domingo, 16 de dezembro de 2012

Cerca elétrica

Cultivo à violência

A agressão aos direitos humanos é milenar e, talvez, hoje tenhamos um dos períodos mais tranquilos da história da humanidade.

Jogar cristãos aos leões e queimar mulheres acusadas de bruxaria não são contos de fadas. 

A sociedade cultiva a violência porque gosta dela. 

E nesse culto, a cultura midiática é pródiga na produção e na difusão da violência.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A novela do mensalão

No julgamento da Ação Penal 470, o Supremo Tribunal Federal (STF) cumpriu um roteiro próximo ao de uma novela.

O ministro relator Joaquim Barbosa cumpriu o papel do protagonista, o mocinho - primeiro ministro negro - e foi alçado à  condição de vingador.

O ministro relator Ricardo Lewandowsk vestiu o figurino do vilão, defendendo os bandidos acusados.

Outros ministros disputaram o papel de coadjuvante, num script cumprido ora por Gilmar, ora por Celso, ora por Rosa, ora... por quem mesmo?

A imprensa atiçou o julgamento reportando a velha pauta midiática no horário da manhã, do início da tarde, da tarde, da noite e da madrugada. 

O domínio do fato caiu na boca da audiência como o sapato da protagonista, o conjuntinho da vilã ou os acessórios da bandida.

E por falar em audiência, o brasileiro também seguiu a risca o script formal  da dramaturgia do julgamento, esquecendo-se da trama e substituindo os personagens por outros. 

Reza a tradição que antes do fim de uma trama, o início de outra seduz ainda mais os telespectadores. Afinal, o espetáculo não pode parar.

Voluntário já foi militante

E o militante virou voluntário. 

Isso mesmo, voluntário, aquele que realiza alguma coisa de forma espontânea, sem obrigação, por amor. 

Mas voluntário tem compromisso... de voluntário. 

Sabe aquela festa junina de colégio de classe média alta cujos estudantes vão ao asilo?

E aí, a menina de 15 anos dá entrevista para o jornal e diz que "o grupo veio trazer um pouco de alegria para os velhinhos". 

Quanto idoso sortudo!

Um dia de felicidade e 364 dias de tristeza.

Isso que é voluntariado, se fossem militantes, as ações eram permanentes.

Inquietudes (150) do Rei

As redes sociais são o palco perfeito para os simulacros e as simulações conceituadas por Jean Baudrillard. Afinal, no mundo virtual, com vidas tão profundas quanto um monitor LCD, "dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem." 

Inquietudes (149) do Rei

A Folha de S.Paulo que, durante a semana toda, deu destaque às novas acusações velhas a Lula, publicou - sem ênfase - que as procuradoras que tomaram o depoimento de Marcos Valério não confiam no depoimento do operador do mensalão. 

As procuradoras não confiam no depoimento do acusado condenado pelo STF a algumas décadas de cadeia, mas o teor do documento, sob responsabilidade da Procuradoria Geral da República, vazou e a imprensa publicou muitas manchetes com as acusações a Lula. 

Chamaria isso de contradição, se não fosse calhordice.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sem graça mesmo!

Danuza Leão publicou artigo, no último dia 25, na Folha de S.Paulo, e o texto vem causando polêmica. A colunista, primeira top model do Brasil a exibir o corpinho nas passarelas internacionais - algumas muitas décadas atrás - fala sobre ser rico no Brasil.

A colunista diz que "ir Nova York ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?"

Para Danuza, "é claro que ficar rico deve ser muito bom, mas algumas coisas os ricos perdem quando chegam lá. Maracanã nunca mais, Carnaval também não, e ver os fogos do dia 31 na praia de Copacabana, nem pensar. Se todos têm acesso a esses prazeres, eles passam a não ter mais graça."

É verdade! Danuza Leão, ser rico no Brasil não tem graça mesmo.

Andar de avião já foi coisa de rico, que viajava de terno e gravata, mas agora é sem graça mesmo dividir a fileira de cadeiras minúsculas com aquela gente pobre, que fotografa da janelinha para colocar a imagem no facebook.

Passear no shopping da Gleba já foi coisa de rico, que dava um pulinho na joalheria para trocar aquela peça de R$ 7.280,00, mas agora é sem graça mesmo trombar com aquela gente pobre, que compra camiseta nas Americanas por R$ 19,90.

Ter carro e poder trocá-lo já foi coisa de rico, que comprava o modelo do ano para ostentar no Country, mas agora é sem graça mesmo ter que dividir o estacionamento pago com aquela gente pobre, com modelo 1.0 colorido.

Ir ao teatro já foi coisa de rico, que pagava caríssimo pelo ingresso, mas agora é sem graça mesmo dividir a poltrona com aquela gente pobre que - se duvidar - leva um cachorro quente e ainda oferece para você.

Danuza Leão, como é sem graça viver nesse Brasil. Esse país que já foi de gente rica, agora tem de conviver com essa gente pobre que ascendeu à classe média e que, por causa da descentralização aos bens de consumo, tem uma vida mais confortável. Que horror!

Realmente, Danuza Leão, não tem mais graça ser rico no Brasil, por isso  vocês podem ir viver na Europa. Lá ainda tem graça ser rico, principalmente, por causa da quantidade de pobre que aumenta diariamente, inclusive, moradores de rua. Chique é ser mendigo na Europa, uma graça, né Danuza Leão!

Países como Espanha, Itália e Grécia aumentam o arrocho, demitem em massa a partir de acordos feitos, principalmente, para salvar a riqueza do mercado financeiro e da elite que esfola a maioria da população. E você deve achar tudo isso uma graça, não é mesmo?

sábado, 24 de novembro de 2012

Essas contradições!

Ele reclama das cotas públicas nas universidades públicas e estuda com o Prouni na faculdade particular.

Ela diz que o Bolsa Família é um atraso e que as pessoas deveriam esforçar-se mais e agarrou uma bolsa científica na graduação, no mestrado e no doutorado.

Eles afirmam que a prefeitura investe na indústria da multa e adoram furar sinal, para em fila dupla e estacionar em vaga de pessoa com deficiência.

Ele reclama dos investimentos federais nos assentamentos Brasil afora e está arrolando o empréstimo no Banco do Brasil pela terceira vez.

Ela diz que empresários que não pagam direito trabalhista deveriam ser presos e não registra a mensalista nem recolhe o INSS.

Eles afirmam que a corrupção é um atraso para o país e enriquecerem com a especulação imobiliária na gleba da cidade.

Ele reclama que os políticos querem levar vantagem em tudo e não entregam o troco errado à balconista da padaria.

Ela diz que se orgulha de não usar as políticas sociais e é transferida para o SUS quando o plano não cobre os procedimentos que precisa.

Eles afirmam que defendem a liberdade de expressão de forma irrestrita e ativaram a moderação de comentários nos sites das suas empresas.

Ele, ela, eles apresentam essas contradições... Coisa da natureza humana. Não reconhecê-las e apontar somente a dos outros é que nos torna humanos desumanos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Racistas são os outros

Eles aceitam as cotas para alunos de escolas públicas, mas para negro não!
Vai estudar que você passa no vestibular e não precisa usar a cor da pele.

Eles gostam dos feriados de santos católicos brancos, mas para a consciência negra não!
É muito feriado e esse não faz sentido porque atrapalha o desenvolvimento econômico.

Eles desdenham os que defendem o orgulho negro.
Mas estufam o peito ao dizer que os avós e os bisavós nasceram na Europa.

Eles afirmam que os negros têm preconceito contra eles mesmos.
Assim, o preconceituoso pode ser perdoado por seus preconceitos.

Eles dizem que o termo negro significa apenas a ausência de luz!
E a linguagem continua exibindo a cor da discriminação ao associar o negro a coisas ruins: mercado negro, ovelha negra, lista negra, nuvem negra.

Eles se perguntam para que uma publicação para negros, a Raça, se não existe uma para brancos?
E Caras, Cláudia, Nova, Capricho, Boa Forma e tantas mais são o que? 

Eles rejeitam, no Brasil, a existência de racismo!
Porque racistas são sempre os outros.

Admitir que existe racismo é admitir que há diferença entre as raças.
Por isso, muitos preferem deixar tudo como está.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Inquietudes (147) do Rei

Sempre achei que quando alguém é vítima, torna-se mais sensível para as questões que a vitimaram, mas a dor pela qual essa pessoa passa pode servir apenas para embrutecer. É uma reação em cadeia num ciclo perigoso que pode não ter fim.

Periquita recauchutada

Leio na Folha de Londrina, na seção Folha Saúde, desta segunda-feira (dia 19), uma matéria instigante. Com o sugestivo título "Cresce adesão ao 'rejuvenescimento' íntimo", a matéria aborda a "técnica que utiliza laser (e) melhora esteticamente a vagina".

"A questão estética da vagina interfere de forma inconsciente na vida sexual das mulheres", afirmou o ginecologista Carlos Miranda à repórter Michelle Aligleri.

Os especialistas recomendam que as mulheres recorram à técnica quando houver necessidade fisiológica. Claro que a recomendação fisiológica não vai ser seguida. Por que esperar quando se pode dar uma calibrada na danada e deixá-la mais bonita e atraente? 

Pior, as periquitas esteticamente renovadas não vão desfilar por aí para darmos um parecer sobre o resultado da operação. Que graça tem isso? Esses médicos criam obras de arte com novos padrões estéticos para a vagina  e poucos (ou poucas) verão.

Que tal exposições fotográficas com o antes e o depois? Seria um instrumento didático para democratizar o acesso às perseguidas renovadas e funcionaria como um catálogo. __Amorzinho que tal essa daqui? Acho que ficaria ótima pra você. 

Numa sociedade que valoriza excessivamente o corpo e os padrões estéticos é  até compreensível que mulheres busquem transformar a perseguida numa Angelina Jolie. Já imaginaram os grandes lábios (da boca) da atriz numa periquita recauchutada?

No mercado, profissionais e indústria andam de mãos dadas, criando necessidades, muitas vezes, desnecessárias. Usam até a genitália alheia para ganhar dinheiro. Ops! Usar a genitália para ganhar dinheiro não seria um tipo de prostituição? 

E o público consumidor, que adora uma novidade, arrisca a própria saúde para satisfazer desejos e vontades criadas por terceiros. Vai às compras e escolhe peitos novos, levanta as nádegas, injeta gordura na boca, corta aqui, espicha ali. Tudo em nome da beleza, se ficar com saúde, melhor ainda. 

Claro que existem vantagens nesse processo. A sexagenária que se veste como menininha vai poder dizer. __Tenho 60 anos e uma periquita de 25. Se a Hebe tivesse viva, diria: __Que gracinha!

Não se trata de negar os avanços da tecnologia, da medicina e da indústria. Devemos fazer com eles nos sirvam e não o contrário. Viver em função da aparência é viver de aparências. Simples assim.

domingo, 18 de novembro de 2012

Inquietudes (146) do Rei

Andam circulando por aí pedidos para que Lula seja investigado no mensalão. Quando essa mesma sociedade vai exigir que Fernando Henrique Cardoso seja investigado pela Privataria Tucana? Quando a mídia brasileira vai deixar de ser combativa com um grupo e fininha com outro? Combater apenas os corruptos do PT não é combater a corrupção. É combater os corruptos dos quais não se gosta.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Inquietudes (145) do Rei

O governo argentino - com apoio do Congresso de lá - que aprovar "a cláusula da consciência" na legislação do país. Pela cláusula, qualquer jornalista poderia - sem sofrer perseguição ou sanção - recusar-se a produzir reportagens que firam seus princípios e sua moral, ou seja, a consciência.

A imprensa, para variar, incluindo a brasileira, ataca a proposta e deturpa o debate, afirmando que isso serve aos propósitos de controle dos veículos de comunicação na América Latina. Confundem propositalmente liberdade de expressão com liberdade de empresa.

Mas o medo da mídia brasileira tem razão. Se tal dispositivo for aprovado no Brasil, e os jornalistas invocarem a cláusula da consciência, Veja fecha; Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão quebram;  Globo, Record, SBT e Band afundam. Eita consciência danada! Não vai ser bom para os negócios.

A televisão e os gays

Ele adora a sogra. Bem diferente do senso comum que prega uma relação de conflito entre ambos. Ela é uma senhora no alto de seus 75 anos, sofridamente vivida e que mantém limites na relação entre os filhos, as filhas, as noras e os genros. A relação saudável é baseada nesses limites. Ela somente se mete quando é convidada a fazer isso.

Mesmo com a admiração e o respeito que tem por ela, ele não deixa de discordar das atitudes e da opinião dela. O respeito norteia a relação, com umas pitadas de sarcasmo. Eles se entendem. A sogra encara o debate e não deixa por menos, delimitando seu território opinativo com autenticidade e honestidade.

Dia desses, a família entrou numa discussão sobre os personagens gays da televisão. Já repararam como a TV aposta nos gays para atrair audiência? Tudo bem, o público até gosta quando a purpurina é jogada pela bichinha poc-poc - devidamente estereotipada. Quando são gays másculos, sem trejeitos, que inclusive reclamam seus direitos, a audiência conservadora arrepia-se.

__Não precisa mostrar isso na televisão.
A afirmação da sogra soa como uma provocação para o genro, que cai no debate.

__Sei, então quer dizer que até pode existir, mas não pode ser mostrado?
__Eu sei que você vai discordar, mas não precisa mostrar mesmo.

__Por que?
__Ninguém precisa ver dois homens e duas mulheres se beijando.
__Isso é coisa do Papa, hein. Lembra que ele disse que se deve respeitar os homossexuais, desde que eles cultivem a castidade?
__Olha! Eu não conheço muita coisa, mas o que eu sei é que a televisão não precisa mostrar. Não é normal.

Sarcasticamente, ele se vira pra o filho e sussura;
__Quer ver? A sua avó vai colocar a culpa em Deus.

Ela continua o diálogo.
__Deus fez o homem e a mullher. Homem com homem é errado. Mulher com mulher é errado. Isso não é natural!

Ele se vira para o filho e, numa entonação irônica, acerta:
__Eu não falei?

O debate continua e, lá no fundo, alguém liga a televisão. Uma cena chama a atenção de todos. Silêncio. Um marido violento espanca a esposa na frente dos filhos. Ela não consegue reagir. Machucada. Agredida. Calada. Tão calada quanto todos na sala. Silêncio.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Avanço pequeno em um país preconceituoso


Transexual é eleita em Piracicaba, no interior de São Paulo, e ameaçada de morte, por telefone, se assumir a vaga para a qual disputou. As urnas foram-lhe generosas. Ela  teve 3.095 votos pelo PSDB. A líder comunitária Madalena, que nasceu Luis Antônio Leite, é negra.

A notícia é velha. É de 17 de outubro e foi publicada no Jornal de Piracicaba. A informação não perde a atualidade, assim como não se tornam ultrapassados o preconceito e os preconceituosos. Este tipo está cada vez mais vísivel porque é visível o avanço das minorias, mesmo que pequenas em um país preconceituoso. 

O preconceito e as ameaças à vereadora Madalena revelam-se por causa da sua sexualidade, potencializadas pela raça. Na reportagem do Jornal de Piracicaba, a vereadora disse que não acredita em homofobia e que deve se tratar de ameaças políticas.

"Me disseram ao telefone: 'ninguém concorda com o número (de votos) que você teve, e os outros com um número baixo'. Acho que é alguém que foi candidato a vereador e perdeu para mim, ou candidato que entrou com pouco voto."

Como é atrevida a transexual negra candidatar-se! E o pior é que foi eleita. Dando sequência ao atrevimento, ainda quer assumir. Quer e vai. É um direito da vereadora honrar os votos que recebeu, entre eles - provavelmente - de muita gente branca e heterossexual. Esse episódio traz algumas reflexões pertinentes que rabisco a seguir.

1) Os políticos, de modo geral, não estão preparados para o resultado do processo de escolha que se desenha em nossa recente democracia. Existe uma tendência de os perdedores, naturalmente, nem todos, de desqualificarem os vencedores. Quem não tem voto, apela para expedientes sujos, baixos e - por vezes - até criminosos.

2) De modo geral, os partidos políticos ainda têm no respeito à diversidade apenas um discurso e um público alvo. Discurso publicitário de campanha. Público alvo porque travestis, transexuais e gays votam, mas não são votados. Afinal, quantos partidos investem para eleger  pessoas nesses segmentos?

3) O eleitor - ainda que em minoria (quantos transexuais serão vereadores ou prefeitos a partir de 1º de janeiro?) - mostra que consegue passar por cima de questões como a cor da pele e a sexualidade do candidato ou da candidata e dos próprios preconceitos quando acredita nas pessoas e na suas propostas.

4) A repercussão do caso de ameaça à vereadora não mobilizou comunidades no Brasil afora, nem mesmo nas redes sociais. Afinal ela é transexual, negra e pobre, sem as feições nórdicas de um mendigo de Curitiba, a quem muitas - por exemplo no Facebook - fizeram convites para banho, mesa e cama (nesta ordem).

5) A maior base da argumentação dos preconceituosos vem do discurso religioso. De ordem sexual, o natural é que muitos e muitas atestem ser uma contrariedade à vontade divina. Os argumentos se repetem: "esse comportamento está errado"; "Deus fez o homem e a mulher"; "são coisas de pervertidos". Deus - aquele ser onipresente que prega o amor ao próximo - vai punir as pessoas que reconhecem os direitos civis de travestis e de transexuais? 

6) O preconceito faz parte das pessoas, de forma arraigada, inclusive daquelas que dizem não serem preconceituosas. O problema não é ter preconceitos. O problema é o que fazemos com eles. Podemos confrontá-los e aprender a conviver com as diferenças. Ou podemos ceder, tornando-nos preconceituosos e retirando do outro o direito que lutamos para nós.

sábado, 3 de novembro de 2012

Brasil 2º turno, algumas considerações

O julgamento da Ação Penal 470, o mensalão do PT, não surtiu o efeito que a oposição ao governo e ao ex-presidente Lula, a grande imprensa e, até mesmo, os supremos queriam que tivesse.

O PSDB/DEM perdeu votos, prefeitos e vereadores. O PT ganhou votos, prefeitos e vereadores. O PSB de Eduardo Campos desponta no cenário nacional como nome viável para 2014.

Todas essas avaliações já foram exaustivamente feitas, seja por articulistas ligados à direita conservadora, sejam por articulistas da imprensa que passeia pela blogosfera.

Sobre as eleições 2012, o que vale a pena analisar - ainda - é a repercussão do resultado segundo o eleitor, seja o voto militante, o voto ideológico, o voto consciente ou o inconsciente.

Sai eleição, entra eleição, uma coisa chama a atenção. O preconceito destilado por alguns segmentos para desqualificar o voto dos vencedores - e até mesmo dos perdedores.  Arrisco algumas considerações.

1) Grande parcela de cidades variadas - composta, principalmente pelas classes médias e alta - ataca votos no PT e acusam o partido de financiar programas de compra de votos: o Bolsa Família, o Prouni, etc. Muitos acusam o pobre de votar por interesse. Engraçado! A elite (e a classe média acha que faz parte dela) sempre votou desse jeito e, agora, reclama porque o pobre aprendeu a mesma fórmula.

2) As redes sociais são o palco virtual para o espetáculo do preconceito. Muitos se acham mais qualificado para votar que os outros. E quando não vencem, não se intimidam, rogando pragas à cidade onde mora porque venceu o grupo adversário, como se isso não afetasse a todos.

3) Publicar, curtir, compartilhar... são atitudes inocentes. Nem sempre. Publicar, curtir e compartilhar mentiras, acusações falsas e calúnias são atitudes de mentirosos e caluniadores. E isso não é coisa de gente inocente. 

4) A desqualificação dos votos do outro mostra que quem desqualifica não sabe lidar com o processo eleitoral. Perder e ganhar são consequências irmãs e filhas da mesma urna eletrônica.

5) O eleitor precisa amadurecer o processo eleitoral. Respeitar o resultado das urnas é um sinal. De amadurecimento político. De convivência democrática. De respeito aos atores eleitorais. Neste processo, o eleitor tem uma grande responsabilidade, muito maior do que ele próprio imagina.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Entre sacis e bruxas

31 de outubro é o Dia de Halloween, o Dia das Bruxas. A comemoração da data teria mais de 2.500 anos e origem celta. Apesar de ser uma festa ocidental, é nos EUA que as bruxas passeiam com bastante desenvoltura. Lá a tradição foi levada por imigrantes irlandeses.

Visto pelo prisma sul-americano, mais especificamente brasileiro, o Dia das Bruxas não deixa de ser uma festa importada dos Estados Unidos. Até crianças da periferia reproduzem o tal do "doce ou travessura". A festa, neste sentido, soa falsa, artificial mesmos. Falta à data identificação com o Brasil.

Hoje também se comemora o Dia do Saci. A data foi instituída nacionalmente, em 2005, mas alguns estados como São Paulo e vários municípios brasileiros já celebravam oficialmente a data. O Dia do Saci contrapõe-se ao Dia das Bruxas. O saci quer chutar a bruxa, mesmo com uma perna só. E sem cair sentado.

E o que os brasileiros preferem celebrar? As bruxas brancas americanas ou os sacis negros brasileiros? A data envolve muito mais que uma tradição inofensiva sem reflexão sobre a própria prática. A data envolve muito mais que um costume importado de outro país. A data envolve a cultura e a valorização das próprias tradições ou a tradição dos outros. Revela as opções que um país faz para, inclusive, reforçar a sua própria identidade.

Muitos podem alegar que esses questionamentos revelam um sentimento nacionalista ultrapassado já que a globalização e o mundo conectado eliminaram as distâncias, as diferenças e tornaram todos iguais. Doce ilusão amarga. A conexão mundial revela a cada dia que as pessoas e as nações são muito diferentes. Simples assim.

A intolerância na rede mundial - manifestada em opiniões agressivas, preconceito e discriminação - é a prova de que conviver com os diferentes é um exercício que exige grande esforço, uma realidade ainda muito distante da mera vontade de ser tolerante. 

Cada pessoa revela o que é a partir das suas escolhas.
E você escolhe o que? 

Uma bruxa ou um saci?

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Londrina 2º turno, algumas considerações

As eleições 2012 em Londrina terminaram bem diferente da forma que começaram. Em sã consciência, duvido que alguém imaginava Alexandre Kireeff (PSD), 3% alguns meses atrás, prefeito eleito da cidade.
Nem os mais otimistas marketeiros da campanha. Marcelo Belinati (PP), vereador por dois mandatos, parecia eleito no primeiro turno com margem folgada, já que liderava as pesquisas desde o início. Arrisco algumas considerações sobre o pleito deste ano, não necessariamente na ordem apresentada.

1) O sobrenome famoso Belinati, do tio Antonio - prefeito três vezes, eleito sem assumir uma quarta, afastado, cassado e preso - é amado e odiado. O sobrenome mais atrapalhou que ajudou Marcelo, na reta final, que deixa a vida pública, pelo menos nos dois próximos anos. 

2) Marcelo Belinati também padeceu do salto alto. A coordenação da campanha - que se achava vencedora no primeiro turno - deve ter acreditado que a diferença de votos elegeria o sobrinho do tio famoso. O candidato mostrou-se inapto a angariar a maioria dos votos que poderia fazer a diferença. Menos de 3 mil votos. Faltaram esforços da campanha? Faltou competência para dizer que o sobrinho não era o tio? Enfim, são questões que devem estar atormentando o alto escalão da campanha nesta segunda-feira quente, úmida e abafada.

2) Alexandre Kireeff foi catapultado ao segundo turno, como uma terceira via. Os eleitores que provocaram o segundo turno não queriam os de sempre: o PT da Márcia Lopes, o PDT do Barbosa e o PMDB do Cheida. A aposta foi no desconhecido, que os cientistas políticos teimam em chamar de renovação. O que não deixa de ser uma meia verdade.

3) Alexandre Kireeff aposta numa tal gestão técnica, deve ser a chamada eficiência empresarial, da qual tanto conhece, como se não houvesse desperdício, corrupção ou incompetência nas empresas, mas enfim... Quando um técnico, sinônimo de alguém que nunca assumiu um cargo público, chefia uma secretaria municipal ou uma diretoria precisa de sustentação política. Necessita do político para dar guarita as suas medidas. E não há nada de mal nisso. A gestão deve ser política. E das boas.   

4) Os votos nulos ou brancos ou as abstenções ajudam quem está à frente. Pura balela. Quem não vota ou anula não pode reclamar depois. Pura balela 2. O voto, nessas circunstâncias, é legítimo se for a expressão da vontade consciente do eleitor.

5) Os votos nulos ou brancos ou as abstenções são uma forma de protesto, caso o eleitor entenda que não há porque escolher entre o ruim e o pior, contrapondo à frágil argumentação da grande maioria dos que defenderam o voto em Kireeff, por exemplo, nas redes sociais. Muitos votaram no candidato, não por suas qualidades, mas por causa dos defeitos e da herança do belinatismo.

6) A internet que é terra de ninguém e, por isso mesmo, de todo mundo, mostrou-se um verdadeiro laboratório de ensaio para iniciar ou apagar incêndios. As campanhas eleitorais não podem mais se dar ao luxo de ignorar a palavra internética dos navegantes. Mais que palavras, essas expressam sentidos e vontades, sentimentos e desejos. Por isso, é uma fonte inesgotável de aprendizado tanto para os candidatos quanto para os seus marketeiros.

7) Passadas as eleições, a cidade espera ter no comando alguém que possa executar as propostas e as promessas feitas. Kireeff diz que quer uma forma diferente de fazer política. No entanto, o sistema político não mudou e, nesta perspectiva, estão a composição dos nomes para o primeiro escalão, o relacionamento com a Câmara Municipal, a relação com a sociedade e, principalmente, com o eleitor londrinense. Todos os eleitores e não apenas os que votaram nele. 

Inquietudes (144) do Rei

Dilma Rousseff (BR) 2010.
Haddad (SP) 2012.
Se um dia eu abrir uma fábrica de postes,
darei o nome de "Postes Lula".

Londrina 2º turno

Alexandre Kireeff é o novo prefeito de Londrina. Venceu o menos pior. Venceu não por suas qualidades. Venceu por causa dos defeitos do adversário. Não foi esse o discurso da maioria para convencer os indecisos? 

Alexandre Kireeff prometeu um novo jeito de governar, um novo jeito de fazer política. Tomara que não seja apenas discurso de campanha. Afinal, o sistema político é o mesmo. Não mudou. Que Londrina fique de olho!

Pelo menos, o grupo que estava com Marcelo Belinati vai ser arrastado para o limbo. Vai tarde!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

De ninguém e de todos

A internet é terra de ninguém.
E de todo mundo.


Pode ser um anônimo.
Pode ser uma celebridade.


Mendigos de feições nórdicas causam comoção.
Mendigos normais causam repulsão.


Candidatos sérios em eleição sofrem com a indiferença.
Candidatos exóticos tornam-se em fugaz referência.


A rede abrange diversos comportamentos.
Os corretos e incorretos.
O correto equilibrado.
O correto desequilibrado
O incorreto bem-humorado.
O incorreto agressivo.


Na internet, cabem
informação
desinformação

formação
deformação

Muitos buscam o estrelato.
Outros se expõem, mas exgiem privacidade.

Contradições internéticas.

A rede potencializa o que as pessoas têm de bom.
E de ruim.
Por isso, a internet é terra de ninguém.
E de todo mundo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Inquietudes (143) do Rei

Londrina 2º turno. A discussão é: vote em X porque Y é pior. Então quer dizer que X também é ruim? Oras... quero votar em um candidato pelo que ele tem de bom, não pelo que o adversário tem de pior. Por que os belinatistas e os kireeffistas não defendem seus candidados por suas qualidades e não pelos defeitos do outro?

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Inquietudes (142) do Rei

"Deus quis assim." Por que as pessoas - quando não têm argumento para as próprias burrices e cagadas - responsabilizam o Todo Poderoso?

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Feições nórdicas

Um morador de rua curitibano transforma-se em sucesso na internet.
Mistério.
Branco.
Olhos azuis.
Bonito.

Fotografia compartilhada por mais de 35 mil internautas. 

Fim do mistério.
Ex-modelo.
Usuário de crack.
Atual moradora de rua.
Comoção.
Emoção.
Indignação.


Um jornal de Curitiba afirma que a foto no Facebook revela o drama do moço alto, de feições nórdicas e olhos azuis.
Feições nórdicas?
Drama, vítima das drogas, vítima da indiferença social.
O que espanta os espantados não são a droga e a indiferença social.
São a droga e a indiferença com o drogado branco, de olhos azuis.
De feições nórdicas.


As drogas fazem vítimas desde sempre.
Homens. Mulheres. Jovens.
As drogas não têm face, não têm credo, não têm classe social.
As drogas arrancam as feições do indivíduo.
Por isso, são um problema social, coletivo.
Mas incomodam apenas quando vitimizam aqueles mais parecidos com a gente.

domingo, 7 de outubro de 2012

Inquietudes (141) do Rei

Se o voto é uma arma mesmo, hoje há milhões de eleitores brasileiros puxando o gatilho, em vez de teclando a urna eletrônica.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Inquietudes (140) do Rei

A classe média brasileira vive virtualmente na riqueza, mas é uma classe social com grande potencial de pobreza.

Língua humana

Ela é um "órgão oblongo, achatado, musculoso e móvel, da cavidade bucal e que é o órgão principal da deglutição, do gosto e, no homem, da articulação das palavras."

As papilas arreganham-se com o doce, o amargo, o azedo, o salgado, o picante, o adstringente. A língua promove sensações, resgata lembranças, acaricia as memórias, provoca os sentimentos.

Todo elemento no universo é dual. Duplos que se completam. Aspectos dobrados.  É na articulação das palavras que a língua revela seu potencial de maldade, sua capacidade destrutiva. 

A língua fere.
A língua discrimina.
A língua rotula.
A língua machuca.
A língua exclui.


Em períodos de conflito, em episódios de tensão, em épocas difíceis, a língua se revela: ferina, comprida, suja, linguaruda.

A língua calunia.
A língua difama.
A língua mente.
A língua destrata.
A língua inventa.


A língua é boa e ruim.
Mas apenas cumpre ordens.
As nossas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Inquietudes (139) do Rei

Da colunista Eliane Catenhêde na Folha de S.Paulo, de hoje:

"O grande aliado de Serra é o carismático Joaquim Barbosa desfiando os podres do PT e condenando a antiga cúpula partidária." 

Joaquim Barbosa, quando condena o PT, serve-se ao papel de cabo eleitoral do PSDB? Quando o STF vai passar todos os podres a limpo?

Desfiar os podres do PT e esconder os podres de outros partidos - como o Mensalão Tucano de Minas - não é combater a corrupção. É combater apenas os corruptos dos outros. E a mídia brasileira não quer passar o Brasil a limpo.

O equilibrista

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Inquietudes (138) do Rei

Segmentos da elite econômica atacam quem vota em candidatos que representam benefícios públicos e se esquecem, muitas vezes, que seu patrimônio foi construído sob o signo da renúncia fiscal. Ou seja, ganharam terrenos públicos e isenção - por décadas - de ISS, IPTU e ICMS. Parte importante da classe média rotula de esmola os programas de transferência de renda, mas vai correndo para as bolsas científicas na universidade. Engraçado, esses segmentos afirmam que o pobre aprendeu a votar com a barriga. Oras... qual o problema se os segmentos que agora criticam sempre votaram assim?

Casamento gay e militância

Algumas palavras e expressões resumem uma ideia, um conceito; vendem um estilo; invocam sensações. As palavras disputam sentidos o tempo todo. A palavra não trata apenas do seu conteúdo literal. Ela tem sentidos sociais.

Exemplos na realidade não faltam. Casamento gay. Por que essas duas palavrinhas têm o poder de levantar a ira de muitos? Segmentos religiosos atribuem à palavra casamento, um sentido divino, coisa de casal homem/mulher, atributo de unidade familiar.

Neste contexto conservador, para aqueles, não caberia casamento gay porque - segundo os preconceituosos - gay não combina com família. No conceito tradicional de família, gay não cabe mesmo. Assim como não cabem os padrastos, as madrastas, as mães solteiras, os pais solteiros, os filhos criados por avós, os filhos criados por família social.

A exceção de outrora virou regra e a regra não dita mais as normas. Por isso, casamento também pode ser gay e família pode ser formada sem casamento, ou seja, família é o núcleo que une as pessoas em amor e afeto. O resto é rótulo e discriminação.

Outra palavra que sofre de esvaziamento de sentido é militante, aquele que milita, que está em exercício. O dicionário Michaelis ainda define como "agressivamente ativo por uma causa" e no viés teológico, militante é quem "pertence à milícia de Jesus Cristo". Vixi! muita carola se achava apenas temente a Deus.

Na prática, militante é o cidadão - conhecedor dos seus direitos - que defende suas ideias e projetos. Torna-se até inconveniente pela força com que se agarra aos princípios, mas é isso que o faz diferente. Assim, existem militantes de partidos políticos, de empresas, de áreas como saúde, meio ambiente, educação, assistência social, entre outras.

Mas o militante tornou-se, aos olhos da elite, um ser pejorativo. Imagina, que audácia chamar de militante um empresário do setor tecnológico! Que ousadia chamar de militante a senhora que atua na associação de mulheres de negócios. Eles não são militantes, são empreendedores, tá!

Pois bem, por isso, o termo está associado a partidos políticos, principalmente, os de esquerda, acusados de ideológicos, como se os partidos de direita não tivessem militantes e não fossem ideológicos também. Veja o exemplo da bancada ruralista no Congresso Nacional. A militância é tanta que os interesses ambientais geralmente são esmagados pelas botinas dos deputados e senadores, em favor dos interesses do grupo.

E o militante virou voluntário. Isso mesmo, voluntário, aquele que realiza alguma coisa de forma espontânea, sem obrigação, por amor. Mas voluntário tem compromisso... de voluntário. Sabe aquela festa junina de colégio de classe média alta cujos estudantes vão ao asilo? E aí, a menina de 15 anos dá entrevista para o jornal e diz que "o grupo veio trazer um pouco de alegria para os velhinhos". Quanto idoso sortudo: um dia de felicidade e 364 dias de tristeza. Isso que é voluntariado, se fossem militantes, as ações eram permanentes.

A disputa de sentidos das palavras ocorre diariamente numa briga para ver quem se apodera delas. Assim, a linguagem revela marcas da classe social, do poder aquisitivo, do grau de instrução. Isso em si não é ruim. O problema é quando as palavras excluem e discriminam. Mesmo inconsciente desse processo, as pessoas fazem suas escolhas.

sábado, 29 de setembro de 2012

Oportunismo e incoerência

Pelas ruas da cidade, adesivos, panfletos e cavaletes ajudam a divulgar os candidatos ao cargo de vereador.  No material de divulgação, muitos não revelem o nome - nem o número - nem o partido - do candidato a prefeito da sua chapa. Publicam apenas o nome da coligação e os partidos num cantinho qualquer do material, impossível de serem lidos. 

O candidato a vereador que esconde o candidato a prefeito da sua chapa revela oportunismo e falta de coerência política. Não é apenas estrelismo. É sintoma de que alguma coisa está errada nas relações políticas. Se eleitos, o vereador será base de apoio e de sustentação do prefeito na Câmara.

Ou ele acredita ser independente? Ou ele acredita que o partido não vai cobrar a conta e o alinhamento aos projetos do Executivo? Em uma primeira análise, esses solitários candidatos não defendem um projeto de governo. Afinal, se defendessem divulgariam o nome do candidato a prefeito que representa esse projeto. Mas quantos candidatos a vereador você conhece que defende um projeto municipal? E que projeto é esse? Quantos estão candidatos pelo interesse coletivo? A resposta é óbvia.

Podem esses candidatos a vereador não concordar com o nome cabeça da chapa? Podem esses candidatos serem adversários do candidato a prefeito? Sim, mas se foram voto vencido no período de composição, o mínimo que se espera é que tenham coerência para defender a própria coligação. E muitos ainda usam slogans que remetem à seriedade, à honestidade e ao comprometimento. Imagine, então, se não tivessem tais características que adoram dar publicidade.

O vereador é mais importante que apenas ser base de apoio para o Executivo e suas propostas. Ele é um agente fiscalizador e deve ter posições claras, mas se ele nem chegou à Câmara e adota medidas conforme suas conveniências, imagine o que fará depois de eleito. Por isso, desconfie dos candidatos a vereador que se apresentam sem os postulantes ao cargo de prefeito.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Militontice eleitoral

Durante o período eleitoral, ele está de volta, ou seja, a cada dois anos, eles estão de volta. Não são apenas os candidatos que retornam e - muitos - para assombrar. Se não são os candidatos, quem são? Os militontos.

Frei Betto já definiu o militonto, como "aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os  eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais." 

No texto de Frei Betto, o militonto é originalmente um cidadão integrado aos movimentos sociais da esquerda. Diferentemente do militante, que luta por justiça e uma vida melhor. Neste, as ações são práticas e necessárias. As virtudes são maiores.
E a militontice atinge seu ápice durantes as eleições, com o militonto eleitoral, aquele eleitor especialista em tudo: debate político, tendência política, análise de conjuntura, programas partidários e, principalmente, caráter dos adversários, a quem ataca sem o menor compromisso com a verdade.

O militonto eleitoral age com paixão, como se tivesse numa final de Copa do Mundo, ou num desses clássicos de futebol cujas organizadas se pegam no porrete antes, durante e após o apito final. 

O militonto eleitoral não está preocupado com a vida anterior do candidato, não se importa se tem militância em alguma área.

O militonto eleitoral acusa o outro de ser ideológico, quando é tão ou mais ideológico. E pior, como se isso fosse problema.

O militonto eleitoral não aguenta o diálogo, aliás foge sempre que pode e lança mão de acusações.

O militonto eleitoral não debate. Ele apenas rotula os outros eleitores que defendem outros candidatos que não os seus.

O militonto eleitoral acha que todos os candidatos e partidos são iguais e que ninguém tem projeto.

Enfim... o militonto eleitoral vai descansar depois do segundo turno; na maioria das cidades brasileiras, depois do primeiro mesmo. Não se preocupe, eles voltam daqui a dois anos.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sobre corrupção e corruptos

Relator e revisor. No Supremo Tribunal Federal (STF), os ministros que atuam como relator e revisor de um processo têm funções específicas. As atribuições de cada um estão definidas no Regimento Interno do STF. No caso do relator, nos artigos 21 e 22; e o revisor, nos artigos 23 a 25.

Ao relator cabe, conforme o artigo 21 - inciso I - "ordenar e dirigir o processo". Conforme o artigo 25, inciso II, ao revisor cabe "confirmar, completar ou retificar o relatório." Retificar significa, entre as possibilidades encontradas no Dicionário da Língua Portuguesa, "corrigir, emendar, endireitar, acertar". Isso significa que o relator não é dono da verdade - nem o revisor - mas o segundo pode sim corrigir o primeiro.

Esses são aspectos técnicos do papel dos ministros do STF, que no julgamento da Ação Penal 470, rotulada de mensalão do PT, são apenas detalhes do juridiquês. Na prática, o traçado lembra um roteiro ficcional. Assim fica melhor para a mídia que aposta mais no entretenimento do que na informação. E o espectador, acostumado ao espetáculo, pode saborear mais um drama da vida real.

Joaquim Barbosa, o ministro negro do STF, agora é o mocinho, o herói de um script aplaudido pela elite do país, a mesma que o desqualificava e que afirmava ser supremo pelas mãos de nove dedos do então presidente cotista Luiz Inácio Lula da Silva. Barbosa assume, neste contexto, o papel de combatente da corrupção, condena sem piedade, distribui penas aos condenados. Para os corruptos do PT e seus aliados. 

A elite brasileira vai ao orgasmo. É preciso mandar os dirceus, os cunhas, os delúbios para a cadeia. Nos autos constam provas cabais ou tênues? Para que discutir? Enquanto isso, o mensalão do PSDB, o mensalão minerin, tramita em águas judiciais calmas - sem holofotes - das primeiras instâncias, no processo devidamente remetido pelo STF. Simples assim. 

O ministro Ricardo Lewandowski cumpre no julgamento o papel do vilão. O revisor representa o mal - encarnado nos petistas - quando apresenta seu voto. Se condena um por um crime e inocenta o mesmo em outro crime, o ministro é desqualificado perante a opinião publicada. Atende aos interesses dos corruptos. Simples assim.

Enquanto isso... o resto da Corte é coadjuvante num roteiro escrito coletivamente por um país que diz defender o combate à corrupção.  Na prática, não é bem assim. Há uma parte da sociedade, que inclui gente inocente, bem-intencionada e mal-intencionada, que defende o combate à corrupção do grupo político oposto. E isso não é combater a corrupção, é combater os corruptos dos outros.

Que o PT não é inocente nesta história, isso não é mesmo. Mas o mensalão vai além de julgar os crimes de petistas corruptos. É a oportunidade que muitos encontraram para condenar a política desenvolvida no governo Lula, aquela que tirou milhões da pobreza, que levou milhares ao ensino superior, que devolveu a autoestima do país junto à comunidade internacional. Tudo isso, capitaneado por um ex-operário "analfabeto". Quanta ousadia! 

O combate à corrupção é saudável e necessário, mas combater apenas os corruptos de um grupo político, escondendo e patrocinando a corrupção de outros, além de hipócrita, é um atentado à democracia. E também à inteligência de quem pensa além do que é veiculado por meia dúzia de veículos de comunicação que alimentam o pensamento único.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A vingança do prófi


O professor chega para a aula e metade da turma está lá fora.
Enquanto ele arruma o material sobre a mesa, a turma do fundão chega e vai acomodar-se no fundão.
O conteúdo - muito interessante - aborda a implicação das novas tecnologias no relacionamento humano.

Ele começa a aula e - o grupinho de sempre - navega por iPad, iPod, notebooks, celulares.
Até parece que o professor combinou com a turma.
Enquanto ele fala sobre as novas tecnologias, os alunos mostram na prática como a coisa funciona.

__Então pessoal... o que vocês pensam sobre isso?
Depois de alguns eternos segundos...
__Sobre o que prófi?
Antes que o professor responda, alguém intervém.
__Professor, é mais fácil a gente se relacionar com quem está longe.
__Por que? Pergunta o professor interessado.
__Porque assim a gente não se envolve.
__É mesmo?
__É! e quando incomoda é só ficar off line...

Pena que eu não posso fazer o mesmo.
Pensamento do professor.


__É que tem muita gente que gosta de ficar falando de problemas, de coisas ruins. Mó saco! Diz  outro. 
__Mas vocês não são amigos? Vocês não discutem os problemas para resolver? Questiona o professor.
__Amizade de rede social, prófi, pode terminar quando cair a conexão. Arrisca certeiramente outro.

Ideias vêm. Ideias vão. E o debate segue com os mesmos conectados... conectados.
E o professor fecha a discussão, anunciando uma avaliação dissertativa para a próxima aula.
Neste instante, os conectados desconcetam-se.
__Como assim prófi? Qual conteúdo?
__O que a gente conversou hoje, até agora.
__Mas o que foi falado?

Neste momento, o prófi vinga-se do fundão.

__Então, sugiro que vocês liguem os seus iPads, iPods, notebooks, celulares na modalidade HD no recurso repetição. Até semana que vem.

sábado, 22 de setembro de 2012

Inquietudes (137) do Rei

Londrina: 1997-2000. Prefeito preso. Preso e afastado. Prefeito cassado. Cidade envergonhada.
Londrina: 2009-2012. Prefeito acusado. Prefeito cassado. Prefeito preso. Cidade sem prefeito. Cidade envergonhada. 
Eleições 2012. Quem lidera as pesquisas? Cidade desavergonhada.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Inquietudes (136) do Rei

Na edição do Jornal de Londrina, de hoje, o prefeito Joaquim Ribeiro fala em extensa entrevista. Questionado se se considera corrupto, ele disse "corrupto é quando você negocia e não fui eu que negociei." A negociação refere-se ao recebimento, que ele admite, de R$ 150 mil em propina quando era aliado do prefeito Barbosa Neto, para quem teria repassado o dinheiro, no escândalo dos uniformes escolares. Interessante o ponto de vista do prefeito. Com base nesta linha de raciocínio, uma prostituta - com todo o respeito - pode não se considerar prostituta por não gozar quando atende seus clientes.

De Barbosa a Ribeiro

A  confissão ao Ministério Público, do prefeito de Londrina Joaquim Ribeiro, de que teria recebido R$ 150 mil de propina quando ainda era aliado de Barbosa Neto na administração deste, tem causado rebuliço. Os ânimos estão exaltados no meio político, no processo eleitoral e assanha eleitores, inclusive aqueles que batem cartão na urna uma vez a cada dois anos; e uma semana depois esquecem em quem votaram.

A cassação de Barbosa Neto e o iminente afastamento (ou cassação) de Joaquim Ribeiro traz muita reflexão aos envolvidos e, principalmente, a Londrina, uma cidade acostumada a frequentar as páginas policiais da política. Arrisco algumas considerações.

O espanto de alguns segmentos com a confissão de Ribeiro soa falso. Afinal, Ribeiro era vice de Barbosa Neto. Uma chapa é composta por afinidades. Barbosa já era investigado na Operação Gafanhoto. Não era novidade para ninguém.

A pressão de entidades como OAB, Acil, Sociedade Rural para a renúncia de Ribeiro soa oportunista. Afinal, essas mesmas entidades não se juntaram ao Movimento Popular contra a Corrupção: Por Amor a Londrina, que mobilizou segmentos populares e sindicais. Esse movimento ajudou na pressão que cassou Barbosa. Onde estavam as indignadas entidades?

A indignação dos londrinenses para o trato com a coisa pública soa hipócrita. Basta lembra que essa cidade elegeu Antonio Belinati três vezes prefeito. Ele só não assumiu a quarta vez porque sua candidatura foi impugnada pela lerda Justiça Eleitoral, depois de eleito no segundo turno de 2008. Isso aí, mesmo depois de ter sido alvo de quase 100 ações do Ministério Público no chamado escândalo AMA/Comurb.

Espanto. Pressão. Indignação. Parecem ingredientes de uma receita indigesta. E são, mas uma indigestão passageira. Basta ver o cenário das eleições 2012. A preferência do eleitorado caminha para Belinati, o sobrinho. Gostaria de discutir as qualidades do candidato e seus feitos para a cidade. E o que fez Marcelo Belinati enquanto vereador?

Puxo pela memória, fuço nas lembranças, recorro às recordações. Não me lembro de um único projeto significante para a cidade, o que não quer dizer que eles não existam. Neste contexto, espanto, pressão e indignação têm prazo de validade, conforme o interesse dos envolvidos e a falta de vontade de discutir e fazer política da maioria.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Que dia é amanhã?

Amanhã é 7 de Setembro.
Verde, amarelo, azul e branco.
A Bandeira representa riqueza.
Riqueza devidamente concentrada.


Amanhã é 7 de Setembro.
Que venha o progresso!
Desmatamento não importa.

Fazenda improdutiva não importa.
Trabalho escravo em terras griladas não importa.


Amanhã é 7 de Setembro.
Que venha a ordem!
Invadir terra ociosa é crime.
Roubar para comer é crime.


Amanhã é 7 de Setembro.
Subemprego não importa.
Submoradias não importam.
Subalimentação não importa


Amanhã é 7 de Setembro
A educação anda mal educada.
A saúde anda doente.
A segurança anda insegura.


Amanhã é 7 de setembro.
Feriado prolongado.
Sol, cerveja, churrasco.
Que venha 7 de setembro.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Candidato sem noção

A Creide está horrorizada com o que vê - dos candidatos a vereador - durante o horário político eleitoral.
__Não acredito no que ouço e vejo todos os dias.

É que a maioria dos candidatos promete o que não vai conseguir realizar.
__Pior! É por falta de conhecimento da atuação do vereador.

Uns dizem que vão construir mais casas populares.
Alguns prometem acabar com a violência.
Outros garantem que vão aumentar as vagas nas creches. 
Há aqueles que afirmam que vão trazer indústrias para a cidade. 

__Até parece que são candidatos a prefeito. Oh! gente sem noção!

sábado, 1 de setembro de 2012

Inquietudes (135) do Rei

O sucesso é o resultado do esforço individual, é uma conquista pessoal. Esse conceito prevalece em uma sociedade fragmentada que enaltece o individualismo. É por isso que quando alguém fracassa, torna-se o único responsável pelo seu infortúnio. É a velha mania da humanidade de, inclusive, culpar a vítima pelo crime que sofreu.

Semelhanças

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Preços a pagar

Das características da sociedade atual, com a construção e a consolidação das relações sociais, destaco três: fragmentação, superficialidade e individualidade.

Fragmentadas porque as relações são descartáveis e as amizades são estabelecidas conforme a ocasião.

Superficiais porque as relações são construídas em bases etéreas e não se sustentam ao aviso do primeiro conflito que pode ser uma mera diferença de opinião.

Individuais porque as relações miram nos interesses pessoais e imediatos, sem o compromisso com o outro ou o coletivo.

Neste cenário, há uma instituição capaz de influenciar o comportamento humano, criando ou recriando valores: a mídia.

A família, a escola e a igreja cumprem um papel importante no estabelecimento de valores, mas não dão conta na totalidade, visto que seu alcance é circunscrito aos grupos em que estão inseridos.

A mídia deve ser entendida aqui como o espaço de elaboração e de difusão da informação, algo concretizado, por exemplo, na música, no cinema, na TV, no rádio, no jornal, na internet.

A abrangência da mídia é absurdamente superior à abrangência da família, da escola e da igreja. Não se trata de culpá-la pelos problemas da humanidade.

Trata-se de entender as forças que estão em jogo e que são capazes de ditar as regras e direcionar a atitude, a opinião e o comportamento alheio. Assim, família, escola e igreja são um contraponto ao poder de massificação midiática.

Neste sentido, quais os valores que a sociedade atual quer para si? Aqui, valor deve ser concebido como um objetivo que norteia a atitude e a conduta pessoal nas relações sociais.

Na sociedade fragmentada, a mídia espetaculariza as relações e alça o cidadão comum à condição de celebridade e a celebridade à condição de olimpiano, termo cunhado por Edgar Morin. Olimpiano é aquele que reúne as condições de ser do Olimpo.

É neste contexto que se vê evangélico em baile funk, freira fazendo vídeo para o Big Brother, catequista posando de fio dental para o Musa do Brasileirão.

Calma! Baile funk, Big Brother e Musa do Brasileirão não são o problema porque têm seus públicos cativos que têm o direito de exercitar sua liberdade e sua expressão.

O ponto principal reside na reflexão sobre as contradições daqueles que arrotam valores cujas ações pessoais não correspondem aos arrotos.

A honestidade e o comprometimento são exemplos de valores que podem ser considerados objetivos para direcionar a atitude e a conduta pessoal.

Em uma sociedade fragmentada, superficial e individualista, a honestidade e o comprometimento acabam contorcidos ao sabor das conveniências.

Assim, os valores assumem uma condição volátil relativizando as atitudes e as condutas humanas, mas todos pagamos um preço independentemente do quão somos honestos e comprometidos.

Por isso, qual preço estamos dispostos e conseguimos pagar pelos valores que temos e defendemos?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Serviço gratuito

__Bem-vindo! Agradecemos a sua ligação. Se você já é cliente, tecle um. Se você quer comprar serviços, tecle dois.
1!
__Para telefone fixo, tecle um. Para telefone celular, tecle dois. Para internet, tecle três.
2!
__Para detalhamento de faturas, tecle um. Para parcelamento da fatura, tecle dois. Para reenvio da fatura, tecle três. Para serviços adicionais contratados, tecle quatro. Para contratar serviços adicionais, tecle cinco. Para falar com um dos nossos atendentes, tecle seis.
6!

__A sua ligação é muito importante para nós. Em instantes iremos atendê-lo.
__A sua ligação é muito importante para nós. Em instantes iremos atendê-lo.
__A sua ligação é muito importante para nós. Em instantes iremos atendê-lo.
__A sua ligação é muito importante para nós. Em instantes ire/


__Bom dia, sou Fulana de Tal. Com quem eu falo?
__Você fala comigo.
(Sempre quis dar uma dessas) É o seguinte, vocês adicionaram no meu celular aquele serviço que informa o número de quem me ligou quando o celular está desligado.
__Isso mesmo senhor. O senhor está satisfeito?
__Eu quero desativar esse serviço.
__Qual o motivo senhor?
__É que eu não quero saber quem me ligou.
__Mas senhor, o serviço é gratuito, senhor.
__Mesmo assim, eu não tenho interesse. Vocês podem cancelar?
__Mas senhor, se o serviço é gratuito e é um benefício por que não aceitar, senhor?


Cinicamente, respondo.

__Por uma simples razão. Se eu desligo o celular eu não quero ser encontrado, certo? E se eu não quero ser encontrado, eu não quero saber quem me ligou, certo?
__Perfeitamente senhor. Vamos estar cancelando esse serviço, senhor. Mais alguma coisa senhor?
__Não.
__Senhor, agradecemos a sua ligação. Um bom dia senhor.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Inquietudes (134) do Rei

Confesso! Não dou conta do Criança Esperança. Já pago impostos (e são muitos) e não preciso de televisão/concessão pública fazendo chantagem por doação. Confesso também que a primeira parte da abertura do programa foi linda. A produção em homenagem à África e aos negros, emocionante. Confesso ainda que a Globo faria melhor e muito mais pelos negros se em seus noticiários defendesse as cotas públicas e raciais como objeto de combate à exclusão e à desigualdade. Mas o que esperar de uma rede que tem como chefão um jornalista que afirma não existir raças?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Oração do eleitor

Ave justiça eleitoral, cheia de regras,
O eleitor é convosco, não o abandonai! 
Justa sois vós e os fichas sujas impugnai. 
Os candidatos e os interesses de ocasião queimai.

Santo Tribunal Regional Eleitoral,
Paciência todos os dias nos dê,
Para ver os candidatos na TV.
Rogai por nós eleitores, 
agora e na hora do nosso voto.
Amém!

Oração do candidato

Salve, eleitor, misericordioso, vida, doçura, esperança nossa, salve!
A vós bradamos os candidatos filhos da Campanha Eleitoral.
A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de votos.
Vos pedimos nessa urna eletrônica – meu número – teclai.
E no fim, aperta o verde e confirmai!
Ó clemente, ó piedoso, ó voto – minha vida arrumai.
Santo eleitor, em nós votai.
Amém!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Na telha

Inquietudes (133) do Rei

Existe prazo para expirar a validade em produtos e em serviços.
Também existe prazo de validade...
para relações pessoais. São os ex-amigos.
para relações íntimas. São os ex-alguma coisa (namorado, namorada, mulher, marido, amante).
para relações profissionais. São os ex-chefes.
Portanto, o prazo depende muito da validade das relações.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Prefeitura ou CNBB?

Candidatus Municipalis vai concorrer ao cargo de prefeito e ele tem muitos projetos para a cidade, mas tem um passado de defesa de suas ideias. Ele é favorável ao aborto, à união de pessoas do mesmo sexo, defende a reforma agrária e a pílula do dia seguinte na rede pública.

Definitivamente esse é o problema de Candidatus. Na sua coligação há siglas que vão de espectros da esquerda, à direita passando pelos fantasmagóricos. Como assim? Alguns partidos que o apoiam estão mortos, mas não sabem disso. E nem interessa porque o importante é o apoio partidário para aumentar o tempo de TV. Afinal, o show midiático não pode parar.

Na primeira coletiva, para anunciar a chapa, Candidatus Municipalis pôde perceber o tom do jogo da campanha. Jornalistas de primeira viagem e outros de cabelos brancos não perderam a veia - digamos - investigativa.

__O senhor já disse ser favorável ao aborto. O senhor mantém essa posição?
__E sobre o casamento gay, o senhor continua defendendo?
__O MST não é um grupo que promove o terror no campo?
__A pílula do dia seguinte é condenada pela Igreja. O senhor não teme perder apoio de importantes segmentos religiosos.


A Creide, que acompanhou a coletiva pelo noticiário da TV, não aguentou. __Ué, mas essa é uma campanha para a prefeitura ou para a presidência da CNBB. Pois é Creide, ainda bem que o estado é laico, imaginou se não fosse?

Esses são detalhes. Os especialistas estão aí para amenizar o impacto da sinceridade. Importa mais a imagem. Importam menos os projetos. Por isso, Marketérius Políticus foi contratado - a peso de ouro - para construir a imagem de Candidatus, ou melhor, para desconstruir a imagem passada dele.

Uma trilha sonora lacrimejantemente impactante, um terno novo, a barba bem feita, um cenário que inspira trabalho e resolutividade, imagens de Candidatus com crianças, bebês, gestantes, idosos, em reuniões com empresários, padres e pastores.

__E os projetos para a cidade?  A Creide não perde a oportunidade de fazer pergunta difícil. Eita! __É... parece que o eleitor vota mais na imagem do candidato do que nele próprio.

Buracos hereditários

No meio da rua há um buraco.
Havia um buraco no meio da rua
porque a prefeitura cobriu com massa asfáltica.

De qualidade ruim, surgiu outro buraco.
Filho do primeiro.

No meio da rua há outro buraco.
Havia um buraco no meio da rua
porque a prefeitura tapou novamente.

Filho do segundo.
Neto do primeiro.

No meio da rua há mais um buraco.
Havia um buraco no meio da rua
porque a prefeitura tapou de novo.

Filho do terceiro.
Neto do segundo.
Bisneto do primeiro.

Buraco nas ruas de Londrina é hereditário.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Lembranças a gosto

O mês de agosto é o mês do cachorro louco.
De loucura mesmo... nada canina, somente a humana.
Agosto tem o gosto de conquista da entrada na faculdade.
Agosto tem o gosto de despedida da  faculdade.
Agosto tem o gosto do primeiro emprego com carteira assinada.
Agosto tem o gosto do primeiro palco numa leitura dramática de Bertold Brecht.
Agosto tem o gosto de ser filho de um homem honrado nascido em agosto.
Agosto tem o gosto dos ventos de agosto; do sol quente e abafado; da sombra fria; do casaco pela manhã; da camiseta no meio da tarde.
Agosto traz muitas lembranças que vêm a gosto.
E nada mais gostoso!

sábado, 4 de agosto de 2012

Inquietudes (132) do Rei

Contra a ignorância, devemos usar a informação. Contra a má fé, devemos usar a ignorância.

Eleição após eleição

Em período eleitoral, voltam a repetir as cenas de sempre. De um lado, os cabos eleitorais (pagos ou convictos) gritando a honestidade de seus candidatos. De outro lado, os cabos eleitorais dos outros (pagos ou convictos) apontado a corrupção dos concorrentes e escondendo os podres de seus.

Os postulantes a um cargo público juram inocência; pregam honestidade; apregoam ética e dignidade; prometem trabalhar arduamente para a coletividade, representando o interesse da maioria, os interesses coletivos da sua comunidade.

Os grandes partidos políticos funcionam como pára-raios angariando siglas nanicas, agremiações de aluguel, mero apoio para completar o tempo da TV num exercício de exaltação das qualidades do candidato majoritário, mesmo que não as tenha.

A imprensa mascara a informação ressaltando os defeitos dos candidatos que não representam seus projetos e esconde os escândalos dos seus aliados. O jornalismo vira propaganda política e o eleitor arrota o noticiário, sem digestão completa.

Eleição após eleição surgem cientistas políticos, alçados à condição de especialistas em qualquer coisa, que dão dicas de como o eleitor deve votar; como escolher o melhor candidato; como analisar uma plataforma de governo e como buscar informações sobre as coligações.

Há muito tempo, os partidos - para conquistar e manter o poder - tornaram-se muito parecidos, sendo difícil distinguir as diferenças. Os dois maiores - PT e PSDB - trocam acusações mútuas de corrupção. Ambos têm razão. Existem desvios de recursos e de conduta nos dois governos. Petistas e tucanos, neste sentido, são assemelhados. O que pode diferir é o tamanho do rombo provocado por eles.

Como desvio é desvio, não interessa se o buraco do outro é maior. Do ponto de vista conceitual, buraco é buraco. O que vai variar é a pena a ser cumprida por quem o cavou. Tudo bem que a justiça não é tão justa quando preconiza e quanto deveria ser.

Se os partidos políticos são parecidos no item conquista e manutenção do poder como analisar a ficha biográfica (ou policial) para escolher o que deve governar por quatro anos? Atrevo-me a uma sugestão: o projeto político que representam e colocam em prática.

Não falo, não peço que meçam esse projeto político pelo programa eleitoral. Afinal, a maioria dos candidatos escreve aquilo que o eleitor quer ler e nem sempre as propostas feitas são exequíveis. Depois de eleitos, as promessas caem no vazio da memória seletiva do eleitor.

Sugiro que os projetos político-partidários sejam analisados pelo seu histórico de propostas à frente do executivo. Geralmente, partido conservador defende o estado mínimo, adora fazer graça para o empresariado com dinheiro público e constrói grandes obras para ter visibilidade.

Geralmente, partido progressista aposta nas políticas afirmativas, distribuindo renda, adora fazer graça com trabalho em rede para proteção ao cidadão e também faz pirotecnias para ter visibilidade política.

E o que tem o eleitor a ver com isso? Ele precisa verificar com qual projeto se identifica e defende para si e os seus. Representante intrínseco do empresariado não representa direitos do trabalhador. Representante intrínseco do trabalhador não representa direitos do empresariado. Não se enganem!

Para ser explicitamente explícito, um exemplo: candidatos eleitos pelo do MST não representam os interesses dos latifundiários do DEM. Assim, como os latifundiários democratas não representam os interesses do MST.

Formar a própria opinião exige um esforço grande de pesquisa, reflexão e confrontação de ideias. A formação da opinião mescla aspectos como experiência pessoal, quantidade e, principalmente, qualidade de informação.

E não devemos confundir opinião pública com opinião tornada pública por meia dúzia de colunistas. Esses despejam suas opiniões e convicções pessoais para o público (opinião tornada pública) como se fossem da maioria (opinião pública).

Se formos politizados na análise e na escolha dos candidatos que representam os projetos que nos satisfazem, poderemos ter governos melhores. Eleição após eleição.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Exílio e exílios

Exílio está ligado ao ato de exilar.
É uma característica de ditaduras que expulsam pessoas inimigas do regime.
Em países supostamente democráticos, não existe exílio.
Apesar de estar associado intrinsecamente ao regime político, o exílio existe sob outras formas.

Um amigo pode ser exilado se não compactuar com as ideias e práticas do grupo.
Um fiel pode ser exilado da congregação se sua conduta não for dogmática.
Um filho pode ser exilado da família se sua orientação sexual não for a desejada.
Um vizinho pode ser exilado se tiver estilo de vida incompatível.
Uma pessoa pode ser exilada se tiver uma diferença que incomoda uma suposta igualdade.
Um pai e uma mãe podem ser exilados. Ou asilados?
Exemplos não faltam.

Existem os exílios opcionais.
O exilado busca, por conta própria, o exílio.
Pode ser perto, pode ser longe, mas continua sendo uma opção.
O exílio imposto tira, muitas vezes, a reação.
Exclusão.
Frustração.
Decepção.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Fé na humanidade

Acesso um site noticioso e uma notícia chama-me a atenção. Um pedreiro achou uma bolsa com R$ 30 mil. E devolveu ao dono. O dinheiro fora roubado de uma distribuidora de bebidas numa cidade do interior de Minas Gerais, a quase 500 km de Belo Horizonte.

Segundo a reportagem, o pedreiro de 44 anos não teria hesitado em devolver o dinheiro porque a quantia não pertencia a ele e quem o "perdera", provavelmente precisaria daquele montante. O dinheiro era para o pagamento dos funcionários da empresa.

Atitudes como essa me fazem restaurar a fé na humanidade. Chega a emocionar e imagino, ao ler a notícia, a voz grave de Ana Carolina, cantarolando o refrão de "Brasil Corrupção - Unimultiplicidade".

E como começo de caminho
Quero a multiplicidade
Onde cada homem é sozinho
A casa da humanidade
Onde cada homem é sozinho
A casa da humanidade


No embalo da trilha sonora, a memória enseja outro episódio semelhante. Aquele em que o casal de moradores de rua, Rejaniel e Sandra, encontra uma sacola com cerca de R$ 20 mil, num ponto de ônibus de São Paulo e entrega à polícia. O dono? Um proprietário de um restaurante.

Por uns instantes, mergulho num sentimento sadio e aplaudo a honestidade. Contemplo o bom caráter. Reverencio a probidade. Saúdo o decoro. Admiro a integridade. Dou vivas à dignidade. Como é bonita e singela a atitude do pedreiro e dos moradores de rua. Honestidade não pede explicação. Não precisa de justificativa.

Suspiro longamente... e volto à leitura do site.

Motorista embriagado atropela e mata mãe e filha
Deputados são acusados de desviar dinheiro da merenda escolar
Jovem mata o pai com 37 facadas e se suicida
Polícia federal prende políticos e juízes por desvio de recursos

As manchetes são um soco na honestidade, no bom caráter, na probidade, no decoro, na integridade, na dignidade. A serenidade da contemplação à honestidade cede lugar ao azedume cotidiano. A fé na humanidade durou pouco.