terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Saúde do homem como foco da notícia

A saúde masculina não ocupa as telas, as ondas e as páginas da imprensa com a freqüência necessária para ajudar a criar uma cultura de cuidado para a saúde do homem. Isso também é responsabilidade do poder público, já que a Política Nacional de Saúde do Homem, de forma sistematizada, é recente. O Ministério da Saúde lançou a política em agosto de 2009, ou seja, há apenas um ano e cinco meses. Demorou muito, se comparado aos programas de saúde da mulher que existem aos montes e há muito tempo.

Não que faltassem iniciativas federais, estaduais e municipais na área da saúde masculina. No entanto, definitivamente, não foram suficientes para criar a tal cultura de cuidado. É de conhecimento amplo que a maioria dos homens somente procura ajuda médica quando, muitas vezes, é tarde. E se essa procura fosse uma rotina, ou seja, integrasse uma cultura, muitas mortes poderiam ser evitadas.

O câncer de próstata está aí para provar essa situação. E o exame - o polêmico toque retal - quando detecta a doença no início aumenta as chances de cura. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de próstata é o segundo mais comum em homens. Perde apenas para o câncer de pele. A estimativa, conforme dados disponíveis no portal do Inca, é que o Brasil registre, em 2010, 52.350 novos casos. Em 2008, o câncer de próstata fez 11.955 vítimas fatais no país.

Portanto, quando a imprensa aborda a saúde do homem é merecedora de elogios. E quando aborda a interface saúde e sexualidade, mais elogios merece. Um exemplo é a reportagem do jornal norte-paranaense "Folha de Londrina" "Investigar infertilidade pode salvar e gerar vidas", do último dia 10 de janeiro (pag. 10). A reportagem, na seção "Folha Saúde", tratou da infertilidade masculina.

A "Folha" apresentou dados estatísticos e doenças comuns em homens que apresentam infertilidade e ilustrou o material com um casal que tentava engravidar. Ele descobriu ter varicocele e depois do tratamento, a mulher engravidou. Hoje o casal espera o segundo filho.

Apesar de a reportagem ser pontual - trata da infertilidade masculina - e não contextualizar a saúde do homem de modo geral, ela cumpre uma função importante: a necessidade de investigar a infertilidade. Historicamente, a mulher é "culpada" por não gerar crianças e somente depois de comprovar que é fértil é que se pensa na possibilidade do homem ser infértil. A realidade dos personagens da "Folha" mostra que isso ainda impera. Ele procurou ajuda depois que foi descartada que ela não tinha problemas para engravidar. Ponto para a "Folha".

Paternidade X reprodução

Se a referida reportagem merece elogios por abordar um tema que não é recorrente na imprensa, infelizmente fica devendo quando cruzados dois temas reprodução e paternidade/maternidade. Veja esses trechos do texto da reportagem: "(...) tratou de uma varicocele que lhe impedia de ser pai (...)"; "(...) a infertilidade pode ser tratada. Além de garantir ao homem a possibilidade de ser tornar pai, (...)"; "(...) 40% dos homens que não conseguem ter filhos apresentam doenças (...)".  

O discurso, por trás do texto, associa ter filhos com reprodução. O casal que ilustra a reportagem não está impedido de ter filho por causa da varicocele. A doença impede o casal de reproduzir o que vai gerar filhos para que exerçam sua paternidade e maternidade. Muitos podem alegar que esse cruzamento de assuntos é desnecessário, mas é preciso discutir a relação.

Ninguém está impedido de ser pai ou mai por não poder reproduzir. Muitos pais e mães não reproduziram e têm filhos legítimos. A adoção e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) provam isso. Aliás, muitos homens e mulheres reproduzem e abrem mão de serem pais e mães, deixando as crianças sob a custódia de familiares, do estado e até de desconhecidos. Portanto, a correlação ter filhos e reprodução não deve ser tão automática assim.

Enquanto o tema ter filhos for tratado como sinônimo de reprodução, a cultura da adoção nunca será fortalecida. A adoção não se configura como a primeira opção para quem quer exercer a maternidade/paternidade. Ela é a última opção para a maioria dos casais que não conseguem reproduzir, depois de tentar as tantas técnicas de fertilização artificial existentes.

Talvez por isso, as reportagens que abordam a adoção, fazem numa perspectiva de solidariedade ao próximo, de um ato de amor à humanidade, de uma atitude grandiosa dos adotantes. Nas reportagens, a adoção é glamurizada. Por que a adoção não pode ser algo natural e a primeira opção para quem quer ser pai ou mãe? E isso é assunto para outro artigo.


Texto  publicado na seção "Feitos & Desfeitas" do portal "Observatório da Imprensa", edição 625, de 18/01/2011.

Um comentário:

Guilherme Palma disse...

é exatamente o que eu penso a respeito da adoção Reinaldo. para alguns parece que adotar filhos é um ato de coragem ou heroísmo, quando deveria ser um simples ato de amor e compaixão. bem colocado também a respeito da saude masculina. eu ja consigo me desvencilhar da herança de nossos avós e pais e vou regularmente ao médico e sempre aconselho amigos.
abraços