terça-feira, 2 de outubro de 2012

Casamento gay e militância

Algumas palavras e expressões resumem uma ideia, um conceito; vendem um estilo; invocam sensações. As palavras disputam sentidos o tempo todo. A palavra não trata apenas do seu conteúdo literal. Ela tem sentidos sociais.

Exemplos na realidade não faltam. Casamento gay. Por que essas duas palavrinhas têm o poder de levantar a ira de muitos? Segmentos religiosos atribuem à palavra casamento, um sentido divino, coisa de casal homem/mulher, atributo de unidade familiar.

Neste contexto conservador, para aqueles, não caberia casamento gay porque - segundo os preconceituosos - gay não combina com família. No conceito tradicional de família, gay não cabe mesmo. Assim como não cabem os padrastos, as madrastas, as mães solteiras, os pais solteiros, os filhos criados por avós, os filhos criados por família social.

A exceção de outrora virou regra e a regra não dita mais as normas. Por isso, casamento também pode ser gay e família pode ser formada sem casamento, ou seja, família é o núcleo que une as pessoas em amor e afeto. O resto é rótulo e discriminação.

Outra palavra que sofre de esvaziamento de sentido é militante, aquele que milita, que está em exercício. O dicionário Michaelis ainda define como "agressivamente ativo por uma causa" e no viés teológico, militante é quem "pertence à milícia de Jesus Cristo". Vixi! muita carola se achava apenas temente a Deus.

Na prática, militante é o cidadão - conhecedor dos seus direitos - que defende suas ideias e projetos. Torna-se até inconveniente pela força com que se agarra aos princípios, mas é isso que o faz diferente. Assim, existem militantes de partidos políticos, de empresas, de áreas como saúde, meio ambiente, educação, assistência social, entre outras.

Mas o militante tornou-se, aos olhos da elite, um ser pejorativo. Imagina, que audácia chamar de militante um empresário do setor tecnológico! Que ousadia chamar de militante a senhora que atua na associação de mulheres de negócios. Eles não são militantes, são empreendedores, tá!

Pois bem, por isso, o termo está associado a partidos políticos, principalmente, os de esquerda, acusados de ideológicos, como se os partidos de direita não tivessem militantes e não fossem ideológicos também. Veja o exemplo da bancada ruralista no Congresso Nacional. A militância é tanta que os interesses ambientais geralmente são esmagados pelas botinas dos deputados e senadores, em favor dos interesses do grupo.

E o militante virou voluntário. Isso mesmo, voluntário, aquele que realiza alguma coisa de forma espontânea, sem obrigação, por amor. Mas voluntário tem compromisso... de voluntário. Sabe aquela festa junina de colégio de classe média alta cujos estudantes vão ao asilo? E aí, a menina de 15 anos dá entrevista para o jornal e diz que "o grupo veio trazer um pouco de alegria para os velhinhos". Quanto idoso sortudo: um dia de felicidade e 364 dias de tristeza. Isso que é voluntariado, se fossem militantes, as ações eram permanentes.

A disputa de sentidos das palavras ocorre diariamente numa briga para ver quem se apodera delas. Assim, a linguagem revela marcas da classe social, do poder aquisitivo, do grau de instrução. Isso em si não é ruim. O problema é quando as palavras excluem e discriminam. Mesmo inconsciente desse processo, as pessoas fazem suas escolhas.

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