domingo, 29 de abril de 2012

Tarefa de todos e de ninguém


A corrupção (e não é exclusividade brasileira) é uma infecção generalizada que compromete agentes públicos e segmentos empresariais e sociais, do Executivo ao Judiciário, do Legislativo ao empresariado, passando pelo cidadão comum. Dinheiro desviado para o bem-estar e o luxo dos corruptos também causa as mazelas de quem precisa da ação governamental. Lembremos que o poder público tem o dever de garantir o acesso às necessidades básicas. Isso é uma obrigação moral e um dever constitucional. Falta de dinheiro para hospitais, escolas, centros de educação infantil e programas assistenciais, por exemplo, é consequência direta do saque aos cofres públicos. 

Nesse cenário, o modelo político brasileiro não ajuda muito. O Executivo precisa do Legislativo para aprovar suas propostas. E os parlamentares nem sempre as aprovam em nome da coletividade, mas de interesse pessoal que passa pela liberação de recursos para os seus redutos, pela indicação de nomes para cargos, ou seja, a relação é necessariamente de troca em que prefeitos, governadores, presidente, vereadores e deputados medem suas forças numa equação de poder, abrindo-se as portas, e também as janelas, para a corrupção. 


Por sua vez, o sistema partidário brasileiro, baseado na pluralidade de partidos, abre brechas significativas para a sustentação desse modelo nitidamente deteriorado. Pluralidade de partido? O que é isso se a maioria das siglas serve de aluguel e como moeda de troca para aumentar o tempo de TV e negociar um cargo no governo? Na tal pluralidade partidária brasileira, desde 1994, por exemplo, a Presidência da República é disputada por duas forças: PT e PSDB. As outras siglas são satélites que orbitam a constelação petista ou tucana. Aliás, satélites com alto potencial de destruição em caso de choque, como o PMDB que vai de situação à oposição com enorme desenvoltura. 


No sistema partidário brasileiro, quando um candidato não tem mais sustentação num partido busca outro para se viabilizar, mesmo que tenha de abandonar uma sigla conservadora e se lançar por outra progressista, ou vice-versa. Assim, adversário na eleição passada se transforma em aliado na disputa atual. Ideologia, fidelidade partidária, compromisso com o eleitor, lealdade aos próprios princípios? Para a maioria, isso é coisa ultrapassada. O financiamento das campanhas é outro tema que leva aos ralos da corrupção. Afinal, quando os empresários fazem doação a partidos e candidatos querem o que em troca? Diriam alguns, uma cidade, um estado e um país melhor. Ah então tá!


O caso do senador goiano Demóstenes Torres (DEM), revelado pela Operação Monte Carlo da Polícia Federal, que teria relações com o crime organizado, exemplifica como os tentáculos da corrupção abraçam significativos segmentos da sociedade. Infelizmente, esse não é o primeiro nem será o último escândalo, independente do partido. Nesse episódio é pertinente analisar como se comportam os atores, afinal o palco está montado faz muito tempo. 


O PT cobra uma agilidade nas investigações que não demonstra, na mesma proporção, quando a corrupção alcança suas estrelinhas e enlameia signatários do partido. O PSDB, aliado de primeira hora dos democratas, cala-se juntamente com a voz do próprio senador que, até meses atrás, clamava pela transparência e ética no governo federal. 


Esse caso é emblemático não porque expõe a corrupção, mas porque evidencia o comportamento daqueles que dizem combater a corrupção. Lutar contra os desvios de recursos públicos é uma tarefa árdua e permanente, ou seja, combater a corrupção é muito mais difícil que combater os corruptos dos outros. Essa é uma tarefa de todos e, por isso mesmo, acaba sendo de ninguém. 


E nesse cenário, o eleitor tem uma grande responsabilidade, mas prefere outros programas como a novela das 8. O dia a dia das celebridades é mais atraente do que o presente e o futuro do país, desenhados pelos interesses nos gabinetes oficiais. Alguém diz que política não se discute. Talvez, seja por isso que quando o eleitor quer dizer alguma coisa, acaba falando sozinho. 


Artigo publicado na seção "Espaço Aberto" do jornal Folha de Londrina, deste domingo (29/04/2012).

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sobre crimes e jornalismo

A Polícia Federal desmontou uma quadrilha na Operação Monte Carlo que vai além dos interesses escusos do bicheiro Carlinhos Cachoeira. As escutas, autorizadas judicialmente, registram a movimentação de um esquema criminoso que associa a contravenção ao estado, ou seja, expõe as entranhas fedorentas do poder político ligado ao níquel. Não é à toa que as máquinas ilegais de jogos chamam-se caça-níquel. 

Goiás parece ser a central do esquema de exploração de jogos ilegais que, apontam as investigações, teria irradiado para outros estados da federação. As baixas até agora: contraventores presos, políticos de vários partidos acusados, criação de CPMI e o senador Demóstenes Torres - voz crítica da oposição e da mídia ao governo - defenestrado do cargo de guardião da moralidade e da ética. Como se viu, a imagem dele foi construída sobre falsos pilares. 


E dá-lhe comissão de inquérito para investigar os apontamentos feitos pela Polícia Federal, mas investigar políticos corruptos e empresários da mesma índole não é novidade no Brasil nem no mundo. Se governistas e oposicionistas tiverem maturidade (confesso, que não acredito que tenham) podem passar o Brasil a limpo.

Sim, a limpo! Porque combater a corrupção é uma tarefa maior do que combater o corrupto dos outros. Passou da hora de todos partidos políticos (principalmente PT e PSDB) cortarem na própria carne. Afinal, usar essa expressão como retórica convence apenas quem assiste televisão, com o aparelho desligado.

No entanto, para passar o Brasil a limpo é preciso investir num outro foco que as investigações da Polícia Federal detectaram e que causa calafrios: a relação de jornalistas e veículos de comunicação com o crime organizado. Os mais de 200 telefonemas de Policarpo Jr, da revista Veja, para o bicheiro Carlinhos Cachoeira, devem ser esclarecidos para o bem do próprio jornalismo brasileiro. 

O ex-prefeito de Anápolis Ernani José de Paula era do grupo do governador tucano Marconi Perillo e teve o mandato cassado, em 2003. Ele revelou, semanas atrás, à reportagem da Record que o vídeo que deu origem às acusações do Mensalão, do governo Lula, foi produzido por Cachoeira. Quem revelou o vídeo com exclusividade? A revista Veja. Jornalismo se faz com credibilidade, portanto... 

Os jornalistas podem e devem usar bandidos como fontes no processo de produção da reportagem, como no levantamento e na checagem da informação. No entanto, parece não ser isso o que apontam as gravações da Polícia Federal que captaram a relação da Veja com o esquema de Cachoeira. Por que a revista trata de forma diferente acusações contra os diferentes grupos políticos? Por que crimes cometidos por tucanos não têm o mesmo destaque nas páginas amarelas que têm os crimes de petistas?

Além disso, não esqueçamos que as acusações da Veja contra os corruptos com os quais rivaliza, em muitos casos opinião travestida de informação sem sustentação ou prova, viram arma nas mãos de deputados e senadores da oposição para atacar o governo. Esses fatos são reproduzidos à exaustão por outros veículos de repercussão nacional que refletem na mídia regional. Afinal, são três ou quatro famílias que ditam a notícia para todo o país.

Muitos jornalistas e veículos nacionais arrotam discursos sobre a liberdade de imprensa e de expressão. Que liberdade é essa que acusa e não ouve o acusado? Que liberdade é essa que acusa e não prova a acusação? Que liberdade é essa que destrói ou constrói reputações? Que liberdade é essa que enaltece o Mensalão do Lula como o maior escândalo de corrupção do país e esconde a Privataria Tucana de FHC? Quando a mídia é partidarizada, quem perde é a democracia. 

Há muito tempo a imprensa brasileira vive de escândalos, baseados em declarações. Assassinato de reputações é o mínimo que foi promovido por muitos veículos de comunicação. A veracidade e a sustentação das informações, com provas, parecem peça de ficção neste contexto em que jornalistas viram porta-vozes de interesses nada públicos.

Coleguinhas de redação (e pasmem! até alunos de primeiro semestre de Jornalismo) gostam de argumentar. 
__Mas foi a fonte quem falou. A responsabilidade é dela.
__Você tem razão. A fonte é responsável pelo que disse. E você, meu caro, pelo que publicou.

Que parte da imprensa brasileira carece de escrúpulos, não é novidade para ninguém. Millôr Fernandes assinalou sobre a canalhice da imprensa brasileira.

"Você pode dizer que a imprensa é resultado do meio, a imprensa é resultado da sociedade em que funciona. Certo. Mas, às vezes, por força de um indivíduo, ou por força de um pequeno grupo de indivíduos, ela pode se antecipar ao seu meio e fazer progredir esse meio. Mas a imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o país."

Repito: os jornalistas podem e devem usar bandidos como fontes, mas quando o profissional usa expedientes criminosos para veicular informações, o que o difere do bandido? Jornalista que mente para conseguir uma informação diz a verdade quando? Esse tipo de jornalismo que usa e abusa da câmera oculta (um grampo ilegal?) gera que tipo de transformação nas relações de poder? Quais as mudanças efetivas nesse tipo de cobertura que está mais para consequências e menos para as causas?

Portanto, a mídia brasileira vive um momento histórico. Tem a chance de rever seus métodos e começar a construir um papel de serviço à nação, à veracidade, ao leitor e não ser capataz do crime organizado ou de interesses inconfessáveis. A comissão de investigação criada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, para investigar cachoeira e sua rede criminosa, pode prestar um grande serviço ao país, incluindo o esclarecimento das relações do jornalismo com o crime organizado. Para isso, a imprensa também terá que cortar a própria carne. Será que estamos prontos para isso?

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Síndrome da Gabriela

Cotas raciais.
Cotas para estudantes de escolas públicas.
Cotas para indígenas.
Cotas para pessoas com deficiência.
Bolsa Família.
Sacolas públicas.
Vale-gás.
Vale isso e aquilo.
As políticas públicas afirmativas são necessárias.
O princípio é constitucional.
Geralmente quem ataca as políticas públicas o faz do seu ponto de vista, da sua realidade. 
Recusam-se a refletir sobre o tema fora da sua zona de conforto.
Mudar de opinião?
Aceitar o diferente?
Um atentado aos ideais forjados na educação que recebeu.
É a síndrome da Gabriela, cantada na composição de Dorival Caymmi.

"Eu nasci assim 
Eu cresci assim 
E sou mesmo assim
Vou ser sempre assim
Gabriela..."

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Inquietudes (116) do Rei

As diretrizes do mercado de trabalho são perversas.
O jovem que não tem experiência é preterido porque não tem experiência.
O não jovem que tem experiência é preterido porque tem experiência, considerado um profissional cheio de vícios.

Baleiro tem razão!

Eu despedi o meu patrão
desde o meu primeiro emprego
trabalho eu não quero não
eu pago pelo meu sossego


Ele roubava o que eu mais valia
e eu não gosto de ladrão
ninguém pode pagar nem pela vida mais vazia
eu despedi o meu patrão

domingo, 15 de abril de 2012

Cristãos contraditórios

O tema aborto é sempre muito polêmico porque mexe com crenças nas quais estão embutidos valores dogmáticos, ou seja, são permeados pela doutrina religiosa. Historicamente, a igreja associou-se a regimes totalitários que  torturaram, mataram e esconderam os corpos.

Muitos fervorosos contrários ao aborto alegam que defendem a vida acima de tudo, mas são favoráveis à pena de morte para crimes hediondos. Ao mesmo tempo que defendem a vida de uns, são favoráveis à morte de outros. Vida é vida. O resto é juízo de valor e preconceito. Coisas de cristãos contraditórios. 


A discussão sobre a liberação do aborto chega a ser rotulada pelos mesmos fervorosos como infanticídio. No entanto, o verdadeiro infanticídio é a situação de
 crianças que morrem por falta de acesso a coisas básicas como alimento, saúde e escola. Aliás, situação agravada pela corrupção política, pela corrupção empresarial e pelo silêncio omisso da sociedade. 

Muitos desses mesmos fervorosos contrários ao aborto e defensores da vida atacam as políticas de distribuição de renda como o Bolsa Família e outras modalidades que dão suporte para uma vida melhor. No discurso, esses defendem a vida, o direito de nascer e atestam: depois de nascidos, que se virem - sozinhos - para que a vida seja efetivada. A tutela do estado, obrigação constitucional, é compreendida como esmola, mas a contribuição do fiel à igreja é dízimo. Ah então tá!


Na semana que passou o tema aborto voltou à cena nacional, com o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da liberação do aborto para anencéfalos. Muitos argumentos pró e contra a medida, mas um viés desse assunto não foi aprofundado como deveria ter sido.
 Liberar não é sinônimo de obrigatoriedade.

Quem quiser levar até o fim a gravidez de um feto sem cérebro, terá o direito de fazê-lo. Quem não quiser, poderá poupar seu sofrimento, o da família e o do próprio feto, sem ser criminalizado. Situação não permitida a Severina, mãe que não conseguiu interromper a gravidez no quarto mês e foi obrigada a dar a luz a um feto sem cérebro, morto.


Salvas as devidas diferenças, a legalidade do aborto para anencéfalos pode ser comparada à legalidade da bebida alcoólica e do cigarro. A venda de cerveja, cachaça, vinho, whisky, vodka e outras drogas é liberada. Consome quem quer. Embriaga-se quem quer. Quem não quer não é obrigado a consumir o produto somente porque é legalizado.
 E a igreja, contumaz defensora da doutrina, na legalização do aborto tira da sua fiel um valor igualmente importante: o livre arbítrio.

Inquietudes (115) do Rei

O caso Cachoeira envolve políticos de vários partidos (DEM, PSDB, PT, entre outros), e arrasta a Veja para a lama, com suas estratégias duvidosas de investigação e associação ao crime organizado, mostra o quanto nossa mídia é partidarizada e a liberdade de imprensa é um discurso vazio e hipócrita da grande mídia. Quem perde é a democracia.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sobre difundir e pressionar

"Que a saúde se difunda sobre a terra" (cf. Eclo 38,8) Este é o lema da Campanha da Fraternidade de 2012, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O tema "A fraternidade e saúde pública" não podia ser mais pertinente. A saúde pública brasileira precisa de todo apoio que angariar.

Na campanha, a CNBB disponibiliza material de divulgação como cifras e letras de hinos, spots para rádios, VTs para televisão, cartazes, apresentação em power point (ppt) e um texto básico para ajudar a entender a saúde pública brasileira, seus problemas e desafios. Descentralizar o conhecimento também é o objetivo das campanhas publicitárias. A informação tem poder.

Mas qual o peso da Campanha da Fraternidade para influenciar mudanças significativas na saúde pública brasileira? A direção da CNBB, entidade política que é, sabe que as transformações não vêm apenas por boa intenção. É necessário mobilização. Aliás, muita mobilização em se tratando de saúde, um mercado que lucra bilhões com a doença.

Infelizmente no Brasil, e talvez no mundo, prevalece a noção de cura. O sujeito para ter saúde - leia-se acesso aos serviços - tem que ficar doente. Esse modelo, já disseram muitas vezes, não é o modelo da saúde. É o modelo da doença. E quanto mais complicada a doença, mais cara é a conta. Não é à toa que planos de saúde têm por hábito jogar seus pacientes para o SUS, mas esse é tema para outro artigo.

Se este é um mercado de muito, mas de muito dinheiro, não será apenas com intenções fraternais que as transformações necessárias vão ocorrer. A campanha pode buscar na saúde, como o tema propõe, a solidariedade, a união ou convivência, o amor ao próximo, a harmonia entre os homens, mas tudo isso será em vão se não houver pressão para que a saúde se difunda.

Quais as estratégias para que municípios, estados e a União invistam os percentuais previstos pela Constituição? Quais os mecanismos para que a EC 29, que estabelece o papel dos entes federados, cumpram os dispositivos legais previstos? Quais os instrumentos para fiscalizar a aplicação dos recursos e combater os desvios?

O próprio Sistema Único de Saúde (SUS) tem como um dos seus pilares o controle social, por meio dos conselhos e das conferências de saúde. Neste processo, a comunidade tem responsabilidade igual ao de gestores, trabalhadores e prestadores de serviço, em que pesem as funções de cada segmento serem diferentes.

Desde a reforma sanitária, datada de 1970, a comunidade buscar interferir nos rumos da saúde. Muitas conquistas são celebradas, mas ainda há muitos desafios. O que fazer com o segmento farmacêutico, por exemplo, que lucra bilhões e o desenvolvimento de novos medicamentos passa mais pelo interesse econômico do que o de curar doenças?

__O setor produtivo brasileiro que envolve a indústria de produtos farmacêuticos, medicinais e veterinários movimenta anualmente recursos da ordem de US$ 10 bilhões, sendo hoje a 4ª indústria farmacêutica mundial em volume de produção, atrás dos Estados Unidos, França e Itália. A informação é do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural, órgão ligado à Universidade de São Paulo (USP).

O centro afirma que na relação da saúde versus o interesse da indústria farmacêutica, estão as "áreas tipicamente nacionais e socialmente muito sensíveis, pois afetam milhões de indivíduos, como doenças tropicais infecciosas, correm o risco de ser totalmente negligenciadas na priorização para pesquisa e desenvolvimento de novas drogas pelas indústrias internacionais."

Neste cenário como "difundir a saúde sobre a terra", como propõe a CNBB? Não basta boa vontade fraternal, é preciso ter mecanismos contra os interesses puramente financeiros das grandes corporações. Os genéricos, a quebra das patentes de medicamentos de Aids, programas como o "Farmácia Popular" e as estratégias de saúde da família são exemplos de que se o poder público quando quer sabe fazer a diferença para difundir a saúde - se não pela terra - pelo menos em solo brasileiro.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Senso comum sofisticado

Político é tudo igual! O senso comum não é tão comum quando o assunto é política partidária. Houve um tempo no Brasil, nada distante, que existiam duas forças. A da direita. A da esquerda. Você apoiava a Arena ou apoiava o MDB. Duas forças claramente diferentes. A ideologia estampava a atuação dos políticos e definia as bandeiras de cada partido.

Com o pluripartidarismo, a atuação partidária passou a ser multifacetada. Há políticos de siglas progressistas mais conservadores que muitos democratas. Há muitos conservadores mais progressistas que muitos comunistas. E nesta tal liberdade partidária, coitado do eleitor, que vive dizendo para si mesmo e quem mais quiser ouvir. Político é tudo igual.

Um caso interessante para analisar é a candidatura do ex-senador Gustavo Fruet à capital paranaense. Fruet até algum tempo atrás era morador do ninho tucano no PSDB do Paraná e, como oposição, deitou e rolou em críticas ao PT do Lula. Como senador, Fruet foi sub-relator da CPI dos Correios, gestada a partir das acusações de corrupção na estatal. Não faltaram holofotes a Fruet na imprensa nacional.

O ex-tucano deixou o ninho e virou pedetista, em julho do ano passado, por não ter espaço no PSDB para disputar o cargo de prefeito de Curitiba. Os tucanos rifaram o tucano Fruet e devem apoiar a reeleição do atual prefeito, Luciano Ducci (PSB), que virou prefeito depois que Beto Richa renunciou para ser candidato a governador do Paraná em 2010. Não terminar mandato no atual modelo político brasileiro parece ser a regra de quem usa um cargo como trampolim para outro. Mas esse é tema para outro artigo.

O ex-tucano e atual pedetista Gustavo Fruet disputa o apoio do PT em Curitiba. O Partido dos Trabalhadores rachou na capital. Novidade seria o PT unido. Uma ala aprova o apoio e outra ala abomina. Mais que avaliar a atuação pessoal deste ou daquele é pertinente avaliar que essa situação é consequência do próprio modelo partidário. Assim, adversário na eleição passada vira melhor aliado na eleição atual.

O senso comum não é tão comum quando o assunto é política partidária, quando afirma que em política não há inimigos. Talvez - por isso - adversário vira aliado e aliado vira adversário, com uma desenvoltura de enrubescer até os menos pudorosos.

E o eleitor, aquele do senso comum, acaba por não entender esse jogo. A correlação de forças não é equilibrada porque em períodos eleitorais importam menos a ideologia, o programa do partido, os projetos de governo. Importam mais o tempo da coligação, a chapa completa, as projeções das pesquisas, os cargos futuros no governo.

Tucano ataca petistas, vira ex-tucano e conta com o apoio de petistas. Petistas atacam tucano e apoiam ex-tucano. E o senso comum diz que político é tudo igual. O senso comum é mais sofisticado do que a gente imagina.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Santo e mundano

Mundano, pelo senso comum, está associado a coisas sujas, situações morais depravadas, podridão humana. 

O significado de mundano também está relacionado às coisas do mundo, a situações materiais.


E a semana santa é uma época propícia para refletirmos a nossa condição mundana e material.


Por isso, qual o espaço e o tempo que reservamos para a espiritualidade? Como alimentamos o espírito em contraposição à nossa condição mundana?


Refletir sobre a espiritualidade e praticá-la é transformar-se em santo? Absolutamente! Mas é um passo importante para nos conhecermos melhor. 


A vida é cheia de artifícios para nos desviar da espiritualidade. Tudo é feito para privilegiarmos a materialidade. 


Nos veículos de comunicação, os anúncios não vendem apenas. Persuasão é a palavra de ordem: criar uma necessidade, mesmo que seja desnecessária.


A palavra de ordem passa pelo desejo, pelo sonho. Passa mais pela noção de merecimento que pela necessidade real. 


As relações sociais se dão em rede, são construídas por cabo de forma virtual. Um scrap aqui. Outro ali. Curtir. Compartilhar.


A superficialidade marca as relações em rede. Superficialidade materializada virtualmente. Amizade de rede pode não sobreviver ao contato real. 


O sorriso da fotografia na rede social esconde o ser por debaixo da representação. A imagem na rede social é idealizada. 
A verdade pode chocar.

Sacrifício? Nem pensar. Por que se envolver com problemas alheios quando não damos conta dos nossos?


Sacrifício? Não gostamos nem queremos ser tomados para cristo. Alguém já morreu por nós. Lembramos disso?


Não precisamos ser santos, mas também não precisamos ser tão mundanos.

Sexta-feira à tarde

Meu dia preferido é a sexta-feira.
Sexta-feira à tarde para ser mais preciso.
Esse dia me traz lembranças da época de criança.
Criança de sítio.

O sol brilhava mais forte.
A luz da sexta-feira à tarde era diferente.
Ou será que eu conseguia perceber diferente porque prestava mais atenção?

Sexta-feira era um dia de preparação.
Preparação para receber o sábado.
Depois o domingo.
E as visitas que acompanham o final de semana.

Preparação da casa.
Varrer o quintal.
Queimar as folhas.
Cheiro de fumaça.
Cheiro de sexta-feira à tarde.

Preparação para receber o sábado.
Depois o domingo.

E as visitas que acompanham o final de semana.

Encerar o piso de cimento queimado vermelho.
Cera parquetina.
Cheiro de solvente.
Cheiro de sexta-feira à tarde.


Como eu gosto da sexta-feira à tarde!
Por causa das lembranças do tempo de criança.