sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Vingança não é justiça

Nos últimos dias, ganhou repercussão na mídia, um vídeo em que policiais militares de São Paulo (ah! o estado mais desenvolvido da nação), depois de balearem supostos assaltantes, brincam com os agonizantes. Supostos porque não foram condenados pelos crimes que são acusados de cometer. 

"Filho da puta, você não morreu ainda? Olha pra cá! Maldito. Não morreu ainda." A frase é atribuída a um policial militar que teria participado do confronto. "Estrebucha! Filho da puta", diz outro pago com dinheiro do contribuinte. Quem tiver estômago, pode assistir ao vídeo, na Folha.com.

Policiais envolvidos em confrontos que matam ou morrem não é novidade para ninguém. O que assusta - naturalmente para quem defende a justiça - é a forma como muitos da corporação se comportam em situações extremas.


Em muitos casos, não se consegue distinguir quem são os bandidos. Alguns podem dizer que são os que estão de capuz; outros que são os fardados. Enfim, a violência policial parece ser uma característica no país. Capitão Nascimento não é personagem da ficção nem mera coincidência.

A violência policial é ainda mais perversa porque tem endereço certo. O pobre. Não se vêem imagens como as dos policiais gritando estrebucha para bandido rico brasileiro. Aliás, bandido rico tem advogado caro e conta com a proteção a sua imagem com a participação oficial do estado. Alguém já viu a Polícia Militar ou Civil expor grandes empresários nas salinhas da imprensa com a logomarca da corporação atrás? Esse é um expediente da polícia para os bandidos pobres.

Que a polícia tem uma banda podre não é novidade para ninguém também. O assassinato da juíza Patrícia Acioli, em Niterói (RJ), revela esse cenário perversamente perturbador. Segundo a Folha.com "O comandante da Policia Militar do Rio, o coronel Mário Sérgio Duarte, disse nesta segunda-feira [dia 22] que trabalha com a hipótese de participação de PMs no assassinato".

Além da proteção oficial - direcionada para os ricos - a ação da banda podre da polícia conta com grande apoio da população que, convenientemente confunde vingança com justiça. Isso pode ser percebido pelos comentários em reportagens sobre a ação dos policias do "estrebucha".

São milhares de internautas. Na pauta, a suposta liberdade de expressão, já que parece mais apologia ao crime.

"Polícia tem que tratar bandido na bala! E ponto final!"
"Prefiro pagar pelas balas do que custear as cadeias, bala nos bandidos!" 
"Parabéns, a PM manda bala neles mesmo."
"Se tivéssemos mais policiais como estes, muitas cadeias não estariam superlotadas..."


Outros internautas mostram-se tão sanguinários quantos os PMs que entram em gozo ao ver baleados agonizando.


"Adorei, por mim ficava assistindo a esse vídeo o dia todo."
"Cumpriram muito bem seu trabalho. Nota 10."
"Gostaria de presente aos policiais. Gostei dos caras."
"Perderam vermes... parabéns aos policiais."
"Vamos fazer uma vaquinha para premiar estes policiais corajosos!"


E os direitos garantidos na legislação? Para que? Provavelmente, os internautas abaixo se achem mais humanos que os outros.


"Pois se esses dois marginais aprontaram, a polícia fez o certo! E não me venham com aquele papinho de direitos humanos!"
"Direitos humanos pra quem é humano e não pra animal irracional!"
"Direitos humanos pra esse tipo de pessoas pra que?"


Quando a polícia tem licença para matar qualquer um pode ser a vítima, inclusive aqueles que defendem que policiais tratem bandidos na ponta da bala.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Censura silenciosa

A Folha.com noticiou ontem (dia 23) que a "censura judicial imposta a veículos de comunicação e direito de acesso a documentos públicos foram os principais temas debatidos na 6ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Expressão." O evento foi realizado em Brasília.

Um dos exemplos que vieram à tona durante a conferência foi a decisão judicial, de 2009, que impediu o jornal O Estado de S. Paulo de veicular "reportagens sobre operação da Polícia Federal que investigava o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP)."


A reportagem destacou uma fala de Taís Gasparian, mestre em Direito pela USP e advogada da Folha. "A censura judicial chega a ser pior que a censura imposta pela ditadura militar."

Jornalistas e profissionais dos veículos tradicionais de comunicação - a Folha de S.Paulo soma-se ao Estadão, Veja, Isto É, Época, Globo, Record, SBT, Band, enfim... - atacam a censura externa. E fazem muito bem. Qualquer forma de censura é prejudicial à democracia e à cidadania.


Infelizmente esses mesmos profissionais e veículos não têm a disposição e o ânimo para atacar outra forma de censura. A autocensura. Esse tipo é interno, está no âmbito das redações dos próprios veículos de comunicação, portanto, afeta diretamente o profissional e o veículo.

A autocensura passa também por quem planeja os conteúdos e consiste em não abordar assuntos espinhosos à política editorial do veículo, por causa dos seus interesses político-ideológicos e, principalmente, econômicos.

Um exemplo? Vários. A grande imprensa não aborda temas com profundidade que contrariem os interesses de seus anunciantes p-r-i-v-a-d-o-s como operadoras de telefonia, bancos, construtoras, entre outros.

Já repararam que quase não há no noticiário brasileiro empresário corrupto? Somente os que se envolvem com a teia da corrupção política e que, muitas vezes, aparecem como vítimas de políticos corruptos. E quem paga propina é o que? E quem paga pagar levar vantagem é o que?

Já repararam que no noticiário brasileiro são escassas as reportagens sobre grandes grupos (como supermercados, lojistas, distribuidores) que lesam o consumidor?


Já repararam que no noticiário brasileiro são poucas as reportagens que abordam empregadores que desrespeitam sistematicamente os direitos trabalhistas? 

Já repararam que não há debate profundo sobre grandes marcas que degradam o meio ambiente?

Geralmente quando o assunto é abordado pela grande imprensa, a fonte da notícia é oficial, ou seja, algum órgão público multou a empresa A , fechou a indústria B, lacrou o estabelecimento C.

O caso recente da Zara prova isso. O Ministério do Trabalho flagrou diversas irregularidades, incluindo condições de trabalho próximas à escravidão, em confecções da marca espanhola. A investigação do órgão público é que deu origem às notícias, mas sem grande repercussão ou destaque nas primeiras páginas dos dias subsequentes.

Censura judicial e censura imposta por ditaduras são prejudiciais e devem ser combatidas sempre, assim como a autocensura. Essa é muito perigosa e - talvez pior - por ser selenciosa e contar com a conivência dos próprios veículos de comunicação.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Muralhas invisíveis

Londrina (ou pelo menos quem se sente afetado diretamente) discute as leis da Muralha, que impedem a instalação de supermercados com mais de 1.500 m² na região central da cidade. A primeira versão da lei é do prefeito Nedson Micheleti, de 2005, e teve os limites da muralha ampliados em 2006, pelo então vereador Orlando Bonilha. As leis viraram foco de disputa por causa do projeto de lei do vereador Roberto Fu, que quer derrubar as muralhas e permitir que grandes empreendimentos se instalem onde quiserem.

De um lado, grupos econômicos e seus advogados são contra as leis e falam de ir à Justiça para garantir a livre iniciativa. O grupo ataca a legislação argumentando que ela favorece a reserva de mercado, sendo - portanto - inconstitucional. Do outro lado, grupos de comerciantes defendem as muralhas sob o pretexto de que os grandes supermercados são predadores e levariam à extinção os pequenos mercados.

Ambos estão corretos. Ressalte-se, segundo seus próprios interesses. Sob a égide capitalista, há quem defenda a livre iniciativa, com altar, flores, velas e orações para o deus-mercado. Nesta perspectiva não há espaço para muralhas, ou seja, não há limites. Reservas não são bem-vindas, claro para a gula empresarial dos grandes grupos econômicos. O dinheiro tem poder. E isso não é novidade para ninguém. 

Esse grupo brada que o estado deve ser mínimo, que não deve ser uma muralha para o capital. Destaque para quando ganha muito e tem faturamento exorbitante. Quando perdem, os liberais - que poderiam ser classificados de contraditórios, mas seria elogio (oportunista é mais adequado) - querem o socorro dos bancos nacionais de desenvolvimento econômico e social. Ou seja, dinheiro público (o estado não é mais muralha) para salvar liberal falido.

E em termos de muralhas, o mundo é pródigo em produzi-los. O muro de Berlim, por exemplo, ruiu e com ele todo um sistema econômico. Para muitos, é o símbolo do fracasso socialista. É o fortalecimento do capitalismo como modelo, inclusive de vida, baseado nas relações de produção e consumo. Esses não se dão conta que o capitalismo também tem seu símbolo de fracasso.

As Torres Gêmeas americanas ruíram. Mais que um atentado terrorista, a queda representa o colapso do capitalismo. A globalização, com as grandes corporações e o capital especulativo sem nação, mostra que o modelo capitalista concentra a riqueza, aumenta as diferenças entre países ricos e pobres, gera exclusão e fome. A atual Somália é só mais um efeito colateral que ilustra perfeitamente a situação.

Os distúrbios recentes na Inglaterra, o colapso do sistema econômico grego e o colapso adiado da Espanha e da Itália provam que as muralhas atuais são visivelmente invisíveis. A Europa está unificada apenas sob uma mesma moeda. Os países e seus habitantes continuam diferentes, isolados nos seus interesses e confinados no próprio modelo que ajudaram a erguer.

O terrorista norueguês Anders Behring Breivik - branco, loiro, alto, limpo e cheiroso (a quem a mídia nacional e internacional chama de atirador) provou no massacre que promoveu na Noruega que as muralhas invisíveis ainda vão fazer milhares de vítimas. A globalização - marca do capitalismo - que prometia a integração dos povos revelou-se ineficiente quando o enfoque é convivência com as diferenças. E essa muralha levará muito tempo - se a humanidade ainda tiver tempo - para ser derrubada.

Anders Behring Breivik, o terrorista norueguês, branco, loiro, alto, limpo e cheiroso - a quem a mídia nacional e internacional chama de atirador - escreveu  num manifesto pela internet que "a razão da nossa preocupação e oposição deve-se ao fato de que a imigração massiva, a mistura racial e a adoção por não europeus são uma ameaça à unidade da nossa tribo (...)" 

Alguém duvida que as muralhas invisíveis (como a fome, a concentração de bens e riqueza e a desigualdade social) são mais difíceis de serem derrubadas?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Essas palavras...

Palavras 
acariciam
e machucam.

Palavras
acalmam
e irritam.

Palavras
impõem
e sugerem.

Palavras
pedem
e mandam.

Palavras
orientam
e atordoam.

Palavras são
banais
e fatais.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Inquietudes (86) do Rei

É melhor manter nosso ídolo como ídolo. Se você quiser aprofundar a relação vai descobrir que ele é normal. E a normalidade não integra o rol das características do ídolo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Inquietudes (85) do Rei

No Brasil, os hospitais registram altas taxas de infecção hospitalar porque não conhecem a marca de sabonete que anuncia - em redes de televisão - eliminar 99,9% das bactérias. E tem gente que acredita no poder do sabonete.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ninguém me ouve!

Reunir o grupo todo na mesma data com um cardápio em comum não é uma tarefa fácil. Ai essas bu.../lheres indecisas...

Um grupo de amigos e amigas marca de se reunir na casa da Lúcia Aparecida.

Levam uma infinidade de tempo - são pessoas indecisas - para definir o cardápio.

Quando a comilança está definitivamente combinada, marcam a primeira data.

Alguém não pode.

Marcam a segunda data.

Outra não pode.

Marcam a terceira data.

__Não estarei na cidade. Por isso, tenham um bom sukiaki. Ele escreveu sem paciência.

Silêncio na rede. O vazio do vácuo virtual toma conta da conversa internética.

Os e-mails calam-se.

Claro que por poucos instantes.

A Lucia Aparecida - como boa anfitriã e negociadora da data e do cardápio - consegue uma nova agenda.

Ah! e o cardápio mudou.

A Denise Clarice - a cozinheira do dia (ou melhor, da noite) - vai chegar mais tarde.

Todos concordam com a mudança do cardápio e ninguém mais se atreve a pedir para mudar o dia (ou melhor, a noite).
 
__Vou me esforçar para ir.
__Estou com um problema, chego mais tarde.
__Não poderei ir por causa disso.
__Não poderei ir por causa daquilo.


As justificativas são muitas porque, afinal, ausência não justificada tira o elemento faltoso da comilança.

Depois não adianta reclamar que foi excluída.

No horário combinado, a comida está pronta e os convidados ainda não chegaram.

Chega um.

Chegam dois.

Chegam vários.

Na porta do apartamento, a Joelma de Fátima toca a campainha.

Ninguém ouve.

De dentro, ela ouve o tilintar das taças e a gargalhada frouxa dos convidados.

Joelma de Fátima bate na porta três vezes.

Ninguém ouve.

Joelma de Fátima toca a campainha novamente.

Ninguém ouve.

Joelma de Fátima bate na porta três vezes novamente.

Ninguém ouve.

Cansada, Joelma de Fátima liga no celular da Lúcia Aparecida.

__Oi Lúcia Aparecida. Ninguém me ouve.
__Vem pra cá Joelma de Fátima. Tá todo mundo aqui.
__Mas ninguém me ouve.
__A gente ouve você sim! Tá todo mundo morrendo de saudade. Vem pra cá!
__Porra! Ninguém me ouve batendo na porta. Toquei a campainha e bati um monte.


Ops!

A gargalhada corre frouxa mais que nunca.

terça-feira, 2 de agosto de 2011