sábado, 3 de setembro de 2011

Arte da boa e da ruim

Buscando entender o que é esse negócio de pós-moderno, encontrei na web algumas coisas interessantes para refletir. Essa coisa da pós-modernidade não tem fronteiras, não limites rígidos.

Afinal, algumas áreas em alguns segmentos como o do mercado de trabalho, a vida dos trabalhadores ainda é pré-industrial. Pós-moderno aqui seria luxo, coisa de gente afrescalhada que se acha sofisticadamente sofisticada.

Então o que caracterizaria a pós-modernidade? Alguns diriam que é a época e o contexto caracterizados por mudanças significativas provocadas e vividas pelo ser humano, num ambiente de fragmentação, de incertezas, de troca de valores, numa sociedade narcisista, imediatista, consumista.

Eita, o mundo atual - globalizadamente com suas porteiras fechadas (a Europa sabe bem disso) - é mais pós-moderno do que eu pensava.

Em se tratando de arte, então, o negócio é de arrepiar: arte clássica, arte contemporânea, arte que rotula, arte dos e de rotulados. Dia desses, vi uma matéria no Portal IG, em que o Museu de Arte Ruim - é isso mesmo, tem até museu de arte ruim! - estava com uma exposição de gente comum. Artista da arte boa deve ser incomum, coisa de gente afrescalhada que se acha sofisticadamente sofisticada.

O tal Museu de Arte Ruim - em inglês Museum of Bad Art - instalou a exposição das pessoas comuns "ao lado do banheiro masculino do porão de um teatro na cidade de Boston..." Puta que pariu, além de ser comum e pintar mal o quadro vai parar no porão, ao lado do banheiro masculino. Mas se isso serve de consolo, "segundo os próprios curadores, [as obras] são tão ruins que não podem ser ignoradas."

E o pior é que os curadores - aquela gente incomum, pomposa e empolada (característica de quem tem empolas) - devem se divertir com a obra ruim da gente comum. E daí, fiquei pensando o que seria arte boa.

Seria aquela pintada por alguém que caiu nas graças de alguém e se tornou incomum?

Seria aquela chancelada por algum curador - incomum e empolado - que intermediou a venda para aquela socialite incomum, mas que entende de arte tanto quanto a gente comum que expôs no Museu da Arte Ruim, e embolsou uma comissão gorda?

Seria aquela arte para a qual o espectador olha, olha, olha e - para não fazer feio diante dos amigos que também olham, olham, olham - tenta explicar o inexplicável? __Esse quadro remete a uma natureza profunda que mexe com a psique humana porque a combinação de cores e traços busca explicar a essência do sentimento contido na intenção do artista, que tem na inspiração dos conflitos existenciais o seu gatilho para produzir.

É nessas horas que me lembro ainda mais da gente comum, do Zé. Zé tem nome de gente comum. Zé tem sabedoria de gente comum. O Zé Ramalho e o Zé(ca) Baleiro.

Minha mãe certa vez disse-me um dia,
Vendo minha obra exposta na galeria,
"Meu filho, isso é mais estranho que o cu da jia
E muito mais feio que um hipopótamo insone"


Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o segundo caderno,
Calcular o produto bruto interno,
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone,
Rodopiando na fúria do ciclone,
Reinvento o céu e o inferno

Um comentário:

Ana Carla Barbosa disse...

Ooo Rei! Coisa mais agradável de ler! Gostei muito.