quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O primeiro assalto

O semestre está acabando. As pautas estão sendo revisadas. Devidamente assinadas. A recuperação em andamento. As provas finais sendo elaboradas. Relatórios de extensão.

__Como assim? Você não cansa que nem um pedreiro! Você fica na sombra e o pedreiro rala no sol.

A visão é de um garoto de 15 anos, numa palestra da qual ele participou - no final do semestre - para falar sobre a profissão de jornalista e o jornalismo opinativo.

__É verdade! Eu trabalho num lugar com ar condicionado. Não tem sol, mas me canso tanto ou quanto o pedreiro que você mencionou.
__Cansa como?
__O meu cansaço é mental. O do pedreiro é físico. Nenhum é melhor que o outro.
Alguns adolescentes tiram com a cara do desaforado! Onde já se viu dizer que professor não cansa!

__Essa fala do - qual é seu nome? - é um processo construído socialmente... Ele repete o que ouviu: que o trabalhador é trabalhador quando pega no pesado. E ele vai formando a própria opinião com suas experiências. Mas junto com as experiências tem a informação. E, neste sentido, os veículos de comunicação também formam a opinião, ou seja, a nossa opinião depende da quantidade e da qualidade das informações que temos.

E a palestra continua. Uma provocação daqui. Outra dali. E termina tudo bem. Ele volta à faculdade, cumpre o restante do expediente da manhã.

À noite recomeça o trabalho. As pautas estão sendo revisadas. Devidamente assinadas. A recuperação em andamento. As provas finais sendo elaboradas. Relatórios de extensão.

Final de expediente. Desliga o computador. Apaga as luzes. Fecha a porta. Caminha em direção à saída.

__Que bom! Consegui encaminhar muita coisa. Amanhã vai ser mais fácil.

Passa pela catraca, atravessa a rua. Anda uns 20 metros. Abre o portão da casa onde estaciona porque na rua não tem vagas. Caminha em direção ao carro. Destranca. Abre a porta e senta.

Nisso, vê dois adolescentes vindo em sua direção. Apontam alguma coisa para ele. Não percebe do que se trata.

Um dos adolescentes abre a porta, aponta novamente a arma e diz para deixar o celular e os documentos. Ele vai pegar a carteira na mochila.

__Não faça movimentos bruscos.

O aviso em tom sereno é do elemento da esquerda. Nem deu tempo de ver a cara do elemento da direita que, nesta hora, já estava sentado no banco do carona.

Cacete! Bandido agora vem com legenda. Melhor assim. O ladrão avisa como a vítima deve se comportar. Isso é importante, principalmente, para a vítima do primeiro assalto.

__Posso ficar com os meus documentos? Tenho muita coisa aqui.
__Deixa, deixa tudo! E não faça movimento brusco.


Que coisa meiga! Ladrão com manual de instrução facilita muito a vida da vítima. Mesmo!

__Meus pen-drives. Tenho muita aula. Deixa eu ficar com eles.

Não dá para acreditar. Professor pensa nas aulas até em assalto. Puta que pariu!

__Não! Você vai recuperar tudo. Queremos o carro pra fazer um roubo.

E lá se foram. Os elementos. O carro. A mochila. O celular. Os documentos. Bem que ele podia ter deixado os documentos. Bandido mau!

2 comentários:

Luciano disse...

realmente a bandidagem ta solta. e esse nosso código que favorece o menor de idade pra "ajudar" ainda mais.
culpar a polícia? não, pois ela não tem como ser onipresente, culpar o Estado? sim, esse não faz o papel direito de educar, distribuir renda e melhorar as condições de todos.
bandidos abusados. o que importa é a vida e vc soube ter a calma para preservar esse que é seu maior bem.

Reinaldo C. Zanardi disse...

Luciano, concordo com vc. O governo tem de investir em todas as políticas sociais, mas nunca serão suficientes para evitar totalmente a violência e a criminalidade. As políticas dão oportunidades importantes e ajudam a prevenir, mas quem prefere um caminho mais fácil não adere aos programas sociais. Além disso, há pessoas que optam por serem más. Esses exercem e gostam da maldade, se apropriam de algo que não é seu, atentam contra a vida sem o menor respeito. Contra esses, não há política social que dê jeito.