sábado, 26 de fevereiro de 2011

Inquietudes (56) do Rei

Neste ano, vou pular o carnaval. Vou pular de sábado para a quarta-feira de Cinzas.

Receita de economista

A Creide não aguenta mais entrevista de economista para telejornal sobre as compras no comércio da cidade.

Aquele especialista em finanças domésticas, entrevistado pela centésima vez por aquele repórter, repete que o consumidor deve dar preferência para as compras à vista.

Assim, o consumidor pode pedir um desconto maior e não precisa pagar os juros embutidos nas parcelas da compra a prazo.

__ Nas compras parceladas, o consumidor paga uma taxa de juros muito alta. Se ele optar pela compra à vista, consegue economizar uma boa quantia. E essa diferença, ele pode usar para outras necessidades.

E o pior é que a Creide ouve isso naquela TV LCD de 37" que ela comprou em 18 vezes e a primeira somente para depois do Carnaval.

Receita médica

Ele chega à consulta e o médico confirma o diagnóstico: estresse, cansaço, fadiga.

__O que eu tomo para melhorar, doutor?

__Eu posso dar uma receita, mas tem que levar uma vida mais tranquila. Não trabalhar muito. Ter um bom salário. Se dedicar ao lazer. Viajar. Fazer sexo regularmente. Praticar atividade física. Fazer refeições saudáveis. Assim você terá uma boa qualidade de vida.

__Certo. Vou tentar mudar então.

Ele sai do consultório, se achando uma besta e pensando. 

_ _ E eu paguei uma consulta para o médico receitar o que já eu sei? E o pior que não vou conseguir cumprir?!

E assim, ele volta a sua rotina estressante que vai continuar estressando.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Carnavais passados

Quando chega essa época do ano, ele e ela sentem uma enorme angústia. Carnaval não tem mais um significado de festa, de feriado, de curtição. Tem um significado triste, que lembra coisas que não precisariam ter acontecido. E essas lembranças seguem lembradas. Ele e ela não conseguem esquecer os carnavais passados.

Ela e um grupo de amigas, alguns anos atrás, foram para o litoral. Muita festa, bebida, azaração. Afinal, ela e elas querem curtir, curtir e curtir o momento. Sem prazo como as coisas da faculdade. Sem exigências do trabalho. Sem cobranças da família.

Ele raramente viajava com a mulher e os dois filhos, que cobravam uma pausa para o descanso. Sossego. Convivência. Seu dia-a-dia era uma rotina estressante. Os clientes não esperavam. Exigiam. Se não atendesse, perdia a encomenda e o faturamento. Afinal, tempo é dinheiro. E para aguentar, umas doses ajudavam.

Memórias dos carnavais passados...

Ela e as amigas saem todas as noites de carnaval. Clubes, bares, ruas. O clima de extravasamento contamina o ar. Ninguém quer compromisso. Para que? Todas têm suas agendas e seguem-nas rigorosamente no dia-a-dia. Família. Trabalho. Faculdade. Carnaval serve para pegar. Ela bebe muito desde a primeira noite. Troca beijos. É melhor não saber quem são. Termina numa cama de hotel. A noite foi quente em todos os sentidos.

Ele consegue marcar uma viagem de três dias. A família está muito animada. A mulher e os filhos planejam o roteiro, agendam os passeios, marcam as atrações turísticas. Malas prontas. Destino certo. No dia anterior, ele trabalha muito. Muito mesmo. Tem que deixar tudo em dia. Para aguentar as obrigações, toma umas doses e dorme pouco.

Memórias nos carnavais atuais...

Ela nem se lembra de ter usado camisinha naquele hotel barato, mas vai lembrar-se disso para o resto da vida. Hoje um vírus a acompanha nos clubes e carnavais de rua. Atualmente, suas noites de folia são dedicadas a uma ONG que realiza panfletagem sobre a importância do sexo seguro, não somente no carnaval, mas sempre.

Ele também não se lembra de muita coisa. Suas memórias, às vezes, trazem uma curva, um caminhão, um acidente. Por causa do cansaço e das doses da noite anterior, ele acabou invadindo a pista contrária. Sua família é uma lembrança. Uma lembrança de que ele poderia ter feito tudo de outra forma. Hoje, ele também se dedica a uma associação que reúne pessoas que perderam parentes para a imprudência e realiza atividades de conscientização.

Ele e ela não podem voltar atrás, mas lutam para fazer a diferença nos próximos carnavais.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Coisas do trânsito

O motorista anda na sua mão, à direita numa pista dupla na área central da cidade, quando outro motorista - percebendo que à frente uma fila se forma para quem vai virar à esquerda, corta de forma repentina. O motorista prudente reduz para não bater, mas perde a paciência.

__Presta atenção, filho da puta.
__O mundo é dos espertos
, ironiza o motorista imprudente que aumenta a velocidade.

Ambos seguem seu trajeto e alguns cruzamentos depois, o motorista prudente percebe uma grande confusão. O motorista imprudente acabara de bater atrás de um caminhão que estava parado esperando o sinal abrir.

O motorista prudente estaciona e oferece ajuda.

__O espertinho quer que eu chame o Siate?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A linguagem e o politicamente correto

Nem dá para cobrar do cidadão que reflita sobre o uso da palavra e seus significados sociais. O mesmo não se pode dizer dos profissionais da comunicação.

Deficiente físico, gay, homossexual assumido, portador de deficiência, filho adotivo, viciados em drogas, usuários de drogas, pobres, gordos, carentes, miseráveis. São muitas as palavras e expressões usadas diariamente por pessoas de diferentes classes sociais e também pela imprensa, em qualquer modalidade – seja na TV, no rádio, no impresso ou na internet. Há algum tempo, o politicamente correto vem ditando algumas normas para se referir às minorias e, também, à maioria excluída dos ditos padrões.

Os contrários ao uso dos termos politicamente corretos podem argumentar que a padronização de palavras em determinadas situações pode ferir o princípio da liberdade de expressão. No entanto, é preciso lembrar que uma cultura de respeito às minorias e aos excluídos também passa pela linguagem e esta tem o poder de rotular. E os rótulos podem causar prejuízo e sofrimento aos rotulados. Alguém ignora isso?

Uma pessoa que, em casa, de forma privada, usa expressões consideradas pejorativas, está inserida numa dimensão pequena e sem grande importância. Imagine a mesma expressão pejorativa usada na manchete de um jornal de circulação nacional, num telejornal em dito horário nobre ou na boca de um comentarista de rádio ouvido por milhões.

Neste sentido, a linguagem usada por comunicadores - do informativo ao entretenimento - tem uma responsabilidade maior. Neste caso, os profissionais não podem se dar ao luxo de usar o senso comum. Sua responsabilidade é pública e a repercussão do que diz é maior porque, inclusive, são formadores de opinião, podendo inclusive deformá-la. Infelizmente, isso é muito comum.

Cenário perverso

Muitas vezes, a mídia usa algumas especificações informativas, consciente ou inconscientemente, que no fundo podem revelar falta de cuidado com o texto e até mesmo preconceito. Por exemplo, muitos veículos de comunicação gostam de citar em manchetes e textos o beijo gay entre dois homens ou duas mulheres. Quando são celebridades, o tal beijo ganha ares de escândalo sexual e faz render "notícias" por muitos dias. Aqui, valem duas observações. Primeiro: quando dois homens ou duas mulheres se beijam, está explícito que se trata de uma situação homossexual. Segundo, nunca lemos que, por exemplo, Brad Pitt e Angelina Jolie trocaram beijos héteros.

Portanto, ressaltar o beijo gay é uma especificação informativa que serve a nada, a não ser ao preconceito que os rótulos geram e viram munição para os preconceituosos de plantão. As palavras têm poder. E, em muitos casos, poder de diferenciar, de discriminar, de criar estereótipos, enfim de excluir. Isso também se aplica ao termo homossexual assumido. Afinal, alguém escreve heterossexual assumido?

A mídia, de modo geral, é campeã em fazer isso. O raciocínio acima pode ser aplicado também à adoção. A expressão "filho adotivo" é um rótulo e gera uma diferenciação com os filhos não adotivos. Ou alguém já leu, por exemplo, que a Sacha é filha biológica da Xuxa? Na prática, existe alguma diferença entre um filho adotivo e um filho biológico? Somente se os pais quiserem reforçar esse aspecto. As diferenças, quando existem, podem ter como origem as frustrações ou a incapacidade dos envolvidos de educar seus filhos, independentemente da forma de concepção. Muitos podem alegar que o adolescente A é revoltado e se envolveu com drogas porque é adotado. No entanto, esses mesmos não alegam que o adolescente B é revoltado e se envolveu com drogas porque é biológico. Ou seja, o preconceito também gera mito que influencia a realidade.

O termo "adotivo", na mídia - fora do contexto da adoção -, é rotularmente preconceituoso. Pior é quando o "filho adotivo mata os pais". Aí, a adoção vira caso de polícia. Agora quando o "filho mata o próprio pai", o termo biológico não aparece e a palavra "próprio" ganha ares de legitimidade como se o pai não-biológico não exercesse legitimamente sua paternidade. Esse é um cenário sutilmente perverso, mas rotineiro nos veículos de comunicação.

Responsabilidade na comunicação

As intenções escondidas das palavras - ou seja, o significado social, descolado do significado literal - ainda podem ser verificadas com o termo negro/negra. Muitos a usam de forma pejorativa, não se dão conta e, portanto, não se importam. Afinal é uma questão cultural mesmo. O político de situação alega que a oposição quer denegri-lo. Uma das definições de Michaelis para denegrir é "1.Tornar(-se) negro ou escuro." Não seria melhor o político dizer e escrever que a oposição quer prejudicá-lo?

A ofensa a toda uma raça (tudo bem, muitos podem alegar que cientificamente não há raças, mas socialmente a divisão existe e persiste) ainda está presente em termos da nossa língua e é usada cotidianamente sem preocupação, como magia-negra – magia-branca é coisa do bem?; lista-negra – lista-branca é listagem de casamento?; passado-negro – é uma história cheia de problemas e conflitos? E passado-branco, o que seria?

A língua é viva, dinâmica e as palavras assumem significados diferentes conforme sua época. Tudo bem, ninguém fala nem escreve hoje como se falava e escrevia no Brasil em 1900, por exemplo. Se essas questões também passam despercebidas entre estudiosos, imagine então em segmentos populares. Nem dá para cobrar do cidadão que reflita sobre o uso da palavra e seus significados sociais. O mesmo não se pode dizer dos profissionais da comunicação, que têm muita responsabilidade (e influência) sobre o que produzem.

Texto  publicado na seção "Feitos & Desfeitas" do portal "Observatório da Imprensa", edição 630, de 22/02/2011.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Educação e repreensão

O Brasil parece que vive eternamente uma epidemia de dengue. Informações sobre prevenção e risco de morte em caso de infecção são bombardeadas diariamente. Então por que as pessoas continuam criando o mosquito Aedes aegypti como se fosse bicho de estimação?

Campanhas educativas para adultos são necessárias para democratizar e massificar a informação, mas não necessariamente educam o público alvo e fazem com que este mude de comportamento. Costumo dizer que se campanha educativa educasse, ninguém morreria de acidente de trânsito, ninguém engravidaria sem desejar e ninguém pegaria doenças sexualmente transmissíveis.

Então por que as campanhas não interferem diretamente no comportamento do indivíduo? Porque - arrisco uma resposta - são passivas; não repreendem o público alvo infrator. Perceberam como milhares de moradores esperam agentes de saúde para eliminar os focos do mosquito da dengue no seu próprio quintal? Investir dinheiro público em agente para virar garrafa de boca para baixo e por areia no pratinho da violeta é desperdício, mas infelizmente necessário.

Por isso, as campanhas educativas devem ser realizadas por um determinado período para massificar as novas regras e, depois disso, penalização aos infratores. Mas não adianta estabelecer multas se não há quem fiscalize e faça cumprir as determinaçõ
es.

__Mas isso é uma indústria que o poder público inventa para tirar dinheiro do cidadão!
__É verdade! Mas só existe a indústria da multa porque existe a corporação dos infratores.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

E o tempo foi passando

Ela tinha 17 anos. Ele tinha 21. Quando casaram, eles formavam o casal perfeito. Faziam tudo juntos. Suspiravam quando se encontravam. Ela cuidava da casa. Ele era vendedor autônomo e, por isso, viajava muito. Ela contava os dias e as horas para ele voltar. Filhos? Pensaram muito na ideia, mas como ele viajava demais, foram deixando para depois.

Depois... ele dizia que não queria filhos. Ela insistiu por um tempo, mas acabou aceitando. Ele não queria filhos. __Se é difícil educar uma criança quando a gente quer, imagina quando um do casal não quer! Ela também deixou para depois. E o tempo foi passando. E passou.

Ela começou a investir na própria vida. Como sempre gostou de cozinhar, seguiu pelo ramo e especializou-se em doces e bolos. Era a melhor da região, uma referência para festas de todos os tipos. Comprou uma cozinha profissional e aceitava muita encomenda.

Com 20 anos de casamento, a relação não era mais a mesma. Ele, distante. Ela, indiferente. Entre distâncias e indiferenças, a relação chegou ao fim. No fundo, ela alimentava a vontade de ser mãe. Namorou alguns, mas nada muito sério.  E o tempo foi passando. E passou.

Gravidez depois dos 40? Gravidez de risco? Educar filho quando poderia pensar em curtir os netos? Ela acabou resignada e se conforta com suas conquistas profissionais. __Não que se pode compensar uma área com outra, mas sou feliz como sou. E o tempo foi passando. E passou.

Hoje ela está com quase 60. Tem quatro amigas fiéis. Juntas, curtem - e muito - viagens, cruzeiros, roteiros no exterior. Datas comemorativas? Todas juntas. E ele o que anda fazendo? Casou novamente com uma mulher da metade da idade dele que fez questão de engravidar. Ela decidiu. Ele foi comunicado com o teste positivo. Um casal de gêmeos, hoje com 6 anos de idade.

__Encontrei um dia no shopping com as crianças. Ele reclamou que as pessoas pensam que ele é o avô. É! o tempo foi passando... e passou mesmo!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Inquietudes (54) do Rei

O politicamente correto pode ser chato, mas a criação de padrões é pior porque é perversa. Ela exclui e não respeita as diferenças.

Inquietudes (53) do Rei

Os casos de dengue em Londrina estão explodindo. Somente no primeiro mês do ano (até o dia 28), foram notificados na cidade 1.164 casos da doença.

De um lado, o poder público que não consegue dar respostas à altura do problema. Em menos de dois anos, a prefeitura está no quinto nome para a Secretaria Municipal de Saúde e isso reflete diretamente na organização do serviço.


Do outro, a população que cria o mosquito transmissor da doença como se fosse bicho de estimação e não tem capacidade para cuidar do próprio quintal. 

E no meio, o mosquito Aedes aegypti agradece a sombra e a água parada, criando herdeiros para continuar sua missão: infectar o cidadão. E a cidadã também.