quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Preços a pagar

Das características da sociedade atual, com a construção e a consolidação das relações sociais, destaco três: fragmentação, superficialidade e individualidade.

Fragmentadas porque as relações são descartáveis e as amizades são estabelecidas conforme a ocasião.

Superficiais porque as relações são construídas em bases etéreas e não se sustentam ao aviso do primeiro conflito que pode ser uma mera diferença de opinião.

Individuais porque as relações miram nos interesses pessoais e imediatos, sem o compromisso com o outro ou o coletivo.

Neste cenário, há uma instituição capaz de influenciar o comportamento humano, criando ou recriando valores: a mídia.

A família, a escola e a igreja cumprem um papel importante no estabelecimento de valores, mas não dão conta na totalidade, visto que seu alcance é circunscrito aos grupos em que estão inseridos.

A mídia deve ser entendida aqui como o espaço de elaboração e de difusão da informação, algo concretizado, por exemplo, na música, no cinema, na TV, no rádio, no jornal, na internet.

A abrangência da mídia é absurdamente superior à abrangência da família, da escola e da igreja. Não se trata de culpá-la pelos problemas da humanidade.

Trata-se de entender as forças que estão em jogo e que são capazes de ditar as regras e direcionar a atitude, a opinião e o comportamento alheio. Assim, família, escola e igreja são um contraponto ao poder de massificação midiática.

Neste sentido, quais os valores que a sociedade atual quer para si? Aqui, valor deve ser concebido como um objetivo que norteia a atitude e a conduta pessoal nas relações sociais.

Na sociedade fragmentada, a mídia espetaculariza as relações e alça o cidadão comum à condição de celebridade e a celebridade à condição de olimpiano, termo cunhado por Edgar Morin. Olimpiano é aquele que reúne as condições de ser do Olimpo.

É neste contexto que se vê evangélico em baile funk, freira fazendo vídeo para o Big Brother, catequista posando de fio dental para o Musa do Brasileirão.

Calma! Baile funk, Big Brother e Musa do Brasileirão não são o problema porque têm seus públicos cativos que têm o direito de exercitar sua liberdade e sua expressão.

O ponto principal reside na reflexão sobre as contradições daqueles que arrotam valores cujas ações pessoais não correspondem aos arrotos.

A honestidade e o comprometimento são exemplos de valores que podem ser considerados objetivos para direcionar a atitude e a conduta pessoal.

Em uma sociedade fragmentada, superficial e individualista, a honestidade e o comprometimento acabam contorcidos ao sabor das conveniências.

Assim, os valores assumem uma condição volátil relativizando as atitudes e as condutas humanas, mas todos pagamos um preço independentemente do quão somos honestos e comprometidos.

Por isso, qual preço estamos dispostos e conseguimos pagar pelos valores que temos e defendemos?

Nenhum comentário: