quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Censura silenciosa

A Folha.com noticiou ontem (dia 23) que a "censura judicial imposta a veículos de comunicação e direito de acesso a documentos públicos foram os principais temas debatidos na 6ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Expressão." O evento foi realizado em Brasília.

Um dos exemplos que vieram à tona durante a conferência foi a decisão judicial, de 2009, que impediu o jornal O Estado de S. Paulo de veicular "reportagens sobre operação da Polícia Federal que investigava o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP)."


A reportagem destacou uma fala de Taís Gasparian, mestre em Direito pela USP e advogada da Folha. "A censura judicial chega a ser pior que a censura imposta pela ditadura militar."

Jornalistas e profissionais dos veículos tradicionais de comunicação - a Folha de S.Paulo soma-se ao Estadão, Veja, Isto É, Época, Globo, Record, SBT, Band, enfim... - atacam a censura externa. E fazem muito bem. Qualquer forma de censura é prejudicial à democracia e à cidadania.


Infelizmente esses mesmos profissionais e veículos não têm a disposição e o ânimo para atacar outra forma de censura. A autocensura. Esse tipo é interno, está no âmbito das redações dos próprios veículos de comunicação, portanto, afeta diretamente o profissional e o veículo.

A autocensura passa também por quem planeja os conteúdos e consiste em não abordar assuntos espinhosos à política editorial do veículo, por causa dos seus interesses político-ideológicos e, principalmente, econômicos.

Um exemplo? Vários. A grande imprensa não aborda temas com profundidade que contrariem os interesses de seus anunciantes p-r-i-v-a-d-o-s como operadoras de telefonia, bancos, construtoras, entre outros.

Já repararam que quase não há no noticiário brasileiro empresário corrupto? Somente os que se envolvem com a teia da corrupção política e que, muitas vezes, aparecem como vítimas de políticos corruptos. E quem paga propina é o que? E quem paga pagar levar vantagem é o que?

Já repararam que no noticiário brasileiro são escassas as reportagens sobre grandes grupos (como supermercados, lojistas, distribuidores) que lesam o consumidor?


Já repararam que no noticiário brasileiro são poucas as reportagens que abordam empregadores que desrespeitam sistematicamente os direitos trabalhistas? 

Já repararam que não há debate profundo sobre grandes marcas que degradam o meio ambiente?

Geralmente quando o assunto é abordado pela grande imprensa, a fonte da notícia é oficial, ou seja, algum órgão público multou a empresa A , fechou a indústria B, lacrou o estabelecimento C.

O caso recente da Zara prova isso. O Ministério do Trabalho flagrou diversas irregularidades, incluindo condições de trabalho próximas à escravidão, em confecções da marca espanhola. A investigação do órgão público é que deu origem às notícias, mas sem grande repercussão ou destaque nas primeiras páginas dos dias subsequentes.

Censura judicial e censura imposta por ditaduras são prejudiciais e devem ser combatidas sempre, assim como a autocensura. Essa é muito perigosa e - talvez pior - por ser selenciosa e contar com a conivência dos próprios veículos de comunicação.

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