sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sobre crimes e jornalismo

A Polícia Federal desmontou uma quadrilha na Operação Monte Carlo que vai além dos interesses escusos do bicheiro Carlinhos Cachoeira. As escutas, autorizadas judicialmente, registram a movimentação de um esquema criminoso que associa a contravenção ao estado, ou seja, expõe as entranhas fedorentas do poder político ligado ao níquel. Não é à toa que as máquinas ilegais de jogos chamam-se caça-níquel. 

Goiás parece ser a central do esquema de exploração de jogos ilegais que, apontam as investigações, teria irradiado para outros estados da federação. As baixas até agora: contraventores presos, políticos de vários partidos acusados, criação de CPMI e o senador Demóstenes Torres - voz crítica da oposição e da mídia ao governo - defenestrado do cargo de guardião da moralidade e da ética. Como se viu, a imagem dele foi construída sobre falsos pilares. 


E dá-lhe comissão de inquérito para investigar os apontamentos feitos pela Polícia Federal, mas investigar políticos corruptos e empresários da mesma índole não é novidade no Brasil nem no mundo. Se governistas e oposicionistas tiverem maturidade (confesso, que não acredito que tenham) podem passar o Brasil a limpo.

Sim, a limpo! Porque combater a corrupção é uma tarefa maior do que combater o corrupto dos outros. Passou da hora de todos partidos políticos (principalmente PT e PSDB) cortarem na própria carne. Afinal, usar essa expressão como retórica convence apenas quem assiste televisão, com o aparelho desligado.

No entanto, para passar o Brasil a limpo é preciso investir num outro foco que as investigações da Polícia Federal detectaram e que causa calafrios: a relação de jornalistas e veículos de comunicação com o crime organizado. Os mais de 200 telefonemas de Policarpo Jr, da revista Veja, para o bicheiro Carlinhos Cachoeira, devem ser esclarecidos para o bem do próprio jornalismo brasileiro. 

O ex-prefeito de Anápolis Ernani José de Paula era do grupo do governador tucano Marconi Perillo e teve o mandato cassado, em 2003. Ele revelou, semanas atrás, à reportagem da Record que o vídeo que deu origem às acusações do Mensalão, do governo Lula, foi produzido por Cachoeira. Quem revelou o vídeo com exclusividade? A revista Veja. Jornalismo se faz com credibilidade, portanto... 

Os jornalistas podem e devem usar bandidos como fontes no processo de produção da reportagem, como no levantamento e na checagem da informação. No entanto, parece não ser isso o que apontam as gravações da Polícia Federal que captaram a relação da Veja com o esquema de Cachoeira. Por que a revista trata de forma diferente acusações contra os diferentes grupos políticos? Por que crimes cometidos por tucanos não têm o mesmo destaque nas páginas amarelas que têm os crimes de petistas?

Além disso, não esqueçamos que as acusações da Veja contra os corruptos com os quais rivaliza, em muitos casos opinião travestida de informação sem sustentação ou prova, viram arma nas mãos de deputados e senadores da oposição para atacar o governo. Esses fatos são reproduzidos à exaustão por outros veículos de repercussão nacional que refletem na mídia regional. Afinal, são três ou quatro famílias que ditam a notícia para todo o país.

Muitos jornalistas e veículos nacionais arrotam discursos sobre a liberdade de imprensa e de expressão. Que liberdade é essa que acusa e não ouve o acusado? Que liberdade é essa que acusa e não prova a acusação? Que liberdade é essa que destrói ou constrói reputações? Que liberdade é essa que enaltece o Mensalão do Lula como o maior escândalo de corrupção do país e esconde a Privataria Tucana de FHC? Quando a mídia é partidarizada, quem perde é a democracia. 

Há muito tempo a imprensa brasileira vive de escândalos, baseados em declarações. Assassinato de reputações é o mínimo que foi promovido por muitos veículos de comunicação. A veracidade e a sustentação das informações, com provas, parecem peça de ficção neste contexto em que jornalistas viram porta-vozes de interesses nada públicos.

Coleguinhas de redação (e pasmem! até alunos de primeiro semestre de Jornalismo) gostam de argumentar. 
__Mas foi a fonte quem falou. A responsabilidade é dela.
__Você tem razão. A fonte é responsável pelo que disse. E você, meu caro, pelo que publicou.

Que parte da imprensa brasileira carece de escrúpulos, não é novidade para ninguém. Millôr Fernandes assinalou sobre a canalhice da imprensa brasileira.

"Você pode dizer que a imprensa é resultado do meio, a imprensa é resultado da sociedade em que funciona. Certo. Mas, às vezes, por força de um indivíduo, ou por força de um pequeno grupo de indivíduos, ela pode se antecipar ao seu meio e fazer progredir esse meio. Mas a imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o país."

Repito: os jornalistas podem e devem usar bandidos como fontes, mas quando o profissional usa expedientes criminosos para veicular informações, o que o difere do bandido? Jornalista que mente para conseguir uma informação diz a verdade quando? Esse tipo de jornalismo que usa e abusa da câmera oculta (um grampo ilegal?) gera que tipo de transformação nas relações de poder? Quais as mudanças efetivas nesse tipo de cobertura que está mais para consequências e menos para as causas?

Portanto, a mídia brasileira vive um momento histórico. Tem a chance de rever seus métodos e começar a construir um papel de serviço à nação, à veracidade, ao leitor e não ser capataz do crime organizado ou de interesses inconfessáveis. A comissão de investigação criada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, para investigar cachoeira e sua rede criminosa, pode prestar um grande serviço ao país, incluindo o esclarecimento das relações do jornalismo com o crime organizado. Para isso, a imprensa também terá que cortar a própria carne. Será que estamos prontos para isso?

3 comentários:

Dag Vulpi disse...

Excelente os seus argumentos meu caro Reinaldo, sua síntese foi perfeita, valendo cada segundo a ela dispensados. Parabéns.
Com um fraterno abraço.

Dag Vulpi

Dag Vulpi disse...

Excelente os seus argumentos meu caro Reinaldo, sua síntese foi perfeita, valendo cada segundo a ela dispensados.
Parabéns.

Com um fraterno abraço.

Dag Vulpi

Bruxices tolas disse...

Neste país, só um milagre pode dar conta da empreitada de arrumar a situação!!! E eu nem sou religiosa...