sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sorriso verdadeiro

Como é bom se apaixonar. E melhor ainda, se apaixonar pela mesma mulher. A mulher que você já conhece, que você sabe os gostos e as manias.

Casamento. Isso é muito mais que um momento para atrair convidados para a festa ou para a cerimônia. Mais que uma ocasião externa é um evento interno, pessoal e intransferível. Falo isso porque quando me casei com a Clara só tinha olhos para ela. Lembro-me dela entrando na igreja. Estava radiante. O sorriso verdadeiro que vi em seu rosto naquele dia me acompanha até hoje.

E sempre foi assim. Casei-me muito cedo. Com 16 anos. Clara tinha 14. Na minha época de moço era comum perder com mulheres mais velhas, com as profissionais, mas - não sei porque - não aconteceu. Comigo foi diferente e fui conhecer o amor com a Clara. Tornei-me homem com ela. Aliás, ela foi a primeira e única.

Passamos muitas coisas. Juntos. O primeiro filho? A gente não sabia o que fazer. Até trocar fraldas era difícil. Não havia descartáveis como as de hoje. Choro de madrugada. Cólica. Vômito. Ainda bem que inventaram as mães e as sogras para nos socorrer. Depois, com o segundo foi um pouco mais fácil. Com os outros quatro, tiramos de letra.

E a vida foi passando. Os filhos crescendo. E nunca deixei de amar a Clara. E sempre estávamos juntos. Nos momentos fáceis e nas situações difíceis. É neste último tipo que a gente prova que gosta. Prova que não é só uma aventura. A gente abre mão das próprias vontades para que tudo dê certo. E sempre dá certo.

Lembro que quando completamos 30 anos de casados, ganhamos dos filhos uma viagem. Conhecemos Natal, uma cidade encantadora. Fomos de avião. Nunca tínhamos andado de avião. Foram cinco dias para reafirmar o compromisso de uma vida a dois. Como é bom se apaixonar. E melhor ainda, se apaixonar pela mesma mulher. A mulher que você já conhece, que você sabe os gostos e as manias. A convivência fica ainda melhor.

Ocasiões especiais? Posso citar algumas. Nossa primeira nora. Nossa primeira neta. Nosso primeiro carro. Nosso primeiro bisneto. Nossa primeira casa própria. Nossas Bodas de Ouro. Três dias de festa. Não faltou ninguém. Até um neto que estava no exterior veio para a data. Mas tem coisas simples também, como ficar juntinho embaixo do ipê rosa no fundo da casa. No inverno, melhor ainda.

Agora estou aqui, nesta joalheria escolhendo um presente para o meu novo casamento com a Clara. A mulher da minha vida. Na próxima semana completa 75 anos que estamos juntos. Sei que ela não está comigo mais. Faz dois meses que ela se foi. Tudo bem. Esse anel de compromisso eu entrego quando encontrá-la novamente. Não vai demorar muito para eu rever o sorriso verdadeiro que vi em seu rosto, igualzinho ao de 75 anos atrás.

Crônica produzida especialmente para o anuário "Arrazze Maganize", edição São Paulo. Junho de 2010. O texto virou editorial da publicação.

2 comentários:

This Gomez disse...

Devo dizer que chorei, por aqui =.)

Guilherme Palma disse...

Belissima crônica