domingo, 26 de fevereiro de 2012

Inquietudes (110) do Rei

Quando a polícia tem licença para matar qualquer um pode ser a vítima, inclusive aqueles que defendem que policiais tratem bandidos na ponta da bala.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Coisas do mercado

__Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmm.

O toque do meu telefone em casa é antigo.

__Alô! O senhor Reinaldo César Zanardi, por favor.
__Sou eu mesmo. Quem gostaria?
__Sou fulana [putz! esqueci o nome da atendente] Falo dos cartões Casas Bahia Visa, tudo bem com o senhor?
__Tudo.
__Estou ligando para oferecer o Cartão Casas Bahia, no qual o senhor terá muitos benefícios, como até 40 dias para pagar a fatura...


Benefício? Mas todos os cartões não são assim?

__...o senhor ainda pode parcelar as compras nas Casas Bahia em várias parcelas sem juros.
__Interessante.
__E além disso, o senhor pode comprar em milhares de estabelecimentos do país.
__Certo! E de quanto é o meu limite?
__Não posso informar isso para o senhor.
__Como assim?
__Não tenho autorização para dar essa informação.
__Então, como você me liga para vender algo e não pode informar o que eu terei de vantagem?
__Não tenho autorização para dar essa informação, senhor.
__E o que eu preciso fazer para saber o limite?
__O senhor tem que ligar no nú/...


Interrompo, sem a menor cerimônia.

__Espera um pouco. Você me liga para vender um produto, não pode me informar tudo que quero saber e ainda me dá trabalho porque tenho que ligar em outro serviço?
__Então, senhor...
__Estava interessado no cartão, mas perdi o interesse. Passar bem!


Tum! Tum! Tum! Tum! Tum! Tum! Tum! Tum! Tum! Tum! Tum! Tum!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ano eleitoral


Em ano eleitoral, voltam os candidatos.
Vereador faz pose e diz que tem moral.
Prefeito diz que trabalhou muito e legal.

O caixa é 2, sem gasto racional.

A legislação permite bacanal.
O adversário de ontem é aliado incondicional.

O eleitor, um simples mortal.

Não conhece o voto e seu poder letal.
A opção na urna é emocional.
O resultado, um efeito colateral.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Punição premiada

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) puniu o desembargador Roberto Wider, acusado de favorecer lobista em decisões judiciais.
Segundo o G1, a punição foi de lavada: 12 votos contra 2. 
Roberto Wider é ex-corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ).
E a punição?
Aposentadoria compulsória.
Isso mesmo.
O desembargador, acusado de favorecer lobistas em decisões judiciais, vai ser aposentado e vai pescar, tudo pago com dinheiro do contribuinte.

"A conduta do magistrado foi incorreta, mas não consiste em falta tão grave ao ponto de justificar sua aposentadoria compulsória ou sua disponibilidade. E ele está afastado há um ano e sete meses. A pena correta aqui seria a de censura, mas essa pena só pode ser aplicada a juiz de primeiro grau", afirmou o conselheiro Tourinho Neto, ao G1.


Censura, conselheiro nacional de justiça?
Conduta incorreta que não é "falta tão grave"?
Aposentadoria e censura não são punição.
São prêmios por conduta incorreta.

Em que pese a necessidade de atuação do CNJ, essa punição é, no mínimo, um tapa na cara do brasileiro.
Punição mesmo, recebeu Wagner Colombo, de 31 anos, condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, em novembro do ano passado, a um ano e meio de prisão por ter roubado quatro latas de atum.

Viu, cidadão?
Atum dá cadeia.
Ser comparsa de lobista, não.
Mas ainda bem que no Brasil todos são iguais perante a lei.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Democracia e democracia

A greve da Polícia Militar na Bahia revelou algumas situações interessantes, e preocupantes. Muito já se escreveu sobre o tema e, por isso, abordo um viés que envolve a presidenta Dilma Rousseff e seu passado de combatente.

Imagens de policiais, pagos com o dinheiro do contribuinte, empunhando armas em locais públicos correram a internet. Veículos incendiados e barreiras feitas por policiais grevistas. A Assembleia Legislativa do estado invadida e sitiada.

A presidenta disse ser contra a anistia aos policiais, presos por planejar e executar atos de vandalismo, espalhando o medo e o pânico pela Bahia. Ela defende que os policiais pegos em atos criminosos devem ser punidos. E isso é o que se espera numa democracia.

Existe uma corrente que ataca a presidenta comparando a situação atual ao tempo de militância de Dilma na clandestinidade no regime da ditadura militar. Muitos questionam como pode uma rebelde que lutou pela democracia não reconhecer a legitimidade dos trabalhadores em greve. Aqui há algumas vírgulas que merecem reflexão.

1º) Numa democracia, as regras são claras. O direito à greve é legítimo. É constitucional. Mesmo sendo proibida para militares e algumas categorias de servidores públicos, existem formas legítimas de protesto e reivindicação de direitos usurpados.

2º) Numa ditadura militar, as regras não são claras. Portanto, atos de rebeldia (ou terrorismo como preferem os conservadores) são legítimos. Contra um governo que mata e esconde o corpo, diplomacia serve pouca coisa. Por isso, lutar na clandestinidade pede ações à altura da violência oficial do governo que deveria proteger.

Neste sentido, lutar pela democracia usando a violência contra uma ditadura e ser policial grevista numa democracia usando a violência para reivindicar seus direitos não são a mesma coisa.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Tucanos e petistas


Eles são amigos e têm boa convivência. Cardoso é casado com Stelamária. Silva é casado com Stelamárcia. Elas são irmãs e filhas de dona Aparecida. Quando o assunto é política, a casa da sogra - no churrasco de domingo - vira um palanque eleitoral.

Cardoso é tucano. Silva é petista. As diferenças ideológicas afloram entre uma linguicinha e um pedaço de picanha. Com a privatização dos aeroportos de Campinas, Guarulhos e Brasília, pelo governo de Dilma Rousseff, o debate pega fogo à beira da churrasqueira.

__Silva, o PT não pode mais falar mal das privatizações do PSDB. Ele se apropriou do modelo econômico tucano e agora repete a fórmula das privatizações de FHC.
__Cardoso, meu cunhado, você anda lendo muito o Reinaldo Azevedo e o Merval Pereira. Primeiro, o PT aperfeiçoou o modelo econômico, fez o Brasil crescer e investiu no brasileiro, com preferência para os po/...
__Preferência para os pobres? Como, se os banqueiros nunca tivessem ganhado tanto como nos governos petistas. Quer uma caipirinha?
__Não obrigado e não mude de assunto. No governo Lula, os pobres passaram a comer mais, a viajar mais, a consumir mais, a entrar mais na universidade. E o PT não privatiza, concede o serviço público à iniciativa privada. Corta essa picanha aí pra mim...
__E vem você com essa nova linguagem. O PT sequestra até as palavras. Como a privatização do PT é diferente do PSDB?
__Cardoso, sequestro de linguagem? Que foi que atucanou o português? Se você lesse blogs e não apenas jornalões e revistinhas como Veja, a Folha e o Estadão, veria o que o Rui Falcão, presidente do PT, disse. Abre aspas.

"Nós não confundimos concessões com privataria. Faz parte da história do PT: há muito tempo temos concessões de rodovias. As concessões fazem parte da Constituição e o PT nunca votou contra a concessão de serviços públicos, tanto que o transporte coletivo na maior parte das cidades governadas pelo PT e por outros partidos é objeto de concessão e o transporte é um serviço público"

__Mas Silva, isso é tapar o sol com a peneira. Privatizar e conceder à iniciativa privada são a mesma coisa. Isso que dá, você lê esse Paulo Henrique Amorim e a Carta Capital e fica se achando. O que o PT fez foi estelionato eleitoral. Bem que disse, o senador Álvaro Dias. Abre aspas.

 "O PT acabou. Com as suas bandeiras foi sepultado. Poderia se afirmar que houve estelionato eleitoral. Na campanha o PT dizia que o adversário privatizaria o país, o PT jamais. Privatizações jamais. No entanto, é o PT que privatiza."

__Álvaro Dias? Se bem que ele entende de estelionato eleitoral. Você se lembra que ele assinou a CPI da corrupção do Governo FHC, teve que deixar o PSDB. Foi para o PDT, concorrer ao governo do Paraná? Perdeu para o Requião e depois voltou para o PSDB?
__Não mude de assunto, Silva. O PT perdeu suas bandeiras.
__Cardoso, o problema não é o modelo de serviço: próprio ou terceirizado. O foco deve ser a gestão desse modelo.
__Silva, mais uma vez você querendo vender gato por lebre. Passa a linguiça...
__Veja bem... o FCH vendeu a Vale, as empresas de telecomunicação. Para onde foi o dinheiro? Tem até um livro "A Privataria Tucana" que prova a orgia com dinheiro público gerado nas privatizações tucanas. Agora, o PT concede a exploração dos serviços públicos dos aeroportos para empresas privadas. O governo garante que o dinheiro arrecadado vai ser investido na própria malha aeroviária e, como concessão, o governo estabelece regras e metas para que sejam cumpridas. A concessão pode ser revista, já a venda... vou pegar uma cervejinha, quer uma?
__Quero. O PT é hipócrita e tem nas palavras, um jogo para explicar e justificar que mudou de discurso e ideologia no decorrer de sua histó...

Neste instante, dona Aparecida - a sogra - interrompe o debate ideológico-eleitoral.

__Eu não entendo nada do que vocês estão falando, mas a comida está servida. Fiz a maionese que vocês dois adoram.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Pílula do dia seguinte

O menino de 9 anos chega para a mãe e pergunta.

__Mãe, o que é pílula do dia seguinte?

A mãe não esperava pela pergunta. Pensa por uns instantes. E em vez de responder, enrola a criança.

__Por que você está perguntando isso?
__Por curiosidade, mãe.
__Esses veículos de comunicação, vou te contar viu... Onde já se viu falar dessas coisas o tempo todo? A gente não consegue controlar o que as crianças assistem na TV e depois têm que passar por essas situações.
__Mas mãe, o que é pílula do dia seguinte?

O menino insiste e a mãe não consegue seguar a onda.

__Pílula do dia seguinte, filho, é uma safadeza sem tamanho. É quando uma menina faz sexo sem se preocupar com as consequências e depois toma essa pílula para não engravidar. Isso é falta de vergonha..., mas me conta, em que programa de TV você ouviu essa história?
__Não foi na TV não, mãe. Eu ouvi a tata falando pro namorado dela que tava com medo. Por isso, eles combinaram de ir na farmácia comprar essa pílula do dia seguinte.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A vida acima de tudo

Aristeu é empresário, católico fervoroso, temente a Deus. Ele frequenta a Renovação Carismática duas vezes por semana. O empresário reclama na sala de estar, com um jornalão em mãos. Ele fala à mulher.

__Você viu só que absurdo, Fátima! Durante a campanha de 2010 a presidente Dilma disse que era contra o aborto...
__E daí? O Serra também disse que era e descobriram que a mulher dele fez um no Chile.
__Não mude de conversa, Fátima. A Dilma disse que era contra e agora nomeou para a Secretaria Especial para as Mulheres, uma mulher que defende o aborto. Está na Folha de S.Paulo de hoje. Escuta só a manchete. __Ex-colega de cela de Dilma, nova ministra defende o aborto.
__É muito engraçado, você já reparou Aristeu que os homens gostam de atacar as mulheres que defendem o direito ao aborto?
__Como assim? direito ao aborto?
__Uma pessoa que defende o direito da mulher ao aborto não necessariamente faria um aborto.
__Nossa Fátima, acho que você dormiu pouco essa noite.
__É verdade, querido! Li num blog a diferença entre defender o aborto e defender o direito ao aborto.


Pausa. Fátima pensa um pouco e retoma.

__Se alguma mulher da minha família fosse estuprada, eu gostaria que ela tivesse o direito de fazer aborto. Não quer dizer que faria.
__Que Jesus não ouça você, Fátima. Isso é uma afronta à vida.
__E você, meu marido Aristeu, é um defensor incondicional da vida?
__Claro que sou. Uma criança concebida é um presente de Deus. Ninguém tem o direito de tirar a vida dela.
__Então você defende a vida acima de tudo?
__Claro Fátima. Acima de tudo.
__Então eu tenho uma dúvida. Se você defende a vida acima de tudo. Por que é favorável à pena de morte para crimes hediondos?

Inquietudes (108) do Rei

Reportagem da Folha de S.Paulo de ontem afirma que os vencedores do leilão dos aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília devem usar recursos públicos para pagar a conta. O empresário compra do governo e usa recursos do governo. Entendi o princípio do capitalismo solidário. Se o empresário ganha, o governo não se mete. Se o empresário perde, o governo paga a conta. Como é fácil ser empreendedor com recursos dos outros. E depois  muitos empresários e investidores - com dinheiro público - falam mal do Bolsa Família, mas Bolsa Empresário pode. Ah então tá!

Ele tem um sonho

Que a saúde não seja apenas um direito, mas uma realidade.
Que o acesso à educação não seja apenas um direito, mas uma necessidade básica atendida.
Que a moradia não seja um privilégio.
Que a legislação seja aplicada a todos, sem distinção.
Que o emprego seja uma realidade, não uma estatística nas páginas de economia.
Que não haja preconceito e discriminação.
Que os diferentes tenham convivência e respeito mútuo.
Ele sabe que não sonha pouca coisa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sementes

Inquietudes (107) do Rei

A democracia precisa de veículos de comunicação livres.
Ser livre do estado, mas atrelado carnalmente ao mercado não é liberdade.
Ser livre do mercado, mas atrelado carnalmente ao estado não é liberdade.
Quem perde é o cidadão.

Cristo, o libertador

Aquela imagem intrigava o menino. Final dos anos 1970. Jesus Cristo de quatro metros. Nu. De braços abertos, ostentava correntes arrebentadas. Atrás um sol radiante. Os órgãos genitais, proporcionais à altura, foram escondidos pelas asas de uma pomba.

A
quela imagem intrigava o menino. A obra era uma escultura encomendada pelo arcebispo de Apucarana, Dom Romeu Alberti. Assinada pelo artista Henrique Aragão, o Cristo Libertador foi instalado na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, no município de Colorado, de 20 mil  habitantes.

Aquela imagem intrigava o menino. O Cristo Libertador foi executado em latão. O material não é glamuroso como o bronze, o mármore, o granito, o ouro. O latão é material do dia-a-dia. Pode dar forma a um recipiente coletor de lixo, uma churrasqueira. Como Cristo poderia ser concebido em latão?


 Aquela imagem intrigava o menino. O Cristo Libertador nasceu segundo a Teologia da Libertação. As correntes arrebentadas libertavam de toda a opressão. O sol radiante brilhava para todos. Não havia privilégio. A igreja era um lugar de comunhão de todos. Como deve ser toda igreja.


 Aquela imagem intrigava o menino. A teologia libertava. A fé não era cega; era produtiva. As comunidades eclesiais de base tinham papel politizado. Jesus era politizado. Pregou contra as injustiças. Pregou a justiça. Pregou a igualdade. Ousou levantar-se contra a opressão e, principalmente, os opressores.


 Aquela imagem intrigava o menino. Nu, Cristo se mostrava como era. Incomodava não o Cristo profeta, o Cristo salvador, o Cristo confrontador, o Cristo que tinha uma clara opção pelos pobres. Incomodava o Cristo homem. Incomodava a representação dos órgãos genitais de Cristo.


 Aquela imagem intrigava o menino. A opção preferencial da Igreja de Roma não eram os pobres. O Episcopado Latino-Americano, reunido em Puebla de los Angeles, no México, há exatos 33 anos, sofreria duro golpe. A teologia que libertava foi esmagada. Esmagada pelo tripé neoliberal Margaret Thatcher, Ronald Reagen, João Paulo II.


 Aquela imagem ainda intriga o menino, que cresceu. A fé que produzia ação social virou canto de louvor por louvor. A ação comunitária de base foi trocada pela oração efusiva. A adoração termina no portão da igreja. Fiéis. Carro de luxo. Moradores de rua. Personagens de uma fé individual. 


 Aquela imagem ainda intriga o menino, que cresceu. O Cristo Libertador foi doado para a Universidade Estadual de Londrina. Ficou esquecido num depósito por duas décadas. Restaurado foi parar na rotatória. Obra de arte em latão. Deteriorado, voltou para o depósito. O Cristo Libertador ainda incomoda muita gente.