010 - com 663 autorizações. Hoje o Paraná perde somente para São Paulo e Minas Gerais.

Ouvido pela reportagem, o juiz trabalhista Reginaldo Melhado, afirma que "criança tem que brincar, estudar." Para ele, quem deveria discutir o tema era a justiça do trabalho e não na justiça comum. Assim, segundo o magistrado, o número de autorizações poderia cair. Essa é uma medida coerente. E acrescento: o Conselho Nacional de Justiça poderia investigar os juízes que concederam as autorizações. Algum juiz pode ter relacionamento com as empresas "beneficiadas" com as autorizações? Perguntar não ofende, hein!

Criança trabalhando é melhor que na rua exposta aos atrativos do tráfico de drogas. O juiz Reginaldo Melhado considera esse argumento falacioso. Pode até ser, mas sendo de classe média e alta, é muito fácil julgar quando os pais, ou às vezes a mãe sozinha, não conseguem dar uma educação à altura.

Até onde sei, pais muito pobres não levam o filho de carro para a escola particular e filho de pais pobres não fazem inglês, natação ou tênis, aula de pintura, ballet ou qualquer outra coisa como essas de "primeira necessidade". A exploração infantil deve ser combatida, mas julgamentos sobre a realidade de muitos pais pobres ficam numa linha tênue entre o desconhecimento da realidade e a hipocrisia.

Para o promotor Murillo José Digiácomo, ouvido pela reportagem, as famílias que têm na criança o sustento da casa "não é válido". Para ele, "quem tem que prover o sustento da família são os pais. O poder público deve criar mecanismos para que esses pais consigam  emprego, ou sejam inseridos em algum programa de apoio, de geração de renda." 

Perfeito promotor. E nem é novidade porque isso está inclusive na Constituição Federal. E tem gente - talvez os mesmos empresários que "empregam" crianças e adolescentes e os juízes que dão a autorização judicial - contra as políticas públicas de assistência social. Hoje essas políticas são muitas e dão condição para os pais, que querem progredir, consigam isso. Da Política Nacional de Assistência Social cito apenas o Bolsa Família, que já provou ser eficiente.

Nesta disputa de sentidos, um viés passa longe do debate nacional: o trabalho infantil nas artes. A superficialidade da discussão é evidente. Pela legislação, crianças e adolescentes menores de 14 anos não podem atuar como trabalhadores, por exemplo, em redes de televisão e na indústria da música. Pela lei, não pode. E a sociedade fecha os olhos. Até porque nesses casos, são os pais muitas vezes os próprios empresários, explorando os filhos-clientes.

E a dupla, desfeita em 2007, Sandy e Junior, é um bom exemplo da exploração do trabalho infantil. Sandy nasceu em 1983 e lançou seu primeiro álbum com o irmão em 1991, "O aniversário do tatu". Que meigo! A menina tinha 8 anos de idade quando lançou o primeiro trabalho, ou seja, três anos depois da promulgação da Constituição Federal (1988). Um claro desrespeito à legislação.

Quem não se lembra de que a justiça do Rio de Janeiro proibiu o elenco infantil da novela "Laços de Família" da Rede Globo? A emissora recorreu e ganhou a disputa. Na época, até o jornalismo da emissora foi usado para atacar a justiça e contaminar o debate sobre trabalho infantil. Lembro-me do autor da novela, numa edição do Jornal Nacional, argumentando que tinha o direito de colocar o filho na novela que quisesse. Ele pode?

Muitos podem alegar que crianças artistas podem trabalhar porque ganham bem, têm muitas regalias no mundo do entretenimento, que arte não é trabalho. Neste sentido, se a perspectiva passa pelo salário e as condições de trabalho, outros podem sugerir a criação de pisos para crianças que cortam cana; ou quem sabe exigir melhores condições de trabalhos, com equipamentos de proteção individual (EPI) para crianças que atuam em carvoarias. Trabalho infantil é trabalho infantil. O resto é interpretação da lei.

sábado, 12 de novembro de 2011

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre Mercedes-Benz e BMW

''O condutor do veículo BMW prestou declaração, mas não podemos expor porque a declaração é de cunho subjetivo.'' "O boletim de ocorrência ficará à disposição das partes apenas.''

As declarações acima são do inspetor chefe do Núcleo de Policiamento e Fiscalização da Polícia Rodoviária Federal, em Londrina, Vicente Zangirolani, sobre o fato do prefeito de Londrina, Barbosa Neto ter se envolvido num acidente de trânsito na noite de segunda-feira (dia 31).

O prefeito dirigia uma Mercedez-Benz e bateu em uma BMW, dirigida por Nilton Silva. O motorista da BMW afirma que o prefeito avançou o sinal. O fato é negado por pessoas próximas a Barbosa, que estariam atrás do carro do prefeito, em outro veículo.

A polícia não pode expor o conteúdo das declarações por serem subjetivas. O boletim de ocorrência não ficará à disposição do público como ficam os boletins de motoristas comuns lidos e relidos por radialistas ao longo de um dia inteiro.

A Folha de Londrina noticia hoje (dia 2) que o "o inspetor afirmou que policiais fizeram o levantamento das condições em que o acidente ocorreu, mas a polícia não deve emitir juízo de valor."

Que beleza! Juízo de valor da polícia é para gente comum. Motorista que não dirige BMW ou Mercedes-Benz, nem é prefeito, vai parar nas páginas dos jornais e nas ondas do rádio, em informações recheadas de opiniões de representantes de organismos policiais.

Delegados da Polícia Civil e relações públicas da Polícia Militar são campeões em fazer isso, julgando e condenando, sem ao menos iniciar e concluir os processos investigatórios.

Leia "Sobre estupros e tesão".

Leia "Polícia ineficiente, justiça conivente".

Leia "Quanto vale a vida?".

Leia  "Inquietudes (80) do Rei".

Leia "Varejo e atacado".

A atitude do inspetor Vicente Zangirolani, mais exceção que regra, deveria ser uma conduta normal de quem representa a segurança bancada com dinheiro do contribuinte.

Esse episódio mostra que quando a polícia quer, ela sabe fazer o serviço com responsabilidade e ética, sem servir de pano de fundo para programas policiais sensacionalistas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O sabor de 141 medalhas

O que o Jornal Nacional fez na (falta de) cobertura do Pan-Americano de Guadalajara é caso de polícia.

O senhor William Bonner, como editor-chefe do noticiário, prova com essa atitude que informação jornalística de interesse público é a que vem atrelada a contrato comercial milionário com transmissão exclusiva de grandes eventos esportivos.


Não importam as medalhas conquistadas pelo país.

Não importa a delegação brasileira.

Não importa o investimento nos atletas e nas modalidades.

Não importa a informação.

Importa o contrato exclusivo.

Importam as cotas de anúncios publicitários na programação.

Importa o espetáculo esportivo.

Importa o espetáculo telejornalístico.


O Jornal Nacional não ingnorou apenas o Pan.

Ignorou o jornalismo comprometido com a informação de qualidade.

Ignorou os brasileiros.

Ignorou os atletas.

Ignorou o Brasil.

Falar em Conselho Nacional de Comunicação, para essa gente da Globo e de outros veículos nacionais, é falar em censura.

E o que promoveu a Rede Globo com essa atitude?

Censura por causa de interesses comerciais e econômicos.


Por isso, são necessários mecanismos para democratizar a comunicação, visto que a Rede Globo deve satisfação pública e ao público, como qualquer emissora de rádio e TV, por ser concessão.

Enquanto não há mecanismos para consolidar efetivamente a democratização da comunicação no Brasil, que a Globo faça a digestão da derrota para a Record, que conseguiu exclusividade na transmissão dos jogos.

E que essa digestão tenha o sabor de 141 medalhas, sendo 48 de ouro, 35 de prata e 58 de bronze.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Inquietudes (97) do Rei

A sociedade brasileira precisa de estatutos para proteger, por exemplo, crianças, adolescentes, idosos e mulheres vítimas de violência porque o país é preconceituoso e discrimina, promovendo a exclusão. Um país que não respeita a diferença de seus cidadãos não é digno de seu desenvolvimento.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Bebês e redes sociais

Durante esta semana uma notícia chamou a atenção de muita gente: "Casal de São Paulo batiza o filho como “Facebookson” e causa polêmica no mundo".

O caso ganhou repercurssão e muitos indignados atentaram contra a moral dos pais do bebê, um motoboy e uma auxiliar de escritório.

A polêmica não durou muito porque, antes mesmo de ganhar mais notoriedade, a informação foi desmentida .

A notícia falsa foi publicada pelo site Sensacionalista que veicula notícias fictícias como se fossem verdadeiras.

Tudo bem, o slogan da publicação "um jornal isento de verdade" reflete a atuação de muitos veículos jornalísticos do país, mas esse é assunto para outra crônica.

Na falsa matéria, Facebookson seria uma homenagem ao Facebook, rede social em que os pais do bebê fictício teriam se conhecido.

Falso ou não, o fato é que muitos acreditaram - assim como eu - porque muitos pais usam nomes esdrúxulos em seus filhos.

E aproveitando a onda do Sensacionalista tirada com a cara de muitos - inclusive a minha - sugiro alguns nomes para quem quiser batizar seus filhos homenageando as redes sociais, se for menino ou menina.

Badoonalldo e Badoonéya.
Twitterlley e Twitterllenne.
Orkutônio e Orkutônia.
Youtubécio e Youtubécia.
Googlemário e Googlemara.
Linkedino e Linkedina.
Myspacelon e Myspaceléia.

sábado, 22 de outubro de 2011

Inquietudes (96) do Rei

Algumas publicações jornalísticas, o leitor tem que ler no plástico. Isso mesmo! Plástico para se proteger das doenças jornalisticamente transmissíveis.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Liberdade de que mesmo?

"Esse véio só fala mierda, deve estar esclerosado, vai tomar o Viagra VÉio"
Em vez de argumentos, ataques pessoais.

"Não, foi uma Tra-ve-ca que saiu contigo e teve que te com...."

Em vez de fatos, calúnias.

"Só tenho 2 coisas a dizer: C/A/N/A/L/H/A, L/A/D/R/Ã/O"

Em vez de ideias, adjetivos.

"É Rafinha, tomou na bundinha."
Em vez de debate, baixaria.

"CARA DE PAU É O SÓCIO DO MARIDO DA WANESSA QUE FOI PARA UM MOTEL COM 3 TRAVESTIS JÁ ESTANDO CASADO E COM A ESPOSA GRÁVIDA E LIGA PRO DONO DA BANDEIRANTES EXIGINDO QUE O RAFINHA RESPEITE A INSTITUIÇÃO "FAMÍLIA"."

Em vez de liberdade de expressão, difamação.

O conteúdo entre aspas acima - se é que podemos classificar como conteúdo - não foi publicado em nenhum jornal sensacionalista jornalisticamente questionável.

São comentários publicados na Folha.com. Isso mesmo, a versão on-line de um jornal que tem décadas de estrada. Um jornal impresso pressupõe leitor acima da média do senso crítico; pressupõe um leitor com formação intelectual acima da média. Pressupostos. Muitos provam exatamente o contrário.

E o pior é que a publicação tem moderação de comentários. Se você escreve corrupto, automaticamente seu comentário é bloqueado e - dependendo do humor dos censores - digo, dos moderadores - é liberado mais tarde.

E olhe que a publicação é uma "árdua defensora" da liberdade de expressão. Claro, da liberdade de expressão dela escrever o que quer e como quer.

No entanto, se você escreve c.o.r.r.u.p.t.o, tudo bem, o comentário é liberado e o problema passa a ser do acusado. Que se vire para provar que é inocente, se for o caso.

"O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem"

 
Se a opinião do internauta fere a legislação e se caracteriza como delito, o mesmo é responsável por isso, mas o jornal é responsável por publicar a opinião delituosa e não pode se isentar. Simples assim.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Inquietudes (95) do Rei

Por que os motoristas infratores que param em fila dupla ligam o pisca-alerta? Será que eles imaginam que isso ameniza a infração e a falta de educação no trânsito?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Inquietudes (94) do Rei

Na sociedade da imagem (talvez em todas e de todas as épocas), o problema não é ser. O problema é parecer.

Alguns exemplos?

O problema não é ser pobre; o problema é parecer pobre.

O problema não é ser ignorante; o problema é parecer ignorante.

O problema não é ser preconceituoso; o problema é parecer preconceituoso.

O problema não é ser gay; o problema é parecer gay.

Então na sociedade da imagem, muitos são, mas lutam para parecer que não são.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Véio sem noção

O cara - quarentão, meio grisalho - vai comprar umas camisetas básicas.

__Quero com gola V, mas não muito grande.

__Tenho essas aqui. Qual o seu tamanho?
__M.
__Que cor você prefere?
__Qual você tem?

__Cinza, grafite e preta. Experimente esse modelo também. A gola V é um pouco acentuada, mas veste super bem.

Se achando, porque todo mundo diz que está charmoso, ele vai ao provador com as camisetas gola V. Experimenta a que tem a gola discreta. Fica boa. Experimenta a gola acentuada.

__Que coisa feia! Como poderia usar algo assim? Não tenho mais 18 anos, afirma para si mesmo.

Ele sai do provador.

__Deu certo? pergunta a vendedora.
__Essa deu, mas a gola V acentuada não ficou legal. E eu descobri o que significa o V dessa gola.
__Sério? O que significa?
__Véio sem noção. Sem chance de usar um negócio desses!


Então tá!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Instinto da natureza

Nobres e pobres

O jornalismo - discuto isso em alguns artigos - é um importante construtor de sentidos. E isso é feito, geralmente, a partir de rótulos. E como a essência do jornalismo é a palavra, o sentido é gerado pelo verbo. Princípio bíblico? Não é mera coincidência. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, (...) João 1:14

Os sentidos cravados pela palavra - sustentados pelos rótulos - podem estigmatizar e, portanto, discriminar. Para ler "A linguagem e o politicamente correto", clique aqui.

A palavra nobre, segundo definição literal de Michaellis, se refere a quem tem descendência ilustre; títulos nobiliárquicos; a quem é digno de estima; brioso; bravo, valente; majestoso; distinto, ilustre, notável; a quem revela elevação moral, generosidade, grandeza de alma.

Jornalisticamente, nobre acaba como sinônimo de gente rica, de quem mora em área de grande concentração de renda (e de especulação imobiliária, mas isso não vem ao caso). Já repararam que áreas nobres para o jornalismo são aquelas que têm casas e apartamentos caros? Tudo bem, alguém pode dizer que tem dinheiro tem poder, traço típico da nobreza.

No entanto, nem todos os "nobres" que vivem em áreas ricas têm elevação moral ou grandeza de alma. Pelo contrário, volta e meia a Polícia Federal prende traficantes, políticos e empresários corruptos em mansões e apartamentos luxuosos nas ditas de áreas nobres.

Exemplo jornalístico de nobre como sinônimo de riqueza? Vários. Cito dois, de publicações impressas de abrangência diferente. Um nacional e um local.

A Folha.com afirma: Morto a facadas em um apartamento da rua Oscar Freire, área nobre de São Paulo, na madrugada desta terça-feira, o modelo Murilo Rezende da Silva, 21, foi eleito Mister Piauí 2011 e ficou em sexto lugar no concurso Mister Brasil deste ano, segundo os organizadores do evento.

Por que assinalar que o modelo foi morto num apartamento de uma área nobre? Ricos não se metem em confusão? Ricos não se matam? Não existe maldade em áreas nobres? Oh! descobriram que os nobres não são tão nobres quanto gostariam que fossem.

Por outro lado, há muita gente brava, valente, de elevação moral, generosa e com grandeza de alma que mora em vilas, na periferia, mas esses - para o jornalismo - não são nobres. São apenas pobres.

O segundo exemplo é do JL on-line, que discute as notas de uma escola pública - a municipal Norman Prochet, que fica na região central de Londrina. A escola, em 2010, tirou nota 7,5 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Qual o espanto?

"Mesmo encravada em uma área nobre da cidade, próximo à Gleba Palhano, Idehide
[supervisora da escola municipal] lembra que é "uma escola pública". Ali não há apenas filhos da classe média de Londrina: mães e pais que moram na periferia e trabalham na área enxergam a escola como uma boa alternativa às escolas do bairro de onde saem diariamente, em geral com muito mais dificuldades."

Ressaltar que se trata de uma escola pública numa área nobre revela, sutilmente, que escola pública é coisa de pobre e que não combina com uma região rica. Mas a supervisora informa que na unidade do município não há apenas filhos de classe média, há também filhos de pais que moram na periferia: trabalhadores da construção civil e empregados domésticos.
Viu? A supervisora confirma: escola pública é mesmo coisa de pobre. E pobre em área nobre, só se for empregado!

Independentemente disso, a unidade prova que é possível a escola pública, independente de seu público alvo, ter qualidade. Para isso, precisa de governo responsável, professores comprometidos e pais participantes. Mas esse é tema para outro artigo.

Enquanto isso, o nobre continua nobre e o pobre continua pobre. Significados tão diferentes para uma palavra que muda apenas uma letra. Alguém disse uma vez que pobre sempre se dá mal. Infelizmente, os rótulos jornalísticos reforçam isso diariamente.

domingo, 9 de outubro de 2011

Inquietudes (93) do Rei

Não se fazem mais músicos sertanejos como antigamente. Hoje o estilo é voltado até para universitários. Essa indústria cultural não toma jeito mesmo! Muitas duplas do autêntico cancioneiro capiria devem reviverar-se no túmulo.

E o nome dos artistas! Antigamente eram Liu, Leu, Zilo, Zalo. Agora é Luan, Hudson, Michel. Por favor, Michel Teló é lá nome de músico sertanejo? Se Ranchinho - que fazia parceria com o Alvarenga - fosse vivo mudaria de nome. Seria Varanda Gourmet. Credo!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Inquietudes (92) do Rei

"É o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga."

A afirmação é da corregedora do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) Eliana Calmon sobre a ação que a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) move para tirar os poderes do CNJ de punir juízes corruptos.

A declaração, dada ao jornal da Associação Paulista de Jornais, gerou muita polêmica entre os juízes já que muitos se julgam acima do bem e do mal.

A ação da AMB mostra que o Judiciário quer transparência. Para o Executivo e para o legislativo, menos para o próprio Judiciário.

Punição sim, mas para políticos corruptos. Até parece que os juízes corruptos são intogáveis. Seriam intocáveis por causa da toga?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Trabalhadores e trabalhadores II

Estadão
“Paralisação de médicos tem adesão de 70% da categoria, diz associação”

Portal terra
“RS: paralisação de médicos tem adesão de 90%, diz sindicato”

Estado de Minas
“Paralisação dos médicos deve suspender 90 mil consultas em MG nesta quarta”

Portal UOL
“Paralisação de médicos surpreende pacientes que tinham consultas marcadas”

No Brasil, há trabalhadores e trabalhadores. Para ler como a imprensa joga a população contra trabalhadores grevistas, clique aqui.

Para a imprensa brasileira, gente comum – tipo motorista de ônibus, bancário e funcionário dos Correios – quando paralisa suas atividades não suspende atendimento. Isso é greve e prejudica a população.

Agora quando médico, que também é trabalhador – acima dos mortais naturalmente, suspende suas atividades - não faz greve, faz paralisação e não prejudica a população, apenas “surpreende pacientes”. Que beleza!

Os sindicatos e as associações de gente comum são tidos, nas páginas de muitos veículos de comunicação, como sinônimo de atraso e responsáveis por promover a baderna, o caos, de gerar prejuízo ao desenvolvimento do país.

Com os médicos, a situação é diferente. O sindicato e a associação ganham status privilegiado e são a fonte principal na manchete da publicação. Para cada trabalhador, conforme nossa imprensa, o enfoque que ele merece.

A categoria médica tem o direito de se organizar e reivindicar melhor remuneração pelos planos de saúde. É justo! Mas remuneração não! Isso é coisa de trabalhador comum. Médico reivindica reajuste de honorários.

Ah! então tá!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Personal killer mosquito

A epidemia de dengue em Londrina, neste ano, superou os números da epidemia de 2003, quando foram registrados, naquele ano, 7.352 casos da doença.

Londrina registra, segundo informações do Núcleo de Comunicação da prefeitura, 7.383 casos. Os dados são até 26 de setembro.

Mesmo com todas as ações do poder público, a dengue continua avançando e as informações divulgadas sobre a prevenção à doença parecem não dar resultado.

Por que?

Arrisco duas respostas, não necessariamente nesta ordem.


Primeiro, porque ninguém combate a dengue. Uma vez instalada, o paciente precisa de cuidados médicos e os medicamentos receitados são direcionados aos sintomas.

Segundo o Ministério da Saúde, "o tratamento da dengue é de suporte, ou seja, alívio dos sintomas, reposição de líquidos perdidos e manutenção da atividade sangüínea".

Então para evitar a doença, deve-se combater o mosquito que a transmite. Neste sentido, o foco das campanhas publicitárias deve ser a causa, ou seja, o transmissor da dengue, o Aedes aegypti.

Segundo, as campanhas são necessárias, mas outras ações de responsabilização das pessoas devem ser tomadas para evitar a proliferação do agente transmissor da doença.

Os criadores de mosquito devem ser responsabilizados, se tiver multa - melhor ainda. Não há como educar adulto mal educado. Neste sentido, a conscientização espontânea tem limites claros.

O poder público envia agentes de endemias para matar mosquito na casa do cidadão e da cidadã, que percorrem os quintais caçando o Aedes.

Enquanto a população tiver um personal killer mosquito, quando ela vai assumir a sua responsabilidade?

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Trabalhadores e trabalhadores

R7 Notícias
“Greve dos bancários já prejudica população brasileira”

Jornal do Commercio
“Greve dos bancários prejudica os clientes“

Band News
“Greve nos bancos prejudica clientes em todo o país“

Folha.com
“Greve dos Correios prejudica negócios"

Jornal da Paraíba
“Greve bancária prejudica comércio”

Meio Norte.com
“Greve dos bancários prejudica Piauienses”

Bahia Notícias
“Greve dos Correios prejudica quem vende pela internet”

Por que trabalhadores da imprensa insistem - em notícias sobre greves - jogar a população contra os grevistas?

Sim, pode não parecer, mas jornalistas (repórteres, redatores e editores) - mesmo porta-vozes dos interesses midiáticos – são trabalhadores, muitas vezes mal remunerados, sem plano de cargos, carreira e salários e o piso da categoria – quando pago – é comemorado até pelo sindicato.

Alguns profissionais nas redações podem argumentar que o enfoque noticioso dos exemplos acima atende ao interesse público, já que afeta serviços à população, e que por isso é o fato principal e merece ser destaque na manchete.

Não merecem destaque os índices de reposição da inflação à categoria em greve?

Não merece destaque a busca por melhorias das condições de trabalho?

Não merecem destaque os direitos ao reajuste real dos salários?

Não merece destaque a exploração a que os trabalhadores estão submetidos?

Pois é! Quando a greve de trabalhadores “prejudica” a população, a população trabalhadora não quer reconhecer os direitos dos trabalhadores grevistas.

Neste cenário, surge outro fator: a imagem dos sindicatos, trabalhada também pela imprensa para ser sinônimo de atraso do desenvolvimento, no qual a rigidez das leis trabalhistas impede investimentos e blá, blá, blá...

Aí a população “prejudicada” sente-se no direito de atacar os trabalhadores (em greve) de serviços essenciais, inclusive para si mesma, sem se preocupar se as condições de trabalho são dignas e os salários justos.

Colocar a população contra grevistas é muito mais que escolher um enfoque para uma notícia, é construir sentidos e dividir a população.

Essa situação lembra o título do livro do jornalista Carlos Dorneles. “Deus é inocente, a imprensa não…”

sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre o Judiciário e a transparência

O Executivo é fiscalizado por vários órgãos.
O Legislativo também.
Assim como o cidadão comum.
E quem investiga os crimes no Judiciário?
Quem pune juízes corruptos?

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), conforme descrição em sua página oficial na internet, diz que "é um órgão voltado à reformulação de quadros e meios no Judiciário, sobretudo no que diz respeito ao controle e à transparência administrativa e processual."
Simples assim.
O Judiciário brasileiro precisa de transparência e o CNJ deve continuar exercendo esse papel.

No entanto, o conselho pode perder seus poderes numa ação corporativa da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).
A associação ingressou com uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando os poderes do CNJ.
"A razão de existir do CNJ não está no poder de vigiar os atos dos magistrados. Esse poder não existe."A defesa é do presidente da AMB, Nelson Calandra, em  nota divulgada à imprensa.
"A Magistratura brasileira é séria e apoia a investigação de quaisquer de seus atos, desde que em foro adequado."
Para Calandra, o foro adequado são as instâncias locais, como as corregedorias e o Ministério Público.

Na prática, nas instâncias locais, os juízes criminosos podem continuar impunes.
Muitas decisões de investigar juízes corruptos - como expedição de mandados de busca e apreensão - passam por juízes locais que também terão de julgar seus colegas acusados.
Neste cenário, a instância local é a mais adequada para decidir?

Retirar os poderes do CNJ é um retrocesso à transparência do Judiciário e um golpe duro à democracia.
Qual juiz teme o Conselho Nacional de Justiça?
A resposta parece óbvia.
Aquele que deve.
O conselho não ameaça a autonomia dos juízes nem interfere em sua atuação, desde que sejam sérios e responsáveis.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Inquietudes (91) do Rei

O prazo final de filiação partidária, para quem quer se candidatar nas eleições de 2012, é 7 de outubro de 2011. Um ano antes do 1º turno do ano que vem. Esse prazo vale também para os atuais políticos que ocupam mandatos eletivos, ou seja, quem quiser trocar de partido tem uma semana e deve apressar as negociações. A infidelidade partidária encontra respaldo até nas leis. Se a política é uma zona mesmo, a legislação brasileira regula a entrada ao bordel.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Galinha dálmata

Criança é de uma espontaneidade absurda.
Pena que quando vira adulto, geralmente, perde a característica.
O Otávio, quando menor, ficou espantado quando viu - pela primeira vez - uma galinha d'angola.
Tanto que ele teve uma definição espetacular para aquela galinha esquisita.
__Pai! uma galinha dálmata.
Falar o que nessas horas?
__É verdade, filho! É uma galinha dálmata mesmo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

De Jesus para Jésus

Sarado.
Alto.
Cabeleira dourada.
Fashion.
Bronzeado.
Musculoso.
Olhos azuis.

Esse é Jesus Cristo. Pelo menos a imagem de Jesus que o artista norte-americano Stephen Sawyer criou para o projeto Art4God.

"Um Chuck Norris de sandálias." A definição é do jornal New York Times.

Segundo a BBC Brasil, via Folha.com, os idealizadores do projeto Art4God têm o objetivo de "tentar aproximar os jovens da religião".

"Não sei como Cristo era visto há 2 mil anos, nem me importa. Quero criar uma iconografia que seja relevante para hoje."

As palavras de Sawyer reforçam uma triste evidência. A aparência é mais importante que o conteúdo.

Não importa o que Jesus pregou.

Não importa o que Jesus libertou.

Não importa o que Jesus deixou.

Importa a forma.

Importa o meio.

Importa a quantidade de fiéis.

A cultura ocidental é teimosa.

Teima em retratar um Jesus branco, alto, loiro e forte.

Até parece a descrição física do terrorista cristão de ultradireita, limpinho e cheiroso, Anders Behring Breivik, o norueguês que matou quase 100 jovens numa ilha da Noruega!

Jesus Cristo com cara de Cristo não atende às necessidades ocidentais.

É pecado mortal retratar Jesus com cara de oriente médio.

Sarado.
Alto.
Cabeleira dourada.
Fashion.
Bronzeado.
Musculoso.
Olhos azuis.

Se mesmo assim, esse Jesus não atrair os jovens para a religião, não tem problema.

Se o que vale é criar uma "iconografia que seja relevante para hoje", Jésus já está apto a posar pelado para alguma revista.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Perguntas incômodas

Ao Bonde, hoje (dia 20), sobre o possível fechamento dos pronto-socorros de Londrina nesta quarta-feira, o prefeito Barbosa Neto afirmou.

"O fechamento dos pronto-socorros não vai trazer prejuízos só para a população. O município tem a gestão plena dos recursos do SUS e se as unidades continuarem com a mesma posição, vamos entrar em contato com o Governo Federal e pedir o desligamento das duas instituições."

Se o município tem a gestão plena por que o prefeito deixou a saúde da cidade chegar ao caos que chegou?

Recentemente, o prefeito disse que não é função da prefeitura pagar o plantões a distância. Se a gestão é plena não pode pagar mesmo?

Os recursos do SUS têm fontes diferentes. Uma conta, por exemplo, para atenção básica; outra para urgência e emergência; ou seja, o SUS financia conforme a complexidade do sistema.

Nesta história da (falta de) saúde de Londrina existe muita ignorância ou má fé. Ou os dois.

Inquietudes (90) do Rei

A rotina é ingrata com aqueles que partiram.
O dia-a-dia conspira para que caiam no esquecimento.

domingo, 11 de setembro de 2011

Terror de quem mesmo?

11 de setembro de 2001. As Torres Gêmeas são derrubadas.

11 de setembro de 2011. O mundo homenageia os quase 3 mil mortos nas Torres Gêmeas.

Homenagem a trabalhadores das empresas que tinham sede nas Torres.

Homenagem a visitantes anônimos, que continuarão anônimos.

Homenagem a bombeiros que morreram no ofício do trabalho.

Na "guerra contra o terror" (terror de quem mesmo?), os EUA invadiram o Afeganistão e, depois, o Iraque.

Segundo estimativas, o governo norte-americano teria gasto, entre 2001 e 2010, cerca de US$ 1,15 trilhão com a guerra contra os dois países.

Somente no ano passado, US$ 687 bilhões foram consumidos pelo  Departamento de Defesa dos EUA.

Isso representa 43% dos gastos militares em todo o mundo, durante 2010. 

As informações são de Nivaldo Souza, em texto publicado no site do Ministério das Relações Exteriores.

Durante uma década, Bin Laden brincou de esconde-esconde e foi morto, providencialmente, no ano do 10º aniversário do atentado às Torres Gêmeas.

Durante uma década, as armas de destruição em massa de Saddam Hussein foram procuradas e não foram encontradas.

Saddam Hussein foi enforcado num espetáculo de terror contra o terror. Terror de quem mesmo?

Na guerra contra o terror (terror de quem mesmo?) os Estados Unidos e seus aliados fizerem centenas de milhares de vítimas.


Já a organização Iraq Body Count afirma que somente no Iraque foram mortos quase 112 mil civis.

11 de setembro de 2011.

Quem vai homenagear os civis mortos no Afeganistão e no Iraque?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Fatos contorcidos

__Não contorce o que eu disse.

A frase em tom ameaçador é da minha enteada, a Maíra, quando era bem pequena.


No lugar de contorce ela queria dizer distorce, mas o produto final saiu-se ainda melhor que a intenção.

Hoje vejo que ela está ainda mais atual.

É que grande parte dos jornalões brasileiros contorce os fatos para "provar" sua interpretação ao sabor da sua linha editorial.


Veja é um bom exemplo de fatos contorcidos. E por que a revista faz tanto sucesso?

Porque o seu leitor pensa exatamente igual a ela, independentemente da veracidade das informações.


Afinal, a verdade não é apenas uma questão de versão?

Que a grande mídia tem seus interesses, é sabido por todos. E por todas.

Mas enquanto a imprensa se comportar como partido fazendo menos jornalismo e mais propaganda política, quem perde é a democracia.

Afinal, nem sempre os interesses dos grupos midiáticos são os interesses da nação.

Um exemplo? A opinião de Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, ilustra bem a situação.

"A grande imprensa ainda não consegue comportar-se com naturalidade em assuntos que lhe dizem respeito. Exemplo disso foi a cobertura do 4º Congresso do PT, realizado de sexta-feira a domingo (2-4/9), em Brasília.

O acompanhamento do evento foi customizado, isto é, adaptado às posições dos jornais e acrescido de um clima de tensão visivelmente forçado. A imprensa só se preocupou consigo mesma esquecida de que o conclave teve uma vasta e variada pauta."

Para ler o artigo completo, clique aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

No dia 7 de setembro quero...

Independência...

para uma educação pública de qualidade, feita para todos.

para uma saúde pública de qualidade, feita para todos.

para políticos honestos que não se vendam por propina.

para empresários honestos que não paguem propina. 

para um meio ambiente que não seja apenas mote publicitário.

para andar a pé à noite pelo centro da cidade, sem medo de ser assaltado.

para ir e vir de carro, sem me preocupar se minha vida corre risco por causa de motoristas negligentes.

para assistir o que quiser na televisão, sem o jogo sujo da audiência.

para ouvir o que quiser nas emissoras de rádio e não apenas o que tocam em nome do jabá.

para educar meus filhos com valores e princípios que fujam aos da sociedade fragmentada e pouco solidária.

para respeitar a diversidade humana contra o estabelecimento de padrões que reduzem as pessoas ao consumo.

para acompanhar um jornalismo responsável que não se vende aos projetos políticos, sejam de direita sejam de esquerda.

Neste 7 de Setembro quero pouca coisa.

Quero apenas Independência.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Polícia ineficiente, justiça conivente

Jornal de Londrina, 5 de setembro de 2011.
Há quatro anos, vítima de mal-entendido tenta provar a inocência
Alexandre Pontes foi preso, mesmo sem provas, em 2007, acusado de ter furtado um achocolatado de R$ 2,50. Nova audiência do caso será realizada nesta segunda

A justiça brasileira nem sempre é justa, é lenta e privilegia quem tem dinheiro. Isso não é novidade para ninguém. Afinal advogados de criminosos ricos retardam, muitas vezes, o andamento de ações e protelam a realização de julgamentos. 

Em Londrina, artista plástica foi acusada de degolar a empregada e o que aconteceu? Em Londrina, a mulher foi esfaqueada 72 vezes pelo ex-marido e o que aconteceu?

E quem não pode comprar advogado caro não consegue provar sua inocência há quatro anos. 

Alexandre Pontes, que tem deficiência auditiva, foi acusado de roubar um achocolatado de R$ 2,50, foi tirado de dentro de um ônibus e ficou preso por 13 dias.

"Pontes foi preso por policiais militares dentro de um ônibus do transporte coletivo no dia 21 de fevereiro de 2007. O que tornou a situação incomum é que os funcionários do estabelecimento comercial, que teria sido alvo do assalto, afirmaram em depoimento que o rapaz não teria cometido crime algum. Eles teriam dito apenas que estranharam o comportamento de Pontes pelo fato de ele não ter falado nada quando foi acusado."

A Polícia - ineficiente para proteger a vida - consegue ser rápida para resolver problemas de danos ao patrimônio, mesmo que o dano seja de R$ 2,50.

Se a polícia é ineficiente, a justiça é conivente.

Para que legislação? se o ônus da prova não cabe mais a quem acusa, mas ao acusado que tem que provar sua inocência.

Quanto vale a vida? Quando vale a dignidade? Quanto vale a cidadania?

Vida, dignidade e cidadania valem pouco quando o estado é incompetente, o mercado é insensível e a sociedade é indiferente.

sábado, 3 de setembro de 2011

Arte da boa e da ruim

Buscando entender o que é esse negócio de pós-moderno, encontrei na web algumas coisas interessantes para refletir. Essa coisa da pós-modernidade não tem fronteiras, não limites rígidos.

Afinal, algumas áreas em alguns segmentos como o do mercado de trabalho, a vida dos trabalhadores ainda é pré-industrial. Pós-moderno aqui seria luxo, coisa de gente afrescalhada que se acha sofisticadamente sofisticada.

Então o que caracterizaria a pós-modernidade? Alguns diriam que é a época e o contexto caracterizados por mudanças significativas provocadas e vividas pelo ser humano, num ambiente de fragmentação, de incertezas, de troca de valores, numa sociedade narcisista, imediatista, consumista.

Eita, o mundo atual - globalizadamente com suas porteiras fechadas (a Europa sabe bem disso) - é mais pós-moderno do que eu pensava.

Em se tratando de arte, então, o negócio é de arrepiar: arte clássica, arte contemporânea, arte que rotula, arte dos e de rotulados. Dia desses, vi uma matéria no Portal IG, em que o Museu de Arte Ruim - é isso mesmo, tem até museu de arte ruim! - estava com uma exposição de gente comum. Artista da arte boa deve ser incomum, coisa de gente afrescalhada que se acha sofisticadamente sofisticada.

O tal Museu de Arte Ruim - em inglês Museum of Bad Art - instalou a exposição das pessoas comuns "ao lado do banheiro masculino do porão de um teatro na cidade de Boston..." Puta que pariu, além de ser comum e pintar mal o quadro vai parar no porão, ao lado do banheiro masculino. Mas se isso serve de consolo, "segundo os próprios curadores, [as obras] são tão ruins que não podem ser ignoradas."

E o pior é que os curadores - aquela gente incomum, pomposa e empolada (característica de quem tem empolas) - devem se divertir com a obra ruim da gente comum. E daí, fiquei pensando o que seria arte boa.

Seria aquela pintada por alguém que caiu nas graças de alguém e se tornou incomum?

Seria aquela chancelada por algum curador - incomum e empolado - que intermediou a venda para aquela socialite incomum, mas que entende de arte tanto quanto a gente comum que expôs no Museu da Arte Ruim, e embolsou uma comissão gorda?

Seria aquela arte para a qual o espectador olha, olha, olha e - para não fazer feio diante dos amigos que também olham, olham, olham - tenta explicar o inexplicável? __Esse quadro remete a uma natureza profunda que mexe com a psique humana porque a combinação de cores e traços busca explicar a essência do sentimento contido na intenção do artista, que tem na inspiração dos conflitos existenciais o seu gatilho para produzir.

É nessas horas que me lembro ainda mais da gente comum, do Zé. Zé tem nome de gente comum. Zé tem sabedoria de gente comum. O Zé Ramalho e o Zé(ca) Baleiro.

Minha mãe certa vez disse-me um dia,
Vendo minha obra exposta na galeria,
"Meu filho, isso é mais estranho que o cu da jia
E muito mais feio que um hipopótamo insone"


Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o segundo caderno,
Calcular o produto bruto interno,
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone,
Rodopiando na fúria do ciclone,
Reinvento o céu e o inferno

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Inquietudes (89) do Rei

As palavras são inocentes; quem as usa não!

Rótulos estigmatizam os rotulados

Há certo tempo os termos politicamente corretos são alvo de debate, com acaloradas discussões. Há quem defenda a revisão dos "termos racistas" da obra de Monteiro Lobato. Outros argumentam pela mudança até de músicas do cancioneiro popular. Neste cenário, o cravo não pode mais brigar com a rosa porque estimularia a violência de gênero, ou seja, a violência contra a mulher. Outros defendem que o politicamente correto castra a liberdade de expressão e que o ser humano é livre para usar palavras que julgar adequadas em qualquer contexto.

Exageros à parte dos dois lados, a discussão é importante e necessária. Já abordei esse tema no artigo "A linguagem e o politicamente correto".  E defendo uma divisão para o uso do politicamente correto. No dia-a-dia de pessoas comuns, a dimensão e a repercussão das palavras são diferentes daquelas usadas nos veículos de comunicação. Por isso, a responsabilidade dos comunicadores é muito grande. Afinal eles informam, desinformam, formam e deformam a opinião pública.

Neste contexto a expressão crianças especiais comporta uma série de reflexões. Exemplo pode ser conferido na manchete do jornal Folha de Londrina, de 10 de agosto, na capa do caderno Folha Cidades: "Crianças especiais precisam de padrinhos". A reportagem mostra os benefícios da equoterapia para crianças com deficiências e que precisam de ajuda financeira para fazer (ou continuar) o tratamento.

Toda criança - para alguém, por exemplo seus pais, avós, professores - é especial mesmo que não tenha deficiência. O especial aqui pode ser considerado sinônimo de única. Ocorre que as crianças com deficiência lutam pela inclusão, para serem aceitas como qualquer outra criança. O termo especial, neste sentido, a torna ainda mais diferente, portadora de uma situação que foge à "normalidade". Afinal uma das definições da palavra especial é "fora do comum".

Então se é fora do comum para que lutar para ser reconhecida como igual aos outros? O ser humano, por natureza, busca ser fora do comum, mas isso está vinculado às habilidades e competências e não às características físicas ou intelectuais. Neste ponto, vale outra reflexão. A criança com deficiência metabólica que necessita de dieta específica e medicamento exclusivo não é considerada especial. Por que? Porque sua condição não é visível, não solta ao olhar curioso de terceiros (e de jornalistas) que enxergam as diferenças que apenas conseguem ver.

Neste sentido, o ideal é que em vez de especial, o jornalismo use o termo com deficiência, uma vez que deficiências todos nós apresentamos em grau maior ou menor. Houve uma época (e ainda há) em que era comum extrair - por causa de um dente ruim - vários outros e instalar uma prótese dentária, termo mais atual e politicamente correto para dentadura, ponte móvel, perereca, entre outros. Hoje muitos adultos substituíram a tal da prótese por implantes de titânio e, nem por isso, são considerados especiais, mesmo tendo uma deficiência dentária. Este é o meu caso. Tenho seis implantes dentários de titânio. Posso garantir, que existe nada de especial nisso.

O mesmo não se pode dizer das pessoas que usam pernas ou braços mecânicos. E aqui mais uma vez entra a noção da palavra associada ao que as pessoas conseguem ver. A perna mecânica é mais diferente que os dentes mecânicos e ganha ares de excepcionalidade. Isso porque é visível, causa estranheza e ruídos à "normalidade" do ser humano. Em que pesem as particularidades, pernas e dentes "mecânicos" têm o mesmo princípio, um mecanismo de artificialidade que devolve as funções naturais ao ato de andar e comer.

Aliás, o termo excepcional foi usado largamente décadas atrás - e ainda hoje (certo, Apaes?) para classificar pessoas com deficiências. A palavra excepcional chega a ser sinônimo de "indivíduos (diz-se mais especialmente de crianças) portadores de algum defeito físico ou enfermidade, como cegueira, surdez, mudez, paralisia, retardamento mental etc." A definição é do Dicionário Michaelis. Se o excepcional é deficiente por definição, como conseguir ser respeitado como "normal"?

Portanto, a palavra que deveria ser usada para incluir acaba excluindo ainda mais. E não se trata de negar as diferenças. Trata-se de reconhecê-las, assumi-las, para assim promover a igualdade entre os diferentes no que diz respeito aos direitos. E a promoção da igualdade passa também pelo uso da palavra porque ajuda a criar uma cultura de respeito. Neste sentido, especial e excepcional são rótulos que acabam dando uma condição ainda mais extraordinária à criança com deficiência que continuarão estigmatizadas, rotuladas. E são apenas crianças.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Vingança não é justiça

Nos últimos dias, ganhou repercussão na mídia, um vídeo em que policiais militares de São Paulo (ah! o estado mais desenvolvido da nação), depois de balearem supostos assaltantes, brincam com os agonizantes. Supostos porque não foram condenados pelos crimes que são acusados de cometer. 

"Filho da puta, você não morreu ainda? Olha pra cá! Maldito. Não morreu ainda." A frase é atribuída a um policial militar que teria participado do confronto. "Estrebucha! Filho da puta", diz outro pago com dinheiro do contribuinte. Quem tiver estômago, pode assistir ao vídeo, na Folha.com.

Policiais envolvidos em confrontos que matam ou morrem não é novidade para ninguém. O que assusta - naturalmente para quem defende a justiça - é a forma como muitos da corporação se comportam em situações extremas.


Em muitos casos, não se consegue distinguir quem são os bandidos. Alguns podem dizer que são os que estão de capuz; outros que são os fardados. Enfim, a violência policial parece ser uma característica no país. Capitão Nascimento não é personagem da ficção nem mera coincidência.

A violência policial é ainda mais perversa porque tem endereço certo. O pobre. Não se vêem imagens como as dos policiais gritando estrebucha para bandido rico brasileiro. Aliás, bandido rico tem advogado caro e conta com a proteção a sua imagem com a participação oficial do estado. Alguém já viu a Polícia Militar ou Civil expor grandes empresários nas salinhas da imprensa com a logomarca da corporação atrás? Esse é um expediente da polícia para os bandidos pobres.

Que a polícia tem uma banda podre não é novidade para ninguém também. O assassinato da juíza Patrícia Acioli, em Niterói (RJ), revela esse cenário perversamente perturbador. Segundo a Folha.com "O comandante da Policia Militar do Rio, o coronel Mário Sérgio Duarte, disse nesta segunda-feira [dia 22] que trabalha com a hipótese de participação de PMs no assassinato".

Além da proteção oficial - direcionada para os ricos - a ação da banda podre da polícia conta com grande apoio da população que, convenientemente confunde vingança com justiça. Isso pode ser percebido pelos comentários em reportagens sobre a ação dos policias do "estrebucha".

São milhares de internautas. Na pauta, a suposta liberdade de expressão, já que parece mais apologia ao crime.

"Polícia tem que tratar bandido na bala! E ponto final!"
"Prefiro pagar pelas balas do que custear as cadeias, bala nos bandidos!" 
"Parabéns, a PM manda bala neles mesmo."
"Se tivéssemos mais policiais como estes, muitas cadeias não estariam superlotadas..."


Outros internautas mostram-se tão sanguinários quantos os PMs que entram em gozo ao ver baleados agonizando.


"Adorei, por mim ficava assistindo a esse vídeo o dia todo."
"Cumpriram muito bem seu trabalho. Nota 10."
"Gostaria de presente aos policiais. Gostei dos caras."
"Perderam vermes... parabéns aos policiais."
"Vamos fazer uma vaquinha para premiar estes policiais corajosos!"


E os direitos garantidos na legislação? Para que? Provavelmente, os internautas abaixo se achem mais humanos que os outros.


"Pois se esses dois marginais aprontaram, a polícia fez o certo! E não me venham com aquele papinho de direitos humanos!"
"Direitos humanos pra quem é humano e não pra animal irracional!"
"Direitos humanos pra esse tipo de pessoas pra que?"


Quando a polícia tem licença para matar qualquer um pode ser a vítima, inclusive aqueles que defendem que policiais tratem bandidos na ponta da bala.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Censura silenciosa

A Folha.com noticiou ontem (dia 23) que a "censura judicial imposta a veículos de comunicação e direito de acesso a documentos públicos foram os principais temas debatidos na 6ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Expressão." O evento foi realizado em Brasília.

Um dos exemplos que vieram à tona durante a conferência foi a decisão judicial, de 2009, que impediu o jornal O Estado de S. Paulo de veicular "reportagens sobre operação da Polícia Federal que investigava o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP)."


A reportagem destacou uma fala de Taís Gasparian, mestre em Direito pela USP e advogada da Folha. "A censura judicial chega a ser pior que a censura imposta pela ditadura militar."

Jornalistas e profissionais dos veículos tradicionais de comunicação - a Folha de S.Paulo soma-se ao Estadão, Veja, Isto É, Época, Globo, Record, SBT, Band, enfim... - atacam a censura externa. E fazem muito bem. Qualquer forma de censura é prejudicial à democracia e à cidadania.


Infelizmente esses mesmos profissionais e veículos não têm a disposição e o ânimo para atacar outra forma de censura. A autocensura. Esse tipo é interno, está no âmbito das redações dos próprios veículos de comunicação, portanto, afeta diretamente o profissional e o veículo.

A autocensura passa também por quem planeja os conteúdos e consiste em não abordar assuntos espinhosos à política editorial do veículo, por causa dos seus interesses político-ideológicos e, principalmente, econômicos.

Um exemplo? Vários. A grande imprensa não aborda temas com profundidade que contrariem os interesses de seus anunciantes p-r-i-v-a-d-o-s como operadoras de telefonia, bancos, construtoras, entre outros.

Já repararam que quase não há no noticiário brasileiro empresário corrupto? Somente os que se envolvem com a teia da corrupção política e que, muitas vezes, aparecem como vítimas de políticos corruptos. E quem paga propina é o que? E quem paga pagar levar vantagem é o que?

Já repararam que no noticiário brasileiro são escassas as reportagens sobre grandes grupos (como supermercados, lojistas, distribuidores) que lesam o consumidor?


Já repararam que no noticiário brasileiro são poucas as reportagens que abordam empregadores que desrespeitam sistematicamente os direitos trabalhistas? 

Já repararam que não há debate profundo sobre grandes marcas que degradam o meio ambiente?

Geralmente quando o assunto é abordado pela grande imprensa, a fonte da notícia é oficial, ou seja, algum órgão público multou a empresa A , fechou a indústria B, lacrou o estabelecimento C.

O caso recente da Zara prova isso. O Ministério do Trabalho flagrou diversas irregularidades, incluindo condições de trabalho próximas à escravidão, em confecções da marca espanhola. A investigação do órgão público é que deu origem às notícias, mas sem grande repercussão ou destaque nas primeiras páginas dos dias subsequentes.

Censura judicial e censura imposta por ditaduras são prejudiciais e devem ser combatidas sempre, assim como a autocensura. Essa é muito perigosa e - talvez pior - por ser selenciosa e contar com a conivência dos próprios veículos de comunicação.