sábado, 26 de novembro de 2011

Que televisão queremos?

Acusar o politicamente correto de censurar o trabalho dos artistas é, no mínimo, uma tentativa de esconder o debate sobre a qualidade da televisão brasileira

"A nova censura" Com esse título, o jornal Folha de Londrina (PR) publicou, no domingo - dia 20, uma reportagem na Folha 2, que registra a reclamação de autores de novela sobre o que chamam de "a patrulha do politicamente correto na televisão brasileira". O texto é assinado por Geraldo Bessa, da TV Press. O conteúdo está disponível na internet, apenas para assinantes.

A reportagem começa o texto afirmando que "está cada vez mais difícil abordar temas contundentes, de forma realista, na televisão brasileira." O que seriam temas contundentes e forma realista? Ficção é ficção. O resto é interpretação. No entanto, o autor do texto explica que depois do fim da ditadura, novelas como ''Roque Santeiro'' e ''Vale Tudo'', pegaram carona no movimento em prol da liberdade de expressão e conseguiram tratar de assuntos como sexualidade, drogas e política."

Esses temas fazem parte da realidade do brasileiro. Nunca se discutiu tanto, por exemplo, sexualidade incluindo o respeito à diversidade e às diferenças sexuais. Quando as novelas abordam esse tema ajudam ou atrapalham o debate? Certamente ajudam pela importância que têm no contexto atual, mas a "forma realista", defendida pelo repórter, geralmente, passa longe da realidade.

O centro das produções, via de regra, são personagens caricatos e estereotipados que em nada contribuem para o aumento da consciência de grupo, por exemplo. Pode-se exigir responsabilidade social das novelas? Por natureza, essas produções são entretenimento e não têm objetivo de conscientizar, educar ou informar os telespectadores, mas nada impede que elas contribuam para o debate de temas importantes. O problema não está em abordar sexualidade, drogas e política. O problema está em como abordar esses temas.

O texto da reportagem ainda destaca que "atualmente, os agentes da censura são representados pelas regras da classificação indicativa da tevê, definidas pelo Ministério da Justiça, e entidades sociais que ficam de olho em todos os passos dos autores." Não foram ouvidos pela reportagem nenhum representante do Ministério da Justiça e de entidades que "patrulham" autores de novelas. Por que? Porque não interessa o debate.

Quando o repórter associa classificação indicativa à censura, em vez de esclarecer acaba criando ainda mais confusão. A Constituição Federal, nos capítulos da comunicação, estabelece princípios que devem nortear a qualidade da programação da televisão. Se não há bom senso e autorregulamentação das redes em discutir temas conforme a adequação dos horários, então que venham as regras do Ministério da Justiça para impor limites que na prática deveriam estar sacramentados pelos próprios veículos.

Afirmar que a classificação indicativa é censura faz parte de uma estratégia que tem por objetivo tolher o debate sobre os próprios limites da liberdade de expressão. Ninguém em nome deste direito - básico constitucional - pode caluniar e injuriar, por exemplo. Isso não é liberdade de expressão. É no mínimo um delito que deve ser punido.

Aguinaldo Silva, que participou de "Roque Santeiro" e "Vale Tudo" - este sim ouvido pela reportagem da TV Press e com destaque - afirma que "está tudo muito chato e politicamente correto. Sou um grande defensor da livre criação e do respeito ao próximo. Mas, se escrevo uma vilã disfarçada de qualquer profissão, corro o risco de ser processado pelos sindicatos que defendem essa classe."

O autor participou de "Roque Santeiro", de 1985, e "Vale Tudo", de 1989. As novelas foram elaboradas numa época que tinha seu contexto e hoje a realidade é outra. Parece que os autores - novos e da velha guarda - não perceberam isso. O mundo mudou e os padrões, atualmente, não são iguais aos de 20, 30 anos atrás, assim como serão diferentes daqui a 20, 30 anos.

Quando Aguinaldo Silva fala em livre criação está falando do que? A livre criação permite tudo? A livre criação não precisa respeitar a legislação? A livre criação pode passar por cima da crença dos outros? A livre criação pode desrespeitar as particularidades e as diferenças dos segmentos de uma sociedade? A livre criação pode rotular e estigmatizar?

Em nome da liberdade de expressão e da livre criação, por exemplo, muitos veículos de comunicação de massa do ocidente pintam todos os muçulmanos como fanáticos e terroristas. O que evidentemente não é verdade. Portanto, a livre criação também está a serviço da ideologia que cria sentidos que não correspondem necessariamente à realidade, excluindo e gerando problemas para os afetados.

Acusar o politicamente correto de censurar o trabalho dos artistas é, no mínimo, uma tentativa de esconder o debate sobre a qualidade da televisão brasileira. Afinal que televisão queremos? Acusar os outros de serem ideológicos é jogar propositalmente a própria ideologia para debaixo do tapete, desqualificando os interlocutores. E essa atitude ideológica é típica dos intolerantes, que se escondem sob o manto da liberdade de expressão.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

No bosque havia uma rua

No bosque havia uma rua.
Escapamento.
Poluição.
Estrangulamento.
Pulmão.

No bosque havia uma rua.
Foi fechada.
Lazer.
Caminhada.

No bosque havia uma rua
E muitas pombas.
Titicas feito bombas.
Reclamação.
Ôh coisa incômoda!

No bosque há uma rua.
Foi reaberta.
Árvores decepadas.
Fim da caminhada.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Inquietudes (99) do Rei

Reportagem na edição de hoje (dia 23) do Jornal de Londrina discute o número de cesarianas realizadas em Londrina: 62% dos partos na cidade são cirúrgicos, ou seja, cesarianas. Os partos normais ficam em 38%. Os dados são referentes a 2010. Essa realidade lembra a fala de uma amiga, enfermeira.

__Parto normal é aquele que você marca hora para tirar o bebê.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Manifestações e declarações

"A gente vê com estranheza, desconfiando que é uma ação eleitoreira de quem está fazendo a reclamação sem escutar oficialmente o que a prefeitura tem a dizer sobre projeto." A declaração é do secretário de Governo de Londrina, Marco Cito, à rádio Paiquerê AM e também reproduzida pelo Bonde.

Para mim, é secundária a discussão se o local vai ser terminal de ônibus ou não. Depois de reaberta a rua, o tom será dos escapamentos. Um retrocesso para quem conquistou, anos atrás, uma área verde e de lazer, bem no centro de Londrina.

Aqui o que me interessa é a declaração do agente público, o secretário de governo, e não da pessoa Marco Cito. Faço essa distinção porque as opiniões costumam ganhar conotação de tudo, menos de opinião. Aqui, é só mais uma opinião de quem pensa e reflete sobre o que lê.

O secretário de governo classifica de eleitoreira a manifestação, e - portanto rotula de manipulados por agentes políticos com fins eleitorais - os manifestantes que são contra o corte de árvores no bosque e a reabertura da rua Piauí para o trânsito de veículos.

O debate público sobre ações públicas é bem-vindo, saudável e necessário, até porque o Executivo, assim como os outros poderes, deve satisfação pública e ao público.

A declaração, infelizmente, não é novidade no cenário político e acomete muitos representantes indiretos do povo. Indiretos porque não foram eleitos e sim indicados pelo vencedor nas urnas, neste caso o prefeito. Mesmo este, deve dar satisfação ao público.

Independente de colorações partidárias e de elasticidades ideológicas da esquerda e da direita, essa postura de se sentir acima da voz da população é um problema crônico dos políticos brasileiros. Quando a réplica sai e entra a desqualificação, todos perdem. Principalmente, o debate.

O agente público, sob a argumentação da ação eleitoreira desqualifica os manifestantes.

O agente público, sob a argumentação da ação eleitoreira desqualifica o debate.

O agente público, sob a argumentação da ação eleitoreira "sem escutar oficialmente o que a prefeitura tem a dizer" supõe que sua voz é mais legítima que a dos manifestantes.

A manifestação pública integra o rol das garantias de liberdade de expressão e nenhum manifestante, numa sociedade democrática, precisa de alvará do poder público para isso, nem para escrever um artigo como este.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Amigos de facebook

__Pai, quantos amigos você tem no face?

Enquanto o pai se prepara para responder, o menino vai rapidamente na página do pai.

__1.173? Pai você é famoso. Você tem muitos amigos. Eu só tenho 71.
__É tenho muitos amigos mesmo, mas no face.
__Como assim?
__Quantos amigos desses você vê frequentando a casa do papai, por exemplo?
__Poucos.
__Então, o fato de eu ter mais de um mil nomes na minha listagem, não quer dizer que sejam amigos. Tem gente que me adiciona que eu nem sei quem é. E amizade tem muitos níveis. O que é ser amigo para você, meu filho?
__Bom... ser amigo, é você ajudar quando o amigo precisa, marcar de brincar na casa dele e ele vim aqui em casa, dormir na casa dele depois do cinema, ficar triste quando alguma coisa ruim acontece com ele, ficar contente quando uma coisa boa acontece, querer saber como ele está...
__Então filho, ser amigo é algo muito diferente do que que está nesse mundo virtual?
__Então por que o face chama de amigos quem não é?
__Por que precisa parecer um relacionamento próximo, que as pessoas se gostam e se dão super bem. Na realidade o nome já diz, rede social. E por isso é superficial.
__Ahn, vou pensar nisso. Obrigado pai.

domingo, 13 de novembro de 2011

Sociedade permissiva e superficial

Crianças e adolescentes, de 10 a 14 anos, trabalhando em empresas da construção civil, pavimentação e fábricas de fertilizantes. E o pior com autorização judicial. A autorização neste caso ocorre porque a legislação brasileira proíbe o trabalho até 14 anos; entre 14 e 16, somente na condição de aprendiz e acima de 16, está liberado. O assunto é tema de reportagem hoje (dia 13) do jornal Folha de Londrina.

Segundo a reportagem, o Paraná saiu da 7ª posição em 2005 - com 54 autorizações judiciais - para o 3º lugar, em 2010 - com 663 autorizações. Hoje o Paraná perde somente para São Paulo e Minas Gerais.

Ouvido pela reportagem, o juiz trabalhista Reginaldo Melhado, afirma que "criança tem que brincar, estudar." Para ele, quem deveria discutir o tema era a justiça do trabalho e não na justiça comum. Assim, segundo o magistrado, o número de autorizações poderia cair. Essa é uma medida coerente. E acrescento: o Conselho Nacional de Justiça poderia investigar os juízes que concederam as autorizações. Algum juiz pode ter relacionamento com as empresas "beneficiadas" com as autorizações? Perguntar não ofende, hein!

Criança trabalhando é melhor que na rua exposta aos atrativos do tráfico de drogas. O juiz Reginaldo Melhado considera esse argumento falacioso. Pode até ser, mas sendo de classe média e alta, é muito fácil julgar quando os pais, ou às vezes a mãe sozinha, não conseguem dar uma educação à altura.

Até onde sei, pais muito pobres não levam o filho de carro para a escola particular e filho de pais pobres não fazem inglês, natação ou tênis, aula de pintura, ballet ou qualquer outra coisa como essas de "primeira necessidade". A exploração infantil deve ser combatida, mas julgamentos sobre a realidade de muitos pais pobres ficam numa linha tênue entre o desconhecimento da realidade e a hipocrisia.

Para o promotor Murillo José Digiácomo, ouvido pela reportagem, as famílias que têm na criança o sustento da casa "não é válido". Para ele, "quem tem que prover o sustento da família são os pais. O poder público deve criar mecanismos para que esses pais consigam  emprego, ou sejam inseridos em algum programa de apoio, de geração de renda." 

Perfeito promotor. E nem é novidade porque isso está inclusive na Constituição Federal. E tem gente - talvez os mesmos empresários que "empregam" crianças e adolescentes e os juízes que dão a autorização judicial - contra as políticas públicas de assistência social. Hoje essas políticas são muitas e dão condição para os pais, que querem progredir, consigam isso. Da Política Nacional de Assistência Social cito apenas o Bolsa Família, que já provou ser eficiente.

Nesta disputa de sentidos, um viés passa longe do debate nacional: o trabalho infantil nas artes. A superficialidade da discussão é evidente. Pela legislação, crianças e adolescentes menores de 14 anos não podem atuar como trabalhadores, por exemplo, em redes de televisão e na indústria da música. Pela lei, não pode. E a sociedade fecha os olhos. Até porque nesses casos, são os pais muitas vezes os próprios empresários, explorando os filhos-clientes.

E a dupla, desfeita em 2007, Sandy e Junior, é um bom exemplo da exploração do trabalho infantil. Sandy nasceu em 1983 e lançou seu primeiro álbum com o irmão em 1991, "O aniversário do tatu". Que meigo! A menina tinha 8 anos de idade quando lançou o primeiro trabalho, ou seja, três anos depois da promulgação da Constituição Federal (1988). Um claro desrespeito à legislação.

Quem não se lembra de que a justiça do Rio de Janeiro proibiu o elenco infantil da novela "Laços de Família" da Rede Globo? A emissora recorreu e ganhou a disputa. Na época, até o jornalismo da emissora foi usado para atacar a justiça e contaminar o debate sobre trabalho infantil. Lembro-me do autor da novela, numa edição do Jornal Nacional, argumentando que tinha o direito de colocar o filho na novela que quisesse. Ele pode?

Muitos podem alegar que crianças artistas podem trabalhar porque ganham bem, têm muitas regalias no mundo do entretenimento, que arte não é trabalho. Neste sentido, se a perspectiva passa pelo salário e as condições de trabalho, outros podem sugerir a criação de pisos para crianças que cortam cana; ou quem sabe exigir melhores condições de trabalhos, com equipamentos de proteção individual (EPI) para crianças que atuam em carvoarias. Trabalho infantil é trabalho infantil. O resto é interpretação da lei.

sábado, 12 de novembro de 2011

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre Mercedes-Benz e BMW

''O condutor do veículo BMW prestou declaração, mas não podemos expor porque a declaração é de cunho subjetivo.'' "O boletim de ocorrência ficará à disposição das partes apenas.''

As declarações acima são do inspetor chefe do Núcleo de Policiamento e Fiscalização da Polícia Rodoviária Federal, em Londrina, Vicente Zangirolani, sobre o fato do prefeito de Londrina, Barbosa Neto ter se envolvido num acidente de trânsito na noite de segunda-feira (dia 31).

O prefeito dirigia uma Mercedez-Benz e bateu em uma BMW, dirigida por Nilton Silva. O motorista da BMW afirma que o prefeito avançou o sinal. O fato é negado por pessoas próximas a Barbosa, que estariam atrás do carro do prefeito, em outro veículo.

A polícia não pode expor o conteúdo das declarações por serem subjetivas. O boletim de ocorrência não ficará à disposição do público como ficam os boletins de motoristas comuns lidos e relidos por radialistas ao longo de um dia inteiro.

A Folha de Londrina noticia hoje (dia 2) que o "o inspetor afirmou que policiais fizeram o levantamento das condições em que o acidente ocorreu, mas a polícia não deve emitir juízo de valor."

Que beleza! Juízo de valor da polícia é para gente comum. Motorista que não dirige BMW ou Mercedes-Benz, nem é prefeito, vai parar nas páginas dos jornais e nas ondas do rádio, em informações recheadas de opiniões de representantes de organismos policiais.

Delegados da Polícia Civil e relações públicas da Polícia Militar são campeões em fazer isso, julgando e condenando, sem ao menos iniciar e concluir os processos investigatórios.

Leia "Sobre estupros e tesão".

Leia "Polícia ineficiente, justiça conivente".

Leia "Quanto vale a vida?".

Leia  "Inquietudes (80) do Rei".

Leia "Varejo e atacado".

A atitude do inspetor Vicente Zangirolani, mais exceção que regra, deveria ser uma conduta normal de quem representa a segurança bancada com dinheiro do contribuinte.

Esse episódio mostra que quando a polícia quer, ela sabe fazer o serviço com responsabilidade e ética, sem servir de pano de fundo para programas policiais sensacionalistas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O sabor de 141 medalhas

O que o Jornal Nacional fez na (falta de) cobertura do Pan-Americano de Guadalajara é caso de polícia.

O senhor William Bonner, como editor-chefe do noticiário, prova com essa atitude que informação jornalística de interesse público é a que vem atrelada a contrato comercial milionário com transmissão exclusiva de grandes eventos esportivos.


Não importam as medalhas conquistadas pelo país.

Não importa a delegação brasileira.

Não importa o investimento nos atletas e nas modalidades.

Não importa a informação.

Importa o contrato exclusivo.

Importam as cotas de anúncios publicitários na programação.

Importa o espetáculo esportivo.

Importa o espetáculo telejornalístico.


O Jornal Nacional não ingnorou apenas o Pan.

Ignorou o jornalismo comprometido com a informação de qualidade.

Ignorou os brasileiros.

Ignorou os atletas.

Ignorou o Brasil.

Falar em Conselho Nacional de Comunicação, para essa gente da Globo e de outros veículos nacionais, é falar em censura.

E o que promoveu a Rede Globo com essa atitude?

Censura por causa de interesses comerciais e econômicos.


Por isso, são necessários mecanismos para democratizar a comunicação, visto que a Rede Globo deve satisfação pública e ao público, como qualquer emissora de rádio e TV, por ser concessão.

Enquanto não há mecanismos para consolidar efetivamente a democratização da comunicação no Brasil, que a Globo faça a digestão da derrota para a Record, que conseguiu exclusividade na transmissão dos jogos.

E que essa digestão tenha o sabor de 141 medalhas, sendo 48 de ouro, 35 de prata e 58 de bronze.