quinta-feira, 5 de julho de 2012

Sobre golpes e luta de classes

Muito se falou sobre o golpe constitucional da direita sobre o presidente paraguaio, Fernando Lugo. Acertada foi a decisão do Mercosul e Unasul de suspender o Paraguai dessas instâncias regionais até que a ordem democrática seja restabelecida. Isso significa um novo processo eleitoral que deve ser realizado no ano que vem. O novo governo, golpista, reclama que autoridades do Mercosul e da Unasul não deram chances de defesa ao Paraguai. Uia! Exatamente como os golpistas fizeram com Fernando Lugo?

Agora começa um processo para definir as chapas que vão concorrer nas eleições do ano que vem. Nesta terça-feira (dia 3), à Folha de S.Paulo, o empresário Horácio Cartes, pré-candidato do conservador Partido Colorado, descartou ter participado do golpe que tirou Lugo, da presidência. Em meio a análises e previsões, Cartes faz uma afirmação (editada, pelo jornal?) que acabou virando manchete: "Temos de evitar luta de classes criada por Lugo, diz pré-candidato".

Luta de classes não é causa. É consequência da existência de classes, sendo a maioria pobre e a minoria rica. Uma minoria que explora e enriquece, muitas vezes, sem respeitar direitos básicos. A concentração de renda é a face mais perversa da existência das classes sociais. E a luta é mera coincidência. A distribuição da riqueza de um país é sintoma de um governo preocupado com a maioria.

Neste sentido, não foi Fernando Lugo - ou qualquer outro - que criou a luta de classes. Ele apenas deu visibilidade ao problema, ou seja, jogou luzes sobre a miséria da maioria e a ostentação de uma minoria. Reservadas as devidas proporções, o governo Lula - na ótica de Horácio Cartes - também teria criado a luta de classes. Afinal, as modalidades de transferência de renda, como o Bolsa Família, também põem em conflito o interesse de classes.

Para muitos brasileiros, transferir renda para pobre é cultuar a vadiagem. E os conflitos de classe ficam ainda mais exacerbados em períodos eleitorais. Quem se lembra de 2010? O ano eleitoral em que no Brasil, o preconceito contra pobre e nordestino foi estampado nas redes sociais? Infelizmente, esse não foi um caso isolado. É prática comum de quem acredita que o sucesso e o fracasso são meros resultados de um esforço individual.

São visíveis a desfaçatez, o cinismo e a arrogância dos que acreditam que não existe luta de classe. Desfaçatez porque ignoram o fosso entre as classes. Cinismo porque acreditam que pobre deve ser obediente e, ainda, agradecer a Deus por sua condição. Arrogância porque se acham melhores.

Pobre incomoda. Pobre que reivindica seus direitos, incomoda ainda mais. Enquanto existir alta concentração de renda e exclusão social, a luta de classes continua.

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