quarta-feira, 28 de março de 2012

Violência real e simbólica


Um dos temas mais preocupantes da atualidade é a segurança pública, ou seja, a violência decorrente da falta de uma política pública capaz de proteger o cidadão. O tema violência gera debates acalorados e muitos segmentos defendem o aumento de vagas em presídios e da frota policial para garantir a ordem. Isso está mais para segurança patrimonial e menos para política pública de segurança, que envolve muitos mais aspectos. 

Como combater a violência se o ser humano é violento por natureza? Socialmente aprendemos que temos de ser equilibrados e resolver nossas querelas com diplomacia e elegância, mesmo que sob o terno e a gravata ou a maquiagem e a saia, a vontade seja resolver a situação no braço. A violência chama a atenção e tem fãs cativos. Lembram-se das fotografias que correram as caixas de e-mails com imagens do acidente dos Mamonas Assassinas? E as fotos do deputado paranaense também morto em um acidente aéreo? 


Mais que contemplar cenários de violência, o ser humano estabelece um padrão ideológico diante da agressão do outro. Um exemplo? Para muitos, o ataque palestino às forças de Israel é terrorismo, enquanto o ataque israelense a territórios palestinos é contraofensiva. Em ambos os casos, trata-se de violência, mas cada um dos lados tem argumentos para suas posições e causas. 


A violência é, portanto, real e simbólica. Real porque existe e faz vítimas (das quais gostamos ou não gostamos). Simbólica porque cria significados ao sabor das ideologias, fazendo crer que uns merecem morrer e outros são apenas vítimas. No Brasil, queimar mendigos (atitude reprovável sob qualquer aspecto) não é um ato isolado nem efeito colateral de uma sociedade sem valores éticos e morais. Para muitos, esse é o valor ético e moral, ou seja, o cenário é ainda pior. 


A agressão aos direitos humanos é milenar e, talvez, hoje tenhamos um dos períodos mais tranquilos da história da humanidade. Jogar cristãos aos leões e queimar mulheres acusadas de bruxaria não são contos de fadas. A sociedade cultiva a violência porque gosta dela. E nesse culto, a cultura midiática é pródiga na produção e na difusão da violência. Preciso citar o cinema e as novelas? 


E o jornalismo, enquanto produtor de sentidos e significados, também tem sua parcela de responsabilidade. A cobertura está mais para as consequências e menos para as causas. Exemplos de manchetes? Mulher é morta a pauladas pelo companheiro. Mototaxista é assassinado a tiros. Pai espanca esposa na frente dos filhos. Ladrões explodem caixa eletrônico. 


Esse tipo de cobertura factual também ajuda a consolidar a cultura da insegurança, semeando medo e pânico. E muito empresário lucra com isso, como fabricantes de cercas elétricas, empresas particulares de segurança, entre outros. A violência existe e não pode ser negada, mas sua realidade também é superdimensionada na cultura midiática e ganha status de espetáculo. Se é um show, então existe um tripé: o produtor, o que transforma o acontecimento em notícia; o espectador, que no almoço saboreia assassinatos; e o anunciante, financiador do espetáculo e vendedor de tudo em programas policiais que exploram, principalmente, a violência contra os pobres. 


A violência midiática expõe principalmente a imagem do pobre com a conivência dos organismos policiais. É comum bandidos pobres serem expostos no horário nobre, numa sala da delegacia, com o titular dando detalhes da prisão. O mesmo não acontece, na mesma proporção, com o bandido rico que, quando é preso, negociou antes - por meio de advogados caros - a sua entrega. 


Se a sociedade - do cidadão comum à autoridade - participa da construção de uma cultura de violência, pode muito bem construir uma cultura que seja melhor para todos. E essa cultura começa pela educação dentro de casa; passa pela escola e pela igreja; percorre instituições públicas e privadas de todas as áreas. A responsabilidade de criar e consolidar uma cultura de não violência depende de uma atitude individual, mas pede uma ação coletiva. 


Artigo publicação na seção "Espaço Aberto", do jornal Folha de Londrina, de 28 de março de 2012

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