quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A cirurgia

Procedimentos autorizados, a cirurgia dele será no Hospital do Coração. Antes de falar da operação, ele tem um recado aos amigos neoliberais que, logo, vão criticá-lo por ter feito a cirurgia por convênio e não pelo Sistema Único de Saúde.

__Ué! Você não defende tanto o sistema, estudou até no mestrado, por que não operou pelo SUS?
__Exatamente porque defendo que o paciente do SUS tenha o mesmo tratamento que tive. Eu defendo o direito de todos terem sapato, mas nem por isso preciso andar descalço. Preciso? 

Recado dado aos amigos (outros nem tanto assim) neoliberais, o paciente é encaminhado para a cirurgia. Apresenta-se no dia anterior para a preparação, composta por jejum, limpeza intestinal e tricotomia.

O jejum, ele tira de letra. A limpeza intestinal causa desconforto. Afinal não é todo dia que um técnico de enfermagem enfia, literalmente, 100 ml de um líquido em você. Mas para quem vai abrir o coração e remendá-lo, limpar o intestino por baixo não abala a masculinidade.

Duas horas antes da cirurgia, o mesmo técnico - aquele dos 100 ml -volta com uma maquininha para a tricotomia. Não - decididamente - eles não farão tricô. A maquininha era (e foi) para raspar todos os pelos do corpo. Alertado pela esposa-enfermeira do que seria feito, na noite anterior ele se antecipa e raspa - por conta - a bolsa escrotal. Isso mesmo, o saco ficou lisinho, sem um pelo para testemunhar o desmatamento capilar que o técnico faria na manhã seguinte. Aquela maquininha no saco arrancaria não só os pelos, mas também as bolas. Por isso, ele optou pela tradicional lâmina.

Mesmo se considerando um careca torácico, não teve jeito, os poucos pelos do peitoral, que não é um peitoral assim, não ofereceram resistência alguma. As próximas vítimas, as pernas. Os pelos sucumbiram aos montes. As axilas foram domadas e, por fim, a púbis. Ele mesmo tratou de tirar a barba rala que ostenta há uma década. 

__Ainda bem que pelo é igual capim. Cresce rapidamente. 

Banho tomado com anti-séptico. Esfrega aqui. Esfrega ali. Tudo lisinho. Ele se seca e volta à cama. O técnico de enfermagem - aquele dos 100 ml e da maquininha de desmatamento capilar - precisa instalar uma sonda urinária. O pinto pelado - que já estava escondido - a essas alturas acabrunha-se ainda mais. Sem negociação. O pinto engole de uma vez a sonda que vai à bexiga cumprir sua missão.

No quarto, ele está com a esposa e os pais. A tensão é visível. A cirurgia, que é segura, assusta pela complexidade. Em letras crônicas, será feita no peito dele uma incisão de uns 20 cm; o esterno será serrado e separado; o coração exposto será parado para a manipulação necessária; a circulação será extracorpórea, ou seja, uma máquina fará a manutenção do sangue no corpo dele; a válvula será trocada e a comunicação entre os átrios, fechada. Tudo pronto, partida no coração, o esterno do paciente será juntado e fixado com fios de aço; incisão fechada. 

Ele sabe de tudo isso porque conversou com o cirurgião chefe Kengo Baba, que deu todos os detalhes nas consultas pré-operatórias. Antes da cirurgia, o cirurgião Rafael Santoro, membro da equipe, fornece outras informações que complementam as que ele já tem. E a cirurgia? Os médicos disseram que correu tudo bem, mas ele não viu. Estava anestesiado. Ainda bem.

Um comentário:

Marlene Royer disse...

Reinaldo, como pode nos fazer rir num relato que deveria ser dramático?? Só você mesmo! Eu visualizei tudo, pois já trabalhei no centro cirurgico da Santa Casa e tive o privilegio de ver Dr. Kengo em ação. Um mestre operando um rei..ou melhor outro mestre! Que Deus te proteja!