quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Entre sacis e bruxas

31 de outubro é o Dia de Halloween, o Dia das Bruxas. A comemoração da data teria mais de 2.500 anos e origem celta. Apesar de ser uma festa ocidental, é nos EUA que as bruxas passeiam com bastante desenvoltura. Lá a tradição foi levada por imigrantes irlandeses.

Visto pelo prisma sul-americano, mais especificamente brasileiro, o Dia das Bruxas não deixa de ser uma festa importada dos Estados Unidos. Até crianças da periferia reproduzem o tal do "doce ou travessura". A festa, neste sentido, soa falsa, artificial mesmos. Falta à data identificação com o Brasil.

Hoje também se comemora o Dia do Saci. A data foi instituída nacionalmente, em 2005, mas alguns estados como São Paulo e vários municípios brasileiros já celebravam oficialmente a data. O Dia do Saci contrapõe-se ao Dia das Bruxas. O saci quer chutar a bruxa, mesmo com uma perna só. E sem cair sentado.

E o que os brasileiros preferem celebrar? As bruxas brancas americanas ou os sacis negros brasileiros? A data envolve muito mais que uma tradição inofensiva sem reflexão sobre a própria prática. A data envolve muito mais que um costume importado de outro país. A data envolve a cultura e a valorização das próprias tradições ou a tradição dos outros. Revela as opções que um país faz para, inclusive, reforçar a sua própria identidade.

Muitos podem alegar que esses questionamentos revelam um sentimento nacionalista ultrapassado já que a globalização e o mundo conectado eliminaram as distâncias, as diferenças e tornaram todos iguais. Doce ilusão amarga. A conexão mundial revela a cada dia que as pessoas e as nações são muito diferentes. Simples assim.

A intolerância na rede mundial - manifestada em opiniões agressivas, preconceito e discriminação - é a prova de que conviver com os diferentes é um exercício que exige grande esforço, uma realidade ainda muito distante da mera vontade de ser tolerante. 

Cada pessoa revela o que é a partir das suas escolhas.
E você escolhe o que? 

Uma bruxa ou um saci?

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Londrina 2º turno, algumas considerações

As eleições 2012 em Londrina terminaram bem diferente da forma que começaram. Em sã consciência, duvido que alguém imaginava Alexandre Kireeff (PSD), 3% alguns meses atrás, prefeito eleito da cidade.
Nem os mais otimistas marketeiros da campanha. Marcelo Belinati (PP), vereador por dois mandatos, parecia eleito no primeiro turno com margem folgada, já que liderava as pesquisas desde o início. Arrisco algumas considerações sobre o pleito deste ano, não necessariamente na ordem apresentada.

1) O sobrenome famoso Belinati, do tio Antonio - prefeito três vezes, eleito sem assumir uma quarta, afastado, cassado e preso - é amado e odiado. O sobrenome mais atrapalhou que ajudou Marcelo, na reta final, que deixa a vida pública, pelo menos nos dois próximos anos. 

2) Marcelo Belinati também padeceu do salto alto. A coordenação da campanha - que se achava vencedora no primeiro turno - deve ter acreditado que a diferença de votos elegeria o sobrinho do tio famoso. O candidato mostrou-se inapto a angariar a maioria dos votos que poderia fazer a diferença. Menos de 3 mil votos. Faltaram esforços da campanha? Faltou competência para dizer que o sobrinho não era o tio? Enfim, são questões que devem estar atormentando o alto escalão da campanha nesta segunda-feira quente, úmida e abafada.

2) Alexandre Kireeff foi catapultado ao segundo turno, como uma terceira via. Os eleitores que provocaram o segundo turno não queriam os de sempre: o PT da Márcia Lopes, o PDT do Barbosa e o PMDB do Cheida. A aposta foi no desconhecido, que os cientistas políticos teimam em chamar de renovação. O que não deixa de ser uma meia verdade.

3) Alexandre Kireeff aposta numa tal gestão técnica, deve ser a chamada eficiência empresarial, da qual tanto conhece, como se não houvesse desperdício, corrupção ou incompetência nas empresas, mas enfim... Quando um técnico, sinônimo de alguém que nunca assumiu um cargo público, chefia uma secretaria municipal ou uma diretoria precisa de sustentação política. Necessita do político para dar guarita as suas medidas. E não há nada de mal nisso. A gestão deve ser política. E das boas.   

4) Os votos nulos ou brancos ou as abstenções ajudam quem está à frente. Pura balela. Quem não vota ou anula não pode reclamar depois. Pura balela 2. O voto, nessas circunstâncias, é legítimo se for a expressão da vontade consciente do eleitor.

5) Os votos nulos ou brancos ou as abstenções são uma forma de protesto, caso o eleitor entenda que não há porque escolher entre o ruim e o pior, contrapondo à frágil argumentação da grande maioria dos que defenderam o voto em Kireeff, por exemplo, nas redes sociais. Muitos votaram no candidato, não por suas qualidades, mas por causa dos defeitos e da herança do belinatismo.

6) A internet que é terra de ninguém e, por isso mesmo, de todo mundo, mostrou-se um verdadeiro laboratório de ensaio para iniciar ou apagar incêndios. As campanhas eleitorais não podem mais se dar ao luxo de ignorar a palavra internética dos navegantes. Mais que palavras, essas expressam sentidos e vontades, sentimentos e desejos. Por isso, é uma fonte inesgotável de aprendizado tanto para os candidatos quanto para os seus marketeiros.

7) Passadas as eleições, a cidade espera ter no comando alguém que possa executar as propostas e as promessas feitas. Kireeff diz que quer uma forma diferente de fazer política. No entanto, o sistema político não mudou e, nesta perspectiva, estão a composição dos nomes para o primeiro escalão, o relacionamento com a Câmara Municipal, a relação com a sociedade e, principalmente, com o eleitor londrinense. Todos os eleitores e não apenas os que votaram nele. 

Inquietudes (144) do Rei

Dilma Rousseff (BR) 2010.
Haddad (SP) 2012.
Se um dia eu abrir uma fábrica de postes,
darei o nome de "Postes Lula".

Londrina 2º turno

Alexandre Kireeff é o novo prefeito de Londrina. Venceu o menos pior. Venceu não por suas qualidades. Venceu por causa dos defeitos do adversário. Não foi esse o discurso da maioria para convencer os indecisos? 

Alexandre Kireeff prometeu um novo jeito de governar, um novo jeito de fazer política. Tomara que não seja apenas discurso de campanha. Afinal, o sistema político é o mesmo. Não mudou. Que Londrina fique de olho!

Pelo menos, o grupo que estava com Marcelo Belinati vai ser arrastado para o limbo. Vai tarde!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

De ninguém e de todos

A internet é terra de ninguém.
E de todo mundo.


Pode ser um anônimo.
Pode ser uma celebridade.


Mendigos de feições nórdicas causam comoção.
Mendigos normais causam repulsão.


Candidatos sérios em eleição sofrem com a indiferença.
Candidatos exóticos tornam-se em fugaz referência.


A rede abrange diversos comportamentos.
Os corretos e incorretos.
O correto equilibrado.
O correto desequilibrado
O incorreto bem-humorado.
O incorreto agressivo.


Na internet, cabem
informação
desinformação

formação
deformação

Muitos buscam o estrelato.
Outros se expõem, mas exgiem privacidade.

Contradições internéticas.

A rede potencializa o que as pessoas têm de bom.
E de ruim.
Por isso, a internet é terra de ninguém.
E de todo mundo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Inquietudes (143) do Rei

Londrina 2º turno. A discussão é: vote em X porque Y é pior. Então quer dizer que X também é ruim? Oras... quero votar em um candidato pelo que ele tem de bom, não pelo que o adversário tem de pior. Por que os belinatistas e os kireeffistas não defendem seus candidados por suas qualidades e não pelos defeitos do outro?

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Inquietudes (142) do Rei

"Deus quis assim." Por que as pessoas - quando não têm argumento para as próprias burrices e cagadas - responsabilizam o Todo Poderoso?

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Feições nórdicas

Um morador de rua curitibano transforma-se em sucesso na internet.
Mistério.
Branco.
Olhos azuis.
Bonito.

Fotografia compartilhada por mais de 35 mil internautas. 

Fim do mistério.
Ex-modelo.
Usuário de crack.
Atual moradora de rua.
Comoção.
Emoção.
Indignação.


Um jornal de Curitiba afirma que a foto no Facebook revela o drama do moço alto, de feições nórdicas e olhos azuis.
Feições nórdicas?
Drama, vítima das drogas, vítima da indiferença social.
O que espanta os espantados não são a droga e a indiferença social.
São a droga e a indiferença com o drogado branco, de olhos azuis.
De feições nórdicas.


As drogas fazem vítimas desde sempre.
Homens. Mulheres. Jovens.
As drogas não têm face, não têm credo, não têm classe social.
As drogas arrancam as feições do indivíduo.
Por isso, são um problema social, coletivo.
Mas incomodam apenas quando vitimizam aqueles mais parecidos com a gente.

domingo, 7 de outubro de 2012

Inquietudes (141) do Rei

Se o voto é uma arma mesmo, hoje há milhões de eleitores brasileiros puxando o gatilho, em vez de teclando a urna eletrônica.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Inquietudes (140) do Rei

A classe média brasileira vive virtualmente na riqueza, mas é uma classe social com grande potencial de pobreza.

Língua humana

Ela é um "órgão oblongo, achatado, musculoso e móvel, da cavidade bucal e que é o órgão principal da deglutição, do gosto e, no homem, da articulação das palavras."

As papilas arreganham-se com o doce, o amargo, o azedo, o salgado, o picante, o adstringente. A língua promove sensações, resgata lembranças, acaricia as memórias, provoca os sentimentos.

Todo elemento no universo é dual. Duplos que se completam. Aspectos dobrados.  É na articulação das palavras que a língua revela seu potencial de maldade, sua capacidade destrutiva. 

A língua fere.
A língua discrimina.
A língua rotula.
A língua machuca.
A língua exclui.


Em períodos de conflito, em episódios de tensão, em épocas difíceis, a língua se revela: ferina, comprida, suja, linguaruda.

A língua calunia.
A língua difama.
A língua mente.
A língua destrata.
A língua inventa.


A língua é boa e ruim.
Mas apenas cumpre ordens.
As nossas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Inquietudes (139) do Rei

Da colunista Eliane Catenhêde na Folha de S.Paulo, de hoje:

"O grande aliado de Serra é o carismático Joaquim Barbosa desfiando os podres do PT e condenando a antiga cúpula partidária." 

Joaquim Barbosa, quando condena o PT, serve-se ao papel de cabo eleitoral do PSDB? Quando o STF vai passar todos os podres a limpo?

Desfiar os podres do PT e esconder os podres de outros partidos - como o Mensalão Tucano de Minas - não é combater a corrupção. É combater apenas os corruptos dos outros. E a mídia brasileira não quer passar o Brasil a limpo.

O equilibrista

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Inquietudes (138) do Rei

Segmentos da elite econômica atacam quem vota em candidatos que representam benefícios públicos e se esquecem, muitas vezes, que seu patrimônio foi construído sob o signo da renúncia fiscal. Ou seja, ganharam terrenos públicos e isenção - por décadas - de ISS, IPTU e ICMS. Parte importante da classe média rotula de esmola os programas de transferência de renda, mas vai correndo para as bolsas científicas na universidade. Engraçado, esses segmentos afirmam que o pobre aprendeu a votar com a barriga. Oras... qual o problema se os segmentos que agora criticam sempre votaram assim?

Casamento gay e militância

Algumas palavras e expressões resumem uma ideia, um conceito; vendem um estilo; invocam sensações. As palavras disputam sentidos o tempo todo. A palavra não trata apenas do seu conteúdo literal. Ela tem sentidos sociais.

Exemplos na realidade não faltam. Casamento gay. Por que essas duas palavrinhas têm o poder de levantar a ira de muitos? Segmentos religiosos atribuem à palavra casamento, um sentido divino, coisa de casal homem/mulher, atributo de unidade familiar.

Neste contexto conservador, para aqueles, não caberia casamento gay porque - segundo os preconceituosos - gay não combina com família. No conceito tradicional de família, gay não cabe mesmo. Assim como não cabem os padrastos, as madrastas, as mães solteiras, os pais solteiros, os filhos criados por avós, os filhos criados por família social.

A exceção de outrora virou regra e a regra não dita mais as normas. Por isso, casamento também pode ser gay e família pode ser formada sem casamento, ou seja, família é o núcleo que une as pessoas em amor e afeto. O resto é rótulo e discriminação.

Outra palavra que sofre de esvaziamento de sentido é militante, aquele que milita, que está em exercício. O dicionário Michaelis ainda define como "agressivamente ativo por uma causa" e no viés teológico, militante é quem "pertence à milícia de Jesus Cristo". Vixi! muita carola se achava apenas temente a Deus.

Na prática, militante é o cidadão - conhecedor dos seus direitos - que defende suas ideias e projetos. Torna-se até inconveniente pela força com que se agarra aos princípios, mas é isso que o faz diferente. Assim, existem militantes de partidos políticos, de empresas, de áreas como saúde, meio ambiente, educação, assistência social, entre outras.

Mas o militante tornou-se, aos olhos da elite, um ser pejorativo. Imagina, que audácia chamar de militante um empresário do setor tecnológico! Que ousadia chamar de militante a senhora que atua na associação de mulheres de negócios. Eles não são militantes, são empreendedores, tá!

Pois bem, por isso, o termo está associado a partidos políticos, principalmente, os de esquerda, acusados de ideológicos, como se os partidos de direita não tivessem militantes e não fossem ideológicos também. Veja o exemplo da bancada ruralista no Congresso Nacional. A militância é tanta que os interesses ambientais geralmente são esmagados pelas botinas dos deputados e senadores, em favor dos interesses do grupo.

E o militante virou voluntário. Isso mesmo, voluntário, aquele que realiza alguma coisa de forma espontânea, sem obrigação, por amor. Mas voluntário tem compromisso... de voluntário. Sabe aquela festa junina de colégio de classe média alta cujos estudantes vão ao asilo? E aí, a menina de 15 anos dá entrevista para o jornal e diz que "o grupo veio trazer um pouco de alegria para os velhinhos". Quanto idoso sortudo: um dia de felicidade e 364 dias de tristeza. Isso que é voluntariado, se fossem militantes, as ações eram permanentes.

A disputa de sentidos das palavras ocorre diariamente numa briga para ver quem se apodera delas. Assim, a linguagem revela marcas da classe social, do poder aquisitivo, do grau de instrução. Isso em si não é ruim. O problema é quando as palavras excluem e discriminam. Mesmo inconsciente desse processo, as pessoas fazem suas escolhas.