quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A transferência para a UTI

Ele acorda no meio da tarde na UTI, depois de umas seis horas no centro cirúrgico. Acordar é jeito de falar. Quando mexem, ele reage, abre os olhos, aperta as mãos, balança a cabeça. Atende aos chamados da equipe da unidade, no que é definido como paciente responsivo. 

Com um tubo goela abaixo é difícil falar qualquer coisa. A sonda continua extraindo urina. O dreno vaza as secreções da cirurgia, enfiado no meio da barriga. Um fio fica enroladinho caso precise instalar um marca-passo. Um cateter perto da clavícula esquerda pinga os medicamentos necessários. E não são poucos. O suporte de soro não tem mais vagas.

A UTI é um lugar vigiado. Há somente três horários de visita por dia de meia hora cada. Por lá passam os pais dele, seu Valdemar e dona Iracy, assustados com tanto encanamento instalado no filho. Passa a Maíra, a filha-enteada, envolta num manto de alegria e emoção. Eles choram juntos. 

A Ogle aproveitou uma visita ao hospital e foi acompanhar a evolução do paciente para mandar notícias à família. E claro, a Marlene, a Rainha do Rei. Ela foi todos os dias e em alguns mais de uma vez. Levava as notícias de casa, contava como estavam todos, dava o relatório de quem ligou, e claro de quem não ligou, para saber da cirurgia. Ele tem boa memória e gravou o nome de todos. Os que ligaram e os que não ligaram. Há!

O cunhado Lafayette, gente fina, não reconhece o lugar como uma UTI. É verdade, está mais para uma enfermaria com cuidados redobrados. O ambiente humanizado do Hospital do Coração ajuda o paciente a recuperar-se. As equipes médica, de enfermagem, de fisioterapia, de psicologia, da copa e da limpeza cumprem os protocolos. Cuidados com o paciente. Rigor no controle das infecções. Essas são danadas e preocupam mais que a própria doença ou o  procedimento realizado.

Ele, com o coração em recuperação, ocupa um leito com outros pacientes da UTI. Troca de válvula cardíaca, vítima de infarto, de acidente vascular cerebral, de hematoma subdural, entre tantos outros. Reinaldo, Luiz, Mauro, Aurélio e outros pacientes esperam pela recuperação pacientemente. Em alguns momentos, nem tanto.

Histórias de vida suspensas momentaneamente. Na horizontal, todos são iguais. Precisam de cuidado. Necessitam de auxílio de um profissional de saúde para as coisas mais básicas. Numa UTI, o paciente convive com duas situações. Vulnerabilidade e autonomia. Vulnerabilidade total. Autonomia zero. Esses são temas de "As 97 horas na UTI parte I e parte II".

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