segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Fazer errado

O motorista reclama do outro que parou em estacionamento proibido e, quando pode, para no mesmo lugar.

O cidadão reclama do outro que furou a fila e - na primeira oportunidade - repete o gesto que criticou anteriormente.

O morador reclama do som alto com o síndico não para que o vizinho baixe o volume, mas para ter o direito de ouvir na mesma quantidade de decibéis.

O aluno quer contar para o professor que o colega colou, menos porque considera errado, mais porque gostaria de ter colado.

A namorada ataca a traição do namorado (ou vice-versa) e promete fazer o mesmo.

O irmão quer contar para a mãe que a irmã mentiu e, se puder, vai contar suas mentirinhas. 

Muitas vezes, as pessoas reclamam de quem faz algo errado não para praticar o certo, mas para ter o direito de fazer errado também.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Sociedade espetacular!

A TV glamuriza a nudez feminina e masculina. O público deleita-se com coxas, peitos e bundas. Trata-se do mesmo público que, vez em quando, se escandaliza com a erotização precoce e com a gravidez na adolescência.

A TV glamuriza o sexo e a prática sexual. O público excita-se entre a sensualidade, a vulgaridade e a pornografia. Trata-se do mesmo público que, geralmente, ignora o sexo seguro e a prevenção às doenças sexualmente transmissíveis.

A TV glamuriza a biscatice. Na ficção, o público entra em júbilo com a vilã da novela e suas perversidades. Trata-se do mesmo público que, geralmente, abomina na realidade as vadias e suas marchas pelos direitos da mulher.

A TV glamuriza a homossexualidade. Na ficção, o público torce pelo final feliz do casal do mesmo sexo. Trata-se do mesmo público que, geralmente, nega cotidianamente o direito de dois homens casarem ou duas mulheres adotarem.

Na sociedade do espetáculo (salve! Guy Debord) a televisão é soberana. A normalidade vira reality show. O anônimo transforma-se em celebridade. A celebridade ascende ao Olimpo. Zeus ganha concorrentes.

Enquanto isso... na sociedade dos mortais, os direitos humanos não são glamurizados. São constantemente negligenciados. O essencial não integra o espetáculo, afinal o show não pode deixar de ser uma mera ilusão.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Inquietudes (194) do Rei

O final do ano é glamurizado. Simpatias para recepcionar o novo ano. Simpatias para se despedir do ano velho. Bebida demais. Comida demais. Fogos demais. Ressaca demais. O excesso é a regra. Celebridades contam o que fazem. Sub-celebridades querem contar o que fazem. A passagem de ano é um ritual exterior. Será por isso que poucos aguentam olhar para dentro de si nessa época do ano? 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Tempo de renovação

Aproxima-se o novo ano e, com ele, muitos renovam as promessas, aquelas feitas no ano passado, no anterior, no anterior do anterior, no anterior do anterior do anterior... enfim, promessas feitas, não cumpridas e renovadas mais uma vez.

__Juro que paro de fumar.
__Começo uma dieta para baixar colesterol, triglicerídios, glicose.
__Vou praticar exercícios físicos todos os dias, pelo menos meia hora de caminhada.
__Prometo passar mais tempo com minha família.
__Vou diminuir a bebida e levar uma vida mais saudável.

Iemanjá está escaldada na água do mar. Ela sabe que os de sempre virão pular as primeiras ondas de 2014, assim como pularam as de 2013, 2012, 2011, 2010...

Os santos católicos - aqueles que costumam ser invocados durante as promessas - também andam desacreditando da capacidade de seus fiéis de cumprirem o que prometem.

E não falta quem aposte na cor da roupa para esperar o ano novo. Uns querem paz e harmonia, outros riqueza e dinheiro; mais alguns amor e paixão. Enfim... o que não faltam são pedidos e cores para vibrá-los.

E as simpatias? Há de vários tipos e objetivos. Para ganhar dinheiro, ter prosperidade, crescer profissionalmente, achar mulher ou marido, aumentar a sorte, ou seja, apostar na superstição é um bom recurso  para não enxergar a própria realidade e analisar o que se fez de errado no ano que passou.

Fazer promessa de final de ano resolve mesmo os problemas? Na dúvida, na passagem do ano, chupe algumas sementes de romã e guarde os caroços na carteira; use calcinha ou cueca nova na cor preferida; coma um prato de lentilhas.

E ainda: beba sete goles de champanhe segurando a taça com a mão esquerda e jogue o resto para trás sobre o ombro direito; receba o ano novo com três pulinhos no pé direito. Para cada simpatia, mentalize seu pedido.

Se você fizer isso, mas nada der certo em 2014, não se desespere! Faça tudo de novo no final do ano que vem para recepcionar 2015. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Excesso e resto

Festas de final de ano são excesso.

Excesso de comida, 
de bebida, 
de consumo, 
de alegria,
de festa.

Festas de final de ano são resto.
O resto do excesso, 
de comida, 
de bebida, 
de consumo, 
de alegria,
de festa. 

A família reunida come demais, 
bebe demais, 
consome demais, 
alegra-se demais.

A ceia termina em terapia.
Alguns falam muito, 
outros se machucam.
Todos se perdoam.

E ano que vem tem mais.
Porque isso é família!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cheiro de Natal passado

O Natal tem muitos cheiros e os que me chamam a atenção são os que emergem do passado. Os da infância são os melhores.

Quando criança, lá no sítio, esses cheiros lotavam a casa. Vinham da cera dissolvida com querosene para encerar o piso vermelho de cimento queimado.

Vinham da comida, das ervas para temperar o frango, morto na véspera. Aquele frango embebido em salsinha, vinagre e pimenta do reino!

A farofa que entupia a carcaça! Demais. A molecada disputava o recheio às colheradas. Que cheiro! Que sabor! 

Os cheiros continuam assaltando-me a memória. O da pinga usada para alcoolizar outro prato de Natal: cabrito.

A morte do bicho não era agradável. Pai e avô amarravam o bicho numa árvore de cabeça para baixo e cortavam-lhe a garganta.

Uma cena nada natalina, esquecida rapidamente quando os pedaços do cabrito saltavam da panela para o prato.

Nem todos os cheiros eram agradáveis. O da carne do porco raspada com água fervente é o pior. Dando a vida para as festas de final de ano, o suíno era esquartejado.

O cheiro de pele queimada misturava-se com o bicho aberto e as entranhas lavadas para virar linguiça, costelinha frita, torresminho...

Uhnnn... o cheiro dessas delícias superava os anteriores. O porco matava a fome por muitos dias. Dias de festa. Dias sem festa.

A gente cresce e muda muita coisa. Os rituais são transformados. Uns deixam de ter importância. Outros viram protagonistas.

Os cheiros dos natais passados são um presente e tanto. Para isso, basta abrir as recordações e deixar que o olfato percorra os caminhos as lembranças. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Inquietudes (193) do Rei

A justiça brasileira cada vez mais se mete nos assuntos do Legislativo e do Executivo. Barrar a tramitação de projetos no Congresso Nacional, anular decisões de deputados, senadores e impedir a revisão do IPTU (com aumento para uns e redução para outros), como no caso da Prefeitura de São Paulo, são exemplos de quem legisla e executa sem ter sido eleito pelas urnas. São magistrados sem eleição, sem representação, sem voto. Isso é um perigo para a independência dos poderes e, portanto, para a própria democracia.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Estupro estatal

"O policial exerce um fascínio no dito sexo frágil. Eu não sei por que é que mulher gosta tanto de farda. Todo policial militar mais antigo tem duas famílias, tem uma amante, duas. (...) Pra elas é o máximo tá dando pra um policial. Dentro da viatura, então, o fetiche vai lá em cima, é coisa de doido"

Não! A declaração não é fictícia. É real. Trata-se de uma fala do delegado Wilson Damázio, secretário de Defesa Social de Pernambuco. Ele respondeu a uma pergunta da jornalista Fabiana Moraes, do Jornal do Commercio de Recife. Ela o questionou, conforme o blog de Ricardo Kotscho, sobre as acusações contra policiais militares do estado de praticar estupro contra meninas. 

Não contente com as declarações machistas, o delegado enveredou pelos caminhos da homofobia, associando a homossexualidade ao banditismo. "Desvio de conduta a gente tem em todo lugar. Tem na casa da gente, tem um irmão que é homossexual, tem outro que é ladrão, entendeu? Lógico que a homossexualidade não quer dizer bandidagem, mas foge do padrão de comportamento da família brasileira tradicional. Então, em todo lugar tem coisa errada, e a polícia...né? A linha em que a polícia anda, ela é muito tênue, não é?" Essas falas merecem algumas reflexões.

1) O delegado transfere a responsabilidade do estupro praticado por PMs às estupradas, ou seja, é culpa da vítima que assedia a farda porque tem fetiche em fazer sexo com policiais militares.

2) O delegado admite que policiais militares praticam sexo em serviço ou fora do expediente, usando a infraestrutura pública, paga pelo contribuinte. “Dentro da viatura, então, o fetiche vai lá em cima(...)” Portanto, o secretário é conivente com o crime e o estupro passa a ser estatal.

3) O delegado generaliza e afirma que “todo policial militar mais antigo tem duas famílias (...)” Para ele, necessariamente, o PM trai sua esposa e seus filhos mantendo outros relacionamentos. Isso inclui o próprio declarante? Para justificar o injustificável, o delegado invade a intimidade e expõe as suas famílias, na tentativa de naturalizar o estupro cometido por policiais. 

4) Depois das declarações de machismo e de homofobia, o secretário pediu desculpas e deixou o cargo. Vai tarde, mais para não atrapalhar as pretensões presidenciais de 2014 de Eduardo Campos, seu chefe, do que arrependimento pelo que disse. A repercussão negativa foi decisiva para o afastamento. Vinte e cinco entidades repudiaram as declarações do machista-homofóbico.

5) A fala do secretário revela um discurso construído social e historicamente. Esse discurso está enraizado nas pessoas e nos grupos sociais. No entanto, isso não é argumento para se cometer esse tipo de infração moral. Deslize e gafe são palavras amenas demais para descrever tal fala. O representante público não pode se dar ao luxo de invocar a inconsciência para justificar tal barbaridade, como bem classificou Ricardo Kotscho.

6) Infelizmente, a fala do secretário pernambucano não é isolada. Ela representa uma parte significativa da sociedade que culpa as mulheres pelo estupro porque atiçam os “instintos naturais” dos homens com “roupas e atitudes provocantes”. Além disso, essa mesma sociedade condena a homossexualidade, por puro apelo moral-religioso.

7) O combate ao machismo e à homofobia deve ser feito inclusive dentro do poder público. Afinal, os representantes eleitos pelo povo refletem as contradições e as distorções humanas e podem usar o aparelho estatal para discriminar e promover também a desigualdade de gênero.

8) O machismo que justifica o estupro e a associação da homossexualidade à perversão fazem parte da própria cultura e da identidade coletiva. Por isso mesmo, combater ambos é uma tarefa permanente e árdua. Permanente porque não se deve dar trégua aos machistas e homofóbicos. Árdua porque exige muito esforço para combatê-los inclusive nos espaços que deveriam proteger e promover os direitos humanos. 

9) Ao estabelecer políticas públicas, o estado deve formulá-las para os segmentos mais sensíveis, mais vulneráveis. A opção estatal deve ser obrigatoriamente pelos mais fracos. Afinal, os fortes têm como se defender, mesmo que seja de si mesmos. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Saúde doente

A indústria da saúde cria doenças para manter a saúde dos doentes.

Nunca se diagnosticou tanto déficit de atenção.
Nunca se diagnosticou tanto transtorno bipolar.
Nunca se diagnosticou tanta depressão.
Nunca se diagnosticou tanto alzheimer.

Diabetes já teve, historicamente, limites de corte em 140, 110 e hoje está em 100.
Outras doenças também tiveram protocolos revistos para baixo.

O investimento em diagnóstico é alto.
O fabricante dos equipamentos precisa de demanda.
O doente precisa de medicamento.
O fabricante lança novas marcas.
O diagnóstico anda de mãos dadas com o remédio.

A indústria farmacêutica enriquece com a doença alheia, sob as bençãos das sociedades brasileiras disso, daquilo e daquilo outro.
A medicina privilegia a doença como modelo de saúde.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Inquietudes (192) do Rei

Imaginava que as pessoas vítimas da intolerância e da violência se tornariam mais sensíveis a essas questões e passariam a combater exatamente aquilo que sofreram. Nem sempre. Essa experiência pode embrutecer a alma em vez de sensibilizar o espírito. Nesse caso, a vítima pode tornar-se ainda mais intolerante e violenta que seu algoz.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A marca de um ano

Há um ano, ele entrava em uma cirurgia cardíaca para resolver um tal de prolapso da válvula mitral.  Ele enfrentou algumas horas no centro cirúrgico.

Na intervenção, descobriram uma comunicação entre os átrios, ou seja, um furo escorria o sangue pelo lugar errado. Prolapso e comunicação entre os átrios corrigidos.

O peito foi cortado e os ossos serrados. Depois de terminada a operação, o esterno foi juntado com fio de aço e a pele colada. Quatro dias de UTI. Muito medicamento: antiarrítmico, betabloqueador e analgésico. 

Ele desenvolveu um trombo, um coágulo na válvula recém-trocada. Mais medicamento: junta-se aos outros o anticoagulante.

A recuperação foi lenta. Nos primeiros meses dormiu de barriga para cima. Levantou e sentou somente com ajuda. Evitou esforços físicos e fez sessões diárias de fisioterapia respiratória.

Voltou ao trabalho, sempre levado e buscado pela esposa até a autorização médica para dirigir. Começou a fazer caminhadas leves. Respirava cada vez melhor.

A dedicação da família, o carinho dos amigos e a preocupação dos colegas fizeram-no recuperar-se cada vez mais rápido. O cuidado tem poder de cura.

A fé em Deus e os pedidos à Nossa Senhora Aparecida não o deixaram desanimar. Ele sentia que receberia a graça. E recebeu.

O trombo - se tivesse se soltado – teria lhe tirado a vida. Descoberto a tempo foi dissolvido por doses generosas de anticoagulante.

Ele chamou essa experiência de uma aventura cardíaca e teve histórias para contar. Em seu blog, falou sobre O diagnóstico; A indicação cirúrgica; A cirurgia; A transferência para a UTI; As 97 horas na UTI – parte I e parte II; O quarto; A febre e a febrícola; A Rainha; O ex-coração peludo?

E o que mudou com essa experiência? Afinal não é todo dia que alguém tem o coração aberto, cortado, remendado e fechado.

A aventura cardíaca reforçou suas características. Ele luta ainda mais pelo que e em quem acredita, não mede esforços para defender.  

E ele não perde mais tempo com o que e quem não valem a pena. É melhor deixar essas (situações e pessoas) bem longe.

A vida segue seu rumo e ele está - definitivamente - marcado por essa experiência que começou há um ano.

Ele comemora esse aniversário com gratidão e muita alegria, afinal a cicatriz no meio do peito é mais que um sinal na carne. É a marca de um ano a mais de vida.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Estragar as lembranças

É clichê, mas a internet e as tecnologias digitais encurtam distâncias e aproximam os distantes.
Você reencontra gente que não vê há muito tempo.
Por isso, os reencontros são um desafio e um risco.
Desafio para manter aquele sentimento bom de então.
Risco de descobrir que a distância promoveu transformações, que podem causar decepção mútua. 
Por isso, é melhor que algumas pessoas fiquem no passado para não estragar as lembranças.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Culpada! pelo estupro

__Também, ela usa cada roupa. Aqueles decotes provocam qualquer um.
__O que ela estava fazendo na rua tão tarde da noite?
__Mulher que se veste com decoro não é estuprada.
__Vai ver ela deu motivo para o estuprador.

Os comentários acima são fictícios e verdadeiros. Fictícios porque escrevi para esse texto. Verdadeiros porque representam uma parcela significativa da sociedade, homens e mulheres, que - na cultura do estupro - culpam a vítima pelo ato criminoso que sofreu.

Isso mesmo! Há um tendência de responsabilizar a mulher pelo estupro e amenizar a culpa do criminoso. Para isso, quem pensa dessa forma busca no comportamento da mulher os argumentos que considera verdadeiros para explicar a atitude do estuprador.

Neste sentido, a mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, afinal se ela se preservasse não seria estuprada; se vestisse roupas "comportadas" não atiçaria os homens, que apenas dão vazão aos seus instintos; se ela não estivesse na rua tarde da noite não correria o risco, como se em casa não fosse estuprada pelo pai, avô, tio, padrasto ou vizinho. 
  
O processo de culpabilização da vítima no estupro é duplamente amargo. Primeiro, está explícito, porque culpa a estuprada pelo acontecimento. Segundo, porque é expressão de uma sociedade machista que avaliza o homem a seguir seus instintos, mesmo que criminosos, e determina o "recato" à mulher.

Neste contexto, o homem tem vontade e deve fazer sexo, mesmo que forçadamente. A mulher deve se preservar para manter sua aura de pureza. Afinal, homem pegador é macho. Mulher pegadora é vadia. Os esterótipos sociais mostram muito sobre o tipo de igualdade que a sociedade constrói.  

Transferir a responsabilidade do estupro para a vítima é perverso e doentio. Perverso porque culpa exatamente quem deve ser protegida. Doentio porque mostra que a cultura do estupro vai demorar para ser destruída.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Listas de fim de ano

Dezembro está quase no fim e junto vai o ano de 2013. Para variar, os veículos de comunicação começam a fazer a retrospectiva. Parece que já vi isso em 2012, 2011, 2010, 2009, 2008, 2007... enfim...

Em vez de responder às listas da mídia como a celebridade que fez mais bonito ou a que deu o maior vexame; a melhor e a pior novela (como se atualmente existisse novela boa); o cantor ou a cantora que pegou mais e os que pegaram menos; ou qualquer outra coisa tão edificante quanto, poderíamos refletir mais para dentro e menos para fora. Tenho algumas sugestões. 

Quem eu fiz feliz esse ano? E por que?
Quem eu magoei esse ano? E por que?

Quem eu ajudei no momento que mais precisava?
A quem eu neguei ajuda no momento que mais precisava?


Qual o momento em que fui mais verdadeiro esse ano?
Qual o momento em que fui mais falso esse ano?


Qual o episódio que me deixou mais feliz? E por que?
Qual o episódio que me deixou mais triste? E por que?

Quando eu fiz algo por amor ao próximo?
Quando eu fiz algo por mero interesse?


Fazer retrospectiva de um ano olhando para fora é fácil demais. O desafio é fazer essa retrospectiva olhando para dentro. Essa é uma tarefa difícil. Afinal, poderemos não gostar do que vamos ver.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Inveja boa?

A Creide encontra aquela colega que não vê desde a adolescência.

__ Creide! Você não mudou nada. Está liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinnnnnnnnnnnnnnnnda!
__ E você Suzete, como está?
__ Amiiiiiga, passei por cada uma, mas me fale de você. O que você faz para ter essa pele, esse cabelo.
__ Bom/ (/ = interrupção brusca)
__ Ai que inveja Creide, mas é uma inveja boa.

Nessa hora, a Creide cala-se e fica escutando a Suzete falar, falar, falar... e um pensamento ronda as reflexões de Creide.

-- Se existir inveja boa, minha luxúria, então, é casta! De uma pureza só.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

sábado, 7 de dezembro de 2013

Lições da morte

A morte tem o poder de transformar o que foi vivo maltratado em morto idolatrado.
A morte tem o poder de transformar o que foi vivo esquecido em morto envaidecido.

A morte apaga, 
recicla, 
transforma, 
aviva, 
principalmente, os mortos famosos.
Vivo ídolo vira morto mito.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A droga tem cor

A escandalização da sociedade é seletiva conforme os envolvidos nos fatos. A indignação depende também do tratamento noticioso dado pelos veículos de comunicação. 

Esses veículos são a expressão da elite. Jornais, TVs, rádios e portais on-line fazem a opção preferencial pelos ricos. 

E isso confere cor aos acontecimentos. Para ser mais exato, duas: preta e branca. O varejo e o atacado das drogas ensinam muito sobre essas cores.

No varejo, o tráfico de drogas ocorre no morro, que é preto. Traficantes desfilam armamento pesado, desafiando o poder policial.  O espetáculo precisa de um vilão no morro.

No atacado, a droga é branca. A apreensão de 450 kg de cocaína é feita em um helicóptero. O dono da aeronave é deputado estadual. A fazenda onde a droga foi apreendida é de um senador. 

No varejo, a "mansão" na favela tem jacuzzi para deleite do traficante e dos seus. As regalias do crime no morro são amplificadas em jornal nacional para um espanto também seletivo. 

No atacado, a mansão está em nome de laranja. Os lucros conferidos vão parar nas contas dos paraísos fiscais. As regalias do suposto crime são amenizadas em jornal nacional.

A droga, no varejo, é consequência da produção em atacado. O morro preto está ligado ao helicóptero branco. São as duas pontas do mesmo crime.

Combater o tráfico vai muito além da apreensão de papelotes, do estouro das bocas de fumo no morro ou da prisão dos consumidores de pó. 

É preciso combater a droga em sua origem, no início da cadeia de produção, no atacado branco, mas quem tem helicóptero tem poder, seja econômico seja político.  

A droga, no atacado, passa pelos poderes constituídos. Portanto, combater o tráfico de drogas é uma tarefa muito maior que combater apenas os traficantes do morro.

Crônica inspirada na charge de Latuff para o "Brasil 247".

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A tecnologia é recurso

Nos últimos anos ganharam força as tecnologias em vários setores da sociedade, do processo de ensino aprendizagem à relação interpessoal; do comércio eletrônico à carreira profissional. Isso tudo porque os nativos digitais, aqueles seres que nascem colados em celular com mil funções, tablets, computadores, recursos com fios ou sem fio, dispositivos on-line, enfim... têm uma nova forma de ver e de se relacionar com o mundo. 

Neste contexto, os imigrantes digitais – euzinho por exemplo – têm de se virar para acompanhar o ritmo desses nativos que estão dando o enfoque para o resto do mundo. Na educação, esse processo veio para ficar. Tanto que as escolas estão implantando essas tecnologias, destinando parte da sua carga horária para atividades a distância. É um caminho sem volta. É uma trilha a ser explorada. E como novidade, o tema suscita muitas reflexões. Arrisco algumas.

1) A tecnologia usada pela molecada das gerações Y, Z ou sei lá o que, é direcionada principalmente para o lazer. Crianças e adolescentes usam os recursos, às vezes todos juntos, para assistir vídeos, compartilhar fotografias, postar informações úteis e inúteis, bater papo e também praticar bullying cibernético. O domínio dessas ferramentas não é a garantia que a geração vai usá-las para a produção do conhecimento responsável.

2) Como a tecnologia digital é ágil, as novas gerações desenvolveram um comportamento efêmero. A novidade perde seu caráter de ineditismo rapidamente. Por isso, são crianças e adolescentes que se entediam muito facilmente. Como lidam com vários recursos ao mesmo tempo, podem ser tidos como distraídos e pouco concentrados.

3) Ainda sobre os imigrantes digitais. Eles adaptam-se a essa nova realidade, geralmente, resistentes às mudanças causando muita angústia porque o processo de ensino aprendizagem deixa de ser vertical e torna-se horizontal. O papel do professor sofreu alterações significativas e ele precisa se achar neste cenário. 

4) Essa perspectiva é defendida pelo criador do termo imigrantes digitais Marc Prensky. Para ele, o professor deixa “de ser apenas o de transmissor de conteúdo, disciplinador e juiz da sala de aula para se tornar o de treinador, guia, parceiro.” Prensky falou à Folha de S.Paulo, em outubro de 2011

5) Ok. O professor mudou de papel, mas não será substituído. A máquina não fará esse papel porque é um instrumento, uma técnica. A máquina é um recurso pedagógico. Tanto que Prensky afirma que o aprendizado não mudou. “Você pode usar um programa para ajudar a pensar criticamente, mas o aprendizado continua o mesmo.”

6) Nessas mudanças, as escolas privadas – pelo poder econômico que confere grande mobilidade – saem na frente mais uma vez dando sorte a todo tipo de interesse, dos mais legítimos aos aos mais fraudulentos. E a escola pública, pela morosidade e reação, muitas vezes, do seu corpo funcional, fica para trás. Esse processo ocorreu com a educação a distância. O mercado foi tomado pelas particulares porque as públicas, em dado momento, se recusaram a aderir ao sistema por posições ideológicas. Por isso, o mercado atropelou os projetos públicos. Isso pode se repetir agora.

As tecnologias digitais para facilitar o aprendizado estão incorporadas ao processo da educação. Isso é fato. Gostando ou não, o futuro chegou e não pediu licença. Instalou-se e ponto. Neste cenário, o poder público tem responsabilidade dupla. Primeira: fiscalizar as particulares para corrigir as distorções típicas de quem promove mudanças apenas para aumentar seus lucros. Segunda, implantar políticas para garantir esse processo nas escolas públicas beneficiando alunos e professores. Portanto, depende de toda a sociedade para que a tecnologia sirva ao ser humano. E não o contrário. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Indignação seletiva

A indignação é capaz de gerar transformação. Pode ser para o mal. Para o bem Indignar-se é uma capacidade e uma atitude. Uma capacidade porque está ligada às habilidades de cada um para enxergar o que gera a indignação. Uma atitude porque desperta uma reação ao incômodo. 

A indignação costuma assinar contrato com a seletividade. Isso significa afirmar que as pessoas costumam escolher o que deve causar indignação. Agora, a visibilidade dos indignados ocorre no plano virtual. As redes sociais são a tela principal para a exposição da indignação seletiva.

A queima de fogos no centro de uma cidade que espocam nos ouvidos caninos e matam umas poucas pombas causa mais indignação do que o morador de rua incendiado na rodoviária da mesma cidade.

O usuário de drogas e suas perturbações causam mais indignação do que o ciclo de produção e de distribuição da droga, cujo controle passa inclusive pelos poderes constituídos e pela falta de atuação do estado.

A importação de médicos estrangeiros – principalmente os cubanos – causam mais indignação do que a falta de médicos brasileiros para atender ou o mau atendimento prestado na rede pública de saúde.

As regalias de uns presos famosos de um partido causam mais indignação do que a apreensão de um helicóptero com 450 quilos de cocaína, cujo dono da aeronave também é político e amigo de tantos outros.

A sociedade que sustenta a audiência com a vulgaridade na TV, com apelo sexual exacerbado e erotização precoce é a mesma que fica indignada com a pílula do dia seguinte e as políticas para o aborto.

A sociedade que cultua o jeitinho brasileiro na conversão proibida, na fila dupla, na fila furada com o gerente de banco, que molha a mão do policial é a mesma que fica indignada com a corrupção dos políticos.

A sociedade que abandona seus filhos em lares provisórios (que se tornam eternos enquanto duram) é a mesma que fica indignada com o casamento gay e a adoção por casais homossexuais. 

A indignação pode gerar transformação, mas quando é seletiva segundo os preconceitos de cada um, a mudança ocasionada vira uma distorção, uma deformação, sendo – portanto – a base da desigualdade. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

sábado, 30 de novembro de 2013

Renascimento

Receita de sucesso

Ingredientes
- Consumidores consumistas.
- Empresários gananciosos.
- Jornalismo que atua como publicidade.

Modo de preparo 1
Junte os consumidores consumistas num ambiente de consumo com empresários gananciosos, que anunciam para uma super-hiper-mega promoção. Esses empresários majoram os preços para vender com os mesmos praticados fora da promoção. 

Modo de preparo 2
Leve ao jornalismo. Faça reportagens de TV, de rádio, de impresso e de internet que funcionam como publicidade para a super-hiper-mega promoção. O roteiro é o mesmo: descontos enormes, gente empilhada em lojas, sentada em produtos e pronta para descer o braço em quem ameaçar pegar a TV, o micro-ondas ou aquele outro objeto que a gente não sabe o nome, nem as funções e que nem vai usar. 

Servir
Está pronto. Sirva como Black Friday. No Brasil já foi apelidado de Black Fraude. Sirva-se à vontade!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ministro ou coronel?

Joaquim Barbosa, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), é acusado de pressionar para substituir o juiz da Vara de Execuções Penais de Brasília, Ademar Silva de Vasconcelos, por Bruno André da Silva Ribeiro. Este é filho de um ex-deputado do PSDB. Mero detalhe? Trata-se do processo que executa as penas dos petistas presos na operação espetaculosa de 15 de novembro para prender nomes de dirigentes históricos do PT, entre eles os dois josés: o Dirceu e o Genoíno. 

A troca de juízes da Vara de Execuções Penais de Brasília é repudiada pela Associação de Juízes para a Democracia (AJD). Em nota, a presidente da entidade, Kenarik Boujikian, afirma que é “inaceitável a subtração de jurisdição depositada em um magistrado ou a realização de qualquer manobra para que um processo seja julgado por este ou aquele juiz”. Ela ainda tasca com todas as letras. “O povo não aceita mais o coronelismo no Judiciário.” Para a AJD, Joaquim Barbosa age, portanto, como um coronel.

Na prisão dos josés petistas, Joaquim Barbosa foi criticado por ter mandado para regime fechado, condenados a regime semiaberto, o que afrontaria a legislação brasileira. Além disso, os presos foram levados para Brasília num voo vistoso quando, pela lei, os condenados deveriam cumprir o semiaberto em seus estados de origem. 

Além de relator do processo do julgamento do mensalão, o ministro preside o STF agora e comanda o julgamento de todos os recursos impetrados pela defesa dos condenados. Isso quando não decide monocraticamente, como na decretação da prisão de Dirceu e Genoíno, passando por cima do plenário do STF.

Para quem acompanha o julgamento do mensalão e seus desdobramentos não é novidade a megalomania do presidente do STF, que parece agir do jeito que age, menos por justiça e mais por poder. Joaquim Barbosa parece lutar contra um complexo de rejeição que abate muitos que vieram de baixo e que lutam cotidianamente para se afirmar. Afinal, também não é novidade, que ele se tornou o primeiro negro no STF porque o então presidente Lula quis assim. 

Sobre Joaquim Barbosa repousam acusações e questionamentos. Por exemplo, o de instalar um inquérito, o 2474, para colher provas relacionadas ao processo do mensalão, mesmo depois deste ter sido acatado pelo STF. O próprio ministro decretou segredo de justiça para o 2474, que conteria documentos que inocentariam acusados que acabaram condenados no julgamento do mensalão.

Joaquim Barbosa é acusado de criar uma empresa, quando a legislação proíbe, para comprar um imóvel em Miami e, assim, pagar menos imposto na operação internacional. Joaquim Barbosa recebeu benefícios atrasados de quando atuava como promotor público. A operação não é ilegal, mas é contestada na área. O pagamento fica no terreno pantanoso da legalidade e da moralidade, aquela discussão que costuma fazer salivar a sociedade inteira quando se trata dos políticos. 

Joaquim Barbosa recebeu salário da Universidade Estadual do Rio de Janeiro mesmo estando no supremo já como ministro. O jornalista Miguel do Rosário publicou documentos que mostram que o ministro continua ativo na folha de pagamento da universidade. A partir de 2008, conforme Rosário, “o reitor da UERJ lhe oferece uma invejável situação: passar a receber salários e benefícios mesmo sem dar aulas ou fazer pesquisas.”

O STF mandou pagar a reforma de um banheiro na residência oficial do ministro, em Brasília, no valor de R$ 90 mil. Reforma em residência oficial não é problema, mas para quem ataca o que os políticos fazem de pior, Joaquim Barbosa deveria dar o exemplo.

Com a imprensa, Joaquim Barbosa age como deus e o diabo. Com jornalista amistoso, é deus e manda pagar com recursos públicos a viagem para que o repórter cubra sua estadia em Costa Rica.  Trata-se de uma jornalista do jornal 

Já para os jornalistas que fazem perguntas das quais o ministro não gosta, ele é o diabo. Joaquim Barbosa desce do pedestal e taxa o perguntador incômodo de “palhaço” e o manda “chafurdar no lixo”. O episódio, nada digno de um presidente do STF, acometeu um repórter do Estadão.

Autoritário ou rigoroso? Excêntrico ou peculiar? Justo ou injusto? Joaquim Barbosa, presidente do STF, age mais como ministro da justiça ou coronel?

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Outra Carta para Deus

Senhor há algumas semanas escrevi para o senhor uma Carta (pode ser lida aqui novamente, caso tenha um tempinho) na qual eu demostrava minha decepção com a sua obra. O ser humano, eita! Senhor, anda aprontando demais. Mortes, assaltos, estupros, enfim... um rol de atrocidades capaz de atormentar qualquer cidadão de bem.

E eles existem Senhor. O cidadão do bem. São pessoas que fazem o seu melhor e não olham para quem. Depois que escrevi aquela carta senhor, vi uma reportagem que, em Pernambuco, umas câmeras montadas no Recife para captar problemas, têm registrado o que ficou conhecido como “flagrantes do bem”. Gente comum que ajuda velhinhos e pessoas com deficiência a atravessar a rua; cidadão anônimo que socorre quem se acidenta no trânsito. Coisa bonita de se ver.

Outro exemplo bonito eu li no jornal, um casal que não podia gerar filhos fez uma opção de extremo desapego e amor ao próximo. Eles se candidataram a pais sociais num abrigo mantido com recursos públicos. Tanto o pai quanto a mãe ajudam na casa que tem mais de 10 crianças de todos os tamanhos. A relação deles é muito linda Senhor. Com tantos filhos precisando de pais, esse casal deu um exemplo para o mundo todo.

Senhor, é muito fácil amar quem é igual à gente, mas como é difícil amar e pedir o bem de gente diferente de nós! Pior ainda quando se trata de bandido. Por isso, acho que o trabalho que as pessoas da Pastoral Carcerária fazem é excepcional. Lutar pelos direitos de quem está jogado no fundo de uma cela cheia não é para qualquer um Senhor. Tem que amar o próximo mesmo. E muito. Isso é inspirador. 

Senhor, na semana passada eu estava de carro na marginal de uma rodovia e, mesmo o tanque marcando, acabou minha gasolina. Estava escuro, meu celular sem bateria. E ainda ameaçava um temporal. O Senhor não vai acreditar, mas passou um motoqueiro e perguntou se eu precisava de ajuda. Claro que precisava, né Senhor.

Não é que o motoqueiro foi até um posto uns três km à frente e me trouxe dois litros de gasolina! Quis pagar a ajuda, mas ele não aceitou e disse para eu seguir o meu caminho em paz. Só pode ser um anjo andando de motocicleta Senhor! Quem, hoje em dia, para no escuro ameaçando um temporal e oferece ajuda sem pedir nada em troca?

Senhor, eu disse na outra Carta que estava difícil manter a fé na humanidade, que era muita desgraceira e que isso desacorçoa. Lembra que eu pedi para o Senhor continuar nutrindo-me de fé? Então, quero dizer que o Senhor atendeu o meu pedido. Esses exemplos são para mostrar que é preciso ter fé na humanidade. A sua obra vale a pena, Senhor.

Outro forte abraço!

domingo, 17 de novembro de 2013

Inquietudes (188) do Rei

Para alguns partidos e seus militantes, ser revolucionário é apenar ser do contra. Assim sendo, muitas vezes, engordam os discursos da direita conservadora. E não admitem. Conheço alguns revolucionários que não querem ser gestor. Ser oposição é sempre mais fácil.

sábado, 16 de novembro de 2013

Inquietudes (187) do Rei

Se dizem que comércio fechado por causa de feriado é ruim para o empregador, para mim é bom porque sou trabalhador.

Se dizem que as leis trabalhistas devem ser flexibilizadas porque é bom para o empregador, para mim é ruim porque sou trabalhador.

Se dizem que feriado e excesso de leis trabalhistas atrapalham a geração de empregos, quero - antes de tudo - discutir a qualidade do emprego. 

E qualidade passa pelo valor do salário e pela estrutura. 
Sou trabalhador e não empregador. Vendo minha força de trabalho e não minha consciência.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Carta para Deus

Senhor, eu creio na humanidade, mas anda cada vez mais difícil manter essa crença. Sua obra anda cometendo muitos crimes, Senhor! Crimes que vão dos mais simples aos terrivelmente hediondos. O dicionário da Língua Portuguesa aceita “benevolência” como um dos significados para humanidade, mas Senhor, o ser humano anda pouco benevolente, pouco bondoso.

É pai matando filho. Filho matando pais. Famílias destruídas.  A tiros. A facadas. A pauladas. Muitos roubam e matam o outro por nada! Um tênis. Vinte reais. Um boné. Um carro. Por nada. O bem material vale mais que a vida. Que humanidade faz isso Senhor? Até quem fala em seu nome Senhor pratica a maldade. Pastor que usa o dinheiro do fiel em benefício próprio; outro que transa com as fieis e diz que é sagrado! Padre pedófilo que fere a consciência da infância e arcebispo que responsabiliza a criança pela pedofilia.

Em pleno século 21 Senhor, ainda temos trabalho escravo. Uma barbárie. Por exemplo, muitos haitianos estão em condição de escravidão em abatedouros do Brasil inteiro. Muitos empresários além de não cumprir as suas obrigações trabalhistas, aproveitam-se da desgraça que se abateu sobre o Haiti para aproveitar da mão de obra; assim como muitos empresários o fazem com os bolivianos. O Senhor leu as notícias de trabalho escravo em fábricas de roupa de grife no estado de São Paulo?

E a prostituição infantil? De norte a sul do país, meninas e meninos – crianças Senhor! – vendem o corpo por uns míseros trocados. É até compreensível que essas crianças façam isso para matar a própria fome, mas Senhor, um adulto praticar sexo com uma criança!  Uma mãe ou um pai colocar obrigar o filho a fazer sexo por dinheiro?  Isso definitivamente não é Deus, ou melhor, não é do Senhor. 

A corrupção desvia bilhões de recursos públicos que poderiam melhorar a saúde, a educação do Brasil todo! Esses escândalos não escandalizam mais Senhor. É mensalão petista. É mensalão tucano. É mensalão do DEM. É tremsalão. É propinoduto. É máfia dos fiscais. Senhor, onde vão parar esses recursos públicos? E não são apenas os políticos com mandato. Fiscais nas prefeituras, nos estados, desviam dinheiro até de setores essenciais.

E essa onda de colocar fogo em mendigo? Em Brasília aqueles jovens fizeram escola. Agora, volta e meia, a gente lê notícia, que outro morador de rua foi queimado. A maldade não tem limites. Grupos espancam jovens por serem negros. Outros são atacados e agredidos por serem gays. Travestis são assassinados. Senhor, o que a humanidade fez com a compaixão e o amor ao próximo? 

Toda essa desgraceira desacorçoa Senhor! Mas essa é a sua obra e, por isso, não me deixe perder as esperanças. Que o Senhor possa continuar nutrindo-me de fé. Fé na humanidade. 

Um forte abraço.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Inquietudes (186) do Rei

A tecnologia realmente facilita a nossa vida. No trabalho. Em casa. No lazer. Nos relacionamentos. Nas redes sociais. Muitos dispositivos são avançadíssimos, mas nada supera uma tecla quando enchem o seu saco. Off.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Cotas brancas e pretas

O governo federal anunciou a reserva de 20% de cotas em concursos públicos federais para negros.
O anúncio foi feito pela presidenta Dilma Rousseff, nesta semana, durante a abertura da III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial.
Naturalmente, a maioria branca do país já ataca a proposta, levantando argumentos da (suposta) igualdade entre os brasileiros.
Suposta sim porque a situação do negro está longe de ser igual ao do branco. 
Pesquisem dados do IBGE e outros institutos de pesquisa e depois conversamos. 

As conquistas em nossa sociedade são tratadas como mérito, quando não são.
O vestibular é a prova cabal disso. 
A elite branca adora falar em meritocracia, mas quem estuda em colégio particular passa na universidade pública, certo?
Isso é mérito ou oportunidade? 

Infelizmente, em sua maioria, os negros não têm as mesmas chances que os brancos.
Fazemos o discurso da igualdade, quando parte dos que sempre se beneficiaram das relações com o poder público tem suas chances reduzidas.
No debate, os argumentos passam pelos seus interesses  pessoais e profissionais.
No entanto, pensar políticas públicas é levar em conta a real situação daquele segmento afetado por elas.

__Mas 20% para negros? É muita coisa!
__Veja bem...

Os brancos, em sua maioria, sempre disputaram 100% das vagas.
Hoje, vão disputar 80% porque 20% vão para as cotas.
Isso restringe para quem sempre disputou a totalidade?
Certamente, mas aumenta para 20% os que nunca conseguiram ter acesso.
Se a questão é matemática ou de interesse pessoal, a questão está resolvida.
Os brancos continuarão tendo a maioria das cotas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Consciência em construção

O Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná suspendeu, nesta semana, o feriado da Consciência Negra, em Curitiba. Muitos municípios brasileiros instituíram a data, comemorada no dia 20 de novembro.  A decisão do TJ acata pedido da Associação Comercial do Paraná e do Sindicato da Construção Civil do Paraná.

Segundo o diário curitibano Gazeta do Povo, "a justificativa da ACP para o pedido se baseava no fato de que o feriado é inconstitucional e também danoso para o comércio da cidade, que deixaria de arrecadar em torno de R$ 160 milhões com o recesso." A medida é de caráter provisório. O TJ ainda vai apreciar a suposta inconstitucionalidade da lei que criou o feriado.

Discussões constitucionais e interesses comerciais à parte, a decisão do TJ levanta polêmica entre os que defendem e os que atacam a data como feriado. Muitos alegam que é uma besteira combater o racismo com esse tipo de medida e argumentam que não existe o dia da consciência branca ou ariana. Isso mesmo, ariana bem ao gosto do alemão Adolf Hitler.

Novembro é tratado pelos movimentos sociais como o mês da consciência negra. Essa consciência passa pela necessidade de valorizar a raça em virtude do preconceito e da discriminação sofridas, resgatando a autoestima. Para tanto, datas comemorativas ajudariam no fortalecimento da cultura e, portanto, da identidade negra.

Há séculos, os negros ouvem que ser negro não é bom; muitos termos associam o negro a coisas ruins,  como lista negra, ovelha negra, mercado negro entre tantas outras expressões racistas. Esses termos são carregados de um discurso negativo. Já a consciência ariana não tem uma função pedagógica como ocorre com a negra. Afinal, o nazismo prega a supremacia branca em detrimento das outras.

O mesmo enfoque da consciência negra pode ser aplicado à noção de orgulho gay. Esse passa pelo processo de autoaceitação e também de afirmação e aceitação social. A consciência é, então, um processo em construção que merece atenção de toda a sociedade.

Portanto, o Tribunal de Justiça do Paraná, ao acatar a suspensão do feriado em Curitiba por motivos comerciais - oficialmente - e por que não racismo e preconceito? - extraoficialmente - vai na contramão do fortalecimento da consciência negra. O tribunal perde uma boa oportunidade de fazer justiça.

sábado, 2 de novembro de 2013

Sobre corruptos e corruptores

A descoberta de um caso de corrupção na Prefeitura de São Paulo que envolve quatro auditores, ou seja, funcionários públicos, que recebiam propina para aprovar projetos de interesse de empresários, é muito mais sintomático do que parece.

Informações do Ministério Público de São Paulo apontam que os servidores são acusados de desviar cerca de R$ 500 milhões da prefeitura, durante a gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD-SP).

A Folha.com informa que “de acordo com o Ministério Público, a CGM (Controladoria Geral do Município), criada pelo prefeito Fernando Haddad (PT), notou que os quatro auditores fiscais, ligados à Subsecretaria da Receita da prefeitura, tinham evolução patrimonial incompatível com a sua remuneração.”

Ainda de acordo com a Folha,  “os quatro auditores e fiscais da prefeitura presos reuniram um patrimônio que incluiu 59 imóveis, nove quotas de participação em empresas e oito veículos, entre os quais uma lancha avaliada em R$ 1 milhão...” 

O caso suscita algumas reflexões. Arrisco algumas.

1) A sociedade civil (dita) organizada preocupa-se demasiadamente com a corrupção dos políticos, aqueles que têm mandato eletivo. Esquece-se que muitas vezes, o desvio é feito do segundo escalão para baixo, contando com a participação ativa de funcionários públicos que viabilizam tecnicamente o processo.

2) Os mecanismos para verificar o enriquecimento ilícito de funcionários públicos parecem não ser suficientes. Afinal, esses quatro auditores tinham um patrimônio milionário e desviaram recursos públicos durante muito tempo. Geralmente, funcionários públicos corruptos caem mais por causa da ostentação de bens materiais incompatíveis com sua renda do que por mecanismos de controle de enriquecimento ilícito.

3) O enfoque ao caso dos auditores da Prefeitura de São Paulo é centrado nos corruptos, ou seja, nos funcionários que receberam propina. Os empresários que pagaram a propina para viabilizar seus empreendimentos, geralmente, são vistos como vítimas. Alguém pode argumentar que eles fizeram isso para agilizar ou regularizar seus processos. 

4) Se o empresário pagou para agilizar o processo, preferiu um atalho em vez de negociar – dentro da legislação – os caminhos previstos para empreendimento. Aqui, o empresário transfere a culpa para a burocracia, eximindo-se da sua responsabilidade por corromper o funcionário.

5) Se pagou propina para regularizar, significa que o projeto estava irregular e não poderia ser aprovado. Decididamente, ele se beneficiou do pagamento da propina em vez de simplesmente ser vítima de um auditor mauzinho.

6) O empresariado, geralmente, reclama dos ritos burocráticos para  a aprovação dos projetos seja no município, no estado ou na União.  E mesmo com o acesso que têm aos representantes legais, muitos preferem pegar atalhos a negociar a redução da burocracia. Mais uma vez, esses preferem o caminho mais curto.

7) O que deve acontecer com os empreendimentos levantados e regularizados com base no pagamento de propina? Esses empreendimentos devem ser revertidos em recursos públicos? Ou vão continuar rendendo dinheiro para os empresários que o criaram pagando propina?

8) Combater a corrupção deve ser uma atitude permanente dos órgãos públicos  e da sociedade que se diz organizada. No entanto, não basta combater apenas os corruptos se os corruptores continuarem desembolsando altas (ou baixas) quantias para que seus empreendimentos sejam viabilizados. Não existe corrupto sem corruptor.

Doce ou travessura?

A menininha devidamente caracterizada de bruxinha norte-americana para o halloween, juntamente com outras quatro amiguinhas, sai às ruas do bairro da periferia onde mora.

Isso mesmo! periferia e não subúrbio. 

Afinal elas estão no Brasil.

O grupinho bate de porta em porta para manter viva a tradiçãozinha, que não é brasileira.

__Doce ou travessura?

A casa é da Creide.


Coitadas das menininhas.


A Creide prefere perder os vizinhos a perder a piadinha.

__Nenhum dos dois, menininhas. Minha ideologia não permite.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sol e areia

O mendigo e a ração para peixe

__Mendigo não tem de votar. Não faz nada na vida. Não tem de tomar atitude nenhuma. Aliás, acho até que deveria virar ração para peixe.
__ A gente trabalhando feito maluco. Não dou nada pra mendigo. Se quiser, vai trabalhar.
__Todo mundo tem de trabalhar. Eu levanto cedo. Por que mendigo tem de votar? Não tem de votar mesmo, não.
__As novelas passam gente transando escandalosamente na frente das crianças. Não se pode liberar tudo.
 __É ridículo acabar com a censura. Lógico que não a censura como existia, falar do jeito que pensa.

As declarações são do vereador José Paulo Carvalho de Oliveira, o Russo (PTdoB), do município de Piraí, no Rio de Janeiro, e foram feitas – pasmem – durante sessão comemorativa dos 25 anos da Constituição.

O que falar sobre esse tipo de declaração vinda de um representante eleito para defender a população? 
O que falar de um representante eleito que destila ódio, defendendo a censura e a pena de morte?
O que falar de um representante eleito que sugere transformar morador de rua em ração para peixe?

O absurdo das declarações não reside somente nelas, mas na repercussão que o poder dessas palavras têm.
Afinal, esse vereador representa não somente os que votaram nele, mas muita gente que pensa e age igual a ele Brasil afora.

José Paulo Carvalho de Oliveira é o sintoma de uma parte da sociedade que se caracteriza pelo individualismo, quando associa sucesso com esforço unicamente pessoal.
Para esses, os direitos humanos devem ser direcionados aos humanos direitos, numa perspectiva maniqueísta, que – inclusive – abusa do teor religioso.

Neste caso, não adianta o discurso de que é necessário escolher melhor os próprios representantes. 
Afinal, esses representam seus eleitores porque tiveram os votos para isso.
O representante do povo é representa apenas; é a extensão de quem os escolheu. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Debate atrasado e superficial

A Folha.com, de hoje (dia 29), informa que o Ministério Público do Trabalho cercou a televisão brasileira no combate ao trabalho infantil. Segundo a reportagem, neste mês, foram intimados representantes de agências, produtoras e emissoras de TV. O tema é muito importante, mas não espere grande repercussão, até porque a televisão é uma grande interessada no assunto.

O objetivo é fazer com que essas empresas providenciem autorização judicial para menores de 16 anos em gravações. Pela legislação, os maiores de 16 anos podem trabalhar normalmente. Entre 14 e 16 anos, somente na condição de aprendiz. O artigo 60 do Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece expressamente: “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade.” Portanto, para trabalhar os menores de 16 precisam de autorização judicial.

Segundo a Folha.com, a intensificação do combate ao trabalho infantil na TV começou em 2009, com a menina Maísa, que tinha 7 anos e trabalhava no programa “Silvio Santos”, no SBT. “A procuradoria acusou o canal de desrespeitar leis que permitem o trabalho de menores.”

O combate ao trabalho infantil na televisão, e na área cultural de modo geral, está atrasado no Brasil. O tema encontra resistência porque na maioria das vezes, o trabalho infantil nas artes é encarado mais como talento e menos como ocupação. Além disso, há quem defende que nas artes, o trabalho é mais digno, mais nobre, ou seja, há status nesse tipo de ocupação. 

Do ponto de vista da legislação, o conceito de trabalho infantil não faz exceções conforme a nobreza da atividade desenvolvida, mesmo que uma atividade seja mais perigosa que a outra. Afinal trabalho é trabalho. O que difere são as condições a que a criança está exposta e as penas para quem explora o trabalho infantil, conforme a sua natureza. Mais digna ou menos digna, o trabalho infantil nas artes não deixa de ser trabalho. Que o diga a dupla Sandy e Junior, com sua Maria Chiquinha.

Partindo do pressuposto que o trabalho de crianças na TV passa pelo talento, por boas condições de trabalho e pela remuneração, por que não exigir que crianças que atuam em carvoarias e nas fazendas tenham piso salarial, carga horária definida e equipamentos individuais de proteção? A proposta é absurda, mas revela como a sociedade trata diferente situações iguais. Crianças em carvoarias e fazendas não devem ser aceitas, mas o trabalho infantil artístico pode ser flexibilizado? 

Esse debate, além de atrasado, é superficial e hipócrita, principalmente, por causa do poder que a televisão exerce no país. Lembram-se da campanha que a Rede Globo moveu contra a decisão do juiz Siro Darlan, no Rio de Janeiro, de proibir a presença de crianças na novela Laços de Família? O mesmo juiz autuou artistas e proibiu cartazes de shows, sendo taxado de censor. 

Trabalho infantil é trabalho infantil. O resto é interpretação conforme as conveniências e os interesses dos envolvidos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Sobre opinião e ânus

Circula pelo Facebook a ilustração que inspirou esse post, cujo conteúdo ensina o que fazer com a sua opinião. O material parece uma brincadeira, e não deixa de ser - ressalte-se de mau gosto. Afinal o material despreza o processo de formação da opinião e a liberdade de expressão.

Numa linguagem que remete ao discurso médico – aquele que mostra o passo a passo de como usar medicamentos – a ilustração propõe ao dono introduzir a opinião "bem fundo em sua cavidade anal", ou seja, enfie no meio do seu... ânus. Esse discurso contrasta com a luta pela livre manifestação do pensamento, algo tão caro à democracia. 

Historicamente, a participação do leitor nos veículos tradicionais de comunicação sempre foi limitada. A seção de cartas dos jornais, por causa do espaço pequeno, contemplava poucos leitores, ou seja, a seleção deixava de fora muita gente que se manifestava. 

Na TV, essa participação era praticamente inexistente. Escolher, por exemplo, um entre três filmes no sábado à noite, numa lista previamente definida, não era sinônimo de participar. E o rádio, dos meios de comunicação de massa, era o veículo que mais abria espaço ao ouvinte que, além de pedir música, reclamava do buraco da rua, da árvore condenada, do terreno baldio, enfim... sua voz encontrava eco.

Do ponto de vista da participação nas plataformas convencionais pouca coisa mudou. E é na internet que esses veículos agora abrem espaços generosos aos comentários dos internautas, ou seja, a rede é um instrumento que, além de democratizar o acesso à informação, potencializa a voz do cidadão comum. 

Se nos jornais, rádios e TVs, via internet, o espaço cresceu imagine nas redes sociais nas quais o cidadão torna-se dono do seu próprio veículo. Ele define e executa a sua linha editorial. Texto, fotografia, áudio e vídeo portam mais que opinião. São portadores de defesas e de ataques; da bondade e da maldade. 

Antes que alguém me mande seguir o passo a passo da ilustração com esse meu texto, ou seja, a minha opinião sobre a opinião, responda a si mesmo. Onde você enfia a sua e a que ela serve? A luta pela liberdade de expressão parece vencida num país que goza do status de democracia, mas agora se consolida uma nova etapa nesse processo: o exercício da liberdade com responsabilidade. 

Pensar não é uma tarefa fácil. Pensar e manifestar o pensamento com respeito é ainda mais difícil. Você está preparado para tal tarefa?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Violência e paz. Vida e morte.

Apoio e incentivo a ação dos Black Bloc em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essa ação violenta se justifica por causa da atuação da polícia na repressão às manifestações e às prisões de manifestantes. Apoio e incentivo o quebra-quebra de agências bancárias, prédios públicos porque é uma resposta à violência institucionalizada do estado para com o cidadão.

Não apoio e não incentivo a ação do Movimento Sem Terra (MST) na invasão de terras pelo Brasil afora. Não apoio e não incentivo porque se trata – sob o pretexto da reforma agrária – praticar a violência contra a propriedade e os bens de gente que lutou a vida inteira para poder comprar suas terras. 

Apoio e incentivo a invasão de laboratórios que usam animais em testes para a produção e produtos de beleza. Apoio e incentivo porque é uma ação humanitária de resgate desses bichos que sofrem maus tratos. É a defesa dos direitos dos animais. Esses bichos não podem servir de cobaia para a fabricação de produtos para o luxo dos seres humanos.

Não apoio e não incentivo as regalias de presos no sistema carcerário. Não apoio e não incentivo porque esses bandidos entraram para o crime por opção, porque quiseram. Por isso, não merecem regalias. A polícia tem de mandar bala nesses ladrões que roubam os cidadãos de bens que trabalham muito para dar o de melhor a sua família.

Apoio e incentivo a vida. Foi bom na hora de fazer? Então agora crie porque o filho é seu. Apoio e incentivo a vida porque sou contra o aborto que é uma forma de assassinato, de matar um ser indefeso que não tem como se proteger. A vida é um bem muito precioso e não podemos concordar com a prática do aborto.

Não apoio e não incentivo penas brandas para os condenados. Bandido tem de pagar pelo que fez. Se pudesse escolher em um plebiscito, votaria pela instituição da pena de morte para criminosos. Quem faz a opção pela maldade jamais será recuperado e sempre será um perigo para a sociedade. 

Violência e paz. Vida e morte. Enquanto a sociedade insistir em fazer juízo de valor diferenciado conforme a clientela, a sociedade atual nunca gozará plenamente o status de civilizada. Não são apenas contradições. Trata-se de escolher quem deve viver mais e melhor. E isso diz tudo sobre o que somos.

domingo, 20 de outubro de 2013

Inquietudes (185) do Rei

Estou admirado com parte da sociedade brasileira que aceita e apoia a depredação de bens públicos e particulares nas ações do Black Bloc, com suas pautas difusas e variadas. E aí vamos apoiar o MST nas ocupações de fazendas, prédios e praças de pedágio na luta pela reforma agrária e pelo direito à terra?

Inquietudes (184) do Rei

A sociedade que se escandaliza com o uso de animais em testes de cosméticos é a mesma que aplaude o ladrão sangrando no asfalto numa tentativa frustrada de assalto. Enquanto insistirmos em dar mais valor a uma vida que à outra, nunca poderemos chamar isso de civilização. Vida é vida. O resto é interpretação e preconceito.

sábado, 19 de outubro de 2013

Sobre ladrões e vítimas

Na semana que passou, um vídeo fez sucesso na internet e repercutiu pelo país afora. Trata-se da gravação, em São Paulo, de um ladrão que tentou roubar uma moto Hornet e foi baleado por um policial que passava na hora do assalto. Ele levou dois tiros, teve de ser hospitalizado e seu comparsa acabou fugindo. As imagens foram feitas pela própria vítima com uma câmera instalada no capacete. Ao desfecho, a vítima agradece o policial pelas balas ao ladrão.

__Obrigado polícia (pausa). Obrigado polícia, obrigado mesmo. (pausa) Vai roubar agora no inferno maluco.

O episódio incentivou muito debate nas redes sociais. Mais defesas e ataques apaixonados do que necessariamente reflexão sobre o acontecimento a partir das suas causas e consequências. No centro da discussão, apoio e condenação à ação do policial que disparou contra o ladrão. Pelo nível das manifestações nas redes sociais, o fato causa algumas inquietudes. Arrisco algumas.

1) O custo de uma moto Hornet varia, conforme o modelo, ente R$ 30 mil e 35 mil. Portanto, o bem material vale mais que uma vida, principalmente, se essa vida tiver sido perdida para o crime. Afinal, bandido bom é bandido morto. Quem defende esse raciocínio costuma dar valor à vida dos outros, a partir dos seus conceitos, preconceitos e sua própria vivência. 

2) Muitos aplaudiram a cena do ladrão sangrando no asfalto porque o vagabundo não quer trabalhar para comprar sua própria motocicleta, preferindo roubar a dos outros. Esse discurso é antigo. Só não trabalha quem não quer, como se tivesse emprego para todos e bastasse ter uma ocupação remunerada para comprar o que é oferecido pelo mercado. 

3) Neste contexto, as pessoas não costumam debater a qualidade e as condições do trabalho, nem o salário do trabalhador. Este é suficiente para comprar o que a publicidade anuncia? Você que lê esse texto e tem trabalho comprou o carro e a casa que queria, ou comprou o carro e a casa que podia comprar? Portanto, só trabalhar para ter não é a resposta para tudo.

4) Conforme os noticiários sobre o ocorrido, a vítima tem o hábito de gravar seus passeios em sua Hornet branca para publicar na internet. Na era da exposição on-line, a vaidade ganha acesso em banda larga, milhares de curtidas e compartilhamento em pouco tempo. Sim, a inveja existe. Porque também existe a ostentação. Aliás, essa é uma característica típica das sociedades capitalistas. Ostentar os próprios bens. Meu carro é melhor. Minha casa é maior. Meu apartamento é mais caro. A exibição atrai a curiosidade. E também a maldade alheia.

5) O policial que estava no lugar certo e na hora certa – para a vítima; e no lugar errado e na hora errada – para o ladrão, também foi aplaudido. Não tenho condições de discorrer se – do ponto de vista técnico – o policial agiu de forma errada ou acertada, mas me inquieta o aval da sociedade para que a polícia mate. Qualquer um pode ser a vítima, não é não Amarildo?

6) Sim, muitos bandidos entram para o crime por falta de oportunidade na vida. Para muitos desses, as políticas sociais são necessárias, inclusive, como medida de prevenção à violência. No entanto, existe uma parcela que faz opção pela maldade. Não quer benefício social porque o desenvolvimento enquanto cidadão é lento. O assalto rende frutos de forma mais rápida. O que fazer com quem opta por ser mau?

7) Quando uma sociedade valoriza o ter sobrepondo-se ao ser, vídeos como esse não são apenas efeitos colaterais. São sintomas de uma sociedade doente que paga pelo preço de suas escolhas. Portanto, ladrões e vítimas coexistem num mesmo processo que em todos são responsáveis, em que são causa e consequência de si mesmos.