quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sem graça mesmo!

Danuza Leão publicou artigo, no último dia 25, na Folha de S.Paulo, e o texto vem causando polêmica. A colunista, primeira top model do Brasil a exibir o corpinho nas passarelas internacionais - algumas muitas décadas atrás - fala sobre ser rico no Brasil.

A colunista diz que "ir Nova York ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?"

Para Danuza, "é claro que ficar rico deve ser muito bom, mas algumas coisas os ricos perdem quando chegam lá. Maracanã nunca mais, Carnaval também não, e ver os fogos do dia 31 na praia de Copacabana, nem pensar. Se todos têm acesso a esses prazeres, eles passam a não ter mais graça."

É verdade! Danuza Leão, ser rico no Brasil não tem graça mesmo.

Andar de avião já foi coisa de rico, que viajava de terno e gravata, mas agora é sem graça mesmo dividir a fileira de cadeiras minúsculas com aquela gente pobre, que fotografa da janelinha para colocar a imagem no facebook.

Passear no shopping da Gleba já foi coisa de rico, que dava um pulinho na joalheria para trocar aquela peça de R$ 7.280,00, mas agora é sem graça mesmo trombar com aquela gente pobre, que compra camiseta nas Americanas por R$ 19,90.

Ter carro e poder trocá-lo já foi coisa de rico, que comprava o modelo do ano para ostentar no Country, mas agora é sem graça mesmo ter que dividir o estacionamento pago com aquela gente pobre, com modelo 1.0 colorido.

Ir ao teatro já foi coisa de rico, que pagava caríssimo pelo ingresso, mas agora é sem graça mesmo dividir a poltrona com aquela gente pobre que - se duvidar - leva um cachorro quente e ainda oferece para você.

Danuza Leão, como é sem graça viver nesse Brasil. Esse país que já foi de gente rica, agora tem de conviver com essa gente pobre que ascendeu à classe média e que, por causa da descentralização aos bens de consumo, tem uma vida mais confortável. Que horror!

Realmente, Danuza Leão, não tem mais graça ser rico no Brasil, por isso  vocês podem ir viver na Europa. Lá ainda tem graça ser rico, principalmente, por causa da quantidade de pobre que aumenta diariamente, inclusive, moradores de rua. Chique é ser mendigo na Europa, uma graça, né Danuza Leão!

Países como Espanha, Itália e Grécia aumentam o arrocho, demitem em massa a partir de acordos feitos, principalmente, para salvar a riqueza do mercado financeiro e da elite que esfola a maioria da população. E você deve achar tudo isso uma graça, não é mesmo?

sábado, 24 de novembro de 2012

Essas contradições!

Ele reclama das cotas públicas nas universidades públicas e estuda com o Prouni na faculdade particular.

Ela diz que o Bolsa Família é um atraso e que as pessoas deveriam esforçar-se mais e agarrou uma bolsa científica na graduação, no mestrado e no doutorado.

Eles afirmam que a prefeitura investe na indústria da multa e adoram furar sinal, para em fila dupla e estacionar em vaga de pessoa com deficiência.

Ele reclama dos investimentos federais nos assentamentos Brasil afora e está arrolando o empréstimo no Banco do Brasil pela terceira vez.

Ela diz que empresários que não pagam direito trabalhista deveriam ser presos e não registra a mensalista nem recolhe o INSS.

Eles afirmam que a corrupção é um atraso para o país e enriquecerem com a especulação imobiliária na gleba da cidade.

Ele reclama que os políticos querem levar vantagem em tudo e não entregam o troco errado à balconista da padaria.

Ela diz que se orgulha de não usar as políticas sociais e é transferida para o SUS quando o plano não cobre os procedimentos que precisa.

Eles afirmam que defendem a liberdade de expressão de forma irrestrita e ativaram a moderação de comentários nos sites das suas empresas.

Ele, ela, eles apresentam essas contradições... Coisa da natureza humana. Não reconhecê-las e apontar somente a dos outros é que nos torna humanos desumanos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Racistas são os outros

Eles aceitam as cotas para alunos de escolas públicas, mas para negro não!
Vai estudar que você passa no vestibular e não precisa usar a cor da pele.

Eles gostam dos feriados de santos católicos brancos, mas para a consciência negra não!
É muito feriado e esse não faz sentido porque atrapalha o desenvolvimento econômico.

Eles desdenham os que defendem o orgulho negro.
Mas estufam o peito ao dizer que os avós e os bisavós nasceram na Europa.

Eles afirmam que os negros têm preconceito contra eles mesmos.
Assim, o preconceituoso pode ser perdoado por seus preconceitos.

Eles dizem que o termo negro significa apenas a ausência de luz!
E a linguagem continua exibindo a cor da discriminação ao associar o negro a coisas ruins: mercado negro, ovelha negra, lista negra, nuvem negra.

Eles se perguntam para que uma publicação para negros, a Raça, se não existe uma para brancos?
E Caras, Cláudia, Nova, Capricho, Boa Forma e tantas mais são o que? 

Eles rejeitam, no Brasil, a existência de racismo!
Porque racistas são sempre os outros.

Admitir que existe racismo é admitir que há diferença entre as raças.
Por isso, muitos preferem deixar tudo como está.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Inquietudes (147) do Rei

Sempre achei que quando alguém é vítima, torna-se mais sensível para as questões que a vitimaram, mas a dor pela qual essa pessoa passa pode servir apenas para embrutecer. É uma reação em cadeia num ciclo perigoso que pode não ter fim.

Periquita recauchutada

Leio na Folha de Londrina, na seção Folha Saúde, desta segunda-feira (dia 19), uma matéria instigante. Com o sugestivo título "Cresce adesão ao 'rejuvenescimento' íntimo", a matéria aborda a "técnica que utiliza laser (e) melhora esteticamente a vagina".

"A questão estética da vagina interfere de forma inconsciente na vida sexual das mulheres", afirmou o ginecologista Carlos Miranda à repórter Michelle Aligleri.

Os especialistas recomendam que as mulheres recorram à técnica quando houver necessidade fisiológica. Claro que a recomendação fisiológica não vai ser seguida. Por que esperar quando se pode dar uma calibrada na danada e deixá-la mais bonita e atraente? 

Pior, as periquitas esteticamente renovadas não vão desfilar por aí para darmos um parecer sobre o resultado da operação. Que graça tem isso? Esses médicos criam obras de arte com novos padrões estéticos para a vagina  e poucos (ou poucas) verão.

Que tal exposições fotográficas com o antes e o depois? Seria um instrumento didático para democratizar o acesso às perseguidas renovadas e funcionaria como um catálogo. __Amorzinho que tal essa daqui? Acho que ficaria ótima pra você. 

Numa sociedade que valoriza excessivamente o corpo e os padrões estéticos é  até compreensível que mulheres busquem transformar a perseguida numa Angelina Jolie. Já imaginaram os grandes lábios (da boca) da atriz numa periquita recauchutada?

No mercado, profissionais e indústria andam de mãos dadas, criando necessidades, muitas vezes, desnecessárias. Usam até a genitália alheia para ganhar dinheiro. Ops! Usar a genitália para ganhar dinheiro não seria um tipo de prostituição? 

E o público consumidor, que adora uma novidade, arrisca a própria saúde para satisfazer desejos e vontades criadas por terceiros. Vai às compras e escolhe peitos novos, levanta as nádegas, injeta gordura na boca, corta aqui, espicha ali. Tudo em nome da beleza, se ficar com saúde, melhor ainda. 

Claro que existem vantagens nesse processo. A sexagenária que se veste como menininha vai poder dizer. __Tenho 60 anos e uma periquita de 25. Se a Hebe tivesse viva, diria: __Que gracinha!

Não se trata de negar os avanços da tecnologia, da medicina e da indústria. Devemos fazer com eles nos sirvam e não o contrário. Viver em função da aparência é viver de aparências. Simples assim.

domingo, 18 de novembro de 2012

Inquietudes (146) do Rei

Andam circulando por aí pedidos para que Lula seja investigado no mensalão. Quando essa mesma sociedade vai exigir que Fernando Henrique Cardoso seja investigado pela Privataria Tucana? Quando a mídia brasileira vai deixar de ser combativa com um grupo e fininha com outro? Combater apenas os corruptos do PT não é combater a corrupção. É combater os corruptos dos quais não se gosta.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Inquietudes (145) do Rei

O governo argentino - com apoio do Congresso de lá - que aprovar "a cláusula da consciência" na legislação do país. Pela cláusula, qualquer jornalista poderia - sem sofrer perseguição ou sanção - recusar-se a produzir reportagens que firam seus princípios e sua moral, ou seja, a consciência.

A imprensa, para variar, incluindo a brasileira, ataca a proposta e deturpa o debate, afirmando que isso serve aos propósitos de controle dos veículos de comunicação na América Latina. Confundem propositalmente liberdade de expressão com liberdade de empresa.

Mas o medo da mídia brasileira tem razão. Se tal dispositivo for aprovado no Brasil, e os jornalistas invocarem a cláusula da consciência, Veja fecha; Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão quebram;  Globo, Record, SBT e Band afundam. Eita consciência danada! Não vai ser bom para os negócios.

A televisão e os gays

Ele adora a sogra. Bem diferente do senso comum que prega uma relação de conflito entre ambos. Ela é uma senhora no alto de seus 75 anos, sofridamente vivida e que mantém limites na relação entre os filhos, as filhas, as noras e os genros. A relação saudável é baseada nesses limites. Ela somente se mete quando é convidada a fazer isso.

Mesmo com a admiração e o respeito que tem por ela, ele não deixa de discordar das atitudes e da opinião dela. O respeito norteia a relação, com umas pitadas de sarcasmo. Eles se entendem. A sogra encara o debate e não deixa por menos, delimitando seu território opinativo com autenticidade e honestidade.

Dia desses, a família entrou numa discussão sobre os personagens gays da televisão. Já repararam como a TV aposta nos gays para atrair audiência? Tudo bem, o público até gosta quando a purpurina é jogada pela bichinha poc-poc - devidamente estereotipada. Quando são gays másculos, sem trejeitos, que inclusive reclamam seus direitos, a audiência conservadora arrepia-se.

__Não precisa mostrar isso na televisão.
A afirmação da sogra soa como uma provocação para o genro, que cai no debate.

__Sei, então quer dizer que até pode existir, mas não pode ser mostrado?
__Eu sei que você vai discordar, mas não precisa mostrar mesmo.

__Por que?
__Ninguém precisa ver dois homens e duas mulheres se beijando.
__Isso é coisa do Papa, hein. Lembra que ele disse que se deve respeitar os homossexuais, desde que eles cultivem a castidade?
__Olha! Eu não conheço muita coisa, mas o que eu sei é que a televisão não precisa mostrar. Não é normal.

Sarcasticamente, ele se vira pra o filho e sussura;
__Quer ver? A sua avó vai colocar a culpa em Deus.

Ela continua o diálogo.
__Deus fez o homem e a mullher. Homem com homem é errado. Mulher com mulher é errado. Isso não é natural!

Ele se vira para o filho e, numa entonação irônica, acerta:
__Eu não falei?

O debate continua e, lá no fundo, alguém liga a televisão. Uma cena chama a atenção de todos. Silêncio. Um marido violento espanca a esposa na frente dos filhos. Ela não consegue reagir. Machucada. Agredida. Calada. Tão calada quanto todos na sala. Silêncio.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Avanço pequeno em um país preconceituoso


Transexual é eleita em Piracicaba, no interior de São Paulo, e ameaçada de morte, por telefone, se assumir a vaga para a qual disputou. As urnas foram-lhe generosas. Ela  teve 3.095 votos pelo PSDB. A líder comunitária Madalena, que nasceu Luis Antônio Leite, é negra.

A notícia é velha. É de 17 de outubro e foi publicada no Jornal de Piracicaba. A informação não perde a atualidade, assim como não se tornam ultrapassados o preconceito e os preconceituosos. Este tipo está cada vez mais vísivel porque é visível o avanço das minorias, mesmo que pequenas em um país preconceituoso. 

O preconceito e as ameaças à vereadora Madalena revelam-se por causa da sua sexualidade, potencializadas pela raça. Na reportagem do Jornal de Piracicaba, a vereadora disse que não acredita em homofobia e que deve se tratar de ameaças políticas.

"Me disseram ao telefone: 'ninguém concorda com o número (de votos) que você teve, e os outros com um número baixo'. Acho que é alguém que foi candidato a vereador e perdeu para mim, ou candidato que entrou com pouco voto."

Como é atrevida a transexual negra candidatar-se! E o pior é que foi eleita. Dando sequência ao atrevimento, ainda quer assumir. Quer e vai. É um direito da vereadora honrar os votos que recebeu, entre eles - provavelmente - de muita gente branca e heterossexual. Esse episódio traz algumas reflexões pertinentes que rabisco a seguir.

1) Os políticos, de modo geral, não estão preparados para o resultado do processo de escolha que se desenha em nossa recente democracia. Existe uma tendência de os perdedores, naturalmente, nem todos, de desqualificarem os vencedores. Quem não tem voto, apela para expedientes sujos, baixos e - por vezes - até criminosos.

2) De modo geral, os partidos políticos ainda têm no respeito à diversidade apenas um discurso e um público alvo. Discurso publicitário de campanha. Público alvo porque travestis, transexuais e gays votam, mas não são votados. Afinal, quantos partidos investem para eleger  pessoas nesses segmentos?

3) O eleitor - ainda que em minoria (quantos transexuais serão vereadores ou prefeitos a partir de 1º de janeiro?) - mostra que consegue passar por cima de questões como a cor da pele e a sexualidade do candidato ou da candidata e dos próprios preconceitos quando acredita nas pessoas e na suas propostas.

4) A repercussão do caso de ameaça à vereadora não mobilizou comunidades no Brasil afora, nem mesmo nas redes sociais. Afinal ela é transexual, negra e pobre, sem as feições nórdicas de um mendigo de Curitiba, a quem muitas - por exemplo no Facebook - fizeram convites para banho, mesa e cama (nesta ordem).

5) A maior base da argumentação dos preconceituosos vem do discurso religioso. De ordem sexual, o natural é que muitos e muitas atestem ser uma contrariedade à vontade divina. Os argumentos se repetem: "esse comportamento está errado"; "Deus fez o homem e a mulher"; "são coisas de pervertidos". Deus - aquele ser onipresente que prega o amor ao próximo - vai punir as pessoas que reconhecem os direitos civis de travestis e de transexuais? 

6) O preconceito faz parte das pessoas, de forma arraigada, inclusive daquelas que dizem não serem preconceituosas. O problema não é ter preconceitos. O problema é o que fazemos com eles. Podemos confrontá-los e aprender a conviver com as diferenças. Ou podemos ceder, tornando-nos preconceituosos e retirando do outro o direito que lutamos para nós.

sábado, 3 de novembro de 2012

Brasil 2º turno, algumas considerações

O julgamento da Ação Penal 470, o mensalão do PT, não surtiu o efeito que a oposição ao governo e ao ex-presidente Lula, a grande imprensa e, até mesmo, os supremos queriam que tivesse.

O PSDB/DEM perdeu votos, prefeitos e vereadores. O PT ganhou votos, prefeitos e vereadores. O PSB de Eduardo Campos desponta no cenário nacional como nome viável para 2014.

Todas essas avaliações já foram exaustivamente feitas, seja por articulistas ligados à direita conservadora, sejam por articulistas da imprensa que passeia pela blogosfera.

Sobre as eleições 2012, o que vale a pena analisar - ainda - é a repercussão do resultado segundo o eleitor, seja o voto militante, o voto ideológico, o voto consciente ou o inconsciente.

Sai eleição, entra eleição, uma coisa chama a atenção. O preconceito destilado por alguns segmentos para desqualificar o voto dos vencedores - e até mesmo dos perdedores.  Arrisco algumas considerações.

1) Grande parcela de cidades variadas - composta, principalmente pelas classes médias e alta - ataca votos no PT e acusam o partido de financiar programas de compra de votos: o Bolsa Família, o Prouni, etc. Muitos acusam o pobre de votar por interesse. Engraçado! A elite (e a classe média acha que faz parte dela) sempre votou desse jeito e, agora, reclama porque o pobre aprendeu a mesma fórmula.

2) As redes sociais são o palco virtual para o espetáculo do preconceito. Muitos se acham mais qualificado para votar que os outros. E quando não vencem, não se intimidam, rogando pragas à cidade onde mora porque venceu o grupo adversário, como se isso não afetasse a todos.

3) Publicar, curtir, compartilhar... são atitudes inocentes. Nem sempre. Publicar, curtir e compartilhar mentiras, acusações falsas e calúnias são atitudes de mentirosos e caluniadores. E isso não é coisa de gente inocente. 

4) A desqualificação dos votos do outro mostra que quem desqualifica não sabe lidar com o processo eleitoral. Perder e ganhar são consequências irmãs e filhas da mesma urna eletrônica.

5) O eleitor precisa amadurecer o processo eleitoral. Respeitar o resultado das urnas é um sinal. De amadurecimento político. De convivência democrática. De respeito aos atores eleitorais. Neste processo, o eleitor tem uma grande responsabilidade, muito maior do que ele próprio imagina.