sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A televisão e os gays

Ele adora a sogra. Bem diferente do senso comum que prega uma relação de conflito entre ambos. Ela é uma senhora no alto de seus 75 anos, sofridamente vivida e que mantém limites na relação entre os filhos, as filhas, as noras e os genros. A relação saudável é baseada nesses limites. Ela somente se mete quando é convidada a fazer isso.

Mesmo com a admiração e o respeito que tem por ela, ele não deixa de discordar das atitudes e da opinião dela. O respeito norteia a relação, com umas pitadas de sarcasmo. Eles se entendem. A sogra encara o debate e não deixa por menos, delimitando seu território opinativo com autenticidade e honestidade.

Dia desses, a família entrou numa discussão sobre os personagens gays da televisão. Já repararam como a TV aposta nos gays para atrair audiência? Tudo bem, o público até gosta quando a purpurina é jogada pela bichinha poc-poc - devidamente estereotipada. Quando são gays másculos, sem trejeitos, que inclusive reclamam seus direitos, a audiência conservadora arrepia-se.

__Não precisa mostrar isso na televisão.
A afirmação da sogra soa como uma provocação para o genro, que cai no debate.

__Sei, então quer dizer que até pode existir, mas não pode ser mostrado?
__Eu sei que você vai discordar, mas não precisa mostrar mesmo.

__Por que?
__Ninguém precisa ver dois homens e duas mulheres se beijando.
__Isso é coisa do Papa, hein. Lembra que ele disse que se deve respeitar os homossexuais, desde que eles cultivem a castidade?
__Olha! Eu não conheço muita coisa, mas o que eu sei é que a televisão não precisa mostrar. Não é normal.

Sarcasticamente, ele se vira pra o filho e sussura;
__Quer ver? A sua avó vai colocar a culpa em Deus.

Ela continua o diálogo.
__Deus fez o homem e a mullher. Homem com homem é errado. Mulher com mulher é errado. Isso não é natural!

Ele se vira para o filho e, numa entonação irônica, acerta:
__Eu não falei?

O debate continua e, lá no fundo, alguém liga a televisão. Uma cena chama a atenção de todos. Silêncio. Um marido violento espanca a esposa na frente dos filhos. Ela não consegue reagir. Machucada. Agredida. Calada. Tão calada quanto todos na sala. Silêncio.

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