quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cobertura de consequências ignora as causas

Abordar informação especializada exige conhecimento, dedicação e profundidade. Infelizmente essas não parecem ser características inerentes ao jornalismo diário, muito menos do modelo telejornalístico brasileiro.
 
O cenário é conhecido de repórteres, cinegrafistas e fotógrafos. Filas imensas em postos de saúde e hospitais. Pacientes internados em macas. Falta de leitos de UTI. Falta de médicos. Insuficiência de profissionais no atendimento à saúde da população. Entra ano e sai ano, a pauta se repete porque se repetem os problemas do setor.

Enquanto isso... os agentes públicos acusam outras esferas de governo de não cumprirem seu papel constitucional. Em meio à discussão, está a reportagem que sem ser especializada no assunto apenas reproduz as falas, sem avaliar o problema com profundidade. Se a fonte é responsável pelo que fala, a imprensa é responsável pelo que publica.

A cobertura jornalística na área de saúde pública, ou seja, sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) é feita, principalmente, tendo como foco as conseqüências. Afinal, é o factual que determina o que será publicado. Infelizmente. A falta de médico, as filas grandes, as equipes insuficientes, a falta de leitos e os pacientes em macas são elementos concretos para os jornalistas que gostam de uma história de pronto-socorro. Quanto mais dramática - melhor. Confunde-se humanização do relato jornalístico com dramatização dos fatos.

Um exemplo neste sentido - e há muitos pelo Brasil diariamente - vem da TV Coroados, em Londrina, emissora da Rede Paranaense de Comunicação (RPC), afiliada da Rede Globo. No dia 19/01, a reportagem "Por falta de médicos, população fica sem atendimento" aborda que a "Prefeitura e governo estadual não se responsabilizam" - pelo caos no setor. Para assistir a reportagem clique aqui.

O prefeito de Londrina, Barbosa Neto, afirma que "temos hospitais dentro da cidade que estão se negando a atender os pacientes e empurrando a batata para os postos de saúde". Na fala, o prefeito revela desconhecer que problemas da atenção básica devem ser resolvidos nos postos de saúde e a assistência deve ser garantida pela rede municipal. Em vez de assumir postura de gestor, o prefeito transfere a responsabilidade para o estado.

O estado, representado pelo diretor do Hospital da Zona Sul (HZS), o médico Weber de Arruda Leite, afirma que "os próprios pacientes com os familiares, vendo que nos postos de saúde não resolve a situação (...) procuram direto os hospitais". A estrutura de média complexidade do HZS não deve realmente ser desperdiçada com atendimento básico, mas como anda o atendimento do órgão na complexidade que lhe compete?

Além desses aspectos, devem ser considerados outros. Município e estado "empurrando a batata" é normal quando os gestores - independentemente da instância de governo - não assumem seu papel. Se por um lado, a Prefeitura de Londrina não age como gestora do sistema de saúde, deixando à deriva a complexa rede de serviços, incluindo os próprios, os do estado e os filantrópicos, por outro lado, o Paraná deixa de aplicar os percentuais estabelecidos pela Emenda Constitucional 29 (EC 29).

Conforme o Fórum Popular de Saúde do Paraná, o estado deixa de aplicar os 12% determinados pela emenda. O assunto - recorrente - voltou a ser debatido em 2009, durante a 9ª Conferência Estadual de Saúde. "Sem recurso suficiente, a Sesa [Secretaria de Estado da Saúde] não desenvolve as ações necessárias para o cumprimento de suas atribuições." Para ler documento do fórum, clique aqui. A Sesa é responsável, por exemplo, pelo Hospital da Zona Sul em Londrina.

O financiamento do SUS é estabelecido em lei e deve ser tripartite entre Município, Estado e União. Como está o repasse do Estado para o Fundo Municipal de Saúde de Londrina para o financiamento das ações de atendimento à saúde da população da região? Vale lembrar que os três hospitais estaduais (Hospital Universitário, Hospital da Zona Sul e Hospital da Zona Norte) que funcionam em Londrina, são credenciados do SUS e parte do recurso que vem do governo federal é utilizado para pagar a produção dos referidos hospitais.

Se a prefeitura do município não age como gestora do SUS e o Estado não aplica na saúde os percentuais mínimos estabelecidos pela legislação, significa que ambos têm responsabilidade e não devem "empurrar a batata" um para o outro. A batata é de ambos os poderes, que devem sentar, planejar e executar as ações de saúde com responsabilidade.

E por que a reportagem não fez questionamentos como os listados aqui? Exatamente porque trata os fatos como consequência sem avaliar com profundidade as suas causas. E no jogo noticioso, isso mais confunde que esclarece o telespectador, alvo de um noticiário superficial. Abordar informação especializada exige conhecimento, dedicação e profundidade. Portanto, exige muito investimento. Infelizmente essas não parecem ser características inerentes ao jornalismo diário, muito menos do modelo telejornalístico brasileiro.

Qualificação das fontes

 
A reportagem em questão ainda suscita outra discussão: a qualificação das fontes para apresentar sugestão para os problemas apontados. Em meio ao jogo de empurra da prefeitura e do estado, surge um representante da Associação Médica de Londrina, o vice-presidente Álvaro Luiz de Oliveira. Um representante de uma entidade corporativa como a médica - que tem seus méritos - porém está fora do gerenciamento do SUS, é a fonte mais adequada para apresentar soluções para o sistema? Por que médicos são sempre ouvidos em reportagem sobre o SUS, mesmo quando não pertence aos quadros da saúde pública?

Arrisco uma resposta. Os médicos são considerados pela imprensa como sinônimos de gestão de serviços. E não deviam ser. Eles são sinônimos de poder na saúde porque ocupam geralmente o cargo principal, por exemplo, o de secretário de saúde. No dia-a-dia do serviço, quem gerencia a assistência propriamente dita são, em sua maioria, outros profissionais da área, como enfermeiros, dentistas, psicólogos. Como historicamente sempre ocuparam os cargos principais, os médicos (doutor - de preferência) acabam sendo alçados à condição de fonte jornalística, mesmo que em entidades corporativas, para discutir assuntos aos quais não estão ligados diretamente.

E como fonte da reportagem, o representante da Associação Médica local sugere "um mutirão político, um mutirão de pessoas da sociedade pra ajuda ao município (...)". Em vez de cobrar estado e município para assumir suas responsabilidades, a sugestão do médico divide ainda mais as tarefas, diluindo o papel que cada um deve ter.

Se considerar que Londrina foi um dos municípios que integrou no final dos anos 1960 e 1970 o movimento da Reforma Sanitária, um dos pilares da criação do SUS em 1988, a cidade oferece fontes mais adequadas para dar sugestões - com sugestões mais adequadas - para os problemas da saúde pública.

E os critérios para escolher as fontes para uma reportagem variam muito. Vão desde a ideologia que permeia a pauta e a linha editorial do veículo, até a disponibilidade de nomes para atender a reportagem quando ela precisa. De qualquer forma isso não é um processo isento. A reportagem escolhe quem vai falar e, portanto, o que vai ser falado.

Texto  publicado na seção "Jornal de Debates" do portal "Observatório da Imprensa", edição 626, de 25/01/2011.

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