domingo, 15 de abril de 2012

Cristãos contraditórios

O tema aborto é sempre muito polêmico porque mexe com crenças nas quais estão embutidos valores dogmáticos, ou seja, são permeados pela doutrina religiosa. Historicamente, a igreja associou-se a regimes totalitários que  torturaram, mataram e esconderam os corpos.

Muitos fervorosos contrários ao aborto alegam que defendem a vida acima de tudo, mas são favoráveis à pena de morte para crimes hediondos. Ao mesmo tempo que defendem a vida de uns, são favoráveis à morte de outros. Vida é vida. O resto é juízo de valor e preconceito. Coisas de cristãos contraditórios. 


A discussão sobre a liberação do aborto chega a ser rotulada pelos mesmos fervorosos como infanticídio. No entanto, o verdadeiro infanticídio é a situação de
 crianças que morrem por falta de acesso a coisas básicas como alimento, saúde e escola. Aliás, situação agravada pela corrupção política, pela corrupção empresarial e pelo silêncio omisso da sociedade. 

Muitos desses mesmos fervorosos contrários ao aborto e defensores da vida atacam as políticas de distribuição de renda como o Bolsa Família e outras modalidades que dão suporte para uma vida melhor. No discurso, esses defendem a vida, o direito de nascer e atestam: depois de nascidos, que se virem - sozinhos - para que a vida seja efetivada. A tutela do estado, obrigação constitucional, é compreendida como esmola, mas a contribuição do fiel à igreja é dízimo. Ah então tá!


Na semana que passou o tema aborto voltou à cena nacional, com o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da liberação do aborto para anencéfalos. Muitos argumentos pró e contra a medida, mas um viés desse assunto não foi aprofundado como deveria ter sido.
 Liberar não é sinônimo de obrigatoriedade.

Quem quiser levar até o fim a gravidez de um feto sem cérebro, terá o direito de fazê-lo. Quem não quiser, poderá poupar seu sofrimento, o da família e o do próprio feto, sem ser criminalizado. Situação não permitida a Severina, mãe que não conseguiu interromper a gravidez no quarto mês e foi obrigada a dar a luz a um feto sem cérebro, morto.


Salvas as devidas diferenças, a legalidade do aborto para anencéfalos pode ser comparada à legalidade da bebida alcoólica e do cigarro. A venda de cerveja, cachaça, vinho, whisky, vodka e outras drogas é liberada. Consome quem quer. Embriaga-se quem quer. Quem não quer não é obrigado a consumir o produto somente porque é legalizado.
 E a igreja, contumaz defensora da doutrina, na legalização do aborto tira da sua fiel um valor igualmente importante: o livre arbítrio.

4 comentários:

Anônimo disse...

muito bem colocado, parabens.

Claudia Fazenda disse...

Reinaldo,
È isso mesmo...Criminoso e ilegal é ver crianças sem futuro nas ruas do Brasil, menines e meninos se prostituindos, sendo abusados ou flagelados pela fome de tudo (comida,saúde,cultura,proteção física, mental, meterial e espiritual).

Edenilson de Almeida disse...

Excelente.

Maíra Zucoli disse...

Concordo com você Rei, a situação é vista como se agora fosse uma imposição a realização do aborto do feto anencéfalo e não o reconhecimento do direito da mãe de não levar uma gravidez tão triste adiante.