quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Coisas do passado

Ele sempre alimentou a vontade de rever, conversar, contemplar, admirar a professora que lhe dera muitos estímulos e a quem alimentava enorme gratidão

Ele gosta de ciências por causa da professora que teve durante a 6 ª e a 7ª séries. Ela era meiga, didática e bonita. Ele sentia-se estimulado para estudar e esforçava-se muito. A recompensa vinha em forma de nota. Todos os bimestres, fechava em 100. Ele era o orgulho da turma, dele mesmo e, principalmente, dela.

Os anos passaram, ele terminou o antigo segundo grau e deixou a pequena cidade para estudar na cidade grande. Ele perdeu contato com a professora, a quem sempre dedicou os melhores sentimentos. Sentia falta dela, das suas palavras, das suas dicas. Ela não apenas ensinava. Ela dava exemplos a partir da sua própria vivência.

Ele terminou a faculdade, arranjou um emprego e as coisas do passado foram ficando cada vez mais distantes. No passado. Quando ia para a cidade pequena, era para ver os pais e ficava poucos dias curtindo a família. Tinha pouco tempo e, por isso, via poucos amigos e esses foram rareando cada vez mais, até perder o contato.

No fundo, ele sempre alimentou a vontade de rever, conversar, contemplar, admirar a professora que lhe dera muitos estímulos e a quem alimentava enorme gratidão. Vinte anos mais tarde, ele conseguiu encontrá-la pela internet. Através do Orkut, ele a adicionou em sua listagem e esperava matar a saudade, fermentada pelo tempo.

O primeiro contato foi formal. Ele disse poucas palavras e pediu permissão para adicioná-la. Em resposta, veio a autorização acompanhada de uma frase célebre de alguém célebre. Mas ele não se lembra da celebridade. Ele escreveu novamente e contou da emoção de poder revê-la, de poder falar do que fazia, das coisas feitas, das coisas a serem feitas. Em resposta, outra frase célebre de alguém célebre.

O diálogo continuou por mais algumas postagens. No entanto, ele sentia-se num monólogo. Ele falava e ela respondia pela boca dos outros, as tais frases célebres de algué"ns" célebres. Ele parou uns dias de escrever e começou a receber dela infindáveis correntes. "Envie para 10 de seus contatos e algo de bom acontecerá; envie para 20 e algo de muito bom acontecerá." "Se você não enviar para os seus contatos, algo de ruim acontecerá". "Se você adora Jesus, envie para 50 de seus contatos".

E as chantagens iam se reproduzindo, assim como brotava nele a decepção. E o pior, as mensagens não vinham direcionadas a ele. Não eram exclusivas. Eram uma epidemia, eram coisa de massa, sem nome do destinatário. Por isso, nas primeiras chantagens internéticas, ele cedeu e multiplicou as mensagens. Fez isso umas duas vezes e se cansou. Ele detesta mensagens ameaçadoras e revanchistas. Ele acreditava ter acabado a relação.

Um tempo depois - sem exclusividade - ele começou a receber dela, mensagens de autoajuda. De solidariedade a Jesus Cristo; de obediência civil à paz interna; de saúde mental a consumismo. E o pior, as mensagens vinham em formato de cartão virtual, daqueles com anjos holográficos, ursinhos chorosos, estrelas cintilantes, fadas etéreas e muita muita muita muita muita cor.

Ela era ídolo dele. Ele não acreditava que recebia tais cartões, que para ele - apesar de graficamente bem feitos - representam a ausência de envolvimento pessoal. Para ele, é a terceirização dos desejos. Em vez de alguém desejar algo em poucas linhas próprias, com palavras próprias, passa para um cartão virtual essa responsabilidade. Ele não respondeu mais às mensagens multicoloridas de massa e o contato murchou. Hoje, ele faz questão de se lembrar dela apenas do seu tempo de escola e chegou a uma decisão inevitável.

__É melhor que algumas coisas permaneçam no passado.

Um comentário:

This Gomez disse...

Cara...

Todo mundo já teve um professor que admirou, né? E, tipo, os nossos pais também foram heróis até o dia em que a gente percebeu as inúmeras falhas...

De fato, no passado, a gente era feliz =/