quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Oportunismo e nada mais?

O episódio, lamentável - diga-se de passagem, sobre os implantes de silicone da marca francesa Poly Implant Protheses (PIP) revela vários ângulos de um drama que não tem apenas um responsável e que vai demorar um tempo para ser resolvido.

O drama das mulheres afetadas pelo vazamento de matéria-prima inadequada que causa problemas sérios de saúde.

O drama de médicos que terão de trocar os implantes e meter a mão no próprio bolso para realizar novas cirurgias.
O drama da Anvisa que não tem um sistema ágil para fiscalizar a matéria-prima dos produtos que ela mesma autoriza.

Neste cenário uma medida chama a atenção. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica anunciou que vai rastrear todas as mulheres que fizeram implantes de silicone no país. Antes tarde do que nunca, mas será que a medida é eficiente ou apenas um factóide oportunista para alavancar a imagem dos cirurgiões plásticos?


Vejamos, então. Em reportagem do dia 08/01, 
"O Estadão" divulgou que "Cadastro nacional rastreará mulheres que colocarem silicone nas mamas". Trata-se do Cadastro Nacional de Implantes Mamários (CNIM). O texto foi distribuído, dias antes, aos jornais de todo o país que assinam a Agência Estado, e publicado, por exemplo, pelo jornal Folha de Londrina,  também no domingo dia 08/01, na página 6 do primeiro caderno.

O que chama a atenção na reportagem é o tom do texto que dá a sensação de que todos os problemas de implantes de silicone serão resolvidos a partir do tal cadastro. A linha-fina de "O Estadão" exorta:


"Iniciativa inédita da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica foi alavancada após contaminações em Campinas, em 2004; numeração e marca da prótese, além do motivo do implante, serão registrados; órgãos governamentais não estão envolvidos"


Ou seja, quando o poder público está envolvido é problema na certa. Quando a iniciativa privada assume o comando é solução na certa. Não é bem assim. 
Se a motivação inicial da SBCP foi a contaminação de pacientes em 2004, por que a sociedade demorou cerca de sete anos para implementar o cadastro? Wanda Elizabeth Correa, presidente da Comissão de Silicone da sociedade, explica.

"Esse é um projeto antigo, não surgiu de uma hora para outra. Foram anos de trabalho, de pesquisa e de projetos, para definir esse protocolo. Já contratamos a empresa responsável e agora estamos na fase de cadastramento dos médicos."


Se fosse o poder público seria morosidade, irresponsabilidade, burocracia excessiva, falta de vontade política. A resposta da cirurgiã não teve eco nos questionamentos seguintes da repórter que assina o texto. E como se trata de um órgão corporativo da iniciativa privada, a demora ganha status de pesquisa, de projeto, de definição de protocolo. Ah então tá!


Esse comportamento é típico da imprensa brasileira que, geralmente, desqualifica órgãos públicos e enaltece órgãos e empresas privadas. Isso ocorre numa mistura vai de desconhecimento (ignorância mesmo!), falta de capacidade jornalística ou má-fé. 


Segundo informa "O Estadão", "assim que terminar o cadastramento, os médicos já poderão começar a alimentar o programa com dados das pacientes." Isso significa afirmar que o sucesso da medida depende da iniciativa dos médicos em alimentar o sistema.


E se os médicos não alimentarem o cadastro? A inserção dos dados é obrigatória? A pista é fornecida pela própria reportagem. "Segundo ela [a cirurgiã Wanda Elizabeth Correa], a sociedade possui cerca de 5 mil cirurgiões plásticos cadastrados e, se todos preencherem os dados corretamente, essa será a maneira mais fiel de rastrear as próteses de silicone no Brasil."

Se todos preencherem corretamente? 


Os médicos podem não preencher o cadastro e se fizer, fazer errado. A medida é apenas um controle da sociedade e o cadastro apenas um cadastro, um controle interno. Controle, aliás, que deve ser feito pelos próprios cirurgiões nos seus consultórios.


Afinal os clientes pagam muito caro por cirurgias estéticas e nada mais normal que o médico saber o que implantou, quando implantou e em quem implantou. A reportagem, que anuncia a medida como "iniciativa inédita", aposta numa ação inócua cujo controle depende mais do cirurgião do que da própria SBCP.


E vale destacar que a sociedade é uma entidade que tem como "objetivo exclusivo de aprimorar e promover a ciência da Cirurgia Plástica." A afirmação consta no site da própria sociedade. E essa promoção da ciência plástica passa por interesses econômicos em um mercado que movimenta milhões. Não é á toa que a própria SBCP anuncia na home do seu site produtos que variam de instrumental cirúrgico a implantes de silicone de diferentes marcas. 
Basta acessar o site e conferir.

Um comentário:

Farina disse...

Gostaria que vc conhecesse e divulgasse o Blog do Farina. Um abraço.