quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

As 97 horas na UTI - parte II

Nas primeiras horas da UTI, todos os cheiros são mais fortes. Ele os sente com muita intensidade, mas não identifica de onde vem. Seriam os perfumes da técnica, do técnico, da enfermeira, do médico, do fisioterapeuta, da psicóloga? Seria a espuma usada para lavar as mãos. Como esses profissionais de UTI lavam as mãos! Seria o cheiro da luva calçada exclusivamente para a troca do curativo? Seria o gel usado para desinfecção das mãos?

Todos parecem desfilar as mesmas fragrâncias. Intensidade olfativa que diminui com a retirada dos tubos da traqueia. Ser extubado é um alívio. Pode-se respirar pelo nariz, sem o desconforto de um cano garganta adentro. Durante o período de entubação ele sonha com um copo de água gelada. Ficou sem tomar água da noite de domingo à madrugada de terça-feira, cerca de 30 horas. Nunca esteve num deserto, mas acredita ser a mesma sensação. A água que tanto quer vem imagem mental de copo d´água, mangueira aberta, chuveiro, piscina. 

Ao ser extubado, pede água. Pelo amor de Deus, um copo, uma caneca, uma garrafa, uma bacia, um balde, um cocho. Como é recente a extubação, não pode beber aos goles. Por isso, a técnica de enfermagem pinga gotas de uma seringa. Valiosíssimas. Não perde uma. Lambe os lábios à procura delas.

Água à vontade, somente na manhã da terça, quando pede um copo para cada técnico que passa em frente ao leito. Toma até ter náuseas. É hora de beber menos. Vomitar vai exigir do tórax uma força que ele não tem. Afinal o esterno serrado está unido por fios de aço. Tossir é uma atividade fora de cogitação.

As horas vão passando e ele vai melhorando. O dreno sai da barriga. Que alívio! Menos dor. Afinal, fazer fisioterapia respiratória com o dreno próximo ao diafragma não é uma tarefa simples. Exige demais. Demais mesmo. No dia seguinte, tiram a sonda urinária. O pinto quer agradecer. Sem forças. Sua condição acabrunhada vai perdurar por longos outros dias. 

A refeição, acompanhada por nutricionistas, ganha sabores mesmo insossa. A sopa, o arroz, o feijão, a salada, o cozido de legumes, o picadinho de carne, o suco. No almoço ou no jantar, comer é uma aventura, separada pelos lanches: bolacha, chá ou vitaminas. Delícia que passa despercebida no dia-a-dia, mas que na UTI ganha contornos novos. 

Tomar banho de chuveiro. Fazer xixi no vaso. Em pé ou sentado, sem constrangimento. Sentar numa poltrona para ver o tempo passar. Fazer as refeições, levando a comida à própria boca. São coisas simples, mas que se configuram em grandes conquistas para um paciente de UTI. Ele valoriza o banal. Ele dá importância a coisas triviais. Afinal são o banal e o trivial que mostram a necessidade de continuar lutando para viver.

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