segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Cristo, o libertador

Aquela imagem intrigava o menino. Final dos anos 1970. Jesus Cristo de quatro metros. Nu. De braços abertos, ostentava correntes arrebentadas. Atrás um sol radiante. Os órgãos genitais, proporcionais à altura, foram escondidos pelas asas de uma pomba.

A
quela imagem intrigava o menino. A obra era uma escultura encomendada pelo arcebispo de Apucarana, Dom Romeu Alberti. Assinada pelo artista Henrique Aragão, o Cristo Libertador foi instalado na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, no município de Colorado, de 20 mil  habitantes.

Aquela imagem intrigava o menino. O Cristo Libertador foi executado em latão. O material não é glamuroso como o bronze, o mármore, o granito, o ouro. O latão é material do dia-a-dia. Pode dar forma a um recipiente coletor de lixo, uma churrasqueira. Como Cristo poderia ser concebido em latão?


 Aquela imagem intrigava o menino. O Cristo Libertador nasceu segundo a Teologia da Libertação. As correntes arrebentadas libertavam de toda a opressão. O sol radiante brilhava para todos. Não havia privilégio. A igreja era um lugar de comunhão de todos. Como deve ser toda igreja.


 Aquela imagem intrigava o menino. A teologia libertava. A fé não era cega; era produtiva. As comunidades eclesiais de base tinham papel politizado. Jesus era politizado. Pregou contra as injustiças. Pregou a justiça. Pregou a igualdade. Ousou levantar-se contra a opressão e, principalmente, os opressores.


 Aquela imagem intrigava o menino. Nu, Cristo se mostrava como era. Incomodava não o Cristo profeta, o Cristo salvador, o Cristo confrontador, o Cristo que tinha uma clara opção pelos pobres. Incomodava o Cristo homem. Incomodava a representação dos órgãos genitais de Cristo.


 Aquela imagem intrigava o menino. A opção preferencial da Igreja de Roma não eram os pobres. O Episcopado Latino-Americano, reunido em Puebla de los Angeles, no México, há exatos 33 anos, sofreria duro golpe. A teologia que libertava foi esmagada. Esmagada pelo tripé neoliberal Margaret Thatcher, Ronald Reagen, João Paulo II.


 Aquela imagem ainda intriga o menino, que cresceu. A fé que produzia ação social virou canto de louvor por louvor. A ação comunitária de base foi trocada pela oração efusiva. A adoração termina no portão da igreja. Fiéis. Carro de luxo. Moradores de rua. Personagens de uma fé individual. 


 Aquela imagem ainda intriga o menino, que cresceu. O Cristo Libertador foi doado para a Universidade Estadual de Londrina. Ficou esquecido num depósito por duas décadas. Restaurado foi parar na rotatória. Obra de arte em latão. Deteriorado, voltou para o depósito. O Cristo Libertador ainda incomoda muita gente.

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