sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A febre e a febrícola

Ele recebe alta no domingo de manhã. Enfermeira e técnicos de enfermagem da unidade desejam melhoras e dizem que ninguém merece passar o Natal internado. Ele desdenha.

__Você vai trabalhar neste período?

Um diz que vai fazer plantão no dia 24.
Outro no dia 25. Inteiro.

__Se vocês vão trabalhar, então quem vai dar trabalho pra vocês?

É... faz sentido.

Depois de uma semana internado, ele vai para casa. A claridade do dia é intensa demais. Assusta as retinas dos olhos verdes desacostumados. Na UTI e no quarto a iluminação não agride os olhos. A penumbra é até reconfortante, mas contrasta com o dia ensolarado, que parece dar-lhe um tapa nas vistas. Nada que os óculos escuros não resolvam. Até dentro de casa. 

A esposa dirige com cuidado. Ele tem medo do cinto de segurança. Não consegue trançar sobre o peito serrado, então segura a parte de cima com as mãos.

__E se alguém atravessar a frente do carro e a Marlene frear de forma brusca?
__E se alguém não parar e bater atrás do carro?
__E se alguém bater na sua lateral?

Eita! por que nessas horas a mente só projeta desgraça? Não acontece nada disso e ele chega a casa em segurança. No almoço, o tempero lembra ainda o hospital. Nada de condimentos. Um filé de tilápia com batatas e muito azeite. Vamos ver se o extra-virgem faz bem mesmo ao coração! Ele não economiza.

Come e dorme. Assim, foi o domingo. No lanche no finalzinho da tarde, a Marlene esbarra na testa dele. Febre. O termômetro confirma 38º. Apreensão. Febre em paciente de cirurgia cardíaca não é bom sinal. Do jeito que está, bermuda de pijama e camisa sem mangas, é levado ao hospital.

A médica plantonista quer investigar. Febre é sinal de infecção. E isso não é uma coisa boa. Exame de urina. Raio X de pulmão. Exame de sangue. Este registra uma leucocitose. Os leucócitos - células de defesa - estão em prontidão para combater a infecção. A plantonista contacta o cirurgião Luiz Takeshi, membro da equipe, que dera alta naquele manhã. Ele explica que a leucocitose é normal nesses casos porque o organismo está se defendendo. 

Ele vai para casa com a receita de um antibiótico de largo espectro. Se a febre não ceder até quarta, o paciente deve voltar ao hospital. Segunda-feira, ele tem febrícolas, de 37,1º a 37,5º o dia todo. Na terça, o dia corre bem. Mas a febrícola volta no começo da noite. E vai embora do jeito que veio. A quarta-feira repete o padrão do dia anterior. Dia sem febre. Febrícola no começo da noite. 

Na quinta-feira, ele contacta o cirurgião Kengo Baba, que pede uma visita na manhã seguinte ao hospital. Preocupado, o médico vai segurá-lo para investigar.

__Não gosto de febre.

Na lista de exames: urina, raio X de pulmão, básicos de sangue, hemocultura e ecocardiograma trans-esofágico. Ele passará a ser acompanhado pelo infectologista André Luiz Bortoliero. Os exames de urina, raio X de pulmão, sangue e hemocultura dão nada. Não há infecção. 

Mas o ecocardiograma trans-esofágico, que investiga o coração com uma câmera garganta adentro mostra a formação de um trombo. O coágulo poderia comprometer a válvula nova e, caso se soltasse, fazer um estrago danado. Nossa... como o ser humano é frágil! 

__Essa febre, foi para trazer você ao hospital e descobrirmos esse trombo.

A constatação é do cirurgião Kengo Baba. Coisas que a razão desconhece, mas a fé domina. Nem precisa de explicação. A febrícola cumpriu o seu papel. Amém!

Para combater o trombo é necessário afinar o sangue, anticoagulante pelos próximos meses. No hospital, além de um comprimido, duas injeções na barriga. A danada arde e não se pode coçar para evitar hematomas. 

O palmeirense André Luiz Bortoliero, o infectologista, diz que os exames estão bons. A leucocitose baixou, o PCR (Proteína C Reativa) está normal e na hemocultura cresceu nada. Depois de três dias internado, ele recebe alta a ponto de comemorar a passagem de ano em casa, que ele nem vê. Quando 2013 chega, ele está dormindo.

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