quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Avanço pequeno em um país preconceituoso


Transexual é eleita em Piracicaba, no interior de São Paulo, e ameaçada de morte, por telefone, se assumir a vaga para a qual disputou. As urnas foram-lhe generosas. Ela  teve 3.095 votos pelo PSDB. A líder comunitária Madalena, que nasceu Luis Antônio Leite, é negra.

A notícia é velha. É de 17 de outubro e foi publicada no Jornal de Piracicaba. A informação não perde a atualidade, assim como não se tornam ultrapassados o preconceito e os preconceituosos. Este tipo está cada vez mais vísivel porque é visível o avanço das minorias, mesmo que pequenas em um país preconceituoso. 

O preconceito e as ameaças à vereadora Madalena revelam-se por causa da sua sexualidade, potencializadas pela raça. Na reportagem do Jornal de Piracicaba, a vereadora disse que não acredita em homofobia e que deve se tratar de ameaças políticas.

"Me disseram ao telefone: 'ninguém concorda com o número (de votos) que você teve, e os outros com um número baixo'. Acho que é alguém que foi candidato a vereador e perdeu para mim, ou candidato que entrou com pouco voto."

Como é atrevida a transexual negra candidatar-se! E o pior é que foi eleita. Dando sequência ao atrevimento, ainda quer assumir. Quer e vai. É um direito da vereadora honrar os votos que recebeu, entre eles - provavelmente - de muita gente branca e heterossexual. Esse episódio traz algumas reflexões pertinentes que rabisco a seguir.

1) Os políticos, de modo geral, não estão preparados para o resultado do processo de escolha que se desenha em nossa recente democracia. Existe uma tendência de os perdedores, naturalmente, nem todos, de desqualificarem os vencedores. Quem não tem voto, apela para expedientes sujos, baixos e - por vezes - até criminosos.

2) De modo geral, os partidos políticos ainda têm no respeito à diversidade apenas um discurso e um público alvo. Discurso publicitário de campanha. Público alvo porque travestis, transexuais e gays votam, mas não são votados. Afinal, quantos partidos investem para eleger  pessoas nesses segmentos?

3) O eleitor - ainda que em minoria (quantos transexuais serão vereadores ou prefeitos a partir de 1º de janeiro?) - mostra que consegue passar por cima de questões como a cor da pele e a sexualidade do candidato ou da candidata e dos próprios preconceitos quando acredita nas pessoas e na suas propostas.

4) A repercussão do caso de ameaça à vereadora não mobilizou comunidades no Brasil afora, nem mesmo nas redes sociais. Afinal ela é transexual, negra e pobre, sem as feições nórdicas de um mendigo de Curitiba, a quem muitas - por exemplo no Facebook - fizeram convites para banho, mesa e cama (nesta ordem).

5) A maior base da argumentação dos preconceituosos vem do discurso religioso. De ordem sexual, o natural é que muitos e muitas atestem ser uma contrariedade à vontade divina. Os argumentos se repetem: "esse comportamento está errado"; "Deus fez o homem e a mulher"; "são coisas de pervertidos". Deus - aquele ser onipresente que prega o amor ao próximo - vai punir as pessoas que reconhecem os direitos civis de travestis e de transexuais? 

6) O preconceito faz parte das pessoas, de forma arraigada, inclusive daquelas que dizem não serem preconceituosas. O problema não é ter preconceitos. O problema é o que fazemos com eles. Podemos confrontá-los e aprender a conviver com as diferenças. Ou podemos ceder, tornando-nos preconceituosos e retirando do outro o direito que lutamos para nós.

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