segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ah! então tá!

__Mas se você defende os pobres, tem que viver igual a eles?
__Como assim?
__É fácil defender os pobres e levar vida de rico. Tem que ser igual aos que você defende.
__Ah! entendi. Se eu defendo quem anda descalço eu não posso ter sapato. É isso?
__Claro. Você tem que sentir na pele o problema daqueles que defende. Isso acontece muito com os políticos. Gostam de falar em defesa dos pobres, mas andam de avião, hospedam-se em hotéis bons e comem muito bem.
__Tirando as castas - de todas as sociedades - que sugam a maioria, qual o problema de você defender os pobres e ter uma vida boa?
__Ah! assim fica fácil? né! Falar uma coisa e fazer outra é hipocrisia.
__Onde fica a hipocrisia se eu defendo, por exemplo, a saúde pública para a maioria se, hoje, eu posso pagar um plano de saúde?
__Tá vendo? A hipocrisia está aí. Você fala uma coisa e faz outra.
__Eu defendo a saúde pública de qualidade porque, hoje, posso pagar um plano de saúde de qualidade. Isso não é hipocrisia. É querer que todos tenham a mesma chance de fazer um tratamento de saúde de qualidade.
__Quer outro exemplo? Você defende a escola pública, mas coloca seu filho na escola privada.
__Exatamente porque não tem vaga na escola pública pra todo mundo. Hipocrisia seria defender a escola pública de qualidade para todos e mexer os pauzinhos para colocar o filho na escola estadual do centro porque ela é melhor do que a da periferia.
__Seria o mais coerente, falar e fazer a mesma coisa! Ou não?
__Certo! Para ser coerente eu preciso ser negro para defender a igualdade racial e lutar contra o racismo?
__Olha...
__ Para defender os direitos das gestantes, eu preciso estar grávido?
__Não! Veja bem...
__Para defender o acesso dos doentes de aids aos medicamentos na rede pública de saúde, eu preciso ter o HIV?
__Não é bem assim...
__Então o que é?
__Éh que... é que uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa.
__Ah! então tá!

domingo, 26 de junho de 2011

"Não existe desigualdade"

Aquele economista fala naquele programa de TV, com aquela apresentadora com cara de inteligente. Ela exclama.

__Então não existe desigualdade no Brasil!
__Isso mesmo! Não existe desigualdade.
__Explique melhor.
__Em nosso modelo econômico - o capitalismo - todos têm a mesma oportunidade. Você é livre inclusive para progredir financeiramente. A oportunidade esta aí e é para todos. Quem tem competência para aproveitar, vai crescer profissionalmente e, portanto, se dar bem. Muita gente não aproveita suas chances e culpa o sistema. Por isso, não existe desigualdade.
__O fracasso, então, é da própria pessoa.
__O fracasso e o sucesso são individuais. Por que temos histórias de quem começou por baixo e construiu impérios?


Ainda bem que inventaram o controle remoto, mas por falar em impérios, já que todos têm a mesma oportunidade - conforme o economista - podem comprar um imóvel novinho e sem uso no lugar mais bonito da cidade. Aquela gleba que é o sonho de consumo de todos os iguais: ricos e pobres. Leia o anúncio!

Vende-se apartamento

4 suítes:
Suíte master; três suítes simples.

5 Ambientes:
Sala em um ambiente grande; sala estar; sala de jantar; sala de TV; terraço com piscina.

Serviço:
Cozinha planejada; copa; lavanderia; despensa; dependência completa de empregada.

Um por andar
Área útil: 600,00 m²
Área total: 750,00 m²
Garagem coberta: 4

Detalhes gerais:
Administração, bicicletário, central de gás, elevador(es) social(is), elevador(es) serviço, hall social, medidor individual de água, medidor individual de gás, sala de reuniões, vestuário funcionário, refeitório funcionário.

Detalhes lazer:
Brinquedoteca, churrasqueira, espaço gourmet, piscina adulto, piscina infantil.

Detalhes segurança:
Cerca elétrica, vídeo fone, portaria 24h, portão duplo veículos, travamento de passagem.

Valor
Tudo isso por apenas R$ 2.200.000,00. Valor do condomínio: R$ 1.800,00.

__E aí, quem dá o primeiro lance?

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Revista de branco

Um dia na sala de aula surgiu o assunto das revistas segmentadas. E o exemplo não poderia ser melhor, a revista Raça.

Alguém diz que o mérito da publicação é ser voltada para o segmento negro, enquanto público alvo e consumidor.

Outro complementa que o mérito acaba aí porque o conteúdo editorial da Raça repete as pautas fúteis das revistas de brancos.

__Como assim professor? Não existe uma revista para brancos! Espantam-se outros.

__Existe sim.
__Eu nunca vi.
__Quer um exem...
fui interrompido. Alguém responde no meu lugar.

__Claro que existe. Caras, Cláudia, Capricho, Boa Forma, VIP. Isso para citar umas poucas. São todas revistas de branco para brancos.

__Alguma dúvida?


Ninguém responde.

Fim da aula.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Inquietudes (79) do Rei

A falta de educação no trânsito é flagrante. A situação não é exclusividade de uma ou outra cidade e independe do tamanho. Um dos comportamentos mais ignorantes do motorista é bloquear o cruzamento. Na tentativa de não perder o sinal aberto, o motorista - claro o ignorante - avança e avança, bloqueando a via para quem vai cruzar. Não passa e não deixa ninguém passar. Vai uma buzinada aí?

Era uma vez... (II)

um Rei que iria realizar licitação para contratar empresa de publicidade para enaltecer as realizações atuais do Chefe do Reino. A contratação da empresa fora anunciada num momento delicado para Vossa Alteza.

Prisão do procurador-geral do Reino e mais 20 pessoas envolvidas com as prestadoras de serviços de saúde à plebe.

Escândalos davam conta de desvio de recursos na saúde que prejudicavam os serviços aos súditos. Pobre plebe.

Acusações de irregularidades na formação da guarda real.

Conselheiro de saúde do Reino preso, que envolvera o nome de Vossa Alteza, a Primeira-Rainha, no esquema de propina real.

Fila de secretários do Reino para depor em diligências policiais.

Pedido de exoneração do secretário do tesouro do Reino, que desmentira outro secretário de ter emprestado 29 mil moedas de ouro.

Acusações de irregularidades na atuação da empresa de vigilância no Reino, cujos vigias reais teriam prestado serviços particulares para Vossa Alteza.

E o Reino anunciava a contratação de empresa de publicidade (1,5 milhão de moedas de outro em 2011) também para divulgar serviços de saúde à plebe.

A Creide, uma súdita revoltada e rebelde, tinha algumas dicas de texto para os anúncios oficiais da campanha publicitária do Reino.

Ela pegara 2009, o ano de ascensão ao trono de Vossa Alteza, e comparara com anos anteriores quando estava no trono um rei, que fora deposto em 2008 pelo povo e que deixara o Reino com popularidade baixa.

Em 2004, o Reino cobria 74,4% da população com os programas Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde. Em 2009, o Reino baixou a cobertura desses programas para 50,1% da população de súditos.

A taxa de mortalidade infantil por diarréia, em 2004, era de 0,9 mortes por mil nascidos vivos e aumentou para 3,2 mortes por mil nascidos vivos, em 2009. A morte de pequenos plebeus aumentara muito depois que Vossa Alteza ascendeu ao trono.

Enquanto os problemas de saúde da plebe aumentaram, os gastos financeiros do Reino não diminuíram. Pelo contrário. Em 2006, o gasto total com saúde no Reino era de 166.571.533 moedas de ouro. Em 2009, o gasto fora de 255.885.321,29 moedas de ouro. Em três anos, os gastos com saúde aumentaram quase 100 milhões de moedas de ouro e a saúde da plebe piorou.

Para quem duvida, a Creide - a súdita revoltada e rebelde - manda uma mensagem. Os dados são oficiais, do Datasus, vinculado ao Ministério da Saúde, órgão da Corte Real, o Governo Federal.
 
Nessas horas, a Creide - a súdita revoltada e rebelde - lembra-se de um amigo súdito - sábio profeta - que vivera no Reino há muito tempo.

__Quando a gente acha que chegou ao fim do poço, vê que tem mais alguns degraus para descer.

Ui!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Inquietudes (78) do Rei

Por que notícia besta chama a atenção? É impressionante esse fenômeno. Acabei de ler na Folha.com uma materinha que diz que um vírus permitiu que pessoas "feias" aderissem à rede social BeautifulPeople, que somente aceita gente bonita. Vai saber o conceito de "gente bonita" dessa gente. A bestice não tem limite mesmo.

Respeito, direitos civis e hipocrisia

"O juiz Jeronymo Pedro Villas Boas, que cancelou na última sexta-feira (17) um dos primeiros contratos de união civil entre homossexuais do país, disse que não tomou a decisão por discriminação."

A informação é da Folha.com, desta segunda-feira (dia 20).

O juiz discrimina, mas diz que não discrimina.

A reportagem diz que o juiz afirmou que os homossexuais "não podem querer a aceitação dos demais membros da sociedade como se fosse natural". 

Se a argumentação sobre a homossexualidade não ser natural não é discriminação, é o que então?

O que é natural? O casamento civil de pessoas de sexos diferentes é uma construção social, feita por homens para resguardar os direitos de um e os da outra.

O que tem de natural nisso? A mão divina? Isso é interpretação imbuída de valores morais e também religiosos. Portanto, uma construção social.

Deus pode ter criado Adão e Eva que viveram no paraíso. Diga-se em concubinato, amasiados, amigados. Por acaso, Deus criou uma certidão de casamento e nomeou um juiz para lavrar o ato?

Aviso aos leitores afoitos: não tenho nada contra Deus.

Pelo contrário, acredito Nele, mas não nas interpretações sociais que insistem em atribuir coisas a Ele, coisas que geram preconceito, discriminação, exclusão.

Deus não é isso. Isso é coisa de gente (des)humana.

A reportagem da Folha.com afirma que o juiz de Goiás disse que "defende que os homossexuais sejam livres para ter qualquer tipo de relação".

É comum ouvir muitos dizerem que respeitam o homossexual, mas que não aceitam a união civil estável ou que não reconhecem os direitos civis de um casal do mesmo sexo.

Respeitar o homossexual sem reconhecer seus direitos civis não é respeito.

É hipocrisia!

sábado, 18 de junho de 2011

Terapia para a mãe

A mãe leva o menino à terapeuta porque ele precisa conversar sobre seus problemas e se conhecer melhor. Ele precisa descobrir as origens dos males que o aflige.

Passa pela primeira sessão.

Pela segunda.

E a mãe.

__Tudo bem na terapia, filho? Tem conversado bastante?
__Tá tudo bem, mãe.


Passa pela terceira sessão.

Pela quarta.

A terapeuta pede para falar com a mãe.

__Olha, ele não se abre. Ele diz que está tudo bem.
__Vou conversar com ele e ver o que está acontecendo.


A mãe chega ao filho e pergunta.

__Filho, você não está falando com a psicóloga sobre o que incomoda você?

A resposta vem em forma de outra pergunta.

__Mas mãe eu vou falar dos meus problemas com uma estranha?

Ui!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Apague a luz, por favor!

O vice-prefeito de Londrina, José Joaquim Ribeiro (PSC), deixou hoje o governo Barbosa Neto (PDT). Ele era o presidente do Instituto de Desenvolvimento de Londrina (Idel). A notícia negativa para os lados da administração municipal - mesmo sem rompimento, o episódio mostra que aliados pulam do barco - vem em meio a mais uma crise na saúde.

O diretor-executivo da Secretaria de Saúde, Marcio Nishida, em entrevista ao Jornal de Londrina de hoje, tenta explicar o corte de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e outras oito entidades que prestam serviços de saúde a pessoas com deficiência.

Burocraticamente, o diretor-executivo argumenta que o corte de repasses do SUS à Apae e às outras entidades é parte de uma readequação do teto repassado pelo Ministério da Saúde.

A crise no setor em Londrina parece não ter fim. Cinco secretários de saúde em menos de dois anos, prestadores de serviços emergenciais que montam esquema de desvio de recursos com a participação de agentes públicos, procurador-geral do município preso, conselheiro de saúde preso por recebimento de propina que acusa a primeira-dama de estar envolvida no esquema.

Enquanto isso, a Secretaria de Saúde não planeja suas ações. Prazos são perdidos, convênios interrompidos, serviços suspensos. E a população paga a conta: sem médicos, sem plantonistas, sem medicamentos, enfim sem saúde.

A culpa é do SUS e da falta de recursos públicos?

Uma breve consulta ao sistema de informações financeiras do Datasus, a transferência fundo a fundo - do Fundo Nacional de Saúde para o Fundo Municipal de Saúde de Londrina - mostra que as transferências de recursos em maio chegou a 16.453.977,51. Em abril, os valores transferidos somaram 16.954.631,87.

Os recursos milionários pagam programas em áreas como assistência farmacêutica, atenção básica, média e alta complexidade ambulatorial e hospitalar e vigilância em saúde.

__De quanto é o valor repassado pelo Fundo Nacional de Saúde para o Fundo Municipal de Saúde de Londrina?
__O valor é superior a R$ 16 milhões. Todo mês.
__É muito ou pouco?
__Depende. Esses recursos são bem ou mal administrados? E olhe que neste total não estão computados os valores do Tesouro Municipal, ou seja, os recursos próprios do município que somam outros milhões de reais.
__ Então, o último que sair, apague a luz, por favor.

O preço da reprodução II

"Somente depois que a mulher deixou de amamentar, testes de DNA nos pais e nas crianças foram feitos, E comprovaram que ela era a mãe biológica das crianças, mas ele não era o pai biológico. Atordoados procuraram Adbelmassih e um advogado. Queriam entrar com uma ação judicial contra a clínica, mas acabaram aceitando acordo  proposto pelo médico para ficar em silêncio: ele a mulher receberam, em 1994, FR 300 mil cada um."

A revista Época revelou, recentemente, um esquema na clínica de reprodução humana do médico Roger Adbelmassih, que adotava procedimentos ilegais na inseminação artificial de casais. Leia nestas Letras Crônicas "O  preço da reprodução".

O caso do casal que descobriu ter pagado para gerar filhos - e o médico usou espermatozóide de outro homem - não acabou bem. Eles se separaram e, segundo a reportagem de Época, ela nunca se recuperou do trauma.


Conforme Época, "o pai optou por criar as crianças como se fossem suas. Ambos decidiram não investigar a identidade do pai biológico de seus filhos. Aos gêmeos, hoje com 17 anos, a história nunca foi contada".

Esse fato mostra que paternidade não é sinônimo de reprodução. Tanto que a mãe - mesmo biológica neste episódio de manipulação genética - não convive com os gêmeos que gerou.

"O pai optou por criar as crianças como se fossem suas." A frase gera muitos sentidos. Alguns para reflexão.

Os pais quando não biológicos e educam por uma vida inteira seus filhos, não têm a "posse" deles?

Os pais biológicos - mesmo inexistentes - têm legitimidade sobre a paternidade e a maternidade?

A origem é mais importante que a realidade atual?

Vale a pena desencavar histórias para satisfazer o ego por causa dos instintos animais que o ser humano preserva?


Educar um filho não biológico, amando-o diariamente e desempenhando tarefas como cuidar das suas dores, pagar vacinas, ensinar a andar de bicicleta, limpar vômito e fralda suja, levar para a escola, curar feridas físicas e psicológicas - vale menos que um espermatozóide ejaculado num vidrinho?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O preço da reprodução

Grande reportagem da Revista Época de 16 de maio tem o sugestivo título "Doutor Horror". O dono de tal título é o médico Roger Adbelmassih, condenado pela Justiça brasileira a 278 anos de prisão. Ele foi acusado de estuprar sistematicamente dezenas de pacientes.

No entanto, mais um capítulo é apresentado à história do que foi "o mais renomado especialista em reprodução humana do Brasil". Numa investigação do Ministério Público do Estado de São Paulo, o médico é acusado de lançar mão de procedimentos ilegais, segundo o Conselho Federal de Medicina.

Entre os procedimentos ilegais, Roger Adbelmassih é acusado de manipular geneticamente óvulos; promover a sexagem, escolhendo o sexo do embrião antes de implantar no útero; e vender óvulos para pacientes.

E mais: a investigação descobriu que muitos casais que pagaram pela inseminação artificial não são os donos do material genético, ou seja, muitas crianças geradas na clínica não são filhas biológicos dos pais que desembolsaram milhares de reais. O médico, em muitos casos, usava espermatozóides de outros homens na fecundação dos óvulos.

A leitura da reportagem leva a algumas conclusões, talvez não tão conclusivas, mas que geram reflexões e debates pertinentes, não necessariamente nesta ordem.

Primeiro. A legislação brasileira não dá conta de abarcar as técnicas científicas que evoluem (ou não) mais rapidamente que a elaboração de leis.

Segundo. As leis podem até existir, como no caso da Lei de Biossegurança, de 2005, e as resoluções do Conselho Federal de Medicina, mas faltam mecanismos eficientes para coibir as práticas ilegais. Se dessem contas, clínicas como a do Doutor Horror não funcionariam.

Terceiro. O dinheiro - aliado à falta de escrúpulos - pode tudo. Até criar seres humanos, modificados geneticamente.

Quarto. Muitos casais querem reproduzir e não necessariamente serem pais. É a tal história - instintiva, diga-se de passagem - de manter o legado genético no planeta.

Quinto. Casais e médicos brincam de Deus, manipulando situações das quais poderão não ter controle. Que o diga o casal que descobriu que ele não era o pai biológico dos gêmeos gerados na clínica do médico. Depois de fazer acordo por algumas centenas de milhares de reais com Roger Adbelmassih, o casal acabou se separando e a mãe - mesmo sendo a biológica - não quis ficar com os gêmeos. O pai, segundo a reportagem, ficou com as crianças.

O caso do "Doutor Horror" pode ser mais comum do que se imagina nas clínicas de reprodução humana do país. Sempre haverá casais dispostos a pagar para reproduzir e médicos inescrupulosos que aceitam fazer procedimentos ilegais. Trata-se, portanto de uma relação entre duas partes interessadas em fazer de tudo para engravidar. E reprodução, neste caso, não é obrigatoriamente sinônimo de paternidade e maternidade.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Evangelho de Jesus Cristo

Como professores universitários, eles participam de grupos de discussão e formação continuada de docentes. Na pauta do mês, o uso das tecnologias da informação no processo de ensino-aprendizagem.

Ambos concordam em muita coisa na vida acadêmica. Falta de infraestrutura. As salas são cheias. Falta de programa de carreiras e salários. Deficiência do ensino básico. Entre outros, etc e por aí vai.

Mas num ponto eles divergem e muito.

Ela diz que a web e outras ferramentas virtuais, num ambiente colaborativo, é possível fazer com que o aluno incorpore a autoria compartilhada e tenha sucesso nos seus estudos e produção acadêmica. 

__Veja bem, essa é uma mudança de paradigma. Nesta perspectiva, nossos alunos podem ter muito sucesso com a produção acadêmica a partir da autoria compartilhada.

Já repararam como professor universitário adóóóóóóra essas duas palavras: perspectiva e paradigma? Poderia ser até uma dupla desse tal sertanejo universitário. Enfim...

__Autoria compartilhada? Como assim?

Ela explica que num ambiente colaborativo de construção de texto, uma das vantagens é a possibilidade de muitas vozes enriquecerem o processo de produção.

Eu argumento que, neste modelo - assim como nos tradicionais, muitos podem se apropriar de produção alheia e inserir no ambiente coletivo da web como se fosse conteúdo próprio.

Ela explica que se o aluno pegar determinados conteúdos disponíveis na web, pode adaptá-los para o trabalho, citando o autor original e assinando em conjunto. Ela insiste.

__Isso é a base da autoria compartilhada na produção textual colaborativa.

Eu ataco sem piedade acadêmica.

__Claro que não! Isso é a institucionalização do plágio.

Ela ainda é complacente.

__Desde que citada a fonte, não pode ser caracterizado o plágio.
__Mas a ABNT está aí para normatizar as referências bibliográficas.
__Estamos dois passos a frente deste modelo de referenciar autores. Estamos num ambiente em que todos podem produzir conteúdos a partir de outros conteúdos. Por isso, o tal do colaborativo neste ambiente. Entendeu?


Dou uma pigarreada para limpar os resquícios de uma sinusite teimosa.

__Então você elabora um projeto, define o recorte da pesquisa, aplica os métodos de coleta de dados, analisa os dados, associa as teorias mais adequadas. Depois de algum tempo chega a algumas conclusões e publica o trabalho. Um tempo depois, um recém-ingressante pega o seu trabalho porque os Anais do evento estão na internet - ele não elaborou projeto, não definiu o recorte da pesquisa, não aplicou os métodos de coleta de dados, não analisou os dados, não associou as teorias e não chegou a nenhuma conclusão - e ao incorporar esse conhecimento produzido por outros pode assinar em conjunto nessa tal autoria compartilhada?
__Essa é a essência da transformação dos paradigmas.
__Nesta perspectiva, nem a perspectiva vai fazer dupla com o paradigma porque ela é contra a pirataria. Essa essência, só se for da preguiça intelectual. Você não vê isso?


Perguntei mesmo, sem paciência.

Ela ainda pacientemente, tenta me convencer do contrário.

__Os ambientes colaborativos, principalmente os wikis, têm essa genialidade. Transformar todas as pessoas de meros espectadores em produtores de conteúdo. Isso é compartilhar o conhecimento, um processo que possibilita o rompimento das barreiras geográfico-temporais. É uma rede não-convencional de relacionamentos.

Sarcasticamente, eu provoco.

__Aham... É uma rede de furto virtual de conhecimento alheio e que o meliante ainda deixa o cartão de visitas.

Ela perde a paciência. De vez.

__Você precisa se atualizar. Esse é o futuro da produção colaborativa do conhecimento. Esse processo potencializado pelo ambiente virtual e suas ferramentas de interação dará à educação um salto significativo de qualidade.
Não aguentei.

__Eu? Me atualizar. Então tá. Já sei o que vou fazer. Vou pegar um livro importante, mudar algumas frases, atualizar as normas gramaticais, propor uma construção narrativa mais literária, num estilo de crônica jornalística e vou assinar em conjunto. Já pensou "O Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas e Reinaldo Zanardi"? Não seria um sucesso editorial?
__Nossa! você não entendeu nada.


Depois eu que não entendi.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O dono do caos

O caos que se instalou na rede pública de saúde de Londrina tem nome e sobrenome: Homero Barbosa Neto. A responsabilidade é do prefeito. Em menos de dois anos, cinco secretários (sendo um duas vezes) passaram pela pasta.

Correndo atrás da administração anterior com auditorias e afins, a administração atual não gerenciou os contratos da saúde com responsabilidade. Prazos foram perdidos e, por isso, convênios interrompidos e serviços suspensos. E a população paga a conta: sem médicos, sem plantonistas, sem medicamentos, enfim sem saúde.

O modelo da terceirização de serviços na saúde encontra adversário ferrenhos em vários segmentos. Um deles é o sindicato do funcionalismo público que defende concursos e todos seus benefícios com dinheiro público, mas convenhamos muitos serviços não funcionam porque funcionários sentam sobre a estabilidade. E o usuário? Que passe amanhã. A defesa dos sindicatos da categoria é corporativa e não representa, necessariamente, o interesse do usuário.

Parte da imprensa  ataca as terceirizações como o mal do Sistema Único de Saúde (SUS), ignorando que a própria lei nº 8080, a chamada Lei Orgânica da Saúde, estabelece que os gestores podem contratar serviços de terceiros. Leiam os artigos abaixo. 

"Art. 24 - Quando as suas disponibilidades forem insuficientes para garantir a cobertura assistencial à população de uma determinada área, o Sistema Único de Saúde-SUS poderá recorrer aos serviços ofertados pela iniciativa privada.

Parágrafo único. A participação complementar dos serviços privados será formalizada mediante contrato ou convênio, observadas, a respeito, as normas de direito público.


Art. 25 - Na hipótese do artigo anterior, as entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos terão preferência para participar do Sistema Único de Saúde-SUS."
 
Quando essa mesma parte defende que programas como o Saúde da Família sejam executados pelo próprio município - sem a participação de terceiros - ignoram, além da lesgislação, até mesmo a essência da sua própria defesa. Esses mesmos não defendem, por exemplo, que o município encampe a Santa Casa e o Hospital Evangélico de Londrina. Afinal esses dois grandes hospitais não são terceirizados do SUS? Não seria função do município tocar os dois hospitais?

Por isso, o problema não está no modelo, mas na gestão do modelo. Sem reponsabilidade, seriedade, planejamento e execução transparente, com participação popular, nada vai funcionar como deve. Nem programa com servidor concursado. 

E dói ouvir da secretária de saúde que diz que o município vai municipalizar o Programa Saúde da Família (PSF). A saúde na cidade foi municipalizada em 1995, quando o município assumiu a então gestão Semi-Plena, passando em anos posteriores à gestão plena do Sistema Municipal de Saúde.

Portanto, o prefeito e o secretário de saúde são os gestores do SUS. E gerenciar a complexidade do sistema - principalmente suas deficiências - é uma tarefa muito maior do que abastecer um posto de saúde com vacina contra a paralisia infantil.

Assumir como serviço próprio o PSF não é sinônimo de municipalização. Sendo municipal a execução ou sendo terceirizada, o que os programas precisam é de gestão com qualidade.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Era uma vez...

... uma cidade, digo um reino que, de tão tão tão distante, muitos acham que não existe.

O prefeito - digo Rei - que tudo comanda é um nobre de verdade.

Muito justo ele, não rouba nem deixa seus assessores - digo ajudantes reais - roubarem.

A primeira-dama - digo a rainha - é uma mulher nobre, digna e que não se mete nos assuntos do Rei.

Os secretários - digo ajudantes reais - são honestos e em falcatruas por moedas e carruagens do ano não se metem.

Na cidade - digo reino - tudo funciona.

O lixo separado pela população é reciclado e ajuda na renda dos recicladores - digo súditos - organizados.

A Guarda Municipal - digo Guarda Real - não bate nos súditos indefesos nem atira no próprio pé.

Os quiosques - digo tabernas - continuam abertos no centro do reino fazendo a alegria dos súditos.

A rede de saúde - digo curandeiros credenciados ao reino - presta serviço de excelência e não falta atendimento nem poção de cura.

O Programa Saúde da Família dos Súditos funciona bem com atendimento no domicíli e tudo; os curandeiros são reverenciados no reino.

Os conselheiros de saúde são conselheiros mesmos, nada de ratos à mesa do Grande Conselho.

O Ministério Público - digo a Ordem dos Cavaleiros de Justiça - nunca tem trabalho. Os cavaleiros cavam, cavam e nada de errado no reino encontram - nem uma propinazinha em moeda de ouro.

Era uma vez...

... uma cidade, digo um reino que, de tão tão tão distante, muitos acham que não existe.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A palavra de Londrina

Calamidade é a palavra mais atual em Londrina.

Calamidade porque o prefeito e a primeira-dama foram denunciados pelo Ministério Público por participação num esquema de desvios de recursos públicos.

Calamidade porque o prefeito é acusado de usar vigilantes da prefeitura na sua emissora de rádio.

Calamidade porque a administração municipal enfrenta acusações de irregularidades em várias pastas.

Calamidade porque a saúde enfrenta falta de médicos, falta de remédios, falta de plantonistas nos hospitais.

Calamidade porque a administração municipal destruiu o Programa Saúde da Família e o Samu.

Calamidade porque o Aedes aegypti faz a festa e registra mais de 7 mil casos de dengue em menos de seis meses.

Calamidade porque o sindicato do funcionalismo municipal - outrora combativo - não protesta como antes.

Calamidade porque a administração destruiu o programa de reciclagem de lixo, conhecido e premiado nacionalmente.

Calamidade porque o lixo reciclado - separado pela população - amontoa-se em canteiros e praças por vários dias.

Calamidade porque a Câmara Municipal instalou três comissões especiais de inquérito para investigar o prefeito.

Calamidade porque a prefeitura decretou calamidade para contratar sem concurso público.

Calamidade é um grande mal comum a muita gente.

Calamidade é uma grande desgraça.

Calamidade é um desastre em grande escala.

Quer palavra mais atual para o momento que Londrina atravessa?

sábado, 4 de junho de 2011

No Dia dos Namorados

O amigo chega para o outro e pergunta.

__E aí, o que você comprou de presente para o Dia dos Namorados.
__Nada.
__Como nada? Você não vai dar presente?
__Não!
__Como assim? É o Dia dos Namorados.
__Eu sei.
__E você está namorando não está?
__Estou, vai fazer seis meses.
__Seis meses? Isso é quase um casamento e não vai dar presente no Dia dos Namorados?
__Não.
__Por que?
__Porque eu tenho namorada e não namorado. Ah! e o presente dela... eu já comprei.


Uia... coisas da língua portuguesa.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Isso é jeito de falar?

Trrrrrrrrrrrrrrrrrrimmmmmmmmmmmmmmm

__O Zé, você vai na aula hoje?
__Cerso, tô cum problemão hoje que não sei não se vô conseguí.
__Será que a turma toda vão? A Carmem disse que ela ia saí com umas amiga.
__Também sexta-feira, ninguém merece.
__Nós podia ligá pa professora e perguntá se nós pode faltá.
__Por que a gente não pensamos nisso antes?
__É pra já, vô ligá pa professora.
__Tiau!
__Tiau!


Enquanto o amigo do Zé, o Cerso, ligava para a professora do curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA), o Zé ouviu no intervalo, uma chamada para o jornal da noite.

__Deputados e senadores criticam o Ministério da Educação por indicar livro que ensina a falar errado. Eles  dizem que a medida vai estimular o desrespeito às normas cultas e questionam como fica - neste cenário da educação pública que não é dos melhores - as concordâncias verbais?

É dona apresentadora, as concordâncias verbais não fica. Ficam.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Preto enroladinho

O menino queria um cachorrinho de estimação e tinha que ser um preto enroladinho.

A primeira opção do menino era um poodle.

O pai - nem que fosse de graça. Poodle jamais!

__Isso não é cachorro. É uma praga que ainda por cima late.

Por isso, ambos empreenderam uma jornada para achar um cachorro preto enroladinho; podia ser também encaracolado. 

Menos liso. Afinal, gastar com chapinha em cão ninguém merece.

Andando pelo shopping, pai e filho ficaram encantados com um filhotinho de uma raça que nem sabiam o nome.

__Que raça é essa?
__West Highland White Terrier.

E iam continuar sem saber o nome. Que dificuldade! Cachorro com nome, prenome e dois sobrenomes, ninguém merece.

Depois ninguém sabe porque os cachorros são batizados com nomes simples, no máximo com três sílabas.

Enfim...

__Nossa! é bem bonitinho mesmo. Tem preto?
__O preço? Tá na faixa de R$ 4.500,00 à vista.
__Não! eu perguntei se tem preto.
__Ah! não. Essa raça é só branco mesmo.
__Ai que pena! Se tivesse preto eu levava agora uns dois filhotes.

Depois do cachorro com nome, prenome, sobrenome e preço de realeza, o pai começou a achar o poodle um cachorro gente fina.