quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Inquietudes (91) do Rei

O prazo final de filiação partidária, para quem quer se candidatar nas eleições de 2012, é 7 de outubro de 2011. Um ano antes do 1º turno do ano que vem. Esse prazo vale também para os atuais políticos que ocupam mandatos eletivos, ou seja, quem quiser trocar de partido tem uma semana e deve apressar as negociações. A infidelidade partidária encontra respaldo até nas leis. Se a política é uma zona mesmo, a legislação brasileira regula a entrada ao bordel.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Galinha dálmata

Criança é de uma espontaneidade absurda.
Pena que quando vira adulto, geralmente, perde a característica.
O Otávio, quando menor, ficou espantado quando viu - pela primeira vez - uma galinha d'angola.
Tanto que ele teve uma definição espetacular para aquela galinha esquisita.
__Pai! uma galinha dálmata.
Falar o que nessas horas?
__É verdade, filho! É uma galinha dálmata mesmo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

De Jesus para Jésus

Sarado.
Alto.
Cabeleira dourada.
Fashion.
Bronzeado.
Musculoso.
Olhos azuis.

Esse é Jesus Cristo. Pelo menos a imagem de Jesus que o artista norte-americano Stephen Sawyer criou para o projeto Art4God.

"Um Chuck Norris de sandálias." A definição é do jornal New York Times.

Segundo a BBC Brasil, via Folha.com, os idealizadores do projeto Art4God têm o objetivo de "tentar aproximar os jovens da religião".

"Não sei como Cristo era visto há 2 mil anos, nem me importa. Quero criar uma iconografia que seja relevante para hoje."

As palavras de Sawyer reforçam uma triste evidência. A aparência é mais importante que o conteúdo.

Não importa o que Jesus pregou.

Não importa o que Jesus libertou.

Não importa o que Jesus deixou.

Importa a forma.

Importa o meio.

Importa a quantidade de fiéis.

A cultura ocidental é teimosa.

Teima em retratar um Jesus branco, alto, loiro e forte.

Até parece a descrição física do terrorista cristão de ultradireita, limpinho e cheiroso, Anders Behring Breivik, o norueguês que matou quase 100 jovens numa ilha da Noruega!

Jesus Cristo com cara de Cristo não atende às necessidades ocidentais.

É pecado mortal retratar Jesus com cara de oriente médio.

Sarado.
Alto.
Cabeleira dourada.
Fashion.
Bronzeado.
Musculoso.
Olhos azuis.

Se mesmo assim, esse Jesus não atrair os jovens para a religião, não tem problema.

Se o que vale é criar uma "iconografia que seja relevante para hoje", Jésus já está apto a posar pelado para alguma revista.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Perguntas incômodas

Ao Bonde, hoje (dia 20), sobre o possível fechamento dos pronto-socorros de Londrina nesta quarta-feira, o prefeito Barbosa Neto afirmou.

"O fechamento dos pronto-socorros não vai trazer prejuízos só para a população. O município tem a gestão plena dos recursos do SUS e se as unidades continuarem com a mesma posição, vamos entrar em contato com o Governo Federal e pedir o desligamento das duas instituições."

Se o município tem a gestão plena por que o prefeito deixou a saúde da cidade chegar ao caos que chegou?

Recentemente, o prefeito disse que não é função da prefeitura pagar o plantões a distância. Se a gestão é plena não pode pagar mesmo?

Os recursos do SUS têm fontes diferentes. Uma conta, por exemplo, para atenção básica; outra para urgência e emergência; ou seja, o SUS financia conforme a complexidade do sistema.

Nesta história da (falta de) saúde de Londrina existe muita ignorância ou má fé. Ou os dois.

Inquietudes (90) do Rei

A rotina é ingrata com aqueles que partiram.
O dia-a-dia conspira para que caiam no esquecimento.

domingo, 11 de setembro de 2011

Terror de quem mesmo?

11 de setembro de 2001. As Torres Gêmeas são derrubadas.

11 de setembro de 2011. O mundo homenageia os quase 3 mil mortos nas Torres Gêmeas.

Homenagem a trabalhadores das empresas que tinham sede nas Torres.

Homenagem a visitantes anônimos, que continuarão anônimos.

Homenagem a bombeiros que morreram no ofício do trabalho.

Na "guerra contra o terror" (terror de quem mesmo?), os EUA invadiram o Afeganistão e, depois, o Iraque.

Segundo estimativas, o governo norte-americano teria gasto, entre 2001 e 2010, cerca de US$ 1,15 trilhão com a guerra contra os dois países.

Somente no ano passado, US$ 687 bilhões foram consumidos pelo  Departamento de Defesa dos EUA.

Isso representa 43% dos gastos militares em todo o mundo, durante 2010. 

As informações são de Nivaldo Souza, em texto publicado no site do Ministério das Relações Exteriores.

Durante uma década, Bin Laden brincou de esconde-esconde e foi morto, providencialmente, no ano do 10º aniversário do atentado às Torres Gêmeas.

Durante uma década, as armas de destruição em massa de Saddam Hussein foram procuradas e não foram encontradas.

Saddam Hussein foi enforcado num espetáculo de terror contra o terror. Terror de quem mesmo?

Na guerra contra o terror (terror de quem mesmo?) os Estados Unidos e seus aliados fizerem centenas de milhares de vítimas.


Já a organização Iraq Body Count afirma que somente no Iraque foram mortos quase 112 mil civis.

11 de setembro de 2011.

Quem vai homenagear os civis mortos no Afeganistão e no Iraque?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Fatos contorcidos

__Não contorce o que eu disse.

A frase em tom ameaçador é da minha enteada, a Maíra, quando era bem pequena.


No lugar de contorce ela queria dizer distorce, mas o produto final saiu-se ainda melhor que a intenção.

Hoje vejo que ela está ainda mais atual.

É que grande parte dos jornalões brasileiros contorce os fatos para "provar" sua interpretação ao sabor da sua linha editorial.


Veja é um bom exemplo de fatos contorcidos. E por que a revista faz tanto sucesso?

Porque o seu leitor pensa exatamente igual a ela, independentemente da veracidade das informações.


Afinal, a verdade não é apenas uma questão de versão?

Que a grande mídia tem seus interesses, é sabido por todos. E por todas.

Mas enquanto a imprensa se comportar como partido fazendo menos jornalismo e mais propaganda política, quem perde é a democracia.

Afinal, nem sempre os interesses dos grupos midiáticos são os interesses da nação.

Um exemplo? A opinião de Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, ilustra bem a situação.

"A grande imprensa ainda não consegue comportar-se com naturalidade em assuntos que lhe dizem respeito. Exemplo disso foi a cobertura do 4º Congresso do PT, realizado de sexta-feira a domingo (2-4/9), em Brasília.

O acompanhamento do evento foi customizado, isto é, adaptado às posições dos jornais e acrescido de um clima de tensão visivelmente forçado. A imprensa só se preocupou consigo mesma esquecida de que o conclave teve uma vasta e variada pauta."

Para ler o artigo completo, clique aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

No dia 7 de setembro quero...

Independência...

para uma educação pública de qualidade, feita para todos.

para uma saúde pública de qualidade, feita para todos.

para políticos honestos que não se vendam por propina.

para empresários honestos que não paguem propina. 

para um meio ambiente que não seja apenas mote publicitário.

para andar a pé à noite pelo centro da cidade, sem medo de ser assaltado.

para ir e vir de carro, sem me preocupar se minha vida corre risco por causa de motoristas negligentes.

para assistir o que quiser na televisão, sem o jogo sujo da audiência.

para ouvir o que quiser nas emissoras de rádio e não apenas o que tocam em nome do jabá.

para educar meus filhos com valores e princípios que fujam aos da sociedade fragmentada e pouco solidária.

para respeitar a diversidade humana contra o estabelecimento de padrões que reduzem as pessoas ao consumo.

para acompanhar um jornalismo responsável que não se vende aos projetos políticos, sejam de direita sejam de esquerda.

Neste 7 de Setembro quero pouca coisa.

Quero apenas Independência.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Polícia ineficiente, justiça conivente

Jornal de Londrina, 5 de setembro de 2011.
Há quatro anos, vítima de mal-entendido tenta provar a inocência
Alexandre Pontes foi preso, mesmo sem provas, em 2007, acusado de ter furtado um achocolatado de R$ 2,50. Nova audiência do caso será realizada nesta segunda

A justiça brasileira nem sempre é justa, é lenta e privilegia quem tem dinheiro. Isso não é novidade para ninguém. Afinal advogados de criminosos ricos retardam, muitas vezes, o andamento de ações e protelam a realização de julgamentos. 

Em Londrina, artista plástica foi acusada de degolar a empregada e o que aconteceu? Em Londrina, a mulher foi esfaqueada 72 vezes pelo ex-marido e o que aconteceu?

E quem não pode comprar advogado caro não consegue provar sua inocência há quatro anos. 

Alexandre Pontes, que tem deficiência auditiva, foi acusado de roubar um achocolatado de R$ 2,50, foi tirado de dentro de um ônibus e ficou preso por 13 dias.

"Pontes foi preso por policiais militares dentro de um ônibus do transporte coletivo no dia 21 de fevereiro de 2007. O que tornou a situação incomum é que os funcionários do estabelecimento comercial, que teria sido alvo do assalto, afirmaram em depoimento que o rapaz não teria cometido crime algum. Eles teriam dito apenas que estranharam o comportamento de Pontes pelo fato de ele não ter falado nada quando foi acusado."

A Polícia - ineficiente para proteger a vida - consegue ser rápida para resolver problemas de danos ao patrimônio, mesmo que o dano seja de R$ 2,50.

Se a polícia é ineficiente, a justiça é conivente.

Para que legislação? se o ônus da prova não cabe mais a quem acusa, mas ao acusado que tem que provar sua inocência.

Quanto vale a vida? Quando vale a dignidade? Quanto vale a cidadania?

Vida, dignidade e cidadania valem pouco quando o estado é incompetente, o mercado é insensível e a sociedade é indiferente.

sábado, 3 de setembro de 2011

Arte da boa e da ruim

Buscando entender o que é esse negócio de pós-moderno, encontrei na web algumas coisas interessantes para refletir. Essa coisa da pós-modernidade não tem fronteiras, não limites rígidos.

Afinal, algumas áreas em alguns segmentos como o do mercado de trabalho, a vida dos trabalhadores ainda é pré-industrial. Pós-moderno aqui seria luxo, coisa de gente afrescalhada que se acha sofisticadamente sofisticada.

Então o que caracterizaria a pós-modernidade? Alguns diriam que é a época e o contexto caracterizados por mudanças significativas provocadas e vividas pelo ser humano, num ambiente de fragmentação, de incertezas, de troca de valores, numa sociedade narcisista, imediatista, consumista.

Eita, o mundo atual - globalizadamente com suas porteiras fechadas (a Europa sabe bem disso) - é mais pós-moderno do que eu pensava.

Em se tratando de arte, então, o negócio é de arrepiar: arte clássica, arte contemporânea, arte que rotula, arte dos e de rotulados. Dia desses, vi uma matéria no Portal IG, em que o Museu de Arte Ruim - é isso mesmo, tem até museu de arte ruim! - estava com uma exposição de gente comum. Artista da arte boa deve ser incomum, coisa de gente afrescalhada que se acha sofisticadamente sofisticada.

O tal Museu de Arte Ruim - em inglês Museum of Bad Art - instalou a exposição das pessoas comuns "ao lado do banheiro masculino do porão de um teatro na cidade de Boston..." Puta que pariu, além de ser comum e pintar mal o quadro vai parar no porão, ao lado do banheiro masculino. Mas se isso serve de consolo, "segundo os próprios curadores, [as obras] são tão ruins que não podem ser ignoradas."

E o pior é que os curadores - aquela gente incomum, pomposa e empolada (característica de quem tem empolas) - devem se divertir com a obra ruim da gente comum. E daí, fiquei pensando o que seria arte boa.

Seria aquela pintada por alguém que caiu nas graças de alguém e se tornou incomum?

Seria aquela chancelada por algum curador - incomum e empolado - que intermediou a venda para aquela socialite incomum, mas que entende de arte tanto quanto a gente comum que expôs no Museu da Arte Ruim, e embolsou uma comissão gorda?

Seria aquela arte para a qual o espectador olha, olha, olha e - para não fazer feio diante dos amigos que também olham, olham, olham - tenta explicar o inexplicável? __Esse quadro remete a uma natureza profunda que mexe com a psique humana porque a combinação de cores e traços busca explicar a essência do sentimento contido na intenção do artista, que tem na inspiração dos conflitos existenciais o seu gatilho para produzir.

É nessas horas que me lembro ainda mais da gente comum, do Zé. Zé tem nome de gente comum. Zé tem sabedoria de gente comum. O Zé Ramalho e o Zé(ca) Baleiro.

Minha mãe certa vez disse-me um dia,
Vendo minha obra exposta na galeria,
"Meu filho, isso é mais estranho que o cu da jia
E muito mais feio que um hipopótamo insone"


Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o segundo caderno,
Calcular o produto bruto interno,
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone,
Rodopiando na fúria do ciclone,
Reinvento o céu e o inferno

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Inquietudes (89) do Rei

As palavras são inocentes; quem as usa não!

Rótulos estigmatizam os rotulados

Há certo tempo os termos politicamente corretos são alvo de debate, com acaloradas discussões. Há quem defenda a revisão dos "termos racistas" da obra de Monteiro Lobato. Outros argumentam pela mudança até de músicas do cancioneiro popular. Neste cenário, o cravo não pode mais brigar com a rosa porque estimularia a violência de gênero, ou seja, a violência contra a mulher. Outros defendem que o politicamente correto castra a liberdade de expressão e que o ser humano é livre para usar palavras que julgar adequadas em qualquer contexto.

Exageros à parte dos dois lados, a discussão é importante e necessária. Já abordei esse tema no artigo "A linguagem e o politicamente correto".  E defendo uma divisão para o uso do politicamente correto. No dia-a-dia de pessoas comuns, a dimensão e a repercussão das palavras são diferentes daquelas usadas nos veículos de comunicação. Por isso, a responsabilidade dos comunicadores é muito grande. Afinal eles informam, desinformam, formam e deformam a opinião pública.

Neste contexto a expressão crianças especiais comporta uma série de reflexões. Exemplo pode ser conferido na manchete do jornal Folha de Londrina, de 10 de agosto, na capa do caderno Folha Cidades: "Crianças especiais precisam de padrinhos". A reportagem mostra os benefícios da equoterapia para crianças com deficiências e que precisam de ajuda financeira para fazer (ou continuar) o tratamento.

Toda criança - para alguém, por exemplo seus pais, avós, professores - é especial mesmo que não tenha deficiência. O especial aqui pode ser considerado sinônimo de única. Ocorre que as crianças com deficiência lutam pela inclusão, para serem aceitas como qualquer outra criança. O termo especial, neste sentido, a torna ainda mais diferente, portadora de uma situação que foge à "normalidade". Afinal uma das definições da palavra especial é "fora do comum".

Então se é fora do comum para que lutar para ser reconhecida como igual aos outros? O ser humano, por natureza, busca ser fora do comum, mas isso está vinculado às habilidades e competências e não às características físicas ou intelectuais. Neste ponto, vale outra reflexão. A criança com deficiência metabólica que necessita de dieta específica e medicamento exclusivo não é considerada especial. Por que? Porque sua condição não é visível, não solta ao olhar curioso de terceiros (e de jornalistas) que enxergam as diferenças que apenas conseguem ver.

Neste sentido, o ideal é que em vez de especial, o jornalismo use o termo com deficiência, uma vez que deficiências todos nós apresentamos em grau maior ou menor. Houve uma época (e ainda há) em que era comum extrair - por causa de um dente ruim - vários outros e instalar uma prótese dentária, termo mais atual e politicamente correto para dentadura, ponte móvel, perereca, entre outros. Hoje muitos adultos substituíram a tal da prótese por implantes de titânio e, nem por isso, são considerados especiais, mesmo tendo uma deficiência dentária. Este é o meu caso. Tenho seis implantes dentários de titânio. Posso garantir, que existe nada de especial nisso.

O mesmo não se pode dizer das pessoas que usam pernas ou braços mecânicos. E aqui mais uma vez entra a noção da palavra associada ao que as pessoas conseguem ver. A perna mecânica é mais diferente que os dentes mecânicos e ganha ares de excepcionalidade. Isso porque é visível, causa estranheza e ruídos à "normalidade" do ser humano. Em que pesem as particularidades, pernas e dentes "mecânicos" têm o mesmo princípio, um mecanismo de artificialidade que devolve as funções naturais ao ato de andar e comer.

Aliás, o termo excepcional foi usado largamente décadas atrás - e ainda hoje (certo, Apaes?) para classificar pessoas com deficiências. A palavra excepcional chega a ser sinônimo de "indivíduos (diz-se mais especialmente de crianças) portadores de algum defeito físico ou enfermidade, como cegueira, surdez, mudez, paralisia, retardamento mental etc." A definição é do Dicionário Michaelis. Se o excepcional é deficiente por definição, como conseguir ser respeitado como "normal"?

Portanto, a palavra que deveria ser usada para incluir acaba excluindo ainda mais. E não se trata de negar as diferenças. Trata-se de reconhecê-las, assumi-las, para assim promover a igualdade entre os diferentes no que diz respeito aos direitos. E a promoção da igualdade passa também pelo uso da palavra porque ajuda a criar uma cultura de respeito. Neste sentido, especial e excepcional são rótulos que acabam dando uma condição ainda mais extraordinária à criança com deficiência que continuarão estigmatizadas, rotuladas. E são apenas crianças.