quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Choque. Indignação. Nojo.

Esses são os sentimentos que me abatem em virtude do incêndio que matou mais de 230 jovens em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no último domingo.

Choque porque ninguém espera uma catástrofe dessa proporção quando jovens saem para se divertir com amigos e curtir a noite da cidade.

Choque porque é uma estupidez perder vidas jovens (e não jovens) por causas que podem e devem ser evitadas.

Choque pelas imagens de corpos espalhados e gente marretando as paredes da boate para resgatar sobreviventes.

Indignação porque procedimentos básicos de segurança foram ignorados pelos donos da boate.

Indignação porque a fiscalização no Brasil é falha e o saldo das mortes também deve ser debitado junto ao poder público.

Indignação porque os promotores da festa venderam mais ingressos do que a boate comportava. 

Nojo do uso político que estão fazendo da tragédia seja para angariar simpatizantes seja para atacar adversários.

Nojo da cobertura espetacular de alguns veículos e programas que parecem cobrir um show pirotécnico de réveillon.

Nojo de muitos brasileiros que se dizem religiosos, que acreditam em Deus e atribuem ao incêndio, via redes sociais, a uma "colheita feita pelo diabo".

Choque. Indignação. Nojo.

Ainda ficaremos chocados com catástrofes e mortes que poderiam ser evitadas.

Ainda ficaremos indignados com a falta de cumprimento das normas pelos empresários, pela ineficiência do poder público e pela falta de preparo dos promotores de eventos.

Ainda ficaremos enojados com o uso político das tragédias, com a cobertura de parte da mídia e com pessoas que dizem acreditar em Deus e ao abrir a boca O envergonha e O entristece.

Choque. Indignação. Nojo.

Com o passar dos dias, os sentimentos são amenizados e tudo volta à normalidade, menos para familiares e amigos das vítimas da tragédia de Santa Maria, que terão de aprender a conviver com a dor da perda.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Inquietudes (151) do Rei

Existem muitos tipos de fila em nossa sociedade.
Todos os tipos são ruins.
E um é o pior.
É o fila da puta.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O ex-coração peludo?

Muitos ex e atuais alunos consideram-no um coração peludo. Como professor, ele não aceita trabalho fora do prazo; atribui zero quando necessário e não sente remorso, não abona faltas quando não respaldadas em lei e não sofre mais se o aluno reprova no TCC. Se tivesse feito o mínimo passava, certo? Além disso, o aluno pode ter 25% de faltas pra que? Para situações que não são cobertas pela legislação.

Também, há estudantes que abusam. Matam a vó mais de uma vez, ficam doentes com frequência, colocam a culpa no pen-drive, na impressora, no amigo e ainda dizem que não sabiam que não podiam copiar trabalho alheio. Alguns acusam-no de não ser bonzinho, mas ele prefere ser justo e - quando justiça é feita - torna-se um coração peludo.  

De todas as características de uma cirurgia cardíaca: dores, restrição de movimentos, abstinência sexual (forçada) temporária (ainda bem!); remédios e mais remédios, uma chama a atenção. O alerta é dado pela psicóloga Maria Tereza Carvalho, do Hospital do Coração. A cirurgia cardíaca mexe com a família toda, que fica emotiva. É comum você se emocionar com mais frequência.

E não é que ela tem razão! Ao ir para o hospital no dia anterior à cirurgia, ele chorou pela primeira vez. Tinha medo de não voltar e deixar a Marlene, o filho Otávio e os filhos-enteados Maíra e Lucas. Medo de ser esquecido. Quando alguém morre, a comoção acontece nos primeiros dias, mas a rotina faz tudo se encaixar. Para a maioria, o morto é encaixado no esquecimento. A rotina é perversa com quem vai. 

Já na preparação, outra psicóloga pergunta de seus temores. Ele repete o medo de não voltar e também o choro agarrado às mãos da Marlene. O choro de emoção volta a se repetir em outras ocasiões, já depois da cirurgia. Com a Marlene na UTI e em várias vezes em casa; com a filha-enteada Maíra que foi visitá-lo no hospital; ao ver cenas do Profissão Repórter, que contava o drama de crianças e idosos internados (para sempre) em hospitais e que não recebem visitas; ao acompanhar uma apresentação de música gospel no hospital; no jantar do dia 31, quando nem conseguiu dizer direito, porque a voz empasletou, que ama a família.

É um choro comovido, de emoção mesmo. Não é um choro de culpa, de transferência de responsabilidade ou de questionamento: por que comigo? O choro vem; é uma emoção que se aflora de forma natural. Não precisa de explicação nem recibo. 

A emoção está ligada à sua religiosidade, que ele sempre exerceu, rezando diariamente e pedindo para fazer o bem, mesmo quando reconhecesse algum sentimento pouco cristão. Afinal, ninguém é 100% bom nem 100% ruim. Como diria Zeca Baleiro, os santos já foram homens de pecado. Mesmo exercendo sua religiosidade, ele admite suas dificuldades em estabelecer vínculos com as denominações, ou seja, com a igreja. 

É católico por formação: Batismo, Crisma, Consagração, Comunhão. Realmente, acredita em Deus, nos santos, nos anjos e no poder da reza. Com o santo, estima São José, o guardião da Sagrada Família. Ele identifica-se com o homem que aceitou ser na terra o pai de Jesus e, por isso, não acredita em meras coincidências. Com a cirurgia aproximou-se de Nossa Senhora Aparecida, de quem a mãe Iracy é devota ferrenha.

Por falar em choro e religiosidade, ele emociona-se sempre que ouve "Anjos de Deus", do padre Marcelo Rossi, música que ouviu recentemente, pela primeira vez, num canal de música na TV a cabo. Do padre Marcelo Rossi? Essa figura a quem ele acusou ser mais um homem da mídia e menos um homem de Deus? Pois é... consequências emotivas de uma cirurgia cardíaca.

Ele não acredita que vai se tornar fã da obra musical do padre Marcelo Rossi, mas admite que "Anjos de Deus", principalmente na voz de Sérgio Reis, numa gravação disponível no Youtube, faz um bem danado à alma e ao coração recém-reformado. Afinal...  

Se acontecer um barulho perto de você
É um anjo chegando para receber
Suas orações e levá-las a Deus
Então abra o coração e comece a louvar
Sinta o gosto do céu que se derrama no altar
Que um anjo já vem com a benção nas mãos

Tem anjos voando neste lugar
No meio do povo e em cima do altar
Subindo e descendo em todas as direções
Não sei se a igreja subiu ou se o céu desceu
Só sei que está cheio de anjos de Deus
Porque o próprio Deus está aqui  

Depois da cirurgia, ele reconhece estar mais próximo de Deus. Nada como um problema grande para aproximar o humano do Divino. Talvez seja uma estratégia Dele para conosco. E dá certo! Enfim... ele está feliz e não sente vergonha por chorar de emoção nem por causa de uma música do padre Marcelo Rossi. 

Então quer dizer que ele é um ex-coração peludo? Ele não tem a resposta definitiva. As aulas na universidade retornam em fevereiro de 2013. Seus atuais alunos poderão confirmar - até o final do semestre - se na cirurgia, a equipe do doutor Kengo Baba - além de trocar a válvula mitral - também depilou seu coração.

A Rainha

As recomendações do pós-operatório são muitas e devem ser seguidas rigorosamente. Alimentação saudável; dormir somente de barriga para cima nos próximos dois meses; exercícios diários de fisioterapia respiratória; caminhadas leves; relação sexual somente depois de 30 dias da alta (por que algumas orientações são mais difíceis de serem cumpridas que outras?); dormir bastante; evitar escadas e não carregar peso.

Mais fáceis ou mais difíceis, o fato é que as orientações são suportáveis, ao lado da Marlene, a Rainha do Rei. A esposa dele é de uma força imensurável. Ela o faz parecer dependente de tudo. E nesse pós-cirúrgico é mesmo. Ela o ajuda a levantar da cama e do sofá porque o tórax não tem forças.

O banho é outra aventura. Nos primeiros dias ela o esfrega e o enxuga. Tudinho. Santa intimidade! Ele até se diverte. Afinal não é sempre que terceiriza o enxugamento das partes. Ela põe a mesa e ainda serve seu prato. Dirigir? Só em sonho. A atividade estará liberada somente depois de dois meses.

E o mais impressionante, Marlene faz tudo isso com um sorriso sincero e satisfeito nos lábios. Nós homens precisamos - urgentemente - aprender com as mulheres e seu desprendimento desinteressado. Somos nada sem elas. Nada mesmo. E olha que ele não é um marido padrão; participa e muito da vida doméstica, mas nem se compara à Rainha.

Desde o dia da internação, ela dá conta de tudo. De acompanhar os dez dias de internação; de cuidar da casa - a Regina, funcionária, está afastada também por causa de uma cirurgia. E cuidar da casa pressupõe planejar e executar o abastecimento; elaborar almoço, lanches e jantar; dar uma geral quando a diarista temporária não vem; cuidar da roupa, na máquina e no ferro elétrico e ainda pensar em estratégias para distrair o Otávio, em férias. Nós homens precisamos - urgentemente - aprender com as mulheres e seu desprendimento desinteressado.

Marlene faz tudo isso e tira de letra. Também não reclama de acordar no meio da noite e ajudá-lo a levantar para fazer xixi; buscar analgésico ou água, arrumar o lençol ou os travesseiros de apoio. Nós homens precisamos - urgentemente - aprender com as mulheres e seu desprendimento desinteressado.

A cirurgia cardíaca aproximou o Rei e a Rainha ainda mais. Eles não têm dúvida que esse cuidado tem apenas uma fonte: o amor. Afinal essa relação tem mais de 17 anos. Vez e outra, ele pensa nas razões dela para fazer isso tudo com tanto desinteresse. Quer dizer nem tanto desinteresse. Ela fala com um sorriso deliciosamente sem vergonha.

__Esse cuidado vai sair caro pra você!

E ele não vê a hora de poder pagar essa dívida.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A febre e a febrícola

Ele recebe alta no domingo de manhã. Enfermeira e técnicos de enfermagem da unidade desejam melhoras e dizem que ninguém merece passar o Natal internado. Ele desdenha.

__Você vai trabalhar neste período?

Um diz que vai fazer plantão no dia 24.
Outro no dia 25. Inteiro.

__Se vocês vão trabalhar, então quem vai dar trabalho pra vocês?

É... faz sentido.

Depois de uma semana internado, ele vai para casa. A claridade do dia é intensa demais. Assusta as retinas dos olhos verdes desacostumados. Na UTI e no quarto a iluminação não agride os olhos. A penumbra é até reconfortante, mas contrasta com o dia ensolarado, que parece dar-lhe um tapa nas vistas. Nada que os óculos escuros não resolvam. Até dentro de casa. 

A esposa dirige com cuidado. Ele tem medo do cinto de segurança. Não consegue trançar sobre o peito serrado, então segura a parte de cima com as mãos.

__E se alguém atravessar a frente do carro e a Marlene frear de forma brusca?
__E se alguém não parar e bater atrás do carro?
__E se alguém bater na sua lateral?

Eita! por que nessas horas a mente só projeta desgraça? Não acontece nada disso e ele chega a casa em segurança. No almoço, o tempero lembra ainda o hospital. Nada de condimentos. Um filé de tilápia com batatas e muito azeite. Vamos ver se o extra-virgem faz bem mesmo ao coração! Ele não economiza.

Come e dorme. Assim, foi o domingo. No lanche no finalzinho da tarde, a Marlene esbarra na testa dele. Febre. O termômetro confirma 38º. Apreensão. Febre em paciente de cirurgia cardíaca não é bom sinal. Do jeito que está, bermuda de pijama e camisa sem mangas, é levado ao hospital.

A médica plantonista quer investigar. Febre é sinal de infecção. E isso não é uma coisa boa. Exame de urina. Raio X de pulmão. Exame de sangue. Este registra uma leucocitose. Os leucócitos - células de defesa - estão em prontidão para combater a infecção. A plantonista contacta o cirurgião Luiz Takeshi, membro da equipe, que dera alta naquele manhã. Ele explica que a leucocitose é normal nesses casos porque o organismo está se defendendo. 

Ele vai para casa com a receita de um antibiótico de largo espectro. Se a febre não ceder até quarta, o paciente deve voltar ao hospital. Segunda-feira, ele tem febrícolas, de 37,1º a 37,5º o dia todo. Na terça, o dia corre bem. Mas a febrícola volta no começo da noite. E vai embora do jeito que veio. A quarta-feira repete o padrão do dia anterior. Dia sem febre. Febrícola no começo da noite. 

Na quinta-feira, ele contacta o cirurgião Kengo Baba, que pede uma visita na manhã seguinte ao hospital. Preocupado, o médico vai segurá-lo para investigar.

__Não gosto de febre.

Na lista de exames: urina, raio X de pulmão, básicos de sangue, hemocultura e ecocardiograma trans-esofágico. Ele passará a ser acompanhado pelo infectologista André Luiz Bortoliero. Os exames de urina, raio X de pulmão, sangue e hemocultura dão nada. Não há infecção. 

Mas o ecocardiograma trans-esofágico, que investiga o coração com uma câmera garganta adentro mostra a formação de um trombo. O coágulo poderia comprometer a válvula nova e, caso se soltasse, fazer um estrago danado. Nossa... como o ser humano é frágil! 

__Essa febre, foi para trazer você ao hospital e descobrirmos esse trombo.

A constatação é do cirurgião Kengo Baba. Coisas que a razão desconhece, mas a fé domina. Nem precisa de explicação. A febrícola cumpriu o seu papel. Amém!

Para combater o trombo é necessário afinar o sangue, anticoagulante pelos próximos meses. No hospital, além de um comprimido, duas injeções na barriga. A danada arde e não se pode coçar para evitar hematomas. 

O palmeirense André Luiz Bortoliero, o infectologista, diz que os exames estão bons. A leucocitose baixou, o PCR (Proteína C Reativa) está normal e na hemocultura cresceu nada. Depois de três dias internado, ele recebe alta a ponto de comemorar a passagem de ano em casa, que ele nem vê. Quando 2013 chega, ele está dormindo.

O quarto

Depois de quase 100 horas na UTI, ele é transferido para o quarto. Anda com dificuldades. Respira com calma. Espirrar e tossir nem para ganhar dinheiro. O esterno ligado por fios de aço não recomendam as atividades. Vai doer e muito. Por isso, ele engole a tosse, agradece ao espirro e pede para voltar em dois meses. 

Em cadeira de rodas, ele sai da UTI. Agradece o pessoal da enfermagem e o médico plantonista. Seu sorriso não disfarça a felicidade de poder ir para um quarto, uma enfermaria com dois leitos. Café da manhã com café e leite. É demais. Mini-pão francês e margarina. 

"__Delícia, delícia // Assim você me mata", diria um sertanejo universitário que ainda não foi fazer estágio no exterior. Que pena! 

Poder comer sentado, ficar largado numa poltrona, ir ao banheiro, mesmo acompanhado, tomar banho, sendo esfregado e enxugado por outra pessoa. O preconceito não tem vez. Afinal, se o preconceito fala mais alto é porque o paciente já está bem e não precisa mais de cuidados de terceiros.

A televisão também é uma delícia. Desligada, então, um orgasmo. Que coração recentemente aberto aguenta tanta violência até na hora do almoço? Ele ainda fica tonto com a edição frenética dos programas e dos anúncios. Ainda bem que inventaram o controle remoto. Off. E não se fala mais nisso.

Conforme vai melhorando, ele sente necessidade de caminhar. As sessões - matutina e vespertina - de fisioterapia são pretextos para deixar o quarto e explorar o hospital. Corredores à esquerda. À direita. Elevador que, ainda bem! não eleva a dor. Eita trocadilho infame! A decoração do Hospital do Coração lembra mais um hotel que uma unidade hospitalar. E isso é bom. Ajuda na recuperação. O paciente sente-se mais humano e menos doente.

Conforme vai melhorando, sente mais fome. Café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar, lanche da noite. As refeições são feitas da forma como devem. Sem pressa. Sentir o sabor, mais dos alimentos e menos dos temperos. Afinal, comida de hospital não abusa dos condimentos. Numa situação limítrofe de uma cirurgia cardíaca, a comida ganha sabores mesmo sem tempero.

A evolução do paciente é boa, a equipe fica contente. Ele mais ainda. Os acompanhantes que se revezam, também: a esposa, o pai, a mãe, o filho-enteado e o cunhado. Afinal, cuidado é cuidado. Em pouco tempo, ele vai para casa, mas vai acabar voltando ao hospital mais cedo do que gostaria.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

As 97 horas na UTI - parte II

Nas primeiras horas da UTI, todos os cheiros são mais fortes. Ele os sente com muita intensidade, mas não identifica de onde vem. Seriam os perfumes da técnica, do técnico, da enfermeira, do médico, do fisioterapeuta, da psicóloga? Seria a espuma usada para lavar as mãos. Como esses profissionais de UTI lavam as mãos! Seria o cheiro da luva calçada exclusivamente para a troca do curativo? Seria o gel usado para desinfecção das mãos?

Todos parecem desfilar as mesmas fragrâncias. Intensidade olfativa que diminui com a retirada dos tubos da traqueia. Ser extubado é um alívio. Pode-se respirar pelo nariz, sem o desconforto de um cano garganta adentro. Durante o período de entubação ele sonha com um copo de água gelada. Ficou sem tomar água da noite de domingo à madrugada de terça-feira, cerca de 30 horas. Nunca esteve num deserto, mas acredita ser a mesma sensação. A água que tanto quer vem imagem mental de copo d´água, mangueira aberta, chuveiro, piscina. 

Ao ser extubado, pede água. Pelo amor de Deus, um copo, uma caneca, uma garrafa, uma bacia, um balde, um cocho. Como é recente a extubação, não pode beber aos goles. Por isso, a técnica de enfermagem pinga gotas de uma seringa. Valiosíssimas. Não perde uma. Lambe os lábios à procura delas.

Água à vontade, somente na manhã da terça, quando pede um copo para cada técnico que passa em frente ao leito. Toma até ter náuseas. É hora de beber menos. Vomitar vai exigir do tórax uma força que ele não tem. Afinal o esterno serrado está unido por fios de aço. Tossir é uma atividade fora de cogitação.

As horas vão passando e ele vai melhorando. O dreno sai da barriga. Que alívio! Menos dor. Afinal, fazer fisioterapia respiratória com o dreno próximo ao diafragma não é uma tarefa simples. Exige demais. Demais mesmo. No dia seguinte, tiram a sonda urinária. O pinto quer agradecer. Sem forças. Sua condição acabrunhada vai perdurar por longos outros dias. 

A refeição, acompanhada por nutricionistas, ganha sabores mesmo insossa. A sopa, o arroz, o feijão, a salada, o cozido de legumes, o picadinho de carne, o suco. No almoço ou no jantar, comer é uma aventura, separada pelos lanches: bolacha, chá ou vitaminas. Delícia que passa despercebida no dia-a-dia, mas que na UTI ganha contornos novos. 

Tomar banho de chuveiro. Fazer xixi no vaso. Em pé ou sentado, sem constrangimento. Sentar numa poltrona para ver o tempo passar. Fazer as refeições, levando a comida à própria boca. São coisas simples, mas que se configuram em grandes conquistas para um paciente de UTI. Ele valoriza o banal. Ele dá importância a coisas triviais. Afinal são o banal e o trivial que mostram a necessidade de continuar lutando para viver.

As 97 horas na UTI - parte I

Vulnerabilidade e autonomia. Vulnerabilidade total. Autonomia zero. Essa é a condição do paciente de uma UTI. Ele tem o corpo, mas não tem o controle sobre ele. Ele tem vontades, mas depende da prescrição médica. Ele tem necessidades, muitas coletadas por uma sonda ou um dreno. 

Ele vai para a UTI, no começo da tarde de uma segunda-feira e deve deixar a unidade no meio da tarde da sexta, numa jornada de quase 100 horas. Na UTI, ele vê o tempo passar sem se preocupar com o próprio tempo. Ouve histórias de vidas contadas em fragmentos. O pelotão de choque do cuidado ao paciente é formado pela enfermagem: seus enfermeiros e técnicos, que carregam uma missão importante: cuidar do paciente, do doente. 

Cada profissional numa UTI tem seu papel e cumpre uma função importante, mas no cuidado ao paciente - e não à doença, ou frente numa UTI - chama a atenção o pessoal da enfermagem. Na unidade, eles são os soldados, estão na linha de frente do cuidado. 

Os técnicos são os anônimos, diferentemente de outras categorias conhecidas pelo nome e sobrenome, mas suas histórias impressionam. Como a da técnica que há mais de 20 anos trabalha em UTI e não pensa em outro setor. Como a do técnico que largou um emprego e, durante um tempo, buscou produtos no Paraguai para revender. Renda complementar.

Muitos dobram plantões, cumprem jornadas duplas, até mesmo triplas. Diferentes empregos. São, na escala do status da saúde, a base da pirâmide. Alguém chega a professar que, se não houver maior valorização profissional, em pouco tempo não haverá técnicos disponíveis no mercado. Situação crítica que já atinge muitos hospitais.

Seguindo protocolos e prescrições, os técnicos medicam, verificam pressão, frequência cardíaca, saturação do oxigênio. Trocam os curativos, as fraldas, dão banho e vestem. Ajudam o paciente sem forças a levar a colher de sopa à boca. Auxiliam o mesmo paciente sem forças a sentar no próprio leito ou numa poltrona.

Esses profissionais no cuidado diário ajudam a diminuir a vulnerabilidade do paciente e a aumentar a sua autonomia. Da experiência que teve na UTI, ele ainda se impressiona com a habilidade dos técnicos no banho diário. Impossível tomar banho deitado, espetado por cateteres e por sondas. Impossível nada. 

Dois técnicos de enfermagem mostram uma agilidade assombrosa. Jogam água morna, lavam seus cabelos, esfregam sabonete nas pernas, costas, tórax, rosto. E quando chegam à bunda do paciente, pedem licença para lavar as partes. Na vulnerabilidade, o paciente não tem tempo para formalizar a licença. As partes já estão lavadas. Mesmo assim, o pedido sem a autorização devida, faz parte de um acordo. Um acordo implícito que significa respeito à dignidade do paciente.

A transferência para a UTI

Ele acorda no meio da tarde na UTI, depois de umas seis horas no centro cirúrgico. Acordar é jeito de falar. Quando mexem, ele reage, abre os olhos, aperta as mãos, balança a cabeça. Atende aos chamados da equipe da unidade, no que é definido como paciente responsivo. 

Com um tubo goela abaixo é difícil falar qualquer coisa. A sonda continua extraindo urina. O dreno vaza as secreções da cirurgia, enfiado no meio da barriga. Um fio fica enroladinho caso precise instalar um marca-passo. Um cateter perto da clavícula esquerda pinga os medicamentos necessários. E não são poucos. O suporte de soro não tem mais vagas.

A UTI é um lugar vigiado. Há somente três horários de visita por dia de meia hora cada. Por lá passam os pais dele, seu Valdemar e dona Iracy, assustados com tanto encanamento instalado no filho. Passa a Maíra, a filha-enteada, envolta num manto de alegria e emoção. Eles choram juntos. 

A Ogle aproveitou uma visita ao hospital e foi acompanhar a evolução do paciente para mandar notícias à família. E claro, a Marlene, a Rainha do Rei. Ela foi todos os dias e em alguns mais de uma vez. Levava as notícias de casa, contava como estavam todos, dava o relatório de quem ligou, e claro de quem não ligou, para saber da cirurgia. Ele tem boa memória e gravou o nome de todos. Os que ligaram e os que não ligaram. Há!

O cunhado Lafayette, gente fina, não reconhece o lugar como uma UTI. É verdade, está mais para uma enfermaria com cuidados redobrados. O ambiente humanizado do Hospital do Coração ajuda o paciente a recuperar-se. As equipes médica, de enfermagem, de fisioterapia, de psicologia, da copa e da limpeza cumprem os protocolos. Cuidados com o paciente. Rigor no controle das infecções. Essas são danadas e preocupam mais que a própria doença ou o  procedimento realizado.

Ele, com o coração em recuperação, ocupa um leito com outros pacientes da UTI. Troca de válvula cardíaca, vítima de infarto, de acidente vascular cerebral, de hematoma subdural, entre tantos outros. Reinaldo, Luiz, Mauro, Aurélio e outros pacientes esperam pela recuperação pacientemente. Em alguns momentos, nem tanto.

Histórias de vida suspensas momentaneamente. Na horizontal, todos são iguais. Precisam de cuidado. Necessitam de auxílio de um profissional de saúde para as coisas mais básicas. Numa UTI, o paciente convive com duas situações. Vulnerabilidade e autonomia. Vulnerabilidade total. Autonomia zero. Esses são temas de "As 97 horas na UTI parte I e parte II".

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A cirurgia

Procedimentos autorizados, a cirurgia dele será no Hospital do Coração. Antes de falar da operação, ele tem um recado aos amigos neoliberais que, logo, vão criticá-lo por ter feito a cirurgia por convênio e não pelo Sistema Único de Saúde.

__Ué! Você não defende tanto o sistema, estudou até no mestrado, por que não operou pelo SUS?
__Exatamente porque defendo que o paciente do SUS tenha o mesmo tratamento que tive. Eu defendo o direito de todos terem sapato, mas nem por isso preciso andar descalço. Preciso? 

Recado dado aos amigos (outros nem tanto assim) neoliberais, o paciente é encaminhado para a cirurgia. Apresenta-se no dia anterior para a preparação, composta por jejum, limpeza intestinal e tricotomia.

O jejum, ele tira de letra. A limpeza intestinal causa desconforto. Afinal não é todo dia que um técnico de enfermagem enfia, literalmente, 100 ml de um líquido em você. Mas para quem vai abrir o coração e remendá-lo, limpar o intestino por baixo não abala a masculinidade.

Duas horas antes da cirurgia, o mesmo técnico - aquele dos 100 ml -volta com uma maquininha para a tricotomia. Não - decididamente - eles não farão tricô. A maquininha era (e foi) para raspar todos os pelos do corpo. Alertado pela esposa-enfermeira do que seria feito, na noite anterior ele se antecipa e raspa - por conta - a bolsa escrotal. Isso mesmo, o saco ficou lisinho, sem um pelo para testemunhar o desmatamento capilar que o técnico faria na manhã seguinte. Aquela maquininha no saco arrancaria não só os pelos, mas também as bolas. Por isso, ele optou pela tradicional lâmina.

Mesmo se considerando um careca torácico, não teve jeito, os poucos pelos do peitoral, que não é um peitoral assim, não ofereceram resistência alguma. As próximas vítimas, as pernas. Os pelos sucumbiram aos montes. As axilas foram domadas e, por fim, a púbis. Ele mesmo tratou de tirar a barba rala que ostenta há uma década. 

__Ainda bem que pelo é igual capim. Cresce rapidamente. 

Banho tomado com anti-séptico. Esfrega aqui. Esfrega ali. Tudo lisinho. Ele se seca e volta à cama. O técnico de enfermagem - aquele dos 100 ml e da maquininha de desmatamento capilar - precisa instalar uma sonda urinária. O pinto pelado - que já estava escondido - a essas alturas acabrunha-se ainda mais. Sem negociação. O pinto engole de uma vez a sonda que vai à bexiga cumprir sua missão.

No quarto, ele está com a esposa e os pais. A tensão é visível. A cirurgia, que é segura, assusta pela complexidade. Em letras crônicas, será feita no peito dele uma incisão de uns 20 cm; o esterno será serrado e separado; o coração exposto será parado para a manipulação necessária; a circulação será extracorpórea, ou seja, uma máquina fará a manutenção do sangue no corpo dele; a válvula será trocada e a comunicação entre os átrios, fechada. Tudo pronto, partida no coração, o esterno do paciente será juntado e fixado com fios de aço; incisão fechada. 

Ele sabe de tudo isso porque conversou com o cirurgião chefe Kengo Baba, que deu todos os detalhes nas consultas pré-operatórias. Antes da cirurgia, o cirurgião Rafael Santoro, membro da equipe, fornece outras informações que complementam as que ele já tem. E a cirurgia? Os médicos disseram que correu tudo bem, mas ele não viu. Estava anestesiado. Ainda bem.

A indicação cirúrgica

Ele faz acompanhamento com um cardiologista clínico desde 2006. O acompanhamento consiste em realizar periodicamente um ecocardiograma para verificar a situação valvar. Se aumentar a condição do prolapso, é bisturi e serra na certa.

Passa 2006. Entra 2007, que também vai embora. O mesmo com 2008. A situação está sob controle. Vem 2009. Vai 2009. Prolapso comportado. A frouxidão ainda não aumentou a ponto de uma indicação cirúrgica. 2010 entra. 2010 sai. 2011 preocupa o cardiologista. 

__Acredito que teremos que fazer a cirurgia mais cedo que imaginávamos.
__Tudo bem, se tiver que fazer, vamos em frente.

De 2012 não passa.

__Teremos de abrir.
__Como vai ser?    
__Dependendo da condição da sua válvula, pode ser feita uma plástica nela mesma ou trocar por uma biológica ou uma metálica.
__Qual a diferença?
__A biológica não tem rejeição enquanto que a metálica - que é para o resto da vida - exige anticoagulante também para o resto da vida.

A válvula biológica é feita de material porcino. Eita! mais uma expressão sofisticada. Desta vez para material suíno. Isso mesmo, a válvula é feita de material extraído do porco. 

Ainda bem que a família dele é palmeirense e, por tradição, ele tem grande simpatia pela porcada, mesmo na série B. Os médicos garantem que a prótese porcina é de material classe A, ou seja, de elite, mesmo com o porco rebaixado. 

Realizar uma plástica na válvula ou trocá-la? A resposta virá somente quando abrir o coração. Literalmente. É no momento da cirurgia que a equipe vai optar pelo procedimento mais adequado.

Ele vai consultar o cirurgião que confirma o diagnóstico.

__É caso mesmo para a cirurgia. 
__O que o senhor indica? Válvula biológica ou metálica?
__Eu indico a biológica. Se fosse em mim, eu colocaria a biológica. 

Fim de consulta.

O diagnóstico

Ele recebeu o diagnóstico em 2003. Prolapso da Válvula Mitral. O tal prolapso é conhecido popularmente como sopro no coração. Alguns têm um soprinho e vão ter uma vida normal sem que seja atormentado. Outros terão um sopro moderado, talvez com algumas restrições, mas viverão bem também. Outros passarão de sopro para ventania e vão, necessariamente, precisar de uma cirurgia. Este é o caso dele, segundo o cardiologista.

__Mais cedo ou mais tarde, vamos precisar abrir o seu coração para corrigir essa anormalidade. 

A Sociedade Brasileira de Cardiologia explica que "a válvula mitral normal compõe-se em dois finos folhetos localizados entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo. [...] Quando o ventrículo se contrai, os folhetos da válvula mitral se ajustam perfeitamente, prevenindo o refluxo de sangue do ventrículo esquerdo para o átrio esquerdo. Quando os ventrículos se relaxam as válvulas se abrem permitindo que o sangue oxigenado dos pulmões encha o ventrículo esquerdo." 

No caso dele, a anormalidade da mitral é congênita, de nascença mesmo. Eita, já nasceu com o coração soprando ou como diria sua mãe: assoprando. E não está errado! A Língua Portuguesa aceita as duas versões. Quem tem um sopro no coração pode dizer - sem medo de errar - que tem um assopro.   

Nos pacientes que tiveram o diagnóstico de prolapso ou sopro, a válvula mitral não funciona como o descrito tecnicamente acima. A mesma Sociedade Brasileira de Cardiologia explica que "o aparelho mitral (valvas e cordoalhas) é acometido por um processo chamado degeneração mixomatosa, onde a estrutura protéica do colágeno, o tecido que compõe as valvas, leva ao espessamento, alargamento e redundância dos folhetos e cordoalhas."

A explicação técnico-científica abusa de uma linguagem sofisticada para rotular o que pode, popularmente, ser definido como: válvula frouxa. Isso mesmo, espessamento, alargamento são sinônimos, neste caso, de frouxidão, de dilatação, de extensão, enfim... de moleza. Tudo bem, ainda é preferível falar ou ouvir que se tem um prolapso na válvula mitral a falar ou ouvir que se tem uma válvula cardíaca frouxa. 

O problema do prolapso valvar, outra expressão sofisticada - ainda bem! - é que "quando o ventrículo se contrai, os folhetos redundantes projetam-se (prolapsam) para o átrio esquerdo, chegando às vezes a permitir a regurgitação do sangue para dentro do átrio esquerdo. Quando importante, a regurgitação mitral pode levar à insuficiência cardíaca e à anormalidades do ritmo do coração."

Em letras crônicas, isso significa dizer que a válvula não fecha totalmente, permitindo que o sangue volte, podendo inchar o coração até que isso comprometa suas funções, levando a problemas ainda mais sérios. Portanto, o paciente diagnosticado com tal anormalidade - não é uma doença - precisa tomar cuidados - aí sim - para evitar enfermidades.

A profilaxia antes de procedimentos odontológicos é obrigatória. Em letras crônicas, a profilaxia consiste em tomar antibióticos para evitar infecções que podem causar doenças do coração, como a endocardite, "uma doença grave, que resulta usualmente da invasão de microorganismos (bactéria ou fungo) em tecido endocárdico ou material protético do coração." 

Geralmente, os diagnosticados com prolapso da válvula mitral não apresentam sintomas e é aí que pode dar merda. Quando os sintomas aparecem pode ser tarde demais. Por isso, quanto antes realizar o diagnóstico, melhor para o portador do tal prolapso.

Ele é um paciente assintomático, ou seja, não apresenta os sintomas que já podem comprometer as funções do seu coração. E para corrigir tal anormalidade, somente uma cirurgia. Tema para o próximo texto.