segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Muralhas invisíveis

Londrina (ou pelo menos quem se sente afetado diretamente) discute as leis da Muralha, que impedem a instalação de supermercados com mais de 1.500 m² na região central da cidade. A primeira versão da lei é do prefeito Nedson Micheleti, de 2005, e teve os limites da muralha ampliados em 2006, pelo então vereador Orlando Bonilha. As leis viraram foco de disputa por causa do projeto de lei do vereador Roberto Fu, que quer derrubar as muralhas e permitir que grandes empreendimentos se instalem onde quiserem.

De um lado, grupos econômicos e seus advogados são contra as leis e falam de ir à Justiça para garantir a livre iniciativa. O grupo ataca a legislação argumentando que ela favorece a reserva de mercado, sendo - portanto - inconstitucional. Do outro lado, grupos de comerciantes defendem as muralhas sob o pretexto de que os grandes supermercados são predadores e levariam à extinção os pequenos mercados.

Ambos estão corretos. Ressalte-se, segundo seus próprios interesses. Sob a égide capitalista, há quem defenda a livre iniciativa, com altar, flores, velas e orações para o deus-mercado. Nesta perspectiva não há espaço para muralhas, ou seja, não há limites. Reservas não são bem-vindas, claro para a gula empresarial dos grandes grupos econômicos. O dinheiro tem poder. E isso não é novidade para ninguém. 

Esse grupo brada que o estado deve ser mínimo, que não deve ser uma muralha para o capital. Destaque para quando ganha muito e tem faturamento exorbitante. Quando perdem, os liberais - que poderiam ser classificados de contraditórios, mas seria elogio (oportunista é mais adequado) - querem o socorro dos bancos nacionais de desenvolvimento econômico e social. Ou seja, dinheiro público (o estado não é mais muralha) para salvar liberal falido.

E em termos de muralhas, o mundo é pródigo em produzi-los. O muro de Berlim, por exemplo, ruiu e com ele todo um sistema econômico. Para muitos, é o símbolo do fracasso socialista. É o fortalecimento do capitalismo como modelo, inclusive de vida, baseado nas relações de produção e consumo. Esses não se dão conta que o capitalismo também tem seu símbolo de fracasso.

As Torres Gêmeas americanas ruíram. Mais que um atentado terrorista, a queda representa o colapso do capitalismo. A globalização, com as grandes corporações e o capital especulativo sem nação, mostra que o modelo capitalista concentra a riqueza, aumenta as diferenças entre países ricos e pobres, gera exclusão e fome. A atual Somália é só mais um efeito colateral que ilustra perfeitamente a situação.

Os distúrbios recentes na Inglaterra, o colapso do sistema econômico grego e o colapso adiado da Espanha e da Itália provam que as muralhas atuais são visivelmente invisíveis. A Europa está unificada apenas sob uma mesma moeda. Os países e seus habitantes continuam diferentes, isolados nos seus interesses e confinados no próprio modelo que ajudaram a erguer.

O terrorista norueguês Anders Behring Breivik - branco, loiro, alto, limpo e cheiroso (a quem a mídia nacional e internacional chama de atirador) provou no massacre que promoveu na Noruega que as muralhas invisíveis ainda vão fazer milhares de vítimas. A globalização - marca do capitalismo - que prometia a integração dos povos revelou-se ineficiente quando o enfoque é convivência com as diferenças. E essa muralha levará muito tempo - se a humanidade ainda tiver tempo - para ser derrubada.

Anders Behring Breivik, o terrorista norueguês, branco, loiro, alto, limpo e cheiroso - a quem a mídia nacional e internacional chama de atirador - escreveu  num manifesto pela internet que "a razão da nossa preocupação e oposição deve-se ao fato de que a imigração massiva, a mistura racial e a adoção por não europeus são uma ameaça à unidade da nossa tribo (...)" 

Alguém duvida que as muralhas invisíveis (como a fome, a concentração de bens e riqueza e a desigualdade social) são mais difíceis de serem derrubadas?

2 comentários:

Anônimo disse...

Rei, voc^foi direto ao ponto... Com certeza as muralhas invisíveis são mais difíceis de serem derrubadas e são alimentadas muitas vezes por um silêncio hipócrita.Infelismente vivemos rodeados de muralhas.

Ana Carla Barbosa disse...

"Sob a égide capitalista, há quem defenda a livre iniciativa, com altar, flores, velas e orações para o deus-mercado." - Arrasou, heim Rei?