segunda-feira, 11 de junho de 2012

Doença e saúde

O desenvolvimento tecnológico traz muitos benefícios necessários à qualidade de vida e, quando aliado ao diganóstico de doenças, melhor ainda. Hoje a Folha de Londrina publica, na seção Folha Saúde, uma reportagem sobre uma cápsula que realiza diagnóstico de doenças gastrointestinais. O paciente engole o aparelho que faz imagens do trato intestinal, identificando problemas que passam batido na colonoscopia. Até aí tudo bem.

A tecnologia associada à medicina traz vantagens a quem dela pode usufruir. E aqui reside um problema básico. Os inventores não admitem, mas estão mais precoupados em ganhar dinheiro do que tratar dos pacientes. O exame da cápsula intestinal custa R$ 3,5 mil. Como a tecnologia é nova, os planos de saúde não cobrem e os pacientes - em vez de acionar na justiça os convênios - acionam o governo. Em última análise, essa responsabilidade é pública mesmo.

Segundo o médico Clóvis Kuwahara, ouvido pela reportagem, somente a cápsula desenvolvida em Israel (país com alto grau de desenvolvimento tecnológico, inclusive na indústria da guerra) custa R$ 1,5 mil. ''Alguns pacientes do SUS já conseguiram o direito de fazer o exame. Em um ano e meio que estamos aplicando a técnica, já atendemos cinco pacientes do Hospital Universitário'', afirmou o médico à reportagem.

Como se vê, quando a saúde pública paga a conta, existe um segmento que ganha muito dinheiro. Tanto que os médicos quando desenvolvem produtos e serviços usam a imprensa (que se deixa usar por ignorância ou má fé) para vendê-los. É comum novos equipamentos na área de saúde serem apresentados pelo jornalismo como a "salvação" e o governo ser pressionado, já que as maravilhas apresentadas não são credenciadas pelo SUS, muito menos bancadas pelos planos de saúde, que preferem pacientes saudáveis.

Esse é o jogo da indústria da doença. Isso mesmo. Desenvolve-se artifícios e instrumentos para detectar a doença e rechear a carteira de quem os desenvolve. A indústria da doença gira em torno do diagnóstico. Quanto mais profundo e mais preciso (pelo menos do discurso), mais caro custa.

Por outro lado, a indústria da saúde não dá a mesma resposta para se evitar que as pessoas fiquem doentes. Afinal investir em prevenção e promoção é apostar na mudança de hábitos que geram a doença, ou seja, é uma questão cultural que mexe com costumes cujas raízes são seculares. Um paciente que quer deixar de fumar é tratado na atenção básica, mas o que é mais fácil, fazer um exame com uma cápsula que "viaja" pelo intestino ou fazer um fumante parar de fumar?

A literatura da área da saúde mostra que cerca de 85% a 90% dos problemas de saúde de uma população podem ser resolvidos na atenção básica, ou seja, naqueles conhecidos postinhos de saúde. Para isso, evidentemente, é necessário que os profissionais da atenção básica estejam capacitados e tenham condições de serem resolutivos para dar conta dos problemas básicos e ainda avançar na prevenção e na promoção da saúde.

Neste sentido, a rede básica ainda precisa de referência para a média e a alta complexidade, ou seja, precisa dar resposta para os outros 10% a 15% dos pacientes que precisam de atendimento mais complexo que não se resolve no postinho. Se esse processo funcionasse de forma adequada, não haveria espaço para a indútria da doença, ou melhor, seu alcance para ganhar dinheiro sobre o doente e a sua dor seria bem menor.

Nenhum comentário: