quarta-feira, 6 de julho de 2011

Charmoso, saboroso e elegante

O frio é charmoso.
A água da torneira é quentinha.
O edredom é macio.
À noite, na frente da lareira, a família reunida.

O frio é nada charmoso.
No barraco, falta água.
O cobertor é disputado por três.
À noite, o pai é porteiro; a mãe, auxiliar de enfermagem.
O filho mais velho cuida dos três mais novos.

O frio é saboroso.
Fondue de chocolate, creme de beterraba com aspargo, canja francesa, sopas italianas.
Quanto sabor!
O paladar é refinado.

O frio é nada saboroso.
No barraco, o que é fondue?
Beterraba é salada. Aspargo?
A canja é rala.
A sopa é de anteontem.

O frio é elegante.
Os casacos, as jaquetas, as echarpes e os cachecóis.
Quanta elegância!
A coleção outono-inverno saiu para os desfiles nas ruas.

O frio é nada elegante.
No barraco, os casacos são da campanha do inverno passado.
As jaquetas surradas tentam - em vão - conter o vento.
As echarpes e os cachecóis são peças da novela das oito.

O frio tem duas caras.
A que embeleza.
A que causa sofrimento.

Tem quem o espera, ansiosamente.
Tem quem o espera, aflitamente.

O frio tem dupla face.
A que faz sorrir.
A que faz chorar.

O frio tem dupla personalidade.

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