quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Nobres e pobres

O jornalismo - discuto isso em alguns artigos - é um importante construtor de sentidos. E isso é feito, geralmente, a partir de rótulos. E como a essência do jornalismo é a palavra, o sentido é gerado pelo verbo. Princípio bíblico? Não é mera coincidência. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, (...) João 1:14

Os sentidos cravados pela palavra - sustentados pelos rótulos - podem estigmatizar e, portanto, discriminar. Para ler "A linguagem e o politicamente correto", clique aqui.

A palavra nobre, segundo definição literal de Michaellis, se refere a quem tem descendência ilustre; títulos nobiliárquicos; a quem é digno de estima; brioso; bravo, valente; majestoso; distinto, ilustre, notável; a quem revela elevação moral, generosidade, grandeza de alma.

Jornalisticamente, nobre acaba como sinônimo de gente rica, de quem mora em área de grande concentração de renda (e de especulação imobiliária, mas isso não vem ao caso). Já repararam que áreas nobres para o jornalismo são aquelas que têm casas e apartamentos caros? Tudo bem, alguém pode dizer que tem dinheiro tem poder, traço típico da nobreza.

No entanto, nem todos os "nobres" que vivem em áreas ricas têm elevação moral ou grandeza de alma. Pelo contrário, volta e meia a Polícia Federal prende traficantes, políticos e empresários corruptos em mansões e apartamentos luxuosos nas ditas de áreas nobres.

Exemplo jornalístico de nobre como sinônimo de riqueza? Vários. Cito dois, de publicações impressas de abrangência diferente. Um nacional e um local.

A Folha.com afirma: Morto a facadas em um apartamento da rua Oscar Freire, área nobre de São Paulo, na madrugada desta terça-feira, o modelo Murilo Rezende da Silva, 21, foi eleito Mister Piauí 2011 e ficou em sexto lugar no concurso Mister Brasil deste ano, segundo os organizadores do evento.

Por que assinalar que o modelo foi morto num apartamento de uma área nobre? Ricos não se metem em confusão? Ricos não se matam? Não existe maldade em áreas nobres? Oh! descobriram que os nobres não são tão nobres quanto gostariam que fossem.

Por outro lado, há muita gente brava, valente, de elevação moral, generosa e com grandeza de alma que mora em vilas, na periferia, mas esses - para o jornalismo - não são nobres. São apenas pobres.

O segundo exemplo é do JL on-line, que discute as notas de uma escola pública - a municipal Norman Prochet, que fica na região central de Londrina. A escola, em 2010, tirou nota 7,5 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Qual o espanto?

"Mesmo encravada em uma área nobre da cidade, próximo à Gleba Palhano, Idehide
[supervisora da escola municipal] lembra que é "uma escola pública". Ali não há apenas filhos da classe média de Londrina: mães e pais que moram na periferia e trabalham na área enxergam a escola como uma boa alternativa às escolas do bairro de onde saem diariamente, em geral com muito mais dificuldades."

Ressaltar que se trata de uma escola pública numa área nobre revela, sutilmente, que escola pública é coisa de pobre e que não combina com uma região rica. Mas a supervisora informa que na unidade do município não há apenas filhos de classe média, há também filhos de pais que moram na periferia: trabalhadores da construção civil e empregados domésticos.
Viu? A supervisora confirma: escola pública é mesmo coisa de pobre. E pobre em área nobre, só se for empregado!

Independentemente disso, a unidade prova que é possível a escola pública, independente de seu público alvo, ter qualidade. Para isso, precisa de governo responsável, professores comprometidos e pais participantes. Mas esse é tema para outro artigo.

Enquanto isso, o nobre continua nobre e o pobre continua pobre. Significados tão diferentes para uma palavra que muda apenas uma letra. Alguém disse uma vez que pobre sempre se dá mal. Infelizmente, os rótulos jornalísticos reforçam isso diariamente.

Nenhum comentário: