quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

As 97 horas na UTI - parte I

Vulnerabilidade e autonomia. Vulnerabilidade total. Autonomia zero. Essa é a condição do paciente de uma UTI. Ele tem o corpo, mas não tem o controle sobre ele. Ele tem vontades, mas depende da prescrição médica. Ele tem necessidades, muitas coletadas por uma sonda ou um dreno. 

Ele vai para a UTI, no começo da tarde de uma segunda-feira e deve deixar a unidade no meio da tarde da sexta, numa jornada de quase 100 horas. Na UTI, ele vê o tempo passar sem se preocupar com o próprio tempo. Ouve histórias de vidas contadas em fragmentos. O pelotão de choque do cuidado ao paciente é formado pela enfermagem: seus enfermeiros e técnicos, que carregam uma missão importante: cuidar do paciente, do doente. 

Cada profissional numa UTI tem seu papel e cumpre uma função importante, mas no cuidado ao paciente - e não à doença, ou frente numa UTI - chama a atenção o pessoal da enfermagem. Na unidade, eles são os soldados, estão na linha de frente do cuidado. 

Os técnicos são os anônimos, diferentemente de outras categorias conhecidas pelo nome e sobrenome, mas suas histórias impressionam. Como a da técnica que há mais de 20 anos trabalha em UTI e não pensa em outro setor. Como a do técnico que largou um emprego e, durante um tempo, buscou produtos no Paraguai para revender. Renda complementar.

Muitos dobram plantões, cumprem jornadas duplas, até mesmo triplas. Diferentes empregos. São, na escala do status da saúde, a base da pirâmide. Alguém chega a professar que, se não houver maior valorização profissional, em pouco tempo não haverá técnicos disponíveis no mercado. Situação crítica que já atinge muitos hospitais.

Seguindo protocolos e prescrições, os técnicos medicam, verificam pressão, frequência cardíaca, saturação do oxigênio. Trocam os curativos, as fraldas, dão banho e vestem. Ajudam o paciente sem forças a levar a colher de sopa à boca. Auxiliam o mesmo paciente sem forças a sentar no próprio leito ou numa poltrona.

Esses profissionais no cuidado diário ajudam a diminuir a vulnerabilidade do paciente e a aumentar a sua autonomia. Da experiência que teve na UTI, ele ainda se impressiona com a habilidade dos técnicos no banho diário. Impossível tomar banho deitado, espetado por cateteres e por sondas. Impossível nada. 

Dois técnicos de enfermagem mostram uma agilidade assombrosa. Jogam água morna, lavam seus cabelos, esfregam sabonete nas pernas, costas, tórax, rosto. E quando chegam à bunda do paciente, pedem licença para lavar as partes. Na vulnerabilidade, o paciente não tem tempo para formalizar a licença. As partes já estão lavadas. Mesmo assim, o pedido sem a autorização devida, faz parte de um acordo. Um acordo implícito que significa respeito à dignidade do paciente.

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