sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Carnavais passados

Quando chega essa época do ano, ele e ela sentem uma enorme angústia. Carnaval não tem mais um significado de festa, de feriado, de curtição. Tem um significado triste, que lembra coisas que não precisariam ter acontecido. E essas lembranças seguem lembradas. Ele e ela não conseguem esquecer os carnavais passados.

Ela e um grupo de amigas, alguns anos atrás, foram para o litoral. Muita festa, bebida, azaração. Afinal, ela e elas querem curtir, curtir e curtir o momento. Sem prazo como as coisas da faculdade. Sem exigências do trabalho. Sem cobranças da família.

Ele raramente viajava com a mulher e os dois filhos, que cobravam uma pausa para o descanso. Sossego. Convivência. Seu dia-a-dia era uma rotina estressante. Os clientes não esperavam. Exigiam. Se não atendesse, perdia a encomenda e o faturamento. Afinal, tempo é dinheiro. E para aguentar, umas doses ajudavam.

Memórias dos carnavais passados...

Ela e as amigas saem todas as noites de carnaval. Clubes, bares, ruas. O clima de extravasamento contamina o ar. Ninguém quer compromisso. Para que? Todas têm suas agendas e seguem-nas rigorosamente no dia-a-dia. Família. Trabalho. Faculdade. Carnaval serve para pegar. Ela bebe muito desde a primeira noite. Troca beijos. É melhor não saber quem são. Termina numa cama de hotel. A noite foi quente em todos os sentidos.

Ele consegue marcar uma viagem de três dias. A família está muito animada. A mulher e os filhos planejam o roteiro, agendam os passeios, marcam as atrações turísticas. Malas prontas. Destino certo. No dia anterior, ele trabalha muito. Muito mesmo. Tem que deixar tudo em dia. Para aguentar as obrigações, toma umas doses e dorme pouco.

Memórias nos carnavais atuais...

Ela nem se lembra de ter usado camisinha naquele hotel barato, mas vai lembrar-se disso para o resto da vida. Hoje um vírus a acompanha nos clubes e carnavais de rua. Atualmente, suas noites de folia são dedicadas a uma ONG que realiza panfletagem sobre a importância do sexo seguro, não somente no carnaval, mas sempre.

Ele também não se lembra de muita coisa. Suas memórias, às vezes, trazem uma curva, um caminhão, um acidente. Por causa do cansaço e das doses da noite anterior, ele acabou invadindo a pista contrária. Sua família é uma lembrança. Uma lembrança de que ele poderia ter feito tudo de outra forma. Hoje, ele também se dedica a uma associação que reúne pessoas que perderam parentes para a imprudência e realiza atividades de conscientização.

Ele e ela não podem voltar atrás, mas lutam para fazer a diferença nos próximos carnavais.

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